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A destruição da ilha

       O navio ruma para certo canto da ilha. Dentro do navio, cavalos de fogo soltam relinchos que salpicam o mar com o mau gosto do surrealismo. Os traços que recamam as águas parecem feitos pela preguiça de quem não tem muita disciplina para a figuração fotográfica, ainda que não mimética. Ao ver os cavalos de fogo rumo ao ponto esconso da ilha, recorro a um blues. E de nada adianta. A música me diz com todas as letras pandas que música é musica e vida é vida. E esta vida é um festival de escombros, pedras rotas, praias desmaiadas antes da sombra. Busco em pinturas um tanto de fuga para o ardor que me queima. E o mesmo discurso se dá: lance-se das molduras, caia no chão, lamba-o, porque vida não se improvisa com pinceladas. É a vez de textos pairarem em minhas mãos, afinal, quero esquecer a destruição da ilha, rompida pelas patas incomensuráveis da animália que arrota brasa e torra os últimos gravetos que fiz questão de preservar para situação muito especial. E dos textos apenas escorres bílis. Como se gargalhassem num festim em sala de necrotério, põem os is sob os pingos que não dei, cutucam meus costados, empurram meu peito contra o calor da hora chã e sabem ecoar somente o que já domino: viver é uma estupidez de dados pendurados em relatórios que as telas consomem em sua bela geografia de designer, significante para as estrelas e ofuscante para quem acabou de perder o último centavo de sua propriedade. Não sei como refazer o desperdício de minha pele. Estou exausto diante da paisagem escancarada ao ritmo do que me persegue e me põe na ponta do arpão. Sem defesa. No defense. Nem conto com asas para largar o lodo ligando os dedos ao chão. O navio, enfim, arrombou o recanto doce, a quentura de maciez que em outra oportunidade me ofereceu a polpa do paraíso rasteiro que habitamos. O gosto na boca é de cinema velho. Nunca mais haverá o mesmo manjar, e o fogo crepita com a insolência de um transe. Como me assegurar um apoio? Como me apoiar em algo menos voante, se o bastão floresceu no inseto carnívoro que cobre meus olhos?

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A cor branca da amizade

A tarde estava tão ensolarada que as janelas pareciam levitar, despregando-se das paredes. Padre Moretti, professor de português, leu para nós um poema sobre o edelvais. E nos explicou: é a flor da amizade, só dá em grandes alturas, na beira de abismos de mais de três mil metros. Colhê-la e oferecer a alguém é o maior gesto de apreço que se pode fazer a uma pessoa, pelo esforço da aventura.

No pátio, eu e Avivan comentamos a respeito do assunto. Ele era o único garoto negro do internato. Eu o adorava por sua agilidade, bom humor e auto-ironia. Apesar de ter um corpo firme, bem desenhado, quando saltava, possuía a leveza de quem se desmancha no ar. Seus olhos estanhados lembravam dois sóis. Havia comentários maldosos sobre nós:

–       Tá usando o neguinho como burro de carga, é?

–       Vai fazer do nego o teu escravo?

Naquela noite, furtivo e silencioso no seu jeito, Avivan chegou até minha cama e sussurrou:

– Vou pro mundo. Quero encontrar a flor pra te trazer. Claro que vai demorar, mas não volto sem a branquinha.

Ele portava a mochila no ombro. Desapareceu na névoa em torno da única luminária acesa pelos lados do portão.

De manhã, o reitor me chamou. Havia alvoroço por causa do sumiço do nego. Interrogaram sobre as razões. Eu disse que não sabia de nada e o caso morreu ali mesmo.

Meses depois, foi minha vez de abandonar o colégio. Estava cansado daquilo tudo. Usei a via clássica: no gabinete solene, declarei que perdera o interesse pelos estudos. Arrumaram minha papelada, enquanto fiz as malas e mergulhei na liberdade.

Fui me virando como deu. Até concluir o curso de filosofia e me tornar professor. A vida se tornou agradável. Casei e tive dois filhos que morreram num acidente banal. Andavam de bicicleta lado a lado, até que resolveram se dar os braços. Talvez quisessem comprovar o quanto gostavam um do outro. As rodas se trançaram e eles caíram. O caminhão que levava flores para uma cerimônia cívica no palácio do governo esmagou os meus garotos. Quando minha mulher soube do ocorrido, não suportou a ausência e se suicidou. Acho que ela jamais soube a extensão, o vetor, a consistência, a incrível durabilidade da falta. E eu acabei por me aposentar.

Hoje, meu irmão veio falar comigo. Para ele, é um desperdício eu continuar sozinho neste casarão. Garante que pode alugá-lo para agência publicitária e isso daria bom dinheiro para nós. Para nós? Diz que num asilo terei melhor atendimento e convivência para abrandar a solidão. Acho que ele jamais soube a insistência, o ferrão, a profundidade, a devoradora acidez de se estar sozinho.

Avivan nunca voltou. E o que importa isso ou uma flor? Marcou-me o seu gesto. Por ele valeu a própria vida. Que amigo hoje sai pelo mundo em busca de algo para outro amigo? Que Alpes alguém divisa em frente dos olhos?

Vou para o asilo. Lá, certamente, há janelas iluminadas e capazes de flutuar na transparência. E eu espero, pois foi esse o modo de conviver comigo mesmo e com a saudade. Não foi muito difícil.

Acho que o mundo podia ser simples assim.

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Vazio

No carnaval, meu pai colocava dois lençóis amarrados sobre os ombros e um calção florido. Usava a peruca mais espalhafatosa de minha mãe, duas argolas enormes nas orelhas e ainda pintava a boca com o carmesim mais chamativo.

Minha indumentária era um pouco diferente: calça rancheira, camisa xadrez e chapéu de pala, com as pontas esfiapadas. Acho que ele confundia festa junina com carnaval. Tudo bem. De qualquer forma, eu me sentida desconfortável dentro daquela roupa e dentro de qualquer outra e era meio na marra que ia para o “baile das crianças.”

A única coisa que me interessa era a sacola de loló – os lança-perfume. Meu pai levava um bom estoque e enquanto ele valsava pelo salão, eu ficava encarregado da reserva. Minha única diversão era fazer os espirros contra as pessoas e ver suas caras divertidas. Menino tímido entre tantas mesas, eu não saía para dançar, para pular, para fazer folia. A única brincadeira agradável era sentir aquele cheiro convidativo e navegar em suas águas. Com o loló eu me sentia rei, pirata, marinheiro, esquecia o sem-jeito do menino sem-jeito e divagava por aqueles mares de fantasia.

Meio de viés, via meu pai se divertindo com outras moças e só pensava: “Ah, se mamãe descobrir.” Volta e meia ela passava pela mesa, pegava um loló e ia espargindo a substância mágica por todo lado. Procurava me incentivar: “Vamos lá, guri, hoje é dia de festa. Deixa a carranca de lado e vamos cair na gandaia.” Eu não me entusiasmava, até porque, àquela altura, ele estava todo suado, com a “fantasia” aos pedaços, a peruca desvirada na cabeça e a boca vermelha era mancha obscena de não ridícula.

Estávamos no Clube Paisandu – verde e branco – e meu futuro coração atleticano já sentia espasmos estomacais. Então eu esguichava loló contra as paredes, numa vingança antecipada contra todas as rivalidades de certos clubes contra o rubro-negro.

Enquanto isso, longe de mamãe, pai soltava a franga. Volta e meia gesticulava em minha direção para eu que participasse da farra. Mas nem a embriaguez do lança-perfume me movia da mesa e eu lá ficava, estaqueado, sem ânimo para participar de nada. Suado, já todo desmontado, meu pai vinha até a mesa e convidava: “Vamos tomar  um guaraná?” Eu topava e adentrava no refrescor como quem acabava de atravessar o deserto.

Então vinha a hora de irmos embora. Fim de tarde. Fim de festa. Meu pai me abraçava e queria saber se eu tinha me divertido. Eu dizia: “Mais ou menos”. Ele dava um tapa carinhoso em meu ombro e dizia: “Aí, garotão”.

Quando chegávamos em casa, minha mãe ia logo perguntando: “O que os dois aprontaram?” Diplomático, eu falava: “Ah, o pai dançou um pouco e eu fiquei sentado na mesa.” Então ela ponderava e dizia: “Muito bem, você serve de exemplo para seu pai. Pelo menos, não vai para essas festas pagãs fazer pecado.”

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A abnegação como recompensa

 A cabeça plena de mundo, vejo o ato esbater-se contra a vidraça. Em lugar do contato, a imagem. O tumulto é acalmado por caminhos internos. Sossego ante a chama ao reconhecer que nem todo fogo é alimento para a madeira. Paro, em lugar de mergulhar no fluxo. Escolho e não apenas me atiro ao cerne fervente. Se há muita luz, hipertrofia de belezas, saboreio a sombra, onde o musgo vale pela floresta, e uma linha sutil, pela tempestade nas veias. Não devoro o texto. Saboreio a sílaba. A noite de inquietação movente transformo em parada e plano para o dia que se avizinha. Na perspectiva de caravanas e romarias, trupes e bailados no cósmico volteio de estar na Terra por um minuto a mais, marco o passo para esperar o desenho das nuvens. Elas se refletem nas águas. Com elas esculpo o tênue ficar na galeria mantida com meus ícones vivos sob a pulsão. Meus olhos não são telescópio. Atingem o círculo das mãos. Com elas, dedilho a pele do fruto em vez de afiar as garras na polpa. Proust se regozija com o perfume, a réstia de luz. Na imaterialidade do limite, meu pulsar é sensação vagarosa. Aceno, ampliado em mim mesmo. Eu que me imaginei dominando geografias e máquinas de porte adunco adentro a caverna, ouço o riacho, deito sobre o musgo. Prevejo os vermes que perfurarão a frágil couraça. E o traço da aquarela triunfa ao lado da lava intoxicante das cores. Respiro, tonificado na ausência. Esta afasta o rude murro que estraçalhava a pluma que cultivo. Se a ordem é a pressa no virtual cerco ao mundo e à movimência, sento e recorto jornais. De algum canto, uma suíte em tom menor abastece a casa com o repositório de páginas em branco, sem alarde, sem convulsão, sem salto mirabolante.

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Veneno reto

Um gosto pervertido de amarelo no ar. Alguma coisa excessivamente reta no ar. Uma bolha reta. A flor de repente aberta em pétalas imensas e sem saber de que lado vem o sol amarelo e reto. O corpo estremece em meio ao ar reto e a percepção da febre infiltra-se nas veias, vai às camadas profundas do organismo e ali explode em escama e asa e dentes batendo contra dentes. Depois o corpo dobra-se sobre si mesmo e adormece suspenso no ar reto, na perversão do amarelo que contamina folhas, caules e frutos. É este mesmo corpo que adormecerá para acordar sob as teias amarelas da flor gigantesca que afogará toda dose de ar.

A manhã não aconteceu, o grande dia não veio, só a faca funcionou. Ela corta a bolha de ar em fragmentos retos e deposita a borra sob as unhas e sob as pálpebras. Ninguém será capaz de proporcionar a limpeza e tirar da língua o amarelão que se faz em camadas sobre a pele, o calor da pele, sua antiga beleza. Adormecido no torpor do nada, o corpo reto adentra o tédio. O tédio é a grande aventura, a bolha inóspita no interior da qual a flor desponta na função de aviso: o que feneceu não tem como voltar, daí o amarelo, a faca, a febre, o tremor dos dedos comprometendo a cor da manhã, os fragmentos nublando a visão. E o tédio, o imenso deus gordo como Buda, anda em círculo, esperando uma porta de entrada para decepar todas as colunas, arrasar o piso, criar labirintos onde possa afogar o fígado, o estômago e o pulmão sem ser incomodado.

A carne da alma se desvanece através dos poros. A borra acumulada na superfície dos olhos explode em amarelo reto na fímbria da faca. O aviso está dado: a doença só é, só palpita, onde existir a falta. E aqui a falta é imperatriz com todo o séqüito dos poderosos. Ela manda seus editais para o vento espalhar sua voz amarela no gosto pervertido da alma que salta pela boca, inseto de bolha, cobra malsã, delírio de gestos descentrados sob o manto adúltero da grande dama, a imperatriz a reinar sobre o exército das cores rumo à boca que as mastiga para expelir os peristilos de veneno reto a se solidificar no ar, entre volutas de fumaça amarela e breu derretendo-se sobre os olhos, os lábios, os dedos. Então não há espaço para o corpo. Ele se investe de falta e na falta adormece para acordar noutro dia cercado de amarelo e estar obrigado a refazer o périplo da agonia: há um gosto amarelo de perversão no reto excessivo que floresce no ar e prepara câmaras para a morte dos olhos, dos dedos, dos lábios e de todos os órgãos amarelos do corpo amarelo cercado pela folha, ameaçado pela faca, rastejando sob o manto da imperatriz

O corpo e a falta. Esta é a dupla no nevoeiro da febre. O corpo com seus poços secos, com seus desertos perfilados ao longo do horizonte, com as cobras vorazes tentando cuspir o veneno reto no amarelo das mãos. A falta vem adunca, vem febril, vem arrasando tudo em sua volta. Não respeita a postura mesmo agônica do corpo. Sabe apenas dar vôos rasantes e desmantelar as colunas em torno do pátio. Ali se quis ar fresco, ali tentou-se sorver um hausto de ar que pudesse revigorar os órgãos. Todavia, a flor amarela floresceu, reta, e cobriu o sol, e eliminou o ar, e desfez as tentativas de se conseguir um pouco de água para esta sede voraz. Então o corpo vai sumindo para dentro de si mesmo e dele resta apenas um ponto amarelo no centro do pátio.

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Casais 4

Quando ele se foi, deixou as roupas todas no armário e a parafernália de barba, com ares mentolados, no banheiro. Para ela, isso era um sinal positivo, um elo ainda a ligá-los. E à medida que o tempo passava, ela atacou as latas de biscoitos, feitos com ele, receitas dele, nas longas tardes de sábado, as tardes da maciez. Temeu perder a feminilidade que nem lhe interessava mais. O que fazer com as tantas fotos na parede? Simplesmente rasgar? Aumentaria a ausência, o espaço da casa quase inexpugnável. As janelas fremiam ante um acontecimento que não vinha. Rejeitara a opção por filhos. De noite, via TV só para preencher os olhos. Depois procurava nos tapetes os passos dele, procurava resgatar o tom de sua voz, aos poucos desfazendo-se entre os ruídos do campo. Junto dele, sentira-se artista. Agora as telas estavam em branco e as tintas estorricavam nos grandes potes enfileirados em estantes que ele erguera, assobiando. Não entendia o silêncio presente. Os quadros pouco lhe diziam e sua vontade era espicaçá-los. O que apagaria de vez a época das opulências. Então ia dormir sem a outra resiliência no travesseiro, sem o outro cheiro. Ao esticar o braço, agarrava o ar que nunca devolve as coisas perdidas, só mais silêncio.

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Se alguma coisa importante acontece

 A velha sobe a escada com dificuldade, em cada mão uma sacola de compras.

O homem eternamente gripado do segundo andar espirra seu caudaloso espasmo de quem parece estar no fim.

A mocinha do quinto andar que se acredita arrasadora sai muito cedo, dizendo que vai ao trabalho, mesmo que ninguém acredite.

O velho trapaceiro e agiota do sétimo já tem uma fila de vítimas à porta e ele esfarrapará uma por uma em nome do progresso, da ordem e do lucro.

O céu fecha-se de repente, com um grande peso sobre o edifício, as nuvens negras e talhadas leitosamente correndo para o sul e abreviando o dia com seus anúncios de tormenta.

A zeladora, alta e magra, massacra-se em cada degrau, limpando o que daí a uma hora estará outra vez sujo e outra vez sujo.

O jovem surfista do décimo primeiro afronta o mundo com seu corpo firme, nariz empinado, peito de desbravador de ondas e não entende como alguém possa ter outro modelo de vida.

A senhora espanhola do primeiro grita seus impropérios contra a irmã que é surda e, por isso, não dá a mínima para aquela voz estridente de estilete que racha as paredes do condomínio.

A professora cheia de dívidas chega uma vez mais arcada, com cifrões pendurados pelos braços e pescoço, sem saber como pagar tudo o que comprou em roupas e sapatos e sentindo alívio apenas em comprar e comprar mais.

Os dois adolescentes que se amam, o do terceiro e o do quinto, dão um jeito de se encontrar, sem que ninguém perceba sua ligação; não temem propriamente ser condenados, isto está implícito em cada gesto, em cada carinho, mas rejeitam com a força da sua paixão a necessidade de se explicar seja para quem for.

O homem ruivo cujo nome todos ignoram se encontra na garagem com a loira oxigenada cujo comportamento todos conhecem.

A aranha faz sua teia de repouso e caça no outro extremo da garagem.

O moleque do décimo primeiro tira outro do nariz e joga as pérolas nos vasos das plantas que a mãe zela com tanto afinco para o verde ser ainda mais verde.

O atleticano se encontra com o coxa-branca no último lance de escada; mal se cumprimentam, todavia o primeiro percebe no segundo um sorrio de mofa meio pela metade em razão do atual posicionamento do Atlético no campeonato; claro está que ele se esqueceu de tudo o que ocorreu no ano passado.

A mosca azul se debate contra várias vidraças.

O ar a subir pelos corredores está empestado pelos gases dos carros na garagem e ninguém se importa com este esfacelamento da vida; o que vale é estar motorizado e desfilar.

O jardineiro sob contrato por um preço aviltante começa seu trabalho entre as plantas; suas calças estão barrentas; as mãos apresentam calos; a alma anda esburacada há muito tempo.

Três colegiais de uniformes idênticos descem pelo elevador na maior algazarra; o gesto mais brando é um soquear o outro contra a parede; num desses lances quebram o espelho que foi recolocado ontem e nenhum deles assumirá a culpa.

Cinco andorinhas pousam no beiral do prédio sem entender onde e como os homens conseguem alimento.

A velhinha que subia a escada, chega até a porta, coloca as sacolas no chão, procura as chaves, enquanto faz orações tartamudeadas; pede lá para seus santos que lhe dêem coragem para um dia enfrentar o elevador.

Os cães de 350 mil apartamentos latem ao mesmo tempo só porque um vira-lata desfila com prazer sua liberdade e é como se dissesse: “não sou burguês como vocês, o bairro inteiro é meu e as ruas são meu mundo”.

Eu comodamente leio o denso romance de Colm Tóibín sobre Henry James e penso na amizade que venho fazendo com meu aluno. A custo ele se aproximou de mim e já se tornou uma figura imprescindível. É o oásis no deserto da universidade. É a terra generosa que bem recebe a semente para transformá-la em árvore do bem. Meu aluno é escritor. Mente brilhante, voraz. Estamos nos transformando em companheiros e nesta interação trocamos nossas experiências, nossas perspectivas, nossos planos. Viemos de famílias proletárias e nos transfiguramos pelas letras. Não sei se tenho algo para lhe ensinar. Tenho muito a aprender. Seu sorriso ensolarado, sua timidez, seu jeito de garoto do interior são pequenos favos na trabalheira cotidiana. Gosto de presenteá-lo com livros e perceber a ânsia com que pede dedicatória. Espero que nossa estrada seja de mão dupla: tanto vai, tanto vem. Sua figura me diz de manso que viver vale a pena.

Mais andorinhas vêm pousar no telhado. Não se espantam com o desfolhar das páginas do livro.

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Tão suave quanto Mahler

A transparência das cortinas faz a janela levitar na claridade. Gustavo livra os braços que envolviam o travesseiro e contempla a gaze de Dacar esvoaçando com leveza ao sabor da brisa. Respira fundo e enche o peito com a suavidade a pairar no quarto. Volta outra vez os olhos para o vento brando em forma de tecido que não impede a penetração da luz, nem sequer a côa. A cortina põe no ambiente doces desenhos de folhagens e Gustavo esboça um sorriso ao lembrar que o pano das cortinas é chamado de orvalho da noite. Melhor seria, orvalho da manhã.

Na pequena copa do apartamento, ele bebe o suco de laranja em goles curtos, experimentando na língua a aspereza do líquido. No início do verão, o apartamento enche-se de luz, como se procurasse inutilizar toda sensação de aconchego. Mas Gustavo, em lugar de sentir-se catapultado para outras regiões da cidade, mergulha na moradia, invadido pela certeza de que o lugar é seu. Ali ele vive e a luz, de certo modo, compõe o chão de segurança, a nenhuma dúvida de que, entre as paredes e os móveis, pode caminhar protegido pela intimidade e pela solidão estimulante.

Ao repor o copo na mesa, deixa os olhos escaparem para o céu azul, onde nuvens estiradas, ralas, esfiapadas, completam o quadro de luminosidade. Ele passa a mão no queixo. A barba de dois ou três dias eriça-se como areia entre os dedos e a pele do rosto. Resolve ir ao banheiro. A higiene não vai levar mais de quinze minutos. Os ponteiros do relógio indicam como o dia ainda é pequeno em sua amplitude: 7:30 da manhã. Assim que a água do chuveiro inunda seu corpo, Gustavo é tomado por exultação febril e decide que hoje não é dia de trabalho. Há beleza demais no ar para ser degustada, absorvida e seria crime perder tantas horas no escritório.

Depois de avisar ao sócio da imobiliária que não iria ao escritório, ele adere ao corpo da manhã. Pagará algumas contas e então viverá o prazer de entrar em todas as lojas de discos do centro. A imobiliária tem rendido bem e ele não precisa ficar calculando o que entra e o que sai em seu bolso. Não é um homem obcecado por sinais de status. Basta o apartamento bem montado, o Fiat Uno reluzindo no vermelho berrante. No mais, seu dinheiro é trocado por discos, muitos discos e livros. Sereno e exultante ao mesmo tempo, ele sabe que hoje a coleção de cedês vai completar a marca das três mil unidades. Na imensa prateleira de mogno fosco que instalara ao longo das paredes da sala, havia agora pouco espaço. Rigorosamente perfiladas em ordem alfabética, ele orgulhava-se das 2.997 circunferências de composição da luz. E acumulava apenas música erudita e jazz. Acreditava já estar de posse de tudo o que o mercado nacional lançara e de boa parte do que o internacional gravara nos três últimos anos. Para evitar eventuais duplicatas, Gustavo organizava um fichário que trazia consigo nos momentos de compra. Confessava certa dificuldade para saber o que possuía, ainda mais que alguns músicos saíam com suas composições gravadas de maneira anárquica: os movimentos eram divididos em discos diferentes, a tal ponto que, para ter uma sinfonia completa, era às vezes necessária a aquisição de três ou mais unidades. Gustavo abriu a pasta e constatou que o fichário estava ali, roteiro seguro para o sagrado consumo quase semanal.

O shopping-center provocava nele a sensação de gruta úmida e refrescante. Ele tinha quase certeza de não conhecer os labirintos de mármore, neon e vidros decorados, pois dava atenção exclusiva às quatro lojas de discos: Música Viva, GM, Discos & Vídeos, Love Songs e Woodstock Trip. Assim, a esfuziante planície de oportunidades de sonhos e desejos estampados na série um tanto infinita de compartimentos comerciais não chamava sua atenção. Sequer via os transeuntes atônitos em torno dele. Entrava no burburinho de ansiedade e fazia o mesmo trajeto: primeiro visitava a GM, sem dúvida a mais completa e refinada; depois a WT que, mesmo especializada em rock, tinha boa seção de jazz; dava rápida passada na MV, uma loja que tentou ser eclética ao vender toda espécie de gravações e caiu na vulgaridade das bestas da indústria cultural. Ali, uma vez ou outra, encontrava um Marsalis, uma Alberta Hunter, um Charlie Parker. Geralmente na banca de ofertas, porque o públicoespecializado da casa não valorizava aquelas coisas sem graça. E, por fim, uma visita só pra desencargo de consciência à LS, tão desorganizada e infiel quanto a anterior. Gustavo lembrava-se de que, quatro anos atrás, a loja chamava-se Bird e prometia atenção exclusiva ao jazz, blues, gospell e trilhar este caminho particular dos deuses. Não durou nem um ano a ousadia. O público freqüentador do shopping, a tal classe média, exigiu que Leandro & Leonardo comparecessem naqueles balcões e o jazz ficou apertado numa ínfima divisão ao lado da caixa. E os eruditos sumiram de vez. Gustavo passava por ali, apenas para alimentar a esperança de se deparar com raridades perdidas entre as montanhas de plásticos ocas.

As luzes da GM transfiguravam o ambiente da loja. Rebrilhos no chão. Discos e fitas de vídeo estavam expostos nos imensos mostruários que finalizavam em espelhos, multiplicando não apenas o espaço, como o som aveludado de um sax perpétuo. Gustavo sentia prazer medonho ao entrar naquelas salas. Era conhecido ali e freqüentemente Inácio, o gerente, ligava para avisar das novidades e fazia reservas generosas. O único incômodo era não haver acesso direto à manipulação dos discos. A face voltada para o público, mais de dez mil capas multicoloriam a paisagem, cavando fundo na paixão. Na borda de cada uma o código, pelo qual a obra era solicitada. Se isso esfriava um pouco o contato, garantia a lisura do cedê: vinha lacrado, sem toques de dedo, tinindo, fatia alucinante do mundo sem fim ou preço. E em todos estes anos, mantivera estranha cobiça, sempre postergada e, por isso, mais e mais insistente, ferindo o coração, o cérebro e os dedos: adquirir o volume Bird – The complete Charlie Parker on record. Ainda que os dez discos estourassem a marca dos três mil, por razão desconhecida Gustavo decidira que compraria o conjunto apenas no instante em que estivesse beirando aquela cifra. Este dia chegara hoje. Até então, contentara-se com outros discos do irrequieto e maldito ídolo negro. Viveria o sabor coruscante de comprar outros dois discos antes, para emplacar nos três mil com a edição completa deBird – isto é, a caixa materializaria o ponto máximo da escala. Era nisso que pensava ao vasculhar com os olhos a vitrine da GM, quando ouviu ao seu lado um profundo suspiro. Gustavo olhou. A moça, num levíssimo vestido branco, tinha os olhos incendiados pelo que via no mostruário da loja. Ao constatar que Gustavo a notara, ela sorriu e disse:

– Meu Deus, quanta maravilha, né? Haja dinheiro!

Gustavo, ameaçando um riso entre desalento e impulso, concordou com a cabeça:

– É, não é fácil… Você gosta de música?

A moça cruzou os braços e brincou:

– Gostar é pouco. Adoro. É tão importante pra mim quanto comida. Acho que até mais. Muitas vezes apertei o cinto pra comprar certos discos.

Ele ficou impressionado com a soltura loquaz da figura. Sentiu o terreno propício e indagou:

– Que tipo de música você curte mais?

Ela ergueu pouco os ombros, passou a mão pelos cabelos e voltou a olhar a vitrine:

– Olha, pra falar a verdade, gosto de tudo. Sou eclética. Gosto até de sertanejo, que hoje estão chamando de country. Mas a prioridade mesmo é clássico. Deus do céu, fico em êxtase… Só não gosto muito de jazz, me dá a impressão que estou ouvindo sempre a mesma coisa.

Gustavo entreabriu os lábios com certo toque de sombra. Tamborilou na pasta e soltou:

– Boa coisa! Emparelhamos num lado e nos distanciamos em outro.

O vestido branco foi sacudido pela passagem de um garoto que voava atrás de alguma coisa. Ela segurou a saia com as mãos:

– Nossa! Quase dei uma de Marilyn Monroe agora. Mas o que foi que você disse?

– Disse que combinamos num ponto e em outro, não.

Ela sorriu:

– Como assim?

– Eu também sou vidrado em música eru… clássica. Mas também adoro jazz – e estendeu a mão para a mulher: – Muito prazer, meu nome é Gustavo.

Ela ficou meio sem jeito e recebeu a mão dele com calor:

– Legal, meu nome é Ângela. Deixa eu ir que tenho de comprar um presente. Vou a um aniversário hoje à noite. – Ela se despediu e Gustavo foi tomado pela brandura que vinha de Ângela. Os gestos dela, a voz, a meiguice do olhar, tudo tresandava à profunda calma. Ela, no seu todo, era só carícia. Gustavo tentou concentrar-se nos discos, mas o perfume da moça estava por ali, chamava.

E ele resolveu segui-la. Deu-se conta da multidão. Uns dez minutos depois a viram saindo de uma loja de brinquedos, com pacote de papel vermelho nas mãos. Ele passou a frente dela e disse:

– Oi, quer uma mãozinha aí?

– Oi. De novo? Ah, não, obrigado. Isso é leve. São uns carrinhos pra coleção de meu sobrinho. Faz oito anos hoje. E é sagrado: todo ano loto as mãos dele com cinco carrinhos. Ele tem uma infinidade no quarto. O maior desafio é não repetir nenhum. Sabe o que eu fiz? Fotografei todos e montei um catálogo – dizendo isso, ela tirou pequeno álbum da bolsa e, suspendendo-o, deixou o sanfonado de plástico abrir-se até o chão. – Veja só quanto carro. E olha o capricho. Montei o cenário com lençol branco pros carrinhos ficarem bem visíveis. E juntei os bichinhos por cor. Assim, facilita a vistoria na hora da compra. O modelo e a marca não importam se forem repetidas. Crime é comprar um de cor igual ao que ele já tem.

Gustavo passou a rir e ela queria saber o que estava acontecendo. Ele não se fez de rogado:

– Mais um ponto em que batemos. Eu também tenho fichário, mas é de disco. Nunca lembro qual o concerto ou a ópera ou a sinfonia que tenho. Aí, dou uma olhada nas fichas. Você vai pra onde?

Ela circulou a cabeça ao redor e disse:

– No piso de cima tem uns bares que são uma graça. Vamos tomar um refrigerante?

Sentado, Gustavo tinha os cotovelos sobre a mesa e acompanhava uma criança sendo tratada pela mãe com sorvete de chocolate. Massa escura desandava pelo rosto esfomeado da menina, que gesticulava muito com o chocalho de guizos. Ângela bebia devagar o refrigerante. Olhou para Gustavo e disse:

– Bom, aqui estamos. Me fale de você.

Ele passou o indicador pelos lábios. Depois, acendeu o cigarro:

– Não há muito pra falar. Faz uns dez anos que montei uma imobiliária com amigo eu. Passamos por maus bocados. De uns cinco anos pra cá começou a render bem. E quase tudo que ganho, aplico em discos. Tenho montanha deles e também alguns livros. E você? Não.., não diga nada. Deixa eu adivinhar. – Ele esperou um instante e pesquisou as feições da moça: – Para estar uma hora dessa num shopping, você é daquelas que não trabalham o dia todo. Tem as manhãs livres. Acho que matei a charada: é professora.

Ela riu e mordeu o canudinho de plástico:

– Certíssimo. Trabalho na Faculdade de Artes, a FAP.

Gustavo abriu os braços:

– Que chique! Estou dividindo a mesa com uma artista, eu, um mísero capitalista em busca do acúmulo da matéria mais sonora do mundo.

Ângela interrompeu-o:

– Nada de mistificação. Ser artista não é grande coisa. Neste país, então…, não valemos um tostão. – Ela chamou o garçom e pediu outra coca. Voltou a conduzir a conversa: – Mas hoje o dia está bonito demais. Nada de lamúrias. – Ergueu os olhos para o solário: – Olha só, que dia puro, cristalino.

Ele apreciou o tom de voz dela, a luz naqueles olhos escuros, os reflexos da claridade nos lábios. Voltou a inundar-se na suavidade feminina que brotava dos traços bem cuidados e, ao mesmo tempo, pairava ao seu redor, adensando ainda mais a espessura translúcida da brandura. Ele experimentou:

– Você é sempre assim – tão suave?

– Suave? É, pode ser. É o meu jeito, quando estou de bem com a vida.

– E quando você não está?

– Aí, fico muda, só isso. Me recuso a falar. – Ela deslizou os dedos ao longo da garrafa, recolhendo o porejado úmido. Depois, tocou o polegar com o indicador, como se averiguasse a consistência da umidade. Brincou:

– Você não acha que para duas pessoas que acabam de se conhecer nós estamos muito à vontade?

– Isso é bom. E eu não sou do tipo que faz frescura com os outros. Gosto de abrir amizades, não interponho obstáculos. Me solto logo pra tudo ir bem. A vida vai tão rápida que, cada pessoa conhecida e bem, é um ponto ganho.

– O que é pra você esse “conhecer bem”?

– Nada de muito especial. Como agora: conversar, trocar uns pontos do vivido, aceitar o momento enquanto ele está escorrendo entre a gente. Não forço a mina até o último veio.

Ângela seguiu um adolescente que passava com uma prancha de surf encapada sob os braços:

– Tão bonito e deve ser totalmente vazio. Não quero ser preconceituosa, mas garotos desse tipo são o símbolo do nada dentro de um corpo escultural.

– Deixa pra lá. Um dia eles acordam. E ser do jeito que são é também uma forma de ser, né?

– Tô reparando que sua conversa escapa da superfície lisa. Se der trela, aposto que você é do tipo que adora fazer discursos sobre a vida, o relacionamento humano, o significado de cada coisa.

Erguendo os ombros, suspendeu-os por algum tempo:

- Quem sabe?! Pensar e falar também são formas de viver, ou não.

Apenas com rápido movimento dos lábios, ela olhou para ele, depois abaixou os olhos.

A área de alimentação fervilhava. Um rock romântico ao fundo. Ela o cantarolou. Ele voltou a falar:

– Você gosta desse tipo de música também?

– Como disse antes, gosto de tudo quanto é tipo. Esta música é boazinha. Me dá a impressão de um vôo sobre as ondas do mar. Você gosta?

– Do quê? De voar sobre o mar ou da música?

– Da música, meu senhor doutor cheio de labirintos…

– Sendo sincero: de-tes-to. Prefiro ignorar. Isso, sim, pra mim tem a ver com o vazio. Mas, como ignoro, tais amontoados mais ou menos sonoros não fazem parte do meu mundo e, assim, não perturbo o derredor de ninguém.

– Você disse antes que gosta de clássicos. Quem você mais aprecia?

O rapaz aprumou-se na cadeira e arrumou a gola da camisa, como se estivesse sendo solicitado para entrevista:

– Não é fácil falar sobre isso. São tantos. Cada um é excelente no que faz. Gosto de muitos compositores. Mas acho que o que mais me plenifica é Mahler…

– Mahler, ah é…, que barato. Um dia desses, fiz uma performance com os alunos. Um finalista do quarto ano escolheu a quinta ou sexta sinfonia. Não lembro bem. Foi aí que dei atenção a esse músico e até procurei ler alguma coisa a respeito, pra me inteirar mais das coisas e fazer um trabalho coerente. Garanto que comecei a gostar dele.

– O que você descobriu na pesquisa?

Ela riu:

– Tá doido pra me testar, né? E não foi assim uma pesquisa. Procurei ler algo em enciclopédia, numas histórias da música. Serviu pra me dar elementos só de base pra situar o autor. Isso faz uns três meses. A partir daí, ouvi mais este alemão…

– Austríaco!

– Tá vendo só? Austríaco! Lá no fundo é tudo a mesma coisa, em termos de cultura. Agora, a música que faz minha cabeça, tronco e membros éCarmina Burana.

– Eu também gostava muito. Só que está meio vulgarizada. Tudo quanto é filme, teatro e propaganda usam o Carl Orff. A música se esvazia.

– Será? Não sou tão elitista. Quando certa música começa a parecer nos meios de comunicação, creio que é uma forma de pessoas, que nunca têm oportunidade, poder ouvir, conhecer alguma coisa que sai do comum. E mesmo que fique um pouco batida, ainda assim Carmina Burana cava fundo em mim, parece me suspender do chão.

Acendendo outro cigarro, ele voltou a arrumar a gola da camisa:

– Você deve pensar uma coisa: Mahler é profundamente suave, porque em seu trabalho ainda há reflexos do Romantismo. Por isso, num mundo como o nosso, ele tem muito a dizer.

– É, é bem isso. E você… – você é romântico?

Gustavo fechou os olhos por uns instantes:

– Romântico, eu? Acho que não. Valorizo muito a beleza e fico embriagado com a música. Será que isso é ser romântico?

Ângela esticou os dedos em forma de garra:

– O monstro do século vinte destrói toda alma romântica.

Com o nariz em riste, ele tocou a ponta daqueles dedos, aspirou-os e declarou:

– Gosto deste perfume.

– It’s Wild Mask, of course!!

– Oh, yes, yes. De que região da selva?

Riram. Fizeram uma pausa. Ela olhava para a mesa. Ele, para o piso que flamejava.

– Sabe, Mahler escreveu primeiro sinfonias, mas a sua perfeição está nos lieder. Você já ouviu uma canção que se chama Kindertotenlieder? Apesar do título um tanto bárbaro, é de um lirismo torturante. Bota a gente nas portas do paraíso, ou na última curva do inferno.

– Não lembro se já ouvi. Mas penso que ele consegue tantos efeitos de harmonia porque deve ser judeu.

– O que tem a ver isso? Raça e arte? Você é determinista?

– Claro que não! Porém, a experiência histórica desse povo burilou muito a sensibilidade deles. É só ver quantos artistas eles dão ao mundo.

Meneando a cabeça, Gustavo tragou fundo:

– A experiência histórica burilou a sensibilidade, é? E o que você me diz do que eles fazem com os palestinos?

– Ih, lá vem a História pra desmentir qualquer coisa que a gente diz. O Paulo Francis dizia que nenhuma posição pode ser sustentada por mais de dois minutos por quem tem o mínimo de consciência. – Ela bebeu longamente o refrigerante. – Mesmo assim, tenho quase certeza de que o que falei faz sentido.

Gustavo pegou outro cigarro. Ofereceu. Ela recusou. Tragando como quem procura a alma, ele considerou:

– É difícil definir essas coisas. E não esqueça de que ele se converteu ao catolicismo.

– É, eu sei. Sabe de uma coisa? Quanto mais contradição melhor. Pra afiar as garras, pra tirar chispas. A mente tem de fazer acrobacias. Isso é ótimo pra criação. Mahler aceitou mudar de religião por conveniência. Assim, conseguiu o cargo de diretor de um teatro de lá.

Soltando longa baforada, Gustavo contemplou-a diluir-se entre os raios de sol filtrados pelo teto do solário:

– Você faria alguma espécie de concessão para conseguir um cargo? E quais são as contradições que fazem acrobacias em sua alma?

Com os dois cotovelos sobre a mesa, ela respondeu:

– Quanto ao primeiro item, vou aguardar um tempo pra deixar a coisa amadurecer. Quanto ao segundo, nem é bom começar. São tantas, que vão lotar o circo, não dando lugar pra mais nada.

– Então sua criação deve andar de vento em popa.

Os olhos vagaram como em busca de apoio. Depois, ela o encarou firme e sacudiu a cabeça:

– Não me acho talentosa. Sou dedicada e muito. E isso por que não fui bem dotada pela natureza…

– Será? E esta sua suavidade… Tudo é tão frágil em você. Tenho a impressão de que vai se decompor daqui a segundos…

– Aí você ajunta os cacos, cola-os direitinho e sopra vida neles. Pelo que tem falado, você é muito inteligente.

Quase soltando uma risada, ele procurou encobrir que ficara sem jeito:

– Pode ser. Larguei a faculdade de Administração pelo meio. Depois de montar a imobiliária, não quis mais saber de voltar a estudar. Formalmente, quero dizer. Sempre li bastante. Nos últimos tempos, quase só fico ocupado com meus discos. E, pra ser o franco dos francos, quando se fala de inteligência, tudo isso depende de quem fala, de onde fala, para quem fala, quando fala. Bach não foi considerado muito inteligente no seu tempo.

Como se lembrasse de algo importante, ela pareceu querer desviar o assunto:

– Quantos discos você tem?

– Alguma coisa que vai entre dois a três mil.

– Nossa, que fortuna!

– Fortuna em que sentido: dinheiro ou acervo de arte?

– Prefiro pensar na variedade de compositores que você deve ter.

– Já que falamos em número de discos, posso precisar melhor. Tenho 2.997. Faltam três pra arredondar a pelota. Eu estava lá na loja pra comprá-los, quando você apareceu e resolvi segui-la.

– Tá vendo? Se comportou mal e papai-do-céu castiga. A gente pode voltar pra loja e comprar.

– Vamos?!

Ergueram-se. Ele teve vontade de tomar a mão dela. Conteve-se. Ela teve vontade de que ele pegasse a sua mão. Ficou esperando. Depois, cortou o ímpeto. Deram uns passos e ele voltou atrás:

– Nada disso. Os discos podem esperar. Acho melhor a gente dar umas voltas por aí, aproveitar esse início de verão que parece que vai ser firme.

– Você é quem sabe. Mas não vai me culpar por não ter deixado você completar os três mil. – Depois de falar, Ângela começou a rir. Ele queria saber o que era e ela brincou:

– Você viu “Cenas de um shopping”?

– É óbvio que sim. Mas não curti nem um pouco. Meio besta e termina mal. Nossa situação aqui hoje é bem diferente. Pelo que sei, não estamos terminando nada.

Não deixando passar o gancho, mas decidida a agarrá-lo, ela voltou à carga:

– Será que estamos começando?

O moço olhou para aquela mulher aureolada de fragilidade. Parou. Acendeu outro cigarro. A região que ela ocupava e habitava no mundo parecia rarefazer-se com sua presença.

– E quem pode saber? Vamos sair daqui.

Andavam a umas cinco quadras do shopping, subindo a larga avenida que ia dar na catedral, quando Ângela apontou um prédio azul:

– Eu moro ali. É o Mont Saint-Michell.

– Só falta a abadia e o verde mar em torno.

Já em frente ao edifício, ela convidou:

– Vamos entrar prum café? Sou perfeita com o pretinho. E você pode fazer um inventário do que falta de essencial em meus discos.

Gustavo embrenhou-se pela estante com muitos discos.

– Bahhh, você também tem discos a bangu.

– Tenho. Mas estou muito longe dos três mil e não tenho nenhum Mahler. Tudo o que ouvi pra performance era do aluno.

– É uma pena. Vou te emprestar os meus. Você leu alguma coisa sobre o fato de ele ser um obsessivo quando ensaiava? Os músicos ficavam tão putos com o excesso de ensaios que se rebelaram contra ele. Ele precisou pedir demissão do cargo de diretor da ópera imperial, lá em Viena.

Na bandeja, as duas xícaras e o açucareiro retiniam, como se experimentassem a afinação própria.

Ele bebeu degustando. Depois falou:

– Discordo! Os músicos é que foram intolerantes. Foram incapazes de entender que Mahler buscava a perfeição.

– E a perfeição é possível a um ser humano?

– Mais razão ainda pra buscá-la com o último nervo da alma.

Gustavo sentia que certo calor estranho subia de suas entranhas. Sentia necessidade de discursar, de dar ênfase às palavras:

– E, de certo modo, no modo humano, é claro que a perfeição é possível. Pode olhar no que se escreveu sobre ele: são unânimes em afirmar que quando ele regia composições de Mozart ou Wagner, atingia a perfeição. Ele era tão bom como regente que qualquer bagulho sob sua batuta virava uma coisa divina.

Ângela recostou-se no sofá:

– Gustavo, tô achando que você é meio xiita nesse negócio de Mahler.

Ele riu. Levantou-se. Pediu permissão para colocar um disco. Escolheu Orfeu e Eurídice, de Gluck, e acendeu outro cigarro, sem saber se ela permitia que se fumasse em seu ambiente.

– Este é outro anjo em forma de gente. Soube romper com tudo o que veio antes e influencia o mundo, até hoje.

Deixando o sofá, ela começou a bailar e aproximou-se dele:

– Me dá a subida honra?

– A subida e a descida, pode ter certeza.

Dançaram. Mal e mal moviam os pés do lugar. Ele retomou a preleção:

– A terceira sinfonia de Mahler tem cunho filosófico. Ele marcou a pintura de Klimt. Os dois são expoentes de uma geração que vê o mundo através da ânima humana. Se você encarar um quadro de Klimt e, ao fundo, uma composição de Mahler, pode encontrar correspondência entre as pinceladas e os sons.

Com as duas mãos enlaçadas na cintura dele, Ângela ouvia ao longe o ruído da cidade. Ela e ele eram praticamente da mesma altura. As bocas estavam muito próximas, quando ela foi soltando as palavras:

– Não me amarro muito em questões de psicologia. Prefiro o ângulo social. E, neste momento, há correspondência entre nossas bocas, você reparou nisso?

Afastando seu peito dos seios dela, ele perguntou:

– Você é comunista?

Ela fez que não com a cabeça. Então beijaram-se, os lábios um lodaçal, beijo entremeado por palavras que tropeçavam em saliva e sussurros. Beijo tão longo que a ópera chegou ao fim. A alça do vestido de Ângela deslizou e um seio ressuscitou de sob o tecido branco. Era pequeno. Gustavo tocou-o com as pontas dos dedos, apenas para sentir a textura, para sentir o que guardavam, como fazia com os discos.

Ângela resolveu completar o que deixara no ar:

– Sou uma anarco-socialista-utópica.

– Ótimo! Acho que isso ajuda a entender mais a arte. Quando Mahler foi embora para os States, na estação de trem tinha muita gente para dizer adeus. Klimt certamente era o mais importante. Fez questão de ir até lá e despedir-se daquele que era o maior regente de todos os tempos. E eu sempre me pergunto: por que razão ele não pintou este momento?

– Como você pode ter certeza disso? Quem sabe o que os artistas fazem ou deixam de fazer. Numa dessas, o quadro ficou tão intenso que ele resolveu eliminá-lo. Poderia revelar coisas que ele não queria deixar à mostra.

– Ué, não é você que não gosta de psicologia?

– Estou falando de problemas sociais. A época era conturbada. O mundo começava uma guinada e tanto, né? Quem sabe o que poderia aparecer num Klimt retratando a partida de Mahler? Quer mais café?

Separaram-se. Ele reorganizou a camisa para dentro da calça:

– Quero.

Assim que recebeu a outra xícara, retomou a conversa, como se seguisse pensamento tortuoso:

– O grande Mahler! Quem, na verdade, consegue averiguar o quanto ele antecipou de tudo isso que hoje é considerado moderno em arte? A produção dele é tão suave…, tão lírica…, assim como você.

Com os olhos fechados, ela reclinou-se no espaldar da poltrona. Ele buscou-a ali, a boca sugando a pele clara que se ia despindo.

– Ângela, é incrível como seu nome combina com você. Estou com vontade de ir até meu apê e buscar alguma coisa de Mahler.

– Gluck não faz um fundo perfeito? – Ela voltou a colocar o disco. Escolheu a faixa. –  Preste atenção na ária do Amor… Tem tudo a ver. O menino que canta é também tão suave. A música não tem notas sobre a partitura, mas digitais de nuvens.

Os lábios de Gustavo estancaram a fala de Ângela. Ele mordiscou o rosto dela, enquanto percebia as duas respirações aceleradas. O dorso da moça estava completamente nu. Os seios e a cintura florescendo acachapados no início da tarde pelo peso do homem. Lá fora, com rapidez, o tempo mudava.

– Vai chover – ele falou, com a voz um tanto rouca, voz que tentava escapar da agonia do labirinto.

– Novidade! O calor nunca dura muito tempo em Curitiba. Tomara que chova! A gente aqui, a chuva na vidraça. Falta um vinho. Mas é só ir até a despensa.

Ele grunhiu:

– O melhor vinho do mundo é você.

Devagar, com imensa lentidão, ela foi desabotoando a camisa de Gustavo. Jogou-a no chão. Lambia os mamilos arroxeados entre os pêlos castanhos, quase transparentes. Murmurou:

– Você também é tão doce…, tão vinho…, tão música…

Ele sentou-se. Apanhou a camisa e vestiu-a.

– Ângela, vou embora. Você é suave demais. Não quero estragar tudo.

Ela franziu a testa:

– Senhor doutor em Mahler, não entendi seu último discurso.

– Tudo bem! Pode ser paranóia minha, mas você deve lembrar-se que os gregos consideravam o sexo um ato violento, pelo desperdício de energia, pelas convulsões. É isso. Sexo é sempre violência. E eu não quero estragar a suavidade deste encontro, perder esta imagem fantástica de você. Já leu A mulher do tenente francês? Ernestina também considerava a transa como algo assustador, brutal. Algo que não tinha nada a ver com a delicadeza das carícias. Não vou estragar tudo. Por favor, entenda. Vamos evitar a violência. Quero você em minha mente como a mulher de branco, a mulher de gestos suaves, aquela que fez uma performance com Mahler e adora ouvir Amor cantar em Gluck. Se você achar tudo isso estranho – e aposto que está achando – procure ler a poesia de Emily Dickinson. Ela diz que a imagem é mais frutífera que o ato. Quero sua imagem. Não quero sair daqui com você gemendo, suando, mordendo, uivando em minha mente…

Com certa rispidez, ela respondeu:

– Calma lá! Você tá querendo dizer que transo como cadela? Existe sexo e sexo. Sei lá com quem você anda, mas comigo não precisa ser violento. Aliás, nunca foi. Jamais, em minha vida, vivi um sexo que se possa classificar de violento.

Passando as duas mãos pelo rosto, depois indo pelos cabelos, até chegar a nuca, com a cabeça abaixada, presa sob dedos rígidos, ele tentava explicar o que não tinha explicação lógica, ele sabia:

– Não, nada disso. Perdão se te ofendi. Nada a ver com você. Pelo contrário. Você, pra mim, é a música materializada de Mahler. Nunca mulher alguma trouxe para o chão do mundo os lieder de Mahler, quando os ouço no meu apartamento. É disso que se trata. Não posso me dar ao luxo de transformar essa coisa sublime numa transa que mistura mucosas, suores, secreções. Transar agora, é rasgar o véu. É partir escultura feita de areia transparente, envolta no mesmo véu. Prefiro levá-la comigo assim. A beleza durará muito mais. Beleza sem ponto final.

Para dar mais ênfase ao que iria falar, ela ergueu a mão, só que não chegou a dizer nada.

Ele pegou a pasta e saiu apressado. Atônita e descrente, Ângela levantou-se. O vestido acabou de cair. Sentia emanações em fluxos descontínuos sob a pele. Ao ouvir o primeiro trovão, levou automaticamente as mãos aos seios. Trancou a porta. O ruído do tráfego amarfanhava a tarde com o cheiro de pó molhado e asfalto saturado de pneus. Contemplou as duas xícaras. Uma estava virada e derramava as últimas gotas sobre a renda que, de tão alva, parecia inexistir em sua transparência. O pacote com papel vermelho esperava-a próximo ao vestíbulo.

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Suíte

 Não há mais tempo. O animal que nós somos perde as asas, a massa muscular, e as escamas trincam-se pelo sol de vento de cabana vazia.

Sabemos que o caminho continua e isso é tudo, a partir do limo da pedra, da farpa do punhal, do olho de tigre fazendo ninho na  névoa.

O dia em camada está desfeito, porque um dia é tempo, lençol lívido distendido sobre a água das horas. E as águas escorrem, levando para a neblina os rostos até há pouco fixos na luz.

E no rastro de cada rosto vemos a paisagem triturando o resto de nosso apetite para permanecer de pé, segurando a coroa de fogo a ponto de chamuscar nossos lábios e a lenta areia a descer dos olhos.

Como nossos olhos se inclinam, se inclinam nossos olhos de animais que têm sua matéria filtrada no junco frágil. Assustados, respiramos com dificuldade e sorvemos das pedras o nitrato de fotografias que mal registram a passagem.

O rocio repousa no ar e é infantil afirmar que há contornos indistintos. Não há nada, nossa hipótese mais duradoura a atravessar mares e fronteiras e terras abaixo do nível da febre. O caminho vai sem nós, isso é certo.

Ouvimos a voz rascante dos galhos dando materialidade ao vento, e as folhas que ondeiam passam por nosso rosto sem cor ou partitura. É tosco levantar a mão e amparar uma folha para ver nela um filhote de passarinho. Aqui não se trata de pintura naïf. Tosco mesmo é  o processo de sustentar-se ao rés do chão e frente às dimensões oceânicas do que não nos contêm.

A arte de permanecer tem algo da trituração da mesma falta. Quando a personagem de Piglia diz: “é inútil procurar explicações” e arremata: “talvez seja tarde demais”, ela fala por nós, ela dá um nome à nossa carne.

Tentamos manter a postura dos que continuam e, em verdade, os objetos de nosso cenário estão no lugar sem marcação prévia. O diretor esqueceu-se de moldar nossos gestos. Um tempo depois coube a nós descobrir a ausência de peça, e sair por aí em busca de autoria é um luxo pirandelliano mais conveniente a bonecas de louça. Aquelas, das fotos antigas, ainda que falsificadas pelo retratista brasileiro que, nos Estados Unidos, criou cenas de época com o apocalipse de agora.

Os objetos, o palco, os rostos tratados a luz de espelho de camarim, o fosso da orquestra vazio, tudo como nós, formam a atmosfera vítrea ao nosso redor. Há murmúrios febris e o ar enjoativo pesa sobre as pálpebras. O pai e o filho e a obra estão incompletos. Falta matéria no mundo para preencher os espaços do gesso ressecado. Algo ficou à toa na inciência  de corpo sem os corpos.

O que acontece para esta operação de balanço é que lá fora algo foi abandonado, ninguém sabe onde. Saber o que é fora, o que é dentro, no abandono do isolamento, é ficar com Shakespeare: “eu não sou o que sou”, na impetuosidade de Otelo.

O pai, o filho e a obra entram na rota da vida e a vida os leva. O figurino não muda a carne. Mesmo La Bünchen fede após a aura da passarela. Falávamos do tempo escoando, filtrado por dentes de rato. Roupa rota, rosto de borra, olhos sem bateria. E o palco vazio, e a tela vazia, e a platéia ausente

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Faça-se a luz e a luz negou-se

Havia nuvens no céu aquela manhã. Fazia semanas que o céu andava azul e isso me incomodava. Moro num porão entulhado de esculturas, e o tempo aberto é uma contradição, interfere em meus exercícios, impede que meus pensamentos se concentrem num ponto justo e produtivo. Pois naquela manhã, o céu coalhava-se de manchas pesadas, pachorrentas, verdadeiros dilúvios de sombras a anular excessos de claridade, essa coisa inútil para quem trabalha no subsolo e só no túnel, na cova, no buraco encontra o nervo vibrante da forma que se vai moldando e se vai moldando e de repente é alguma coisa à espera do nome.

Então saí à rua. Não andei muito. Duas ou três quadras depois encontrei um menino morto na calçada. E ele era lindo. Tinha cabelos grossos, dourados, desses repartidos no meio em duas cachopas rebeldes que se espalham com energia pelos lados da cabeça e cada fio parece tão espesso como corda e não precisa de nenhum tratamento além do toque de mãos que os erguem para que caiam com lentidão outra vez, até o peso ser beleza. Vestia bermudas folgadas, o cós bem abaixo do umbigo, mostrando a barra de uma cueca de listrinhas. A cintura pélvica estava bem desenhada, aqueles dois músculos que vêm de algum lugar e se confinam lá no infinito onde o sexo é um monte de vida que gosta de explosão e tato. Pela barra da cueca subia um tufo de pelos de tom mais escuro que os cabelos. A camiseta fora erguida por acidente, de modo que mostrava o torso quase por inteiro. Ali, músculos e torneados de costelas eram a harmonia manca de adolescente tão bem feito que deus se maldiz encruado. Antigamente, quando se meteu nessa insana tarefa, jamais supôs que logo a raça humana fosse evoluir de tal maneira que a perfeição se expandisse tanto a ponto de esses garotos suplantarem os anjos – sempre iguais, róseos, rechonchudos, com cara de idade média salmodiando cantochão salobre, Esses garotos, não. Exatos em suas linhas de sustentação sabem ainda mais ser impecáveis na movimência de gestos e falas salpicadas com alguma coisa que pode ser onda ou gaivota. Esse aí já era. Estava morto. Não sei o que o atingira. Constatei o belo e morto e nenhuma das dimensões me atingiu. Continuei andando.

Logo depois, vi um carro esmagado contra um caminhão de lixo. Ferragens com ferrugem, tudo era carne e sangue numa maçaroca ruim de contemplar e compreender. Se lá quantos morreram. Vi montanhas de sacos rasgados despejando restos de casas sobre a capota do carro. De uma das janelas, um braço parecia abanar. Não podia ser. Abanaria para mim? Por quê? A troco de que alguém indo para o buraco silencioso da morte vai perder um rasgo da eternidade acenando para mim, que nem estava ali para testemunhar o que quer que fosse. De modo que, a melhor solução nesse caso seria continuar no caminho, ignorar aquela montanha de trastes e fazer de conta que nada era comigo. E esta é uma verdade irrefutável: nada realmente me dizia respeito. O menino morto e a carne esfrangalhada comprovavam apenas que a guerra começara. Eu não sabia a razão.

Foi quando me lembrei de meu amigo. O único que cultivara enquanto os anos foram se acumulando em esculturas no porão. Pois numa tarde como esta, prévia de chuva, ele foi esfaqueado na saída de um shopping. Alguém encontrou meu cartão no bolso dele e ligou para mim. Corri para o local. Era meu único amigo. E estava ali estirado, morto, com linhas de sangue corroendo a calçada. E eu não lamentei nada. Meus olhos se prenderam na sacola que ele ainda tinha presa entre os dedos. Nela, várias camisas esplêndidas, agora salpicadas de sangue, logo pisadas, um pouco depois embaladas naqueles saquinhos plásticos de filme americano. Foi o que mais senti. Se era para perdê-las no nada policial, por que meu amigo as comprara? Se fosse apenas para deixá-las sujas e inutilizadas, por que alguém o matara assim, sob nuvens de chá velho, nuvens enrugadas que não gostam das cores que as novas estações inventam para atiçar a gula dos que desfilam a vida diante de vitrines?

E tem minha mãe. Foi enterrada numa tarde assim, de nuvens assim. E que importância pode ter isso! Nenhuma, com certeza. Por que então me refiro a este fato? Não sei. Ele veio vindo, veio vindo, tomou o espaço e, de certa forma, sucumbi a ele. No enterro de minha mãe, enquanto o padre soltava os borborigmos de palavras sempre iguais que deus nenhum deve suportar – sim, pense, se deus há, a troco de que todos os rituais repetem fórmulas prontas? Será este ser absoluto tão bisonho que precisa de sacudidelas em sua inércia com a repetição ad nauseam do mesmo blábláblá que não aguenta nenhuma sílaba além do previsto? – e o padre lá, a despejar aqueles cântaros vazios de equações já calculadas.

Eu não o ouvia mais já fazia tempo. Minha atenção fora chamada para um séqüito de cachorros que perambulavam entre as tumbas. Logo imaginei uma cadela no cio e o exército de machos desvairados em busca de um buraco penugento onde enterrar seu sentido de manter-se sobre quatro patas. Comer, cagar, respirar e ir por aí. Mas esta é solução fácil demais, quero dizer, uma cadela no cio etc. Devia haver um significado mais profundo para aquela trupe de maltrapilhos um tanto úmidos. Chovera fazia pouco. O céu se desdobrava num cimento amolecido sobre a abóbada já bastante frágil deste mundo habitado por insignificâncias como eu.

E desligados de qualquer tom da natureza, lá iam eles, o cães, ladeando canteiros de tumbas, quase numa fila ordenada. Meus olhos pregados neles e nunca entendi a razão de sua caminhada. Minha irmã falou qualquer coisa. Jamais lhe dei atenção. Não lhe daria também naquela hora.

Ao chegarmos em casa, meu sobrinho inventou de organizar o quarto de sua avó, minha mãe. Havia muitas caixas lá. De certo, ele estava espicaçado pelo desejo de descobrir algum segredo soterrado sob armários de silêncio. Minha mãe foi sempre absolutamente medíocre. Do tipo que é tão raso que não é capaz sequer de ter uma camada sob aquela apalpada e medida por todos. Enquanto ele se entretinha com as caixas e seu conteúdo, minha irmã me serviu um chá. Ela vestia teilleur marrom que devia imaginar coerente com o instante que ela encarava como dor.

Bebi a água salobra, não comentei coisa alguma e, de repente, a xícara escapou de minha mão e se espatifou sobre o tapete. Paciência. Fiquei fulo foi com a quentura líquida e inesperada sobre meu joelho. Afinal, não me vestira num terno novo para assim de saída vê-lo manchado. Ao me erguer em busca de um pano, vi um quadro na parede – camponeses de torso nu arando o campo sob o plúmbeo céu de um lugar que não podia ser nosso país tropical.

Perguntei para ela onde conseguira aquilo. De um leilão pela tevê. Claro, minha irmã não tem cacife para galgar a montanha de uma galeria e, muito menos, para comprar uma de minhas esculturas, aquelas coisas horrorosas feitas de sucatas.

Ela ligou o rádio e soubemos que o presidente acabara de ser assassinado. Pena que o autor da façanha era um jovem psicopata que vira no sorriso torto da eminência apenas um anti-cristo furreca qualquer. Por que um desgraçado desses não é movido por farrapos de utopia? Além de mais grandeza ao ato, faria a gente entender que o mundo ainda é um lugar amplo, onde alguma coisa pode acontecer por meio de variadas contradições que ninguém deslinda, nem os atos extremos. Matar em nome de ideias dá uma certa coragem para se voltar a pensar que aqui não está tudo perdido e viver não foi reduzido a amontoar bagulhadas nas prateleiras.

Eu estava no jardim, rumando para meu carro, quando vi um gato traçando uma gata. Ao menos imagino que seja esta a ordem dos fatores sexuais. Ignorava que esse tipo de bicho se dá a tal desfrute em plena luz baça do dia. O que eram aquelas sinfonias de arranhos nos telhados e recantos de nossa infância? A gente na cama, mastigando os buracos do medo porque aqueles guinchos pareciam filetes que os monstros atirariam contra nossa garganta desprotegida. Deixa pra lá. Tive certeza de que a gata estava era saturada daquele lance. Entre eles o sexo também é uma obrigação matreira, da qual não se extrai nada.

Ao chegar no primeiro farol, a mãozinha suja e torta penetrou meu espaço privado. A criança sequer me olhava, muito menos pedia. Nem iria adiantar. Eu estava com o carro entulhado de bugigangas catadas no lixão. Se eu lhe desse um daqueles ferros, ela poderia se entalar nele e não faltaria repórter disposto a me credenciar como alguém que perverte inocentes abandonados. Ou então, ela quebraria com mais facilidade os vidros. O que, sem dúvida, é um progresso para quem rasteja com as pernas tortas, os braços desfigurados, os dedos retorcidos como antecipação da escultura que farei.

Desta forma, liguei o som e deixei Charpentier me dizer o que não me importava ouvir, pois sou dos que não creem mais em nada e nem fazem força para isso. Só queria mesmo ver o mundo afogado em lama. As pessoas de olhos em brasa quando a massa estiver a um centímetro de suas bocas que disseram tanta bobagem, cravaram-se na gordura, beberam a merreca industrial patrocinada pela ideia de avanço da sociedade.

Em casa, o salva tela me deixou ver seres coloridos nadando num espaço negro e sem fundo, mais ou menos como devia ser o que entendemos como princípio dos tempos. Somos ainda tão rasos e lineares que só fazemos acrobacias entre causa e efeito. Se o mundo há e está aí, houve um princípio. Se houve um princípio, ipso facto, há um autor. Logo, o senhor deus é o criador e nós a criatura. Simplório assim.

Minha certeza é outra. A relação é outra. O buraco tem muito menos espuma do que criaram as mitologias para preenchê-lo. Espiei o e-mail. Havia um unread. Pois me pus a lê-lo. E vi. Uma galeria de Belo Horizonte me convidava para uma coletiva. Babava um rasgado insuportável e pretensioso sobre meu trabalho e me dava seu espaço para o início da primavera.

E daí? Boto as coisas lá? Alguém escreve sobre. Alguém compra. Alguém comenta. Outro não entende a proposta, a matéria, a forma, os meandros do que nem quis dizer. A maioria sequer dará atenção. E daí? A verdadeira coisa é o quê? Que grão de areia se move porque em BH meus entulhos estarão sob outra disposição e luz? O que leva um idiota a ocupar a vida com repositório de atulhamentos, armazenando, acumulando, encastelando feito rato em desespero? E vem um dia, abre o aviário de monstrengos para outros olhos possivelmente admirarem aquilo que deu sentido a quem fez e nada diz a quem olha. A relação é outra. Tal vitualha de linearidade entre o escultor e o contemplador não passa de miragem encarcerada em livros. Refeito o aparato belicoso de garras inscrevendo na carne a libidinosidade de tatuagens aéreas. O carcomido arcabouço no qual nos agarramos para dizer que valeu a pena e o instrumento da caça obteve amplo sucesso.

Olhei pela janelinha ao rés do chão. O céu a apodrecer em seus andrajos. Como há muito tempo não se fazia ver. Em lugar de qualquer disco mais consubstancioso, optei por Zezé di Carmargo e Luciano e ouvi “Serafim e seus filhos” durante três horas, até eu ser o Quixote pelos verdes campos. Anoitecia. Eu estava exausto de tudo o que não havia e do que havia demais. E estava trêmulo, zonzo, com sorrateira vontade de morrer e apagar minha assinatura de qualquer feito que possa sobreviver à carne que trato com meu nome. Voltei a “Serafim e seus filhos”. Abri um vinho e bebi. Quando acordei, o céu estava azul, mais azul do que fora naquela infindável série de dias. Alguma coisa só podia estar errada. E estava. Afinal, para quem mora num porão úmido, embolorado, cheio de trastes, tem sentido olhar para um canto e encontrar fatia azulada de infinito navegando no vago espaço do mundo?

O telefone tocou. Meu sobrinho soluçava, pedindo ajuda. Quis saber onde ele estava e ele não sabia dizer. Suas sílabas mal articuladas eram iguais aos arrancos de um animal ferido pela jaula. Enquanto chorava, devia estar mordendo os lábios. Só sabia dizer, tio, por favor, me ajude. Eu precisava sair e procurá-lo. Até encontrar seu paradeiro, levaria bom tempo. Só esperava não chegar tarde demais. E, se chegasse, que importância isso teria? A guerra já começara, não começara?

Peguei minha jaqueta. Tentei ensaiar algumas palavras, caso eu o visse logo. Quem sabe, estivesse no telefone da esquina, como outras vezes. Quem sabe os pulsos vazassem o ar. E os olhos estivessem atravessando o vidro de uma cabine e o veneno ardesse em seus pulmões e o amor, um calombro embutido em seu estômago. Talvez minhas mãos nunca conseguissem ultrapassar os tantos fossos e chegar até seus cabelos para consolá-lo. E, se por acaso eu lhe proporcionar algum amparo, isso será paliativo efêmero a não livrá-lo da carga de ter de existir como eu existo.

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