POESIA RACIONAL

ESTÚDIO REALIDADE Rodrigo Garcia Lopes 7Letras      129 pgs. O início de Estúdio realidade é constituído por poemas enumerativo com pitadas surreais para mostrar a incomunicabilidade do mundo ou aquele fechamento que Bakhtin vê em todo poeta, quando este submete todas às vozes às suas necessidades enunciativas. Com um olhar para o cotidiano trivial como matéria de poesia, quando esta parece contaminada pelo tom  prosaico, Rodrigo Garcia Lopes tece uma poema cerebral, contido, sem nenhum derramamento por um lirismo Leia mais

A MAÇÃ ENVENENADA - Um romance-móblide

A MAÇÃ ENVENENADA MICHEL LAUB Companhia das Letras           199 pgs. Tensão do princípio ao fim. Porque há uma fatalidade retrospectiva pairando no ar. Desde as primeiras páginas sabemos que uma desgraça ronda o narrado e nossa atenção é atiçada na busca do que será este fato. O motor do romance gira em torno de um garoto de 18 anos. Morando em Porto Alegre, ele serve no CPOR e está dividido: faltar um final Leia mais

HEMINGWAY EM PARIS

HEMINGWAY E PARIS : um caso de amor Benjamim Santos                                                                                                 Gryphus                                   Leia mais

JEAN GENET POR EDMUND WHITE

GENET: uma biografia Edmundo White Record         782 p.   Edmund White tornou-se conhecido entre nós pelo menos por três grandes romances: Um jovem americano,  O quarto vazio  e O homem casado. Ele serve de modelo para aqueles que, no Brasil, fazem ou tentam fazer literatura gay, que pode ser gay, mas não é literatura. Não há, nesses livros brasileiros, prospecção nos conflitos dos personagens, não há trabalho burilado com a visão de mundo, não Leia mais

GRANDE SERTÃO: VEREDAS

    AMOR DE PELEGO GROSSO  Para quem lê atentamento Grande sertão: Veredas, um dos enigmas do monumental romance faustiano é o amor entre Riobaldo e Diadorim. Podemos em primeiro lugar discorrer sobre este amor como uma relação afetiva que tem condições de ocorrer entre um homem e outro homem. Entretanto, isto parece simplificar a questão, pois não devemos perder de vista que o moço dos olhos verdes, para os olhos concupiscentes de Riobaldo, é mulher, mesmo que tal Leia mais

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JEAN GENET POR EDMUND WHITE

GENET: uma biografia

Edmundo White

Record         782 p.

 

Edmund White tornou-se conhecido entre nós pelo menos por três grandes romances: Um jovem americano,  O quarto vazio  e O homem casado. Ele serve de modelo para aqueles que, no Brasil, fazem ou tentam fazer literatura gay, que pode ser gay, mas não é literatura. Não há, nesses livros brasileiros, prospecção nos conflitos dos personagens, não há trabalho burilado com a visão de mundo, não há preocupação em sondar a “descoberta da sexualidade” e, muito menos, um mapeamento convincente dos desacertos desta identidade e seus desdobramentos frente ao que se pode chamar “mundo heterossexual”. Os personagens são fantoches reduzidos da cintura para baixo e suas experiências narradas estão a um passo da reles pornografia.

Edmund White escapa de tudo isso. Como bom romancista traz para o perímetro do texto uma estampa da homossexualidade como questão humana que tem suas especificidades, mas não é algo que nada tenha a ver com o outro reverso da medalha. Moldando tramas complexas, o plurilinguismo, que é um traço enriquecedor do romance em si, é uma de suas ferramentas a dar densidade ao narrado e aos personagens. Com isso, ele nos mostra como o ser humano pode ser multifacetado e não apenas reduzido à genitalidade. Seus personagens são contraditórios, tensos, em constante agonia e nunca animais sexuais como o são os de vários autores brasileiros que transitam por esta área, dentro de uma ótica que pretende ser desmascaradora de tabus e só confirma os preconceitos e a inclusão num gueto sem saída.

Agora, o autor americano nos apresenta a monumental: Genet: uma biografia. Como todos sabem, Jean Genet era homossexual assumido. Mas, para White, não importa lançar luz apenas sobre esta prática de vida. Boa parte do cartapácio de 782 páginas é uma análise detalhada e bem fundamentada da obra deste escritor maldito e já clássico das letras francesas. E a questão fundamental é justo esta: como alguém, sem praticamente nenhuma educação formal, que passou boa parte da infância e da adolescência em instituições correcionais, chega a dominar tão bem a língua francesa a ponto de se tornar um dos luminares de sua literatura. A resposta está no trajeto de leituras assíduas feitas pelo romancista e teatrólogo, o que suplanta o simplismo de gênio que anda muito em moda, impulsionado pelo romantismo míope de Harold Bloom. Mergulhando do que havia de melhor nas letras francesas, Jean Genet soube extrair dali tons e modulações que enformaram seus escritos. Além disso, o escritor escatológico não se deixou levar pelo narcisismo adolescente de se considerar criatura com dons inatos. Escrevia e reescrevia inúmeras vezes suas obras, nunca estando satisfeito com o resultado final.

Outra ênfase de White é a preocupação em nos trazer um perfil do Jean Genet engajado. O fato de ele haver abraçado a causa dos palestinos, dos Panteras Negras e de todos os explorados do seu tempo, mostra uma outra face do artista, além daquela mais conhecida, que é a do homossexual que faz do crime, da traição e da prisão um modo de vida que o afastou da vida burguesa. Além disso, Genet nunca se recusou a construir ou reconstruir a vida de seus amantes. Quando passou a ganhar dinheiro com a publicação das obras, dedicou-se a edificar as casas em que aqueles iriam morar, mesmo nas ocasiões em que casavam com mulheres, e mantinha suas famílias como se fossem suas.

O biógrafo também se põe no encalço de seguir Genet em seus tortuosos caminhos das amizades com Sartre, Cocteau e muitos outros intelectuais de ponta, não deixando de lado as espantosas desavenças que surgiam neste panorama escorregadio que é a convivência de artistas da mesma área, com os narcisismos à flor da pele e sempre cheios de suscetibilidades. E um dos pontos altos da biografia será justamente o paralelo minucioso entre o que Genet escreveu e o estudo também clássico de Sartre a respeito dele: Saint Genet – ator e mártir, já publicado entre nós. White mostra que nem todas as colocações de Sartre estão de acordo com as correntes estéticas e factuais da vida/obra do escritor enfocado.

Revelando a carpintaria dos romances, escritos num curto espaço de tempo, das peças de teatro e de poemas, White consegue nos trazer uma feição bastante densa deste escritor cheio de altos e baixos e que ainda tem muito a nos dizer. Com mais de 80 páginas de notas de rodapé, o biógrafo comprova a prospecção em documentos para cada passo em que avança, escapando do amadorismo impressionista. Publicado pela Record, na Coleção Contra.luz, o livro tem tudo para ser um dos grandes acontecimentos editoriais do ano (2003). Nestes tempos de cinismos e friezas, quando cada um pensa que o sentido da vida está em cuidar da própria horta, o esforço de Genet em lutar pelos trabalhadores imigrantes na Franca, aponta para o território que deve ser seguido por qualquer um que pretenda a posição de intelectual: engajar-se pela mudança do mundo. Escrevendo poemas, ensaios, peças, romances “barrocos” e roteiros de cinema, ele põe diante de nossos olhos toda a inquietação de sua mente que supera em muito a atmosfera de escândalo a que muitos ainda reduzem seu nome.. Os sete anos de pesquisa de White para este trabalho mostram o porquê, antes de tudo, Genet continua maldito: não aceitou a canga dos sistemas a que tentaram subjuga-lo e fez da escrita uma lente de aumento para denunciar os abusos do poder.

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