www.pauloventurelli.com.br

Um anjo de avental

Não conheço o esplendor deste anjo, apesar de vê-lo, quase apalpá-lo.

A tarde estava quente, após a manhã fria e com muito vento. Despretensiosamente fui tomar café com um amigo. E lá estava o anjo, de olhos rasgados, luminosos, presos a certos detalhes que não me interessam.

Meus pulsos bateram frenéticos e com a imaginação convulsa o desenhei e ele cabia no amparo dos meus braços.

Tentava reter dele tudo o que podia. E era pouco. A névoa entre nós dois dissipava sua luz sem esquadro ou enquadrada num ponto onde nunca estarei.

Sabia que a partir daquele momento, eu poderia sofrer, inventar uma série de novos sacrifícios inúteis.

E mesmo assim meus olhos ambiciosos devoraram os contornos de mínimos indícios.

Eu me concentrava com ardor e ardia na totalidade de minha devoção que a nada se pode apegar. O veneno me nivelava na absorção e eu o queria para conduzir sua inocência até minha sombra de um século.

Quando ele sorria, todas as cartas eram transparentes e punham à prova cada ato que vivi e não vivi.

E ele poderia ser uma invenção – mais uma entre os cristais negros acumulados. Contudo, era anjo, disso não tenho dúvidas, e se aconchegaria com precisão no abandono de meu peito.

Pelo rumo de seu sorriso eu conquistaria o caldeirão do inferno, sem me importar o quanto isso depenasse minhas carnes. Sondava o ambiente e sabia de outros a me vigiar. Pouco importa.

O anjo era o máximo das promessas jamais cumpríveis.

Retirei-me com a pausa de sete anos de suspensão, antevendo quantas vezes voltaria ao café para revê-lo. Afogo-me nele, não na xícara. Pouco importa. De nada valerá o gosto do café, se eu revirar a cabeça e der com ele sorrindo, na agilidade clara de seu elétrico riacho a me banhar.

Nunca conhecerei sua origem. Em que fenda do deserto nasceu. Em que espinheiro ressequido teve sua primeira revelação para os dedos untar-se do pequeno magma que a alguns faz homens e a outros, anjos.

Sua vida teria reviravoltas em torno dos mesmos círculos? O magnífico de seu estilo apaga o contorno das fotografias? Quantas bocas já regou? E se sua palavra for dura e causticante, bronze solto na penumbra ensolarada do café?

A angelicalidade nem sempre é uma função encontrável onde a vejo. Construção do meu delírio, talvez ofereça o declínio da ferrugem.

Logo após o café eu iria para o trabalho. Enfrentar este ponto pragmático foi dura tarefa. Sonhava com o desenho de um abismo, a corrente sinuosa da cidade anulando os espaços ocupados para que pudéssemos dançar.

O crime maior era abandoná-lo, trocá-lo por papéis e canetas. O crime era reter-me no balão pleno de hélio que subia de suas carnes para a plenitude vaga dos céus.

Ele deteria a morte e a anulação das têmporas.

Ele faria a profecia satânica entrar vagarosamente pelos meus poros e ouvidos.

O cume da tarde era uma colina. Dali ele soltaria a voz, feito criatura de Yoram Kaniuk.

Declarei errados todos os caminhos. Mesmo assim, vi-me na calçada, as costas para ele, em direção aos papéis e canetas em que nunca reencontraria seu rosto e o líquido de seus olhos.

As contrações da redenção cederam espaço a outros murmúrios de resmungos em minhas vísceras.

 

Postado em por autor in Contos Deixe um comentário

Ouro amorenado ou A irrealidade descortês

 Não sei bem o que me atraiu para aquela varanda. A música, com certeza foi a música. Alguém ouvia… Que ária é essa? Será Violetta fragilizada na cama, as nuvens do fim a rondarem o quarto? A Violetta que se redime por meio da melodia? Que moral empurra-a à redenção? Por quê? Mesmo doente, ela soube ser cínica, sugar como cortesã a delícia de gomos da vida. Será mesmo Violetta? A ópera me fascina e a melodia longa, óleo escorrendo em mar de gesso antecipava o que eu veria em instantes. “Attendo, attendo, né a me giungou mai!” Sim, é Violetta. O carnaval na rua, as cores esparramadas pelo mundo e ela a se envolver no cinza baço da tuberculose. Sem dúvida foi a música a me tirar de meu roteiro que, afinal, não estava circunscrito a nada: eu caminhava sem rumo, atormentado, tentando segurar os caibros da vida a ruir dentro de sua provisoriedade. Como é difícil envelhecer! Dia a dia a pele tornando-se papel ressequido, a memória falha nas coisas corriqueiras, o nome de um filme, de um autor, o pronto reconhecimento de música presente em longo trecho da aventura. Quem canta, por exemplo? É Violetta, sim, mas a voz é de quem? Ileana Cotrubas? A ópera se acumula em eu interior, um tapume de detritos. A frase pronta salta do último trapézio da mente: “suspiro de uma alma purificada pelo sofrimento.” Isto descreve o quê? A trajetória de Violetta? Insisto, para que a redenção? Vendera as jóias para cobrir as despesas da casa, fora enredada pelo pai de Alfredo, foge do movimento da vida e a cada passo a doença trinca seus pulmões. Que mais queriam dela, santo Deus? A melodia sobe dos escombros e eu não sei localizá-la. O autor, a intérprete, a que peça pertence. “Oh, come sou mutata!” Claro, é Verdi, não pode haver dúvida. Encaro a chama se apagando na vela derretida, fico encurralado. Violetta, fugindo para o campo com Alfredo, também não encontrou um beco sem saída? As convenções sociais nunca a deixaram livre, esta foi sua maior morte, se mesurável for a morte. Não suporto envelhecer. Por isso saí. Desnorteado, o sentimento de vingança contra o próprio corpo sujeito ao tempo, a esta miserabilidade a forçar a gente a carregar o fim íntimo em raquetadas malignas caindo sobre os dedos. Tudo bem, a morte. Só que deveria ela ser algo fora de nós. Não vir de dentro, esgaravatando, esgaravatando, comendo cada veia. Somos criaturas compostas para e pela afasia. A ancilose rói a textura do movimento. Os ossos ficam partidos e estão se vergando há muito. “Ma il Dottore a sperar pure m’esorta!” Esperar o quê? O interior burguês decorado pela música graciosa. A ponte entre as notas na partitura e os cenários que cercam a renúncia, o sacrifício brutal, a força tão dramática de quem sabe que, ao ceder, dá passo decisivo à morte. E eu queria aliviar a carga. Peguei a estrada, fui saindo pelo bairro. A rua de terra, as casas rareando. Como eu ia saber? E de repente aquela farândola sonora em meu ouvido, não, em minha carne, florescendo como a epifania final da vida que nunca teve muito sentido mesmo. Violetta perdeu tudo, mas viveu. Terá vivido, é certo. Como calcular suas ações e o emplastro anterior. La Traviatta. Três tipos de soprano para a mesma mulher desminliguida. Isso não diz alguma coisa?  Ela tem voz elástica para a coloratura no primeiro ato. Ela é soprano spinto para o segundo, quando vive na casa de campo, largando os atrativos da vida por aquele que estará com ela, inutilmente, no final. Cabe a questão: ao se optar por alguém, no sentido de amor, de verdade a pessoa abandona alguma coisa? Ela é soprano dramático no terceiro ato, momento de morte. Nem mais as renúncias contam. Que estado real esta mulher viveu em seus estratagemas? Dividido entre embaraços, sou e fui um náufrago, desgovernado pela impossibilidade de me achar no mundo. “Ah! Com tal morbo ogni spranza è morta!” O real é duro demais. Difícil quebrar sua casca, encontrar o núcleo, nutrir-me de algo capaz de me fazer superar o desgaste. Então eu ando, alucinadamente. Quero que o cansaço físico, o esgotamento me libertem da sensação de estar erodido, encarquilhado, os músculos decompondo-se parecido com o que ocorre na madeira tomada por cupim. E ali, a cidade às costas, a civilização no abandono do horizonte, quase em meio ao nada, “Addio del passato bei sogni ridenti…” Addio, addio. Attendo? A ária me envolve em prenúncio de engrandecimento e abertura. A vida não tem  agora contorno agressivo. As facas se dobram, há um possível no próximo passo. Evapora-se a certeza do afunilamento, de cada hora aproximando-me do circuito final. Se a música é dolorosa – é? – por que levanta meu ânimo? Se o passado e suas promessas fenecem, por que, neste ponto do barro, algo me empurra para a frente? A música abençoa a hora, corro livre do escafandro dentro do qual é difícil respirar, envolto em tempestade de areia, assolado por partículas minúsculas que arranham e estragam qualquer milímetro de meu corpo. É também um convite ao qual não posso resistir. E não resisto. Por isso me desviei da rota não traçada, invadi o quintal, subi os poucos degraus e cheguei à varanda. A música elimina o passado, transforma o cansaço em impulso. Me faz perambular na aceleração do tempo e na beleza de quadros confundidos pela memória. A voz girando no silêncio do mundo em torno. O mundo se ausenta nela, transtorna-se na voz clamando. É vaticínio de ilimitada disposição à alegria de ser outra vez, não importam quantos sonhos estiverem esmagados e mortos. “Le rose del volto già sono pallenti.” Não importa. As rosas brotando dos lábios de Ileana Cotrubas, só podia ser ela, vingavam sob meus pés, tornando leves os degraus. Cheguei na varanda há pouco ou já estava flutuando sobre as tábuas largas? E da varanda eu vi. Lá estava ele. Um rapaz. Não, um garoto. Nos seus 19, 20 anos. Nu entre almofadas. Estirado, curtindo o corpo com mãos de pianista, olhos fechados no enlevo da música. Claro, a música lhe dizia algo. Ele entenderia a tragicidade? Mostrava-se entregue. Esta é a palavra. Absolutamente entregue a um momento de liberdade que só ele desfrutava, nunca Violetta, em suas noitadas, e isso se via na displicência com que deixara a porta aberta, na falta de roupas, na passividade um tanto selvagem com que a mão deslizava pelo torneado do corpo, a explorar, a sentir, a despertar auroras por sei lá que tipo de alegria que a ária provocava nele. A mesma que em mim? Jesus, se Violetta caminha para a morte, por que ele e eu estávamos rejubilando em cada verso mantido seguro pela voz sofrida? “L’amore d’Alfredo perfino mi manca.” A ele, ali, nada faltava. E a mim, que nunca tivera nada, também nada era necessário ali, meus olhos cheios. Hoje em dia, jovem ainda ouve música erudita, é capaz de se ligar à ópera? Ao contemplá-lo, minha mente abriu-se em leque de claridade, eu não estava travado sequer por única angústia. La Traviatta, o grande fiasco de 1853, o público despudoradamente sacudindo-se de rir na morte de Violetta porque a cantora tinha um corpo avantajado demais, sem nenhum traço da fragilidade necessária – um caminhão despejando cristal com a mecânica da caçamba. La Traviatta, o sucesso restaurador um ano depois, as contas acertadas com a sorte da arte. Violetta não tinha fé no amor, cada palmo de seu corpo usado dizia que nada oferece duração. Mesmo assim, não se furtou ao mergulho fundo. Como fazia ali, agora, o garoto, com o sorriso de prazer nos lábios, salmodiando palavras tênues. “Conforto sostegno dell’anima stanca…” Sim, não sei de que modo, mas ele estava confortável, seu corpo e alma em harmonia, o reconforto lhe dava base para a autodelícia. E a croce? Deve ser alguém muito especial. Vaga na redoma de paz que eu temia quebrar. Ele, nu, deitado num desfiladeiro de almofadas – a desordem, as cores, as nuances. Massageando-se com lascívia simples que é própria de quem não conhece a terra dos males, a vida de fugas e contradições, o teatro importador de máscaras. Sua liberdade estava envolvida em beleza e isso me encantou, me deu prumo, revigorou os planos do corpo e da memória. Podia jurar: eu não era velho, não estava em decadência, a memória luzia em mente revigorada por informações a retrabalhar os esteios do meu mundo, ele próprio não mais separado de tudo e de todos. Aquele jovem era eu? Reencontrava cena central do passado? Lá estava ele, integrado a um tipo de intemperança sã e contida não sei em que esquadro. Ele é simples. E as coisas do corpo não são simples. Violetta era singela em suas evoluções de cortesã, em sua força dramática de belos vestidos para seduzir. Ele é simples como um resgate. Intenso como é qualquer montanha a borrar a paisagem com outra dimensão. O carnaval que se alastrava na rua, enquanto Violetta murchava na cama, está ali, nele. Parece até transformar-se em elfo na desenvoltura com que estira as pernas, apalpa o sexo, enrodilha os dedos nos pelos. E os dedos sobem pelo caminho marcado até o umbigo. Arredondam o umbigo, cambaleantes, amolecidos seguem a vertente suave entre as costelas e param em cada mamilo. A tosse nublava o corpo de Violetta, se Alfredo a suspendeu no último abraço, os braços dela penderão sem energia. “Della traviata… sorridi… al desio, a lei, deh perdona, tu accoglia, o Dio!” Oh, Deus! Nos mamilos os dedos abrem flores. Ele está arrepiado, isso eu vejo, e estar à sombra luminosa da voz soprando as mazelas era a reemergência, coloca a vida em alerta, acende minha memória, rio de tons. Verdi teve pouco tempo para retocar La Traviatta, enquanto trabalhava emIl Trovatore, e com a mulher perdida, dá uma guinada em sua linha de composição. Sabe trazer as palpitações do amor, na delicadeza de nota que a voz espalha na paisagem e minha mente recolhe, sei lá com que fome. Quando os dedos chegam aos lábios – o rapaz é um trovador? – ele os suga com infantilidade. Se eu fosse religioso – não sou? – pensaria num santo êxtase, na emanação final junto a Deus. Quem me cobrará por quadro tão desgastado? Desabrido e pueril, ele está ali e mostra isso, isso eu vi, o conluio com o universo. Os dedos foram sugados. Ele babou. Vi a saliva escorrendo pelo queixo, o rastro úmido que os dedos fazem até as pálpebras fechadas. Está reduzido à insuportável beleza da juventude, essa maldita. Tudo nele me empurra para um  ato de penitência. Devo encontrar Deus. Tenho consciência do pecado, ainda que seja injusto localizá-lo no rapaz. Nada a ver com moral, ética, religiosidade. E, sim, com existência – vida não vivida. Eu pecava contra a vida, uma vez que nunca fui assim, nunca fui dado a esta soltura. A ópera, em meus dias passados, me arrebatava o corpo. E o sinistro da composição visual e sonora mostrava para mim, com palavras, escala cromática, formas, a posse de arrebatamento que nunca esteve em minha vida. Quem me cobrará o galope da retórica? Ele era tão belo. Dele nascia a linha gorjeante do estonteamento. Qualquer fotógrafo, cineasta vídeo-amador gostaria de captar – ângulo voyeur – o quadro em luz natural. A casa amarela acetinava o que o rapaz compunha. Ele parece coberto por fina camada de eucástica a pedir toque de dedos, outros dedos. Meus dedos vicendos! Balls! That dickhead e, ao mesmo tempo, adorável guri confiante, dono e digno de si, a trazer a bebida noturna sobre meus olhos. Devoradores estão meus olhos, libertos do cansaço. Nenhuma aporia, mesmo sofisticada, ergo contra ele. Ele é a própria flutuação leviana da vida. Beleza em estado de grau absoluto. “Ah! Tutto fini, or tutto fini.” Engano. Ali tinha início o primeiro passo do labirinto, a trova para o magnetismo da noite. Nada finda. Ao redesenhar os próprios olhos, temi que os abrisse e me surpreendesse na contemplação de besta. Besta faminta! Foi aí que chorei. Nom de nom! Chorei pelo que jamais seria. Esquecer a velhice por instantes é recobrá-la depois mais intensa. Tudo termina. As jóias de Violetta nada lhe garantiram, nem aquela, certamente, para muitos a mais preciosa. A intemperança do choro tinha a cinza de caibros carcomidos. Ab ovo. Como se não fazia outra coisa na vida a não ser desfazer-me de oportunidades, até ficar reduzido a olhos que contemplam Eu me submeteria a qualquer humilhação para chegar até ele. Ao mesmo tempo, é repugnante a idéia de interromper seu roteiro para dentro de si mesmo, movido pela fluência de Ileana Cotrubas. Ah, Violetta, que dom o de trazer a esta casa – a rua de barro – o passageiro carnaval em coro que não podias acompanhar. Sou incapaz de mover uma única ruga para alcançar os víveres desabrochando nele. A vida me trapaceava. Para quem só caminha na agonia de estar conhecendo o fim, encontrar o tão enfático e magnético começo era execrável. Violetta cessara. O coro de máscaras luzia no quadro barrento da rua, abrindo espaço ao rei da festa. O rei da festa e da alegria e das flores não é ele, o rapaz? Tive nojo de mim, ao me reconhecer capacitado para tanto embevecimento. Como inquirir a vida e suas últimas curvas? Não queria mais o dueto de Violetta e Alfredo em veludo de valsa. Nem o dueto de meus olhos com a criatura ali dentro, entre almofadas. A seda do corpo do rapaz bramia segundo as ondas da música, pulsava sem se render ao drama cantado, a incisiva hipnose de vozes reverberava nele e ele mais se contorcia. Dele vinha o drapeado de sonora visualidade que eu queria negar, minha mente nublada outra vez. Vê-lo era mergulhar na cacimba feito o desgraçado que chega do deserto. Sempre cheguei do deserto. Ele, o garoto amante de ópera, nu, deitado ao relento de qualquer cuidado, embevecido na feição de fruto venenoso, tinha a astúcia solerte de sua beleza refrescante e tanta que eu só podia chorar. Eu, com minha logorréia, nunca seria assim. Jamais teria aquele corpo ou me transformaria em sua sombra. Sou um velho infirme, torpe, de sentimentos abstrusos, como cacos enterrados na cova. Ele, indecifrável, à medida que monopolizava as idéias que posso ainda ter da beleza. Por que um velho murcho se acende com o fulgor do jovem? É indecente, é vil. Violetta não chega aos meus pés. Esplêndido desnudamento no autismo erótico de sua concentração não tinha nem idéia de que acabara de demolir o que nunca fora erguido. Eu, ímpio. E minha grandiloquência. Ele, excelso. Simples, reto. “Ah, cruda sorte!” “Gran Dio! Non posso!” “Estranno!” Não havia reparação possível para minha atitude invasiva. Só chorar me era dado. Não alcançaria nunca a conformação dele, o torneamento. Nunca como ele. Não teria as corolas rubras que seu corpo improvidente dispendia para a superfície de minha visão. Eu, viciado. Ele, inteiriço. Suspirei, de tanto que o choro era estúpido, de tanto que era imensa a beleza distendida entre panos convidativos. A irrealidade do meu mundo na realidade do mundo. Eu jamais a lograr a flora carnal de corpo justo em si mesmo, centrado em sua certeza de ser e, ao ser, escapa para os campos da vida – ali o carnaval. É próprio de quem é vivo viver. Eu, não. E morri mais definitivamente na varanda, a narcose revitalizante do corpo na ópera. Revia, a esmo, Clitmemnestra envolvendo Agamenon na manta tecida por ela. Amortalhado, ele ficou sem movimento, foi fácil abatê-lo. Deveria eu fazer o mesmo naquele lugar: destruir quem eu não poderia ser? De tal vilania eu não poderia ser capaz. Meu poder está no choro. Eu choro. Ele goza a amplitude do momento só dele, de mais ninguém, na música de 1835 que veio até hoje alinhando acordes para a reverência do corpo. Ele corcoveia, ele estremece, a intensidade de sua singeleza, de seu vislumbre. “Cessarono gli spasimi del dolore!” De que adiantam as últimas interjeições de Annima, de Alfredo, de Germont. “É spenta.” Violetta cessa. Volto em passo manso sobre meus pés. Não devo perturbá-lo. Ah, as interjeições!!! Deixá-lo é preciso. Seu corpo teso, amorenado, seu sexo gorgolejando sem enfado. Ele, garoto, tessitura firme. Ah, as interjeições!!!

Postado em por autor in Contos Deixe um comentário

Inexistência

 Relegado a um canto, ele sente o bramir do pânico que chama de caos e não-ser. Ninguém chega ao menos a supor a natureza destes invólucros que, a partir de dentro, o encaçapam na imobilidade e na asfixia.

Nele, talvez, esteja repercutindo  tudo o que leu, num esforço de erguer-se do chão para justificar, ao espelho, uma grandeza de mínima conquista a contrapelo do turbilhão. Na sombra e no silêncio, tendo ao fundo o mar e seus abismos, ele apalpa o próprio corpo, pois nem este ele tem certeza de continuar consigo. As esferas em torno dos olhos e dos pulmões e, por isso, também da mente, apegam-se à profusão de luz cegante, para jogá-lo com mais dureza e ímpeto contra as paredes.

Há torvelinhos de discursos, fragmentos de falas escritas na areia e no barro, tudo repuxando seus olhos para a dimensão da amplitude. Acontece que ele está estreitado pela própria ascendência de uma espécie de maldição: pensar. E, no pensar, pensar-se, aprisionando cada gesto na clarividência da lupa. Esta foi tendo vida a partir de camadas e camadas de matérias lidas. Então lhe fica difícil distinguir no emaranhado o que está sendo visto.

Ele sabe: o mundo em torno não é mais dele. As pontes ruíram. Ainda mais: quem transita por aí hoje dispensa as pontes, porque dispõe de outros meios e necessidades. Enquanto isso, ele sabe: aprendeu a usar os próprios pés, a sustentar a cabeça numa linha além da demarcação improvisada ali na frente. A fúria dos que ele encontra não é que seja bárbara. É vazia e, assim, que impulsão pode lhe fornecer em termos de caminho e andanças?

Tem consciência de que se manteve distante. É que a matéria do mundo, o barro dos dias apresentam-lhe constituições inócuas, uma vez que nada diz nada à voracidade com que, um dia, ele teceu seu ficar-de-pé, crendo num ajuste de contas provável com o próprio nada de onde ele provinha e onde, assim mesmo, ele acreditava encontrar ordenações que pudessem trazer ao seu ser o que até então se conhecia como a verdade do ser, sua substância, essas coisas, cartelas de todo ignoradas por quem hoje se põe a caminho.

E o que ele vê, com ou sem lupa?

O porte auferido ao longo do que entendia como substância de experiências, além de deslocado, é traduzido como desvantagem de criatura primária, sem a nutrição segundo fórmulas entronizadas por tudo aquilo que luze no mundo de negociatas rápidas. Noutras palavras: ninguém repara nele. Constituiu-se como um zero para o redemoinho engrenado no meio do mundo.

Então, com um sorriso quase invisível, diante do espelho, ele reconhece seu anonimato. Não por que seu ser e sua vida sejam refratários aos nomes de hoje. Não, ele simplesmente não existe.

Postado em por autor in Contos Deixe um comentário

Prometeu

Escolhi o barro preto e moldei-o com mãos maternais. Fiz longilíneo seu corpo, pois assim me parece que os ventos não o atrelariam nas corridas à margem do riacho. Como olhos, esculpi as cavidades com suave enleio e ali depositei substâncias do céu noturno e da floresta, para o cambiante torná-lo mais harmonioso com o projeto que tinha em mente. Sua pele trigueira tinha herança da África e este foi um propósito firme meu do qual nunca larguei mão. Amoldei seus lábios para o sorriso resplandecente e seus cabelos eram tão negros que ofuscavam meu olhar com as mechas azuis em raios ondulantes pelo ar.

Queria que ele fosse leve, tênue, uma junção perfeita de opostos que jamais são opostos. Acho que consegui. Ao despertar do sono, ele se moveu com delicadeza e ao perguntar as horas, sua voz era macia, seu hálito vinha da maçã ainda desconhecida. Esticou os braços. Estes rebrilharam ao sol. Minha vontade foi abraçá-lo, dar-lhe um nome, mas a emoção do criador, neste momento primeiro, pode trazer fissuras e mesclagens a danificar a obra que me consumira tantas semanas.

Sem omissão, eu o amava na sua sonolência e estava ansioso por vê-lo agir, fazer qualquer coisa que detonasse sua condição humana. Ou ele ficaria de quarentena até acostumar-se com os próprios membros? Toquei com um dedo seus lábios e senti ali o calor pulsante da criatura viva e isto emplastrou minha alma de maior admiração e encanto. E se ele se tornasse um nômade, não voltando jamais à minha companhia? Recusei os pensamentos trituradores. Afinal, acabara de realizar uma obra perfeita.

Levantou-se. Olhou para cima, onde em galhos frondosos as folhas balançavam e constituíam um arabesco de luz sobre seu rosto lustroso. Pediu, sem vacilar, para dar uma caminhada, conhecer os arredores, tomar um banho.

Repousei um bom tempo sobre uma pedra. Em minhas mãos ainda havia muito dele: barro, luz, lascas de nuvens e céu, a linfa que eu lhe dera com um sopro na boca. E se ele voltasse atirando-se ao meu regaço? Eu acariciaria seus cabelos de noite, contornaria seu rosto e ombros e estudaria os vestígios de mim mesmo repassados para ele com ou sem consciência. Minha têmpera transfundira-se para ele?

No ócio pós-criação, quase dormi. Quando me deparei com sua corrida. Ele saltava sobre arbustos e pedras,

Mastigava folhas e talos e sorria, satisfeito por sentir-se num circulo cujo núcleo era ele mesmo. Ele sabia-se substância viva, ligado em rede a cada pulsão da matéria ao seu redor. O corpo, rebrilhando, bramia. A amabilidade intocada do recém-desencantado de matéria quase morta. As partículas sonoras de seu corpo tenro chegavam até mim, e abri de todo meus olhos para medir sua compleição, para contemplá-lo em análise sem química racional: ele era belo – moreno, cabelo negro e curto, rosto afilado, olhos voluntariosos, boca em harmonia com os movimentos, membros delgados sobre uma estrutura óssea que lhe dava firmeza e, ao mesmo tempo, o fazia leve como um pássaro. De tudo ao redor, sobressaía seu ser como a aurora espumante sobre o mar, que eu pretendia que ele conhecesse logo.

Enredou-se pelas ramas das plantas, descobriu frutas sumarentas e deixou a massa delas escorre-lhe pelo peito. Em cada ponto de seu corpo, algo brilhava. Às vezes ele ficava parado por longos minutos, contemplando flor, pássaro, cipó. Será que se sentia um intruso, sem saber bem o que fazer, refugiando-se atrás de um tronco? Era exultante o contraste de sua pele negra com o verde musgo da árvore. Contudo, suas manobras eram de triunfo, um bailarino em estado de graça, em seus surtos de alegria partilhados com os elementos acompanhantes de sua caminhada.

Da pedra eu o assistia a fim de depois retrair-me em seu significado. A aragem da tarde deve ter feito com que ele sentisse frio. Achegou-se devagar, com o sorriso sem esquivas bordando o rosto e dando à fisionomia uma nobreza calma que mais me persuadia de haver realizado, enfim, a obra-prima.

Ele sentou-se ao meu lado. Triturou com os dedos umas hastes de capim. Me tocou muito de leve, como se ao fazer aquele contato algo oscilasse dentro dele. Olhei-o. Seus dedos em minha perna eram balsâmicos. Ele me perguntou:

– Você é meu pai?

Demorei um pouco na resposta, porque em tais situações nunca encontro a palavra adequada. Irriguei-o com meus olhos de amor e cautelosamente falei:

– Sim, de certa maneira, sim.

A cabeça dele balançou com vagar, como quem analisa um problema difícil de entender. Voltou a me olhar e a me perguntar:

– E isto pra você é bom?

Poderia dissipar-me em eloquências elementares. Preferi ser breve, ser sucinto:

– Sim! Isto pra mim é um encantamento.

Na sua lucidez de quem acabara de sair do casulo, ele então se levantou, pegou uma pedra de razoável tamanho e esmigalhou minha cabeça, prendendo-me ao rochedo até hoje. Sou repasto de vermes e mosquitos e, sem condições de locomover-me, uma vez ou outra tenho notícias dele. Nem sempre são boas.

Postado em por autor in Contos Deixe um comentário

Kiriam

Kiriam tinha seus sonhos escalados. Mesmo que não os nomeasse. Eles guardavam a explosão das sementes, a pata do cavalo marcada no solo a indicar o norte. Kiriam confessava-se ao espelho e julgava mágico seu perfil. O raio dos olhos esbatia-se nas superfícies lisas e compunha o arabesco elaborado com seu interior de muitas cores.

Os sonhos de Kiriam iam além de simples promessas a si mesmo. Era seu jeito de curar-se da infância, de livrar-se das heranças incômodas e poder manter-se de pé na própria estrutura que construíra com sua determinação. No longe das coisas afunilava-se um fim, um desaparecimento difícil de alinhavar. Kiriam resistia a apenas esperar, porém. Laborava um júbilo de aurora em cada pulmão. Seu raciocínio e experiência montavam a ciranda do feixe encontrado.

Ele queria gravar em cada tijolo o “Lembrete”, de Drummond: “Se procurar bem, você acaba encontrando/ não a explicação (duvidosa da vida,) mas a poesia (inexplicável) da vida.” Entre o duvidoso e o incerto, este exercia maior apelo, tinha maior afinidade com o não-nomeado.

Na chuva, ele sabia inscrever a carta do primeiro inventário e navegava por ele, pois é sempre ameno bordejar a terceira margem. Fazia perfurações na ondulação do cotidiano só para perceber como o solo era fértil, e o barro sutil em sua mão era outra alternativa dos sonhos em escala crescente.

Guardava chapéus e mochilas na prateleira para não ser apanhado na rede da epifania repentina. Também ouvia música gregoriana, com os dedos a acariciar pedras de rio, sentindo brotar destes elementos a energia dos reis vencedores de batalhas nos antigos tempos. Via as centúrias cintilando sob espadas, mesmo que nada em si o levasse a pensar em guerras. Ansiava por montanhas, rios gelados, matas sem intrusão de estrangeiros. Era um casulo, sabia, e sentia-se bem nele, no propósito de não romper o horizonte desfilando desde seu estômago.

A novidade é que para ele estava banida a tentação de posse. Aspirava pelo ar, pelo tom dos verdes e à fidelidade de na viração dos ventos seguir seu odor. Ondular segundo o dia. Atirar-se no rio gelado. Habitar o cenário vazio, apenas pincelado pelo iridescente dos pássaros.

Kiriam iria misturar chocolate com hortelã e deixar o refrescor animar suas vísceras para com mais satisfação prometer que iria adiante. Sem volta. Sem endereço antigo. Curado das teias flagelantes da infância. Gostava da vida com quietude, superando as ameaças. Nada de indagações e sim de caminho, sendas.

A reserva de seu interior era a marca de que o objetivo seria atingido ainda em plena juventude. Os cabelos revoltos, os olhos negros, a pele tenuamente morena, mãos afiladas, corpo de linhas cultivadas com o empenho do nadador, era-lhe possível encontrar a completude sem arrastar-se. A navegante tepidez do poeta. Era tão suave sentir a ardência da grama sob os pés, o lustro das folhas largas na ponta dos dedos. Sua visão era de época antecipadora. E, desta forma, ampla, da extensão do Cruzeiro do Sul.

Em qualquer margem da vida, a ação era tudo. E as sementes despontavam da terra e se inclinavam os talos na brisa e diziam ser bússola para Kiriam. Ele partiu com a jornada a desenrolar-se de seu fígado, até perder-se de vista.

Postado em por autor in Contos Deixe um comentário

O riacho podre do aborto

O aborto é feito com uma borboleta amarela transpassando os olhos. Usa-se também certa dosagem de sal no cérebro, para que suas membranas luminosas e aveludadas se desprendam do sangue e tenham condições de nadar em outros líquidos presentes na casa.

A atividade do aborto é transfigurar os olhos e, desta forma, o jardim muda de figura. Em lugar de anões, haverá um campo de papoulas e Van Gogh não perderá tempo com a loucura de macerar a própria tinta.

Um rapaz lido e belo, de rosto calmo, pele morena, olhos entristecidos pela lua inalcançável, cabelos negros e muito curtos, atravessará a rua e tocará na colméia repleta de mariposas. Seu sorriso resplandecente servirá de persuasão manhosa diante dos lagartos – estes abandonarão os ninhos decididos a não devorar borboletas, instrumentos fundamentais em nossa empreitada letal.

E tem a faca – lustrosa, ígnea como o rapaz, faca de corte doce, cuja versão épica é decepar os membros coloridos pelo sal, aguardando a cerimônia do aborto.

O aborto se faz com pinças e nenhuma relação mantém com as velhas fofoqueiras da Idade Média – tempo de conversas perto do fogo, círculo de poder da mulher, sinal de nascença de muitos contos de fadas. As velhas de nariz adunco, escondidas sob vestes negras, estão ocupadas com o cultivo de borboletas.

O tempo e a técnica não devem refluir. Abortos são necessários aos milhares: em casas, em bares, em praças públicas, em salas de aula. Ali o rapaz moreno vibra seu sorriso e mostra-se atrelado à rota dos astros, quando lê-los é mais seguro na confirmação de sua tarefa, a alguns tão insana quanto beber um litro e meio de cachaça no batizado do malandro. Ofegante, o rapaz rasga sua camiseta branca e apresenta os mamilos como duas rosas negras de tom roxo. É o sinal para o órgão iniciar a salmodia ondulante.

Ela toma conta da casa, do teto aos tapetes. Um cavalo trota na varanda, depois atira-se sobre o jardim, esfrangalhando as papoulas amarelas, casulos de borboletas. Van Gogh não se desespera. Acostumou-se ao ataque dos inimigos, ao riacho podre do aborto.

O que o aborto tira é sempre chulo, inútil, sem cabeça. Eis a razão de se começar pelo cérebro. É custoso, é aviltante, contudo, o rebento das mãos endurecidas e trêmulas não tem como vingar – há um decreto dos deuses de sabão a exigir o corte bipartido da extravagância. O peito afundado pela não-posse precisa prevenir-se e perseguir a preciosa pua peneirada pela polarização dos putos.

Assim: por que um sempre lá e um não aqui? Por que as tripas rosnam no que anteveem e continuam em plano de declive? Aborto. Aborto se faz com a derrapagem na luz amarela sobre nossos olhos. É o desnudamento das flores negras armazenadas em nome de outras bocas. Elas dão leite a quem foi hipotecado pela vida e dispensa o beber, o alimento, as fezes, a urina, o olhar pela janela, quando busca um conglomerado de ovos de borboletas amarelas, sobre quem pende a papoula única alimentada pela merda.

Aborto. A canção rascante triturada pelos pés a resvalar de trilhos enferrujados. O aborto deforma o opaco cilindro que guarda a engrenagem da dilatação, de novo, e dispõe-se à outra boca saciada ou em posição de cadeado, como se fazia com as bruxas medievais antes de lançada a maldição, depois do chá de papoulas fazê-las dançar à la Dionínio ao som de contos sobre príncipes e princesas, ogros, mulheres sofrendo com enteadas e vice-versa, o terror do casamento e o mundo estranho, o pavor com o parto quando mãe e bebê morriam entre lençóis manchados.

O aborto é a reparação do turvo amplexo. Se faz com a impenetrabilidade das imagens do jardim no cérebro. Nada custa menos. Mentira que seja aviltante. É algo elusivo, um malogro a maquinar a vingança de outras vinganças. Só isto. Apenas. Nada mais. Ou menos?

Um risco de curare na mente, no globo albugíneo do estômago. E os lêmures saltarão pelos ouvidos, deixando em paz o cérebro. Este buscou sossego e recolhimento ao descer a escada em degraus apressados. Sem réplica alguma viu a figura desvanecer-se no abismo da cidade: o rapaz caminhava de mãos nos bolsos, dentro de uma canção. Ficou o rastro da fragrância perdida – África –, ficou a esfinge de nobreza impressa sobre o sexo pobre e purulento da espera. Senhores, este é o protocolo da obsessão visual: aborto se realiza com tisana, na finitude contraditória do cérebro, mesmo sabendo que ele não será patrulhado e amanhã outra dosagem deve ser imposta para calá-lo, enquanto o rapaz lê Nabokov sob a luz da madrugada.

Postado em por autor in Contos Deixe um comentário

A casa, a mãe (puta), o rapaz, o escritor e Deus

 Uma casa explode no ar. Talvez não haja muito prejuízo. Afinal, o que é uma casa? O oco cercado de paredes? Ela sequer é o mundo, é, mal mal, parte dele. O menino não estava dentro dela e sim na rua, movido por imagens de uma câmera, à procura da mãe. A mãe é puta, dá todos os buracos para qualquer homem forte o suficiente para as estocadas nas carnes que nunca se gastam. Nada se apega às paredes do útero de ferro. O menino não conhece nenhum desses capítulos, está na rua, a rua é deserta, distende-se à frente dele como uma casa no estertor do gozo, ou, como a casa, no ar, em pedaços.

Num dos pedaços, o escritor tenta inventar alguma coisa – domingo à noite, compasso murcho à beira do poço. Com urgência, precisa encontrar nem que seja o rabo de uma idéia – depois vem o corpo inteiro e, assim, a gota no interior do poço. Até em Deus ele tem pensado – aquela história: um caminho, uma luz, a redenção na inteireza do ser. De que modo conciliar as pontas? Deus se tem mostrado esquivo. Incompreensível não é quem é Deus, é como aceitar Deus, acreditar nele, em caso de sua existência, o que faço, como viver a relação, a ele se credita o quê, no final, na rabeira dos termos? O estilete a cavar: ser tão amorfo e contraditório a ponto de, se você pegar por um lado (pelo rabo), escapa pelo outro (as feições iridescentes a brotar do buraco). Ainda assim, ele, o escritor, tem se esforçado – o estilete sob cada pálpebra. Desconfia, com algumas cartas na mesa, outras debaixo das solas do sapato, de que não vai ser, o final dos termos, pelo caminho daquela história: plano de redenção, o filho tornado homem, morrer pelos pecados do mundo. É sangue demais! Deus seria um ente sanguinário roendo osso no fundo do poço? Para abrir as portas etc., não haveria um outro meio, digamos, mais humano? Quando o homem investe em espinhos, cravos, cana, chibata, túnica sorteada, tronco, cruz – o patibulum, a furca – o promontório da caveira, sepulcro na rocha, não tem aí apenas uma extensão de suas novelas diárias, não buscaria para elas, digamos, um quê de glorificação no copo já seco, no poço já sem fundo, no útero cimentado de esperma seco? O caminho deve ser outro. E Deus, como deus, necessariamente optaria por ritual de gosto mais passável. E se Deus é o tipo de ser que nenhuma religião, nenhuma teologia, nenhum pigmento hermenêutico ainda o flagrou? Mas há certeza: Deus, como Deus criador, só pode ser humano, dado que criou, digamos, o humano. Veja bem: o filho tornado homem chega, passa por todos aqueles portões de pedra, as piscinas cheias de paralíticos esperando por gesto medicinal – oh, dom paráclito – arrebenta-se, cria certa centelha em centenas de histórias parabólicas, morre etc. Para o bem do mundo. Que bem? Que mundo? Por que por este través? E os que nasceram e morreram antes dele chegar? Estão condenados por uma questão mínima de séculos? O tal do plano é meio furado, não? Ou pisca para o calendário? E por que Deus decidiria os rumos naquele momento, não antes, não depois? Digamos: hoje, com toda a parafernália tecnológica para emitir sinais aos homens canalizados. Você ouviu, com certeza, a versão moderna: se fosse hoje, seria internado num hospício etc., o que certamente chegou aos seus ouvidos, os ouvidos dele, é lógico. No eterno – ausência de tempo – pode haver brecha cronológica, por exemplo, agora, neste instante vou mandá-lo à Terra? Tá certo, o cara veio, botou sangue pelos poros, até suar em vermelho dizem que ele fez (antecipando o pobre rei francês envenenado pelos inimigos por meio de um livro de caça – Umberto Eco também pegou a deixa – Karen Blixten lembrou-se do primeiro fato em suas andanças colonialistas pela fazenda africana). Esta é a verdade, dizem (ainda que muito e muito só foi estabelecido séculos depois, na base do “ouvi dizer quê”, assim, fábula puxa fábula, perde-se o caráter de mito e sobre ele se dá uma pincelada de textura histórica, melhor, de REVELAÇÃO, o que é só outro nome para o viés mitológico – os homens sempre gostaram de sofisticar suas crenças – afinal, temos o orgulho de, depois da árvore, ocupar a caverna e, depois desta, inventar o capitalismo – como ficaríamos prostrados diante de deusecos de barro, madeira, pedra?). Se esta é a verdade, é e só pode ser, de um certo ângulo. E as outras partes outras da humanidade que se acolhem à sombra de outros tratados, outras exegeses, outros mitos, outros profetas? Tudo aí também é revelado, inspirado, interpretado, provado, milagrado e com todos os cálculos probabilísticos em dia. Cada tribo com seu alfarrábio mais pesado para acertar de forma mais eficiente a testa do outro da outra tribo cujo outro deus faz outra sombra que espanta a LUZ que desejo somente minha. Eu sou o indiciado. Eu ouço a voz. Eu tenho as tábuas da lei. Eu trago inscrito em fogo na chama de minha combustão interior a letra viva do mandamento. E se ele veio e ele é quem deveria vir etc., e fez o que fez etc., isto é, salvar – quer dizer, o homem tá salvo? Acabou o pecado, suas margens, seus centros, suas centopéias? O homem então não peca mais? E se a gente olha o mundo, constata o quê? Lá vai na passarela uma chusma de banqueiros. Lá vem na passarela uma alcatéia de empresários.

Neste ponto, o escritor toma um espelho de dentro do sapato e se olha. Tem apenas uma exclamação: Vixe!! Então: por que aquele filho de Deus etc., não continua vindo de tempos em tempos, ciclos, temporadas, missões, discursos pela rede que hoje encarna a onipresença, a onipotência etc. Para resgatar esta coisa difícil e meio calcinada – buraco seco, de pedra, poço cego, de areia – que é o homem? Digamos: a cada geração e meia, ele vem e faz a limpa, colocando todos os is debaixo dos pingos e pontos? Não precisa mais de vitimismo de cruz, rosto estampado em lenço de madalenas. As camisetas se encarregam de distribuir os novos bordões. Até Che Guevara, ícone dos que esperneiam contra a canga tá hoje fazendo o rolo compressor faturar mais, seja em camiseta, boné, broche. Já foi a um congresso qualquer? Vá e repare numa daquelas barracas: é indefectível: o Che que foi furado pelas balas dos que não o toleravam porque ele não tolerava o método deles, hoje, com o mesmo método, é faturado doidamente em cima da sua cara que nunca precisou de coroa de espinho, cruz, calvário, terceiro dia, chaga com o dedo de um seguidor bem lá dentro. Furaram seu peito na floresta e da mata ele se irradiou pelo mundo por dois caminhos: ainda embasa a luta, ainda embasa o lucro.

Vamos, pois. O homem, este hominídeo primevo, que se pensa rei e é feito de matéria de terceira categoria, um depositório de gazes e vermes, movido a papel moeda como se esta fosse a única verdade palpável e locomotora, não convenção, não mito, o homem, pois, este, foi salvo. Seria reciclável sua salvação? Coisa assim a ser refeita a cada geração e meia. O filho de Deus que também é tido como filho do homem viria para fazer a limpa. E sem aquela danada história de os bons à direita, os maus à esquerda, porque aí já está tudo torto outra vez. Experimentemos mudar: Deus senta na nuvem: à esquerda, os que viram a luz e foram chamados de loucos. À direita, os que apalparam a escuridão, inventaram a luz, e mandaram conta para todo mundo e faturaram horrores e, por isso, agora, queimarão no mesmo ritmo em que suas montanhas de papel cresceram para seu beneplácito. Assim, feito nós que nos reciclamos, ele vem de tempos em tempos e faz tudo de novo.

Os trilhos, por favor, onde estão os trilhos. Que me levem para um túnel, do outro lado o vale verdejante do outro lado, nunca o buraco seco, gestos de areia, poço de pedra e cal. Por que o filho de Deus, que é chamado de o filho do homem – o que não é mera repetição, mas ênfase – não vem e aponta, orienta, diz a segurança? Poderia ser um curta longe de Hollywood. Logo desabam sobre a cabeça do escritor os tratados incólumes: a Deus repugna interferir na liberdade do homem, o homem tem livre arbítrio, deve ter condições de optar etc. (Acho mesmo que Deus devia, de vez em quando, ouvir a clarividência de Saramago, quando chama o tal livre arbítrio de “história da carochinha”.) E Freud? O que este barbudo confabulou em torno dos tormentos, sobre suas motivações, lá no buraco escuro do que é sem ser, tudo isso não vale um vintém? Bazófias!! Claro que depois chega Bakhtin e mostra que a sombra já nascida incrustada na cabeça do homem é mito que se desfaz fácil, fácil, basta teoria nova sobre a língua e desaba o edifício dos arquétipos edipianos e essas universalidades duras de engolir quando o homem é o que é no gerúndio do ir-em-sendo do descentramento sem margem esplêndida.

Mas não estou aqui para polemizar. Apenas apresento cartas do jogo. Jogue quem quiser, do canto da mesa que mais lhe apetecer. Mas que já disseram boas e retas e tortas, disto ninguém duvida. Cá comigo: desde quando orientar é impedir alguém de ser livre? A civilização inteira é um amontoado de setas indicando direções. Nós, humanos vertebrados, chegamos aqui arriscando direções e temos como dever e orgulho ensinar e orientar e fazemos nossa cultura de um punhado de direções erguidas para o outro se orientar. Logo… Qualquer um sabe que liberdade é conhecer o lugar onde se bota o pé e tudo o mais e o porquê.

Tem o seguinte: o homem sabe alguma coisa que Deus desconhece. A dor, por exemplo. Deus não sofre. Não tem uma raiz pulsando amarelo dentro dele. E há ainda outro dente nesta boca que se escancara e engole o mundo: a árvore boa dá frutos bons? E foi Deus que fez o mundo? Então, que Deus é esse, em termos de qualidade, digamos? Cadê o feedback? E o tal filho do homem com seu lado ferido, melhor, com seu lado feito o nosso, não podia ficar do nosso lado, uma colherinha de chá apenas? Prometeu não veio com o foguinho? E se danou muito mais, coitado, lá aguilhoado, como querem os portugueses.

Neste ponto, outra vez, o escritor, radicado sobre um daqueles pedaços que flutuam no ar pós-explosão, sente-se uma criança. Ah, diabos, onde fui montar minha égua! Todo argumento é inútil. Ele percebe-se sem entranhas, sem bílis para ir mais fundo, nem o caraminholado lado do cérebro ajuda. Tem certeza de que toca questões difusas que, bem tratadas, poderiam expor, didaticamente, todos os furos – ou muitos, uma boa coleção – e contradições dos mitos e, lá no fundo, estaria mais do que colocado: tudo não passa de mito, até o escrever, um representar do representar, o espaço ocupando-se após o espaço ocupado. Nada se sustenta. E aí o impasse: é ele, o escritor, que pensa, porque sente o oco mordendo suas bases, uma compulsão para o abismo, chusma de perguntas diante do grande vazio, do infindável silêncio, do insuportável mau cheiro da porta fechada de um domingo à noite.

Do seu ponto privilegiado – recordemos: a casa explode, o menino na rua, a mãe puta, e num pedaço que se esfarinha no ar, o escritor com seu caderno – poderia ser um notebook, mas este ainda não tem o halo romântico que esta história solicita para ser minimamente representativa em termos de puxar os rabiscos que já eram feitos nas paredes das cavernas, lá atrás –, com seu caderno de notas. Folhas rabiscadas. Esquemas de vias que ele mesmo tem preguiça de averiguar até onde vão, no crespo fim de um planalto sugando a amplidão. É aí que ele sabe: será mais um a tocar a fímbria e deixar por isso mesmo, nas desavenças e ciclones do todo dia que o forçam para outros, digamos, exercícios. Você já prestou atenção quando se trata de alguém falar sobre alguma coisa em algum evento qualquer: ESTOU AQUI PARA PROBLEMATIZAR AS QUESTÕES. NÃO TRAGO A VERDADE. MINHA INTENÇÃO NÃO É FECHAR QUESTÃO, APENAS TRAZER ALGUNS PONTOS À CONSIDERAÇÃO DE VOCÊS. Mas por que diabos o desgraçado assumiu a tribuna? Estamos fartos de questionamentos, de outros ângulos para outros pontos. Queremos UMA definição AO MENOS que nos traga UM ponto onde possamos nos agarrar antes que a grande onda nos leve. Se todo mundo vem só para acrescentar mais questão às tantas questões, ficamos assim à deriva. E por que o fulano tem título, produção, nome, currículo e ainda é pago para estar lá em destaque? Saímos do anfiteatro com a cabeça fumegando e ele diz que é justo esta a finalidade do evento. É? Ser churrasquinho de si mesmo.

Pois do mesmo modo comporta-se – pasmem!! – nosso escritor neste momento, diante do que arrola, desenrola e enrola, deixando-nos tão insulados quanto sempre estivemos, nós, que estamos aqui, na tentativa até bem humorada de beber de suas palavras alguma sábia decisão que nos trouxesse lenitivo e óleo para pensar nossas tantas feridas, nós, os atribulados homens caídos à beira da estrada que precisávamos dele como o bom samaritano, função da qual ele se furtou, como qualquer estrela de qualquer evento, ainda que cada qual embolse uma grana para comprar mais livros, aprender mais, aprofundar mais, trazer provocações mais criativas, investir em rachaduras mais promissoras e. Ficamos assim. Um ponto contra a parede muda.

Do seu ponto privilegiado – vê o mundo, o silêncio, o vazio, a dança das cinzas – a pergunta ele sente que cutuca na toca. E a vara não vai mais longe, afinal, a casa já explodiu, carne esturricada entulhando a cova ressequida. E nas cinzas que o vento leva para lá, ele, o escritor, percebe: talvez Deus conte com isso: o homem escarafuncha a antiga ferida, o vergão, o traste surrado e não tem nenhum modo de um passo adiante ser dado. Por isso, viver é gratuito: vai-se indo, embolado no tiroteio. Deus conta com esta conta. No crepitar da crista da onda de fogo e fátuos arcabouços do que nunca chega a ser, a opção única é uma, a mesma, em dois caminhos que se bifurcam em sendas várias e não deixa de ser o idêntico caminho ainda: no enovelado do drama, você aceita o caos das coisas, recebe o coice e não pergunta na dor ou pergunta. O desafio é este, a ponta em fio da faca gorda. Em nenhuma destas facetas o lenitivo, a bênção, coisa assim de consolo diante do vazio, do silêncio, do plano infinito onde o nada chama para a corrosão final. Na dor: pergunta ou não pergunta. Se pergunta, explode. Se não pergunta, explode. Sangue, retalhos, veia do câncer.

A casa dana-se contra as paredes de tábuas, põe nos ares sua madeira sem lei, enquanto o menino, já rapazote, num velho motel do que parece ser o oeste, senta-se numa cadeira, põe o pau pra fora e deixa que um velho o chupe. No gozo – se gozo é ver as pálpebras pulsando (também um tanto amareladas) sobre olhos que buscam, estômago em pedra de quase arranco na garganta, nos passos incertos do refrigério – no gozo, as notas aninhadas sobre os pêlos que vão ao caralho ainda em pose, o rapaz vê, sente, pressente, relembra, imagina a casa esfacelando-se como qualquer brinquedo em pátio de família sem renda.

A mãe, vestida de azul – foi com ela que sonhei ontem, descendo uma escada, mostrando-me o outro lado da rua onde um menino seria encontrado para preencher todos os meus buracos, o menino, meu filho, aquele que veio para que nele eu botasse minhas complacências, belo espécime de moreno quase índio, deitado à beira do asfalto, à espera do calor de minhas mãos que jamais serão suficientes para evitar que o grande vazio chegue até sua carne jovem e a preencha com as teias do absurdo. Minha mãe de azul, no topo da escada, dizendo para que eu atravessasse a rodovia que ele, meu filho, meu salvador, estaria entre a relva manchada de óleo dos caminhões, a minha espera, enrolado em trapos ou em jornal, a linda cara voltada para a direção por onde chegarei para torná-lo meu, aquecendo-o com esses braços magros que só servem para isso mesmo, dar um pouco de proteção e carinho a um guri sem pai que agora tem em mim o pai que nunca poderia ter –, de azul, entre névoas e brumas, caminha daqui para lá, na varanda da casa que é tragada pela poeira.

Esta história não tem sentido aqui. Gus Van Sant contou-a por meio de desertos e sórdidos homens do muladar, oh, my own private Idaho e River Phoenix deu conta do recado, deu de si tudo ao sugar das estradas ermas aqueles rostos sem foco, e ele já é cinza, hoje, para ressurgir no rio dos pais hippies em busca da permanência mitológica, ave que voava em seus cabelos, em seus beiços de rapaz abandonado pela mãe, pé na estrada e dinheiro para comer ou dar a comer de qualquer jeito.

Neste ínterim, o escritor, cônscio da impossibilidade, digamos, de um tratado, uma vez que habita fragmento de explosão, e já nos ares, percebe a longa jornada à frente – rodovias rumo ao além do local onde alcança seu compasso, vastidões distanciando-se na aquosa miragem do nenhum para River Phoenix avançar, já que seu destino é ir e ir e ir – se insistir nesta tecla, nesta tenda de rasgos sem remendos. Bate no delete – após as anotações arroladas ele rendeu-se ao micro –, é domingo à noite, chuva, e desaparece no esgoto junto com a água da rua.

Pelo friso da tela, o perfil da casa brilha: dentro a mãe solta gargalhadas sem alerta, abraça um cowboy e dentro do trailer avança para o vazio. Por este lado, vai o rapaz. Roma pode ser na próxima esquina. Que fazer com este mal? Com este corpo? Com tais perguntas sonsas? Para o interior da jaqueta vermelha ele se encolhe, com um piscar para o escritor: tente outra vez. O escritor pressiona o delete. As imagens concentram-se numa vaga pulsão. Escuro. Tudo é cinza escuro. Bom, agora já sabemos por onde ir. O jovem à beira do caminho esfrega as mãos. Não é meu filho ainda, nem será. Ele sente frio. Encolhe pescoço e ombros em busca do autocalor. Estreita os olhos à procura da faca fina do horizonte distante. Virá a síncope. A mãe, protegida pelo fogo eqüino no peludo ventre sobre suas carnes flácidas. O menino no desamparo da amplidão que se abre para quantos corpos ele terá de travar durante a viagem que o retornará a si mesmo, no útero seco da casa sugada pelo poço.

Quando Deus fez o mundo sabia desses desvãos e não moveu uma única pedra para endireitar a seta do caminho descendente. E dizem que ele é fiel. A quem? A quem faz dele um balcão de jogatinas de interesses em nome de outro leilão chamado eternidade? River Phoenix descobre a madrugada no corpo do amigo com quem dormiu por algumas horas e por quem nutriu um certo amor, mal balbuciado em torno da fogueira de merda. O escritor também sabe disso, ainda que não tenha a nossa posição privilegiada: estamos fora do texto. Exotopicamente vemos o que ele não vê e podemos estender a rede até águas que ele não alcança. E quando ele é sugado pela ventosa da tela que se faz em escuro cinza de nada que se consome em brasa apagada com a última luz da madrugada, sob a chuva que lá fora se debate contra a vidraça, no frio vidro do dia que há de vir, como outra face de tempo para River Phoenix postar-se na busca, o escritor, antes de desaparecer na própria criação nos aponta para a margem externa de sua tela.

Olhamos e vemos: uma foto de River Phoenix, os cabelos loiros agitados pelo vento. A expressão de certa perplexidade paciente. Este não é meu filho. A mãe ainda bebe um pouco de uísque, depois sussurra coisas de vaca ao ouvido do último sátiro. O filho, perdido, enrola-se em jornais para que eu o ache um dia, no dia de minha vitória contra a solidão que nunca virá. Porque disso Deus não é nem um pouco capaz: de nos dar a felicidade na medida de nossa precisão. Medimos centímetros. O mundo, não.

Postado em por autor in Contos Deixe um comentário

A moça feia

Desde menina ouvia as pessoas dizer que ela era feia. O cabelo liso e oleoso mantinha-se quase grudado ao crânio. Os olhos, muito estreitos e aproximados, davam ao seu rosto um toque bidimensional, como a personagem descrita por Andrea de Carlo em Trem de Nata. As pernas eram finas, compridas demais, com joelhos saltados que geravam comentários:

– Joelhos de guri que joga bola.

No começo, isso a incomodou, ainda que não lhe fosse clara a dimensão da beleza e seu oposto.

Contudo, a aguda música de palavras duras foi-lhe ensinando a criar uma couraça em torno de si. Dentro deste espaço interior, quase sem contato com o mundo dos outros, não sonhava, não admirava possíveis traços de beleza alheia, não sofria com os signos expelidos pelo espelho. Ela ia, na seqüência ininterrupta dos dias, armando-se de certa indiferença, conformismo estratégico para não ser abatida pelos animais vorazes e seu discurso e sua garra e sua língua de aço.

Um dia, especialmente cansada, vinha da feira com duas cestas de legumes. O céu baixo comprimia o mundo, a ponto da rua de asfalto parecer mais achatada. Com as cestas, arrastava os pés devagar.

Passando ao seu lado, um menino contemplou-a com visível curiosidade e disse:

– Que linda! Parece mar em dia de chuva…

No primeiro instante, ela achou que o comentário se referisse a alguém próximo. Não havia mais ninguém por perto. Chegou a pensar que aquelas palavras tinham sido dirigidas aos legumes molhados no brilho de hortas distantes. Pesou o fato e concluiu o óbvio: linda e legumes não formavam unidade.

A expressão, o encanto só podiam ser referentes a ela. E sentiu-se leve.

Os vestidos, daí em diante, passaram a ser verdes ou azuis. Usou conchas nos cabelos, caprichosamente ondulados. E pisava de tal maneira que seu corpo vagava insinuante para cá e para lá. E em torno dela a redoma do ocultamento se desfez. As linhas eram reveladas, os tons de seu ser tinham algo para envolver-se com os olhares, como gavinhas no tempo da geração do fruto de sumo e bebedeira.

E as cartas de amor começaram a chegar em marés, cardumes, redes cheias, sendo-lhe difícil pescar em meio a tantas preciosidades.

Certa vez, um homem lhe escreveu, em papel com leve fragrância de maresia, que ela era uma ilha e ele ficaria feliz se pudesse habitá-la para sempre.

Foi à janela e sorriu. As palmeiras dançavam. Ela mal as contemplou. Vagava com o pensamento nos oceanos do mundo: o homem só podia ser moreno, o áspero da barba amaciado por palavras ternas, gestos de quem conhece andanças pelas águas. Nos olhos daquele homem haveria o roteiro de tantas viagens que ela se sentia tonta na felicidade de expor-se a cidades, ruas e praças, conhecer seus sabores, seus cheiros, seus tatos, ela que até então fora muda, cega, surda, encurralada pelo chão batido dos que não contam com nenhum bem-querer.

Iria esperá-lo, ainda que não soubesse em que porto. E as espumas dos dias frisavam as horas com marulhos e cristas aquáticas. O bamboleio do mar anulando a linha do horizonte atravessava suas noites, agora espaço de preparação.

Ao amanhecer, corria até a caixa de correspondência. Outra carta mais ardente, palavras encarnadas no júbilo da certeza, a perspectiva do grande acontecimento cada vez mais delineada. As mãos tremiam, porque seguravam não apenas uma proposta aérea. Ali estava a chave. O mapa tomava proporção real. A ponte para o encontro estendia seus pilares. Os lábios da mulher soletravam as sílabas e ficavam úmidos, ajeitando-se para o que ela ia dizer e para o contato com aquele que seria o primeiro.

Coração e corpo assumiam plástica revigorante. Caminhar de volta para casa era inaugurar o mundo como lugar sem ameaça, sem esconderijo. E ela o inaugurava. Fechando a porta, recostava-se nela, os lábios mordidos na pressão da certeza, pincelados pelo sorriso de quem sabe: alguém vai chegar.

Postado em por autor in Contos Deixe um comentário

A professora de letras

A mocinha engraçadinha, bonitinha, de corpinho perfeito e outros inhos e inhas cabíveis nesta situação estava radiante. Recém-formada, conseguira emprego de professora substituta na universidade. Não se sentia tolhida por nenhum medo nem pela falta de experiência.

Ouvira falar que os alunos de letras não costumam dar trabalho. Aliás, ela fora uma aluna de letras e conhecia a realidade: em sua maioria, as turmas eram formadas por cabos do exército e da polícia, bancários em busca de diplomas para alguma promoção, donas de casa que, vinte e quatro horas por dia, são esposas de advogados, médicos, arquitetos e não suportam maratonas seguidas diante da tevê, na banheira com a criança maior, nas fraldas com a menor.

Ao final do primeiro mês no exercício da verdadeira vocação – sim, todos sabem, magistério é um sacerdócio – ela estava ainda mais confiante. Já lera um livro de Machado de Assis, meio chato esse, do século passado, ui, não tem nenhuma emoção nas histórias. E dois Jorge Amado, esse, credo, meio apimentado, não perdoa nada, até árvore entra em cio, fico toda molhadinha lendo o cara, credo, isso não pode ser arte, que é coisa mais sublime e tem ainda o lance de ser comunista, coisa lá dos anos 60.

Sua segurança profissional, maior e maior, vinha dos quase oitocentos filmes que vira nos últimos três anos. Tinha uma filmoteca razoável: pra lá de trezentos títulos, contando as fitas gravadas do canal pago e, agora, a coleção da revista Caras e da Isto É, meu deus, cada coisa maravilhosa.

E vira muitos shows de rock, trinta e três em apenas um ano. E as peças de teatro? Impossível contar. Todo sábado é uma, quando não tem conjunto bom, banda de primeira na cidade. E isso, desde os tempos do científico.

É convicta participante da geração voco-visual, verbo, nem tanto. Afinal, esta é ou não é a era da imagem, do audiovisual? Para que se preocupar tanto com livro? Ele está mesmo condenado, não está? Não desaparecerá em dez ou vinte anos? O computador vai dar fim nessa papelada toda amarelando, cheia de bolor, que só serve para ocupar espaço e proteger as traças. Me disseram que livro velho até transmite doença.

A informática tem mais vida, mais amores. Suas aulas vazam imagens nítidas por todo lado. Ela está em perfeita sintonia com os alunos, até na idade. Que gracinha é trabalhar com notebook. Levo o meu pra sala, com os cedês de poesia, ah, é um must! Um must! Aquelas palavras, aqueles sons soltos no ar!! É um must divino, maravilhoso, ultra-atualizado, sinto a vibração da imagem,

E nunca recebeu uma pergunta de aperto. Até que, já entrando o segundo mês de trabalho sonorizado ao léu de imagens em ondas e ondas, um aluno deixou cair, como quem não quer nada:

– Professora, o que é esse tal de pós-moderno?

Ela não vacilou:

– É muito simples: você está dentro do carro e pára num sinaleiro. Logo vem um desses negrinhos esqueléticos e sujos querendo um trocado. Ou pedindo pra lavar o pára-brisa. Ou vendendo uma bobagem qualquer de plástico. Você simplesmente fecha o vidro e fica no conforto do interior do carro, ouvindo Madonna.Você não pode negar: Madonna é o que há de mais pós-moderno: nome de santa e aquela sensualidade toda na voz, nos gestos tão…, tão…sensuais, esta é a palavra. Um must! E veja como ela faz sucesso no mundo todo. Não existe quem não seja fã dela, né? O que prova também a globalização como um processo que não tem volta e moderniza o mundo, acaba com a província, você não acha? Um mundo sem fronteiras e todo mundo muito bem protegido dentro do seu mundinho particular, sua privacidade atrás de um bom vidro. A pós-modernidade tem assim esses traços essenciais: você transita por várias áreas ao mesmo tempo. Por exemplo: o que estamos fazendo agora? Lidando com literatura, claro, mas a partir do som, da imagem que toca no ouvido e no cérebro, porque o que estamos ouvindo é poesia e esta poesia resgata o menestrel da Idade Média. Assim, damos um nó no tempo e recuperamos várias dimensões num mesmo espaço: som e imagem, palavra e sensibilização e tudo num mesmo circuito, não é maravilhoso? Eu acho, a vida tem assim muito mais dinamismo, né?

Postado em por autor in Contos Deixe um comentário

Abraço clandestino

Provo o fruto. O veneno escorre lento no retardo dos dedos. Ninguém conhece a composição química deste trincar: dente e carne. A pulsação me vomita para longe de mim mesmo. Dentro da cratera, gemo o uivo do humilhado. O peito rufla, apesar disso, no rastro dos ventos na campana. Fui também triturado por Terán no sujo piso de minha escola: eu contra a vida. E Korda não captou meu instantâneo, o transe, o silêncio. Não há como ouvir as muralhas e seu desmoronamento. Dentro de meu peito. Dentro de meu peito marcham soldados insones. A guerra perdida desde a primeira assinatura. Quem sobreviver a mim não precisa ter piedade de meus pesadelos. Apiedar-se é envolver-se com a compreensão. Não há matéria para deslindar, instrumentos de análise, retórica de apreensão. As asas. As vigas, os monstros definham com os lances de desafino constante: eu com a vida. Provo o fruto.Meu abraço clandestino é sombra há muito entranhada em minha forma de estar no não-ser. Ignoro séculos de blues e litanias. Elis Regina pôde reter-me na fúria lírica de suas toadas. Fui antes de mim ao podre do vento. Vi a tempestade. Telegrafei de lá. Nada de resposta. Rastejei com a pele em brasa em torno de fogueiras e ao longo das pedras. Nada de fonte. Fui-me assassinando em cada bocado do fruto. Posso não ter nada com isso. E de verdade digo: nada tenho com isso. Não sou o autor das raias do roteiro. Vi de perto o ninho de marimbondos avermelhando seu bastão de soerguimento rumo à vida. O bastão, ao tocar na pedra, não rendeu fonte. Rendeu caos, de cujos trapos me visto nesta hora parada. Poderia ter sido outro em outra circunstância. Houve peças movidas antes de eu conhecer o tabuleiro. Nele apliquei a melhor substância de meu porte pessoal: eu com a vida. Minha memória amarfanhada coleciona imagens em borrão. Os nomes não se colam às figuras. As figuras, às razões. As razões, aos caroços. Metido no roupão transparente, tentei e mais tentei guardar no recôndito o pouco tufo de grama. Tudo devorado pelas formigas.O assombro da hora amarela me prostrou ante vários declives e seu sulfato. “O mal que esperamos há muito tempo é mais suave quando acaba por nos tocar.” Mentira de Sêneca. Espécie de precursor do cristianismo, não soube como infringir a castração deste empilhamento circense. Precisei ir-me virando. Pedra quase quadrada no resfolego da encosta em forma de cascata. Vivi de imagens. Me afogo, como sempre, no terror das imagens. Elas centralizam meu mundo, minha compulsão, meu querer mais e outro mais. É nojento acender-se em luz negra, diante do que se revela o esplendor do impossível. Pergunto: a troco de quê, afinal, os caminhos não se cruzam nunca? Louvaram minha canção, esquecidos de examinar a pauta de que nascia e para onde conduzia a cada minuto minha voz. O que de fato eu estava dizendo ninguém ouviu. A quietude de minha postura é teatro de contenção. Fui triturado por triturar em mim o gomo único a me bastar. É tarde. A noite avança. A carne decrépita soluça acobertada pelo ruído dos carros, celulares e microcomputadores. Mensagem cifrada, mensagem trincada, mensagem apagada. Ainda assim, há traços: eu e a vida. Não suportei o jogo, a impostura, a cilada. Mexeram com minha boa-fé, lembrando a tarefa de dona-de-casa a preparar omelete mal batida. Comi com casca. Provo de novo o fruto, com banda apodrecida. Nem bem nasceu e já despencou porta afora para estourar-se sob os pneus dos acontecimentos. Pelo telefone soube o que meus ossos murmuravam no túmulo vivo que devo arrastar aos salões do mundo. Nenhuma virtude tem o contorno de minha arenga. Caí. Rejeito os 40 dias no deserto. Renego purificação. Fui menino, a única verdade, o derradeiro fado e fato, alfa e ômega do folhetim posto em varal eletrificado. Fui menino. Com jeito torpe de anta tonta, isso acabou por me bastar. Nunca saí deste círculo, Dante não encontrou um para nós. Apaguei-me na névoa de figuras esvoaçando na neblina: minha memória trôpega: eu na vida. Ímpar em cada caso a dois. Múltiplo no silêncio obtuso. Nem fui ajudado pela saudade mansa e dolorida, segundo a percepção de Clarice. Os sistemas dentro de mim degeneraram-se a ponto de eu não reconhecer minha face. Minha nobreza de propósitos é um caco, um doce a encobrir pólvora, um copo que se partiu sobre o lábio. Andei no bambo manco. Vi a vertigem do precipício. E ali fui enterrar o osso para transformar-me em mapa do tesouro, sem saber que as ilhas todas haviam sido descobertas, guardadas, escondidas, decodificadas, habitadas.Provei minha impostura em cada abraço e sua clandestinidade de mamífero carnívoro. A vitalidade me enfurece por razão simples: quero pastá-la. Pelo retrato falado não se reconhece voz e cheiro. E vi o tigre negro no amarelão da noite e suspirei de saudade, os dedos moídos antes de chegar lá e reter o fluxo da caverna. Dancei com a morte, perdi o par e o salão e o ritmo cristalizou-me na retina e doei-me a quem não precisava de minha tarefa ou de minha pele. As mantas tecidas tiveram endereço errado: corpos vestidos. E não sei por quantos dinheiros os soldados sorteiam minhas calças. Sim, todos os abraços supuram sua natureza torta, errada, deslocada.raço cla

Postado em por autor in Contos Deixe um comentário