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Duas portas

Pela janela do quarto do hotel não sei o que diviso. Mato. Algumas luzes. Um lago fosforescente em forma de barco, com um caiaque submergindo. Como há anos, passei o dia falando. Um show de palavras. Se escrevesse tudo isso, talvez desse alguma coisa a quem vem depois. Sondei a vida em busca de salvação. Havia duas portas e nenhuma se abriu. Ambas no perfeito esquadro para a passagem. Dei cordas à roldana do verbo – quem sabe, assim pudesse mobiliza-las para a clareira e estender os braços e agarrar um músculo no ar, onde apoiar a cabeça girando, girando entre conceitos de sempre. Visíveis e invisíveis. Mesmo assim, nem uma porta, nem a outra, se abriu. O que me deixou no mesmo círculo vago, com música ao fundo. Não dá para definir a paisagem. Pela janela, mato de sábado à noite. Ruído áspero de trânsito depois da colina. Pressinto águas preparando corpos para o curto parêntese de uma noite que cai no piso do banheiro como unha cortada. Rostos no espelho cheirando a carne prestes a jogar a lâmina no pequeno centro. E há cães que vagam no infinito estreito da cidade estreita, feitos nos mesmos moldes dos que tenho ouvido em quantas cidades tenho visitado. Para deixar nelas o único traço de minha viagem: a palavra a tomar forma de sal dentro de garrafas incapazes de comportá-la. E há cães rascantes entre um carro e outro. É inevitável: reconduzem à adolescência, tempo em que não havia corpo, não havia sábado à noite, nem festas sobre o caroço adunco. Hoje, num quarto de hotel que era casa de campo em época de fortuna dessas famílias retaliadoras. E quando menino, no castelo medieval que me apartava do mundo e do mínimo social e do sinal de mim mesmo, gania feito este cão aí fora, dentro do mato, bebendo a lua pelo clarão do lago. Naquela época, também tentava penetrar os rolos de chama que brotavam do esmalte das curvas clandestinas. E não havia recosto para o vento em espiral, para a reles flor de uma espinha circundando o rosto imberbe e na expectativa. Hoje, ele, o vento, se espraia pelas esculturas orais que teço na armadilha de expor-me diante de quem vê o que não está lá. Lá no fundo do mato, aqui na cama impessoal, é o mesmo tenso apego ao que não dá pé ou entrada ou saída ou sinal de vem, achegue-se, estou te esperando também. O menino no homem faz o homem sentir que o menino vagou pela estação e a trajetória afinal redesenha mais e mais o arabesco do qual é difícil escapar. E por cima das covas, músicas aninham versos que dizem da maravilha do viver. Só pode ser ironia, por certo. Para driblar o silêncio da esfinge, uma das portas bastava, nem importa que vereda desponta dali. No quarto de hotel, ouvindo a rodovia no trago vazio do peixe morto em onda parada, nenhuma porta aberta. A sala povoou-se de entraves. Cadê a filosofia da alcova? De que forma o trem passou e eu nem vi, já que os olhos estavam presos naquele gancho quente a aprisionar meu bem-querer numa ilusão de contato? Pelas viagens que faço, faço a viagem de par em par com as portas procuradas. E elas, mudas ou cegas, recebem meu discurso na modalidade da geografia com mapa apenas para o emaranhado subterrâneo do cérebro em chamas. O primeiro plano do que é mostrado, a oferta latejante, a mão sob a sombra, não têm um perfil nítido ao código consumido com a paciência de bois inclinados ao pasto. Ao pasto de sempre. Na mesma grama em que amarraram seus dias, seus dias continuam amarrados, ignorantes do corte a um palmo do discurso que elaboro.

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Jônatas e o ponto de partida

Jônatas vivia à espera da grande luz, do intenso momento que fizesse rebentar todos os ovos para que dali nascessem as águias de porte para levá-lo além das experiências conhecidas.

Queria fugir da rotina – este era seu segredo mais embrenhado na carne interior da carne. Ansiava pelo dia em que pudesse abrir os braços e beber o azul em filamentos sem fim, beber a luz em taças que também recebessem seu corpo para rebatizá-lo em nova forma e história.

Jônatas desprezava os chinelos, os jornais, a comida requentada. Saturado estava de levantar-se todo dia a mesma hora e seguir segundo após segundo o ritual cotidiano de amarfanhar-se dentro de um corpo que não era mais seu.

Tudo em volta destoava dele. O calendário repetia-se à exaustão. O sol persistia no mesmo percurso. Ele queria a grande, a imensa, a potente luz da redenção capaz de explodir todos os limites.

E gestava sob os braços o vôo das águias para transpô-lo a regiões onde o deserto não existisse. Para que andar em torno das minas cujo conteúdo e sabor estavam impregnados em seus ossos? Por que guardar a porta de casa contra eventual assalto?

Os móveis o abafavam. Os tapetes lhe davam falsas direções. Havia em algum lugar o discurso do profeta que ele aspirava a seguir para deslindar nós e cruzamentos. Sua grande missão agora era retornar do labirinto em que se metera sem mais reconhecer o motivo.

Sonhava flutuar como uma efígie de sonho sobre campinas cultivadas de algodão e riachos e retorcia-se nos desafios a dançar de têmpora a têmpora. Alimentava-se do difuso, do sem perfil nítido, do indistinto no coração de certa manhã que um dia, ali, na beira do dia, era tudo o que esperava – a memória alimentada de novo sangue, lavada de manchas de outrora, para atirar-se na aventura reta em direção ao horizonte.

Nada mais de entorpecimento e frieza e apertos na garganta ressecada. Nada mais de corpos partidos nos lábios no momento mesmo de bebê-los. Sabia que venceria os escombros, os planos mal elaborados, as colunas tortas de sustentação duvidosa.

Nenhum destino é imutável. Por que o seu o seria? O torturante receio de abandonar o aconchego fácil fora vencido. E o que adormecia em cada pulmão os deuses desenhariam para ele inscrever-se num patamar de recuperação da série de atos deixados para trás ou falhos ou ressecados.

E nada havia de ilusão em seus intentos. Não era um homem ingênuo. Apenas marcado pelo que não conseguira ser e seria agora, porque os tempos o anunciavam, a luz brotava, as grandes aves compunham pautas de roteiros dignos de projetos pessoais.

A ruptura era seu dever e seu impulso. Livre da penumbra, da cerca, dos pequenos vasos sem viço algum, Jônatas embarcaria nos ares das retemperadas esferas, até dizer – cheguei, sou, estou. Coisa alguma me moverá daqui. Esta é minha morada, meu norte pioneiro, minha ressurreição após tantos anos espremendo lama entre os dedos. Serei forte e minhas observações migrarão para aqueles que ainda não se decidiram e o eixo da Terra penderá para o outro lado do abismo cósmico.

Empilharei estrelas para iluminar o caminho. Plantarei florestas no ar para que a respiração nunca adoeça. Sem fadiga, rodando pelos mares do infinito, vou reinventar a arte da navegação e o transparente será meu lema.

Quem entender meu enigma, entenderá. Quem não o fizer, estará ainda preso entre paredes de tijolos mofados. Sem caravanas ou tropas.

Irei sozinho até o pico incandescente de minha resolução e dispenso tratados agonizando suas letras nas linhas tortas do que não tem mais sentido ou lustre.

E ao amanhecer de quinta-feira, ele leu no jornal a notícia de sua morte e constatou que tudo estava como deveria estar e partiu com as águias, mesmo que duvidasse da luz.

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As colagens de Malu

Cabras aparecem no deserto. As flores são de plástico e a tarde nunca foi azul. Depois de varar a cidade em compras desenfreadas, Maria Luiza chega em casa, templo à exaustão. Encontra os dois filhos disputando algo diante do computador. Imagina-os mortos e não sente qualquer culpa. Pensa: é hora de procurar um psicanalista. A idéia de outra conta a pagar deixa-a hirta, certa de que um dia derramará seis dúzias de lágrimas pelo pensamento. Seja como for, as cabras continuam no deserto. Olham as pedras. A tarde em verdade é roxa, do horizonte vem a tempestade em cinza e raios. Para Malu a chuva é bênção. Refresca-a na menopausa cheia de vazios e varizes. Quando os filhos saem, não pergunta onde vão. Eles saem para voltar trincados, desfeitos para a vida, a vida estreitada em possibilidades. O que acarreta tensões novas para os velhos problemas de se arrastar a família feito cabra no deserto.

Na banheira aquecida, entre sais, espuma e Bossa Nova, Malu repassa o dia de gosto insuportável. O amigo comunicou mais uma vez que saldará a dívida no mês que vem. Isso acontece há um ano. Outro amigo convidou-a a freqüentar a Igreja Universal do Coração Traspassado. Todos os problemas serão resolvidos. Esta é religião de resultado, que deu um jeito de antecipar o paraíso – não mais metafísico, pois ganha dimensão de dinheiro e sucesso capitalista. Deus mastigando cifrão e arrotando graça aos fiéis. A fúria vem do fato de se haver sentido tentada a dar um pulo lá – não custa nada, mal não faz, que religião deixa de lotear o céu?

Em meio à espuma, à água amarronzada não despontam os seios e, sim, os elevados da barriga. Isso é de matar. Se unhas garantissem alguma coisa, arrancaria com elas gordura e pele, só para se sentir jovem outra vez. As cabras bebem a chuva em cacimbas improvisadas entre pedras. Depois olham o horizonte. Ali troveja. As flores deixam de ser plásticas e se transformam em cacto verdejante. Na cantina da faculdade, depois do café, ao fumar seu primeiro cigarro da tarde, Malu ouviu uma aluna: professora, não faça isso, fumar encurta a vida. Vontade mesmo foi encurtar para sempre a respiração da guria espinhenta. Reparou melhor: era a crente, a magrela enciclopédia de versículos disparados a qualquer propósito. Reexaminou os cabelos melados sobre os ombros e achou melhor calar-se, após longa baforada. Se a mandasse ao katz, a infeliz era capaz de mostrar ignorância sobre a própria anatomia. E se a conhecesse, algum arrepio secreto a levaria ao pastor, pedindo em desespero que a livrasse das garras do diabo. Coisa melhor a fazer: no seminário sobre o Iluminismo, incumbe a cabrita de tratar da obra de Voltaire.

Na cozinha, fritou dois ovos com fatias de queijo. Fez salada de tomate. Abriu lata de atum, vidro de pepino, cervejinha em garrafa transparente e devorou o imbróglio, tentando a concentração no capítulo de sabe-se lá que novela. O ator era esplendor de macho, só que nojento em sua consciência de ser bonito e gostoso e, ao falar, desmontava o visual que caía aos pedaços da tela, rolava pela sala, não sobrando nem cheiro do esforço da indústria cultural em cultivar o mancebo para faturar uns trocados. O mercado fácil da carne televisiva. Voltou à Bossa Nova, enquanto o deserto das monografias solicitava suas vistas cansadas. As cabras ali choram no seco. Nenhuma pastagem, tempestades provocadoras de rombo, nunca. Conseguiu ler três. Aboletou-se na cadeira de preguiça e ficou retardando o tempo, mastigando as horas nos cigarros em seqüência. Lá fora, muito longe dos cactos, a sirene da ambulância acendia em vermelho a fragilidade trágica. Que se ferrem todos! Que morram com tripas vazando pela boca! Vestiu pijama curto e lembrou-se da noite em que o ganhou do namorado. Quando foi isso? Vá saber! Afetos doem, prendem, toldam a visão, melhor riscá-los do mapa, todo cagado por cabras que vêm e vão, nunca sabem onde vão dar. Do amor, Malu nunca extraiu o que ditam os filmes, os livros, as esperanças. Amarrava-se no desgaste da claustrofobia, o medo de perder antecipando a perda real, toldando a cor do provável momento bom. O homem amado, afinal, era apenas homem, não transpunha esta condição concreta, nem tinha meios para recriar a vida dela além dos círculos conhecidos. Onde queria chegar? Vá saber! No horizonte do corpo, aí, sim, as tempestades nunca amansam, aí, sim, as flores são de plástico, da mais vagabunda espécie, e as cabras só encontram água salobra. Alguém como aquele ator transformaria o corpo em boa pastagem? Na minha idade, só mesmo sendo brega. Um tango, um vinho, o beijo selando as impossibilidades.

Já dormia seu sono trincado, partido em vidros entre cactos, quando ouviu os filhos chegando. Murmuravam alguma coisa, risos de sacana. Um foi ao banheiro e vomitou. Sei, amanhã, antes de sair, terei de enfrentar crosta seca e azeda nas lajotas térmicas do piso, há pouco reformado. As cabras aparecem e desaparecem, o deserto tem o tamanho do apartamento, os filhos endurecem como cactos sem flor. As tempestades são previsíveis e causam engulho, não valendo a pena dar atenção ao miado. Melhor deixar pra lá. Outra sirene incrustou na noite o sabor de pétalas de plástico. Virou-se para o outro lado. Tentou olhar o relógio digital. Os números estavam embaçados. É assim mesmo, nem a hora temos mais o direito de enxergar na poça da madrugada. Cadê meus óculos, desgraça. A batida ríspida na porta comprovou que os filhos haviam se deitado ou, ao menos, ido para o quarto. Não pensam que podem me acordar? perturbar meu sono? Claro que não. Eu sou a flor de plástico, a cabra sem água, desde que me transformaram em caixa de banco disponível para suas necessidades. Neste natal terão uma surpresa: nem presente, nem cheque. Que se virem com a mesada do pai. Liguem para ele, atravessem o deserto, cheguem ao grande cacto.

Ao puxar o lençol, percebeu algo frio na coxa. Ligou o abajur: a lagartixa olhava-a entre pavor e alegria e logo sumiu nos desvãos da cama. Outra vez o estrondo da porta. Despejo de vômito. Serão camadas sobre camadas amanhã para limpar antes da aula. E, nas aulas, camadas sobre camadas para tirar o pó do deserto sobre as pedras de olhar caprino, com saudade de capim, enfastiadas, sem propensão a travessias, muito menos a tempestades. Querem é nota, esta flor de picuinha, parâmetro raso de vida curta. São culpados por isso? Quem lhes ensinou que o mundo não se restringe ao deserto? Adivinharão gota de água sob pedra qualquer? Quem lhes dará a técnica? O lençol quente era brasa apagada na noite de incômodo. E o azedo do banheiro circundava o quarto, lua verde a esturricar cactos desde sempre podres.

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Boca-de-cena

Diante da página em branco fico mudo. De viés, esta é uma forma de redundância. Vasculho e vasculho o vazio e só encontro o comum em situações tais: um nada alonga-se entre os dedos.

Certamente, nem uma punhalada no peito seria capaz de abrir qualquer comporta. Hoje não há sumidouro, nem vertigem. Existem algumas camadas de pó e na superfície um tanto sem igualdade dá para rabiscar um esboço, um signo de passagem. E se eu o fizer, o que surge daí não tem qualquer serventia.

Diante da página, a mudez. O vivido escoando-se em horas de seqüência até meio prevista. E o cinzeiro quase a transbordar. Os olhos sem gás para tocar num texto, extraindo dele princípios de caminhada. Para talvez compensar a urgência do nada, insisto em percorrer as linhas, preenchendo-as com estes sinais. E nem posso adivinhar se um dia ofereceriam possível leitura.

E este é sempre um trabalho que cansa. Trabalho? Nobre demais o tempo. Sabemos: tudo redunda em desfastio. É a peça sobressalente num cenário a montar-se, mesmo que não se tenha definido a peça e o elenco. A rotunda respira em sua quietude de parede lisa, prestes a receber qualquer adereço. A gambiarra assiste de longe ao vácuo, por onde o pó penetra, trazendo da rua outros farrapos. E nos bastidores acumula-se um entra-e-sai sem definição. No final da tarde, o caos é mais que espelhos e lâmpadas partidas. Ali se reflete algum elemento e nele tento ainda segurar o exercício de fornecer à hora um sentido que o tempo não tem mais.

Gostaria mesmo de dirigir-me ao guarda-roupa, pôr em mim todos os aparatos de grandes personagens e, na boca-de-cena, encantar a platéia com o exato desfilar de resposta, nas quais estaria ausente a falta. Elaborar, para ouvidos prontificados, não um discurso de centelhas e sim recortes de tamanha densidade que, significativamente, a vida transcorreria numa liga de afeição lógica entre um fato e outro fato.

Não obstante a seriedade da postura, o que há escancara-se a muitas vistas: um teatro sem platéia, mudas as poltronas como se faz muda esta página, papel de linhas prensadas entre precipícios de vazios e quietudes de inexistência. E após as cortinas, as sombras ainda resistem no balé à beira da hora, movimentos de cadência atrás da única coisa palpável nesta inversão de expectativas: o vagido do trânsito, cobra de metal desenrolando-se pela cidade, a sugar de seus seios a matéria que deposita como dejeto logo adiante, por onde vou passar na volta para casa.

A aventura do encontrar-se oferece este desdobramento: somos a virtualidade materializada em antecipação do inexigível e se tento ainda apoiar-me na substância de orientação de um mestre, perco logo a espinha e a medula, pois meu trabalho aqui, nesta hora – o teatro vazio –rompe-se, é um fio, é um aborto, é apenas um espasmo antes da última porta fechar-se.

Diante da página ou da vitrine a devolver-me o reflexo de mim mesmo, sou obrigado a encarar meu perfil e aí é quase banal reencontrar elementos do convívio, baús a vasculhar e donde extrair as mesmas fantasias de sempre, os mesmos recursos de toda hora, o ritmo tanto já marcado em cada escrito. E compreendo a morte: repetir-se, repetir-me.

Em torno de mim mesmo giro e nem há um nome a completar. Comecei na planície sem horizonte da página, passei pelo teatro, desdobrei-me na oficina revisitada com constância e chego à cena de outros capítulos: a página em branco sussurra-me algo e sou incapaz de decifrá-la.

Os ventos sobre os ciprestes rompem as nuvens para a lua aparecer. Contudo, nem isto basta. Releio a placidez das fotos. Nem isto basta. Ligo o vídeo para reencontrar meu último trabalho em cenas finais de ensaio. Nem isto basta. Então, lá fora, a cidade é só a cidade onde estou. A geografia fixa no movente fluxo de gente para cá e para lá e eu, sob o manto da noturnidade, respiro com dificuldade meus medos. A página em branco, alguém falou um dia, é uma cidade. Será mesmo? Penso nas máscaras envoltas em pacotes de plásticos para que o pó não estrague suas expressões. Silenciosamente guardadas no teatro parecem distender-se até aqui, quando apago a luz e contemplo o vácuo semi-escuro.

Acobertado pela noite penso que, ao lado de páginas vazias, há aquelas hieroglifadas. Moveu-as o entorpecimento do efêmero, um senso de identidade que sorrateiro vaga entre os tons das máscaras. Personas e sabotagem. O mundo feito teatro. Das obsessões, passando pelo mar, aportei no labirinto. As manchas movem-se e entre elas, a lesão versátil para encontrar outro vão em que eu possa investigar a lavra para enredos estrangeiros. Não sei o que a platéia remoerá. Há um espasmo fetal sob as máscaras. Nenhum arremate. Com os dedos crispados, uivo sob o cobertor, roendo a avidez. Os fantasmas desalojam-se na contraluz.Boca-de-cena

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Bilhete ao silêncio

Á primeira coisa que me chamou a atenção? Teu rosto. Nele, os olhos. Ah, que placidez e suavidade deslizavam deles e pediam acolhida. Senti o atrevimento de compreender que me chamavam. Depois, me fixei em teus cabelos – negros – e em teus lábios, absurdamente vermelhos. Tem algo mais vulgar do que chamar de rubros aqueles dois pomos rasgados a estilete? Um halo de ternura e afeto ameno brotava de teu jeito de estar ali e eu me desequilibrei, perdi o prumo, como deve acontecer com o devoto de repente face a face com Deus. Não tinha muita certeza se estava de fato na sala ou se pairava no ambiente físico, um tanto longe de nossa vil materialidade. Ainda que ardendo no entrechoque de emoções dúbias, ousei te contemplar. E era assim: o que vivera até então era um conjunto frívolo de simples riachos, enquanto eras o mar. Não o mar das fúrias e tempestades e abismos. O mar da placidez, da transparência da manhã, do ar límpido tornando verde tudo o que envolve e só amanhã estará maduro. Bebi de teus traços a certeza cativante e malsã de enfim haver chegado a algum lugar. Sei que és jovem demais. Certamente nada sabes de Maikovsky, aquele que teve a anatomia metamorfoseada em só coração. Ou de Fernando Pessoa, para quem o amor é tigre interior. Digo isso prendendo meus lábios num esgar de agonia: o tempo corporificado em idade talvez seja o maior entrave entre nós. O frescor dos anos que te habita grita alto contra as rugas que traçam meu rosto como mapa sem serventia. Por isso fiquei ali, em atitude extática, na medida em que a pulsação de meu organismo mudava de eixo e me levava a sonhar com o aconchego. És assim: cabes na justa medida de meus braços. Não sonhei lances de magia cinematográfica. Fui por caminhos amoráveis: contigo vivendo os recantos magistrais da cidade. Por exemplo: um café, um desses bares temáticos em que o tempo preserva o tempo no vale da memória. Te ofereceria algo agradável, algo que levasse ao interior de tua beleza o que de melhor se apresenta nesses locais. E constatando tua felicidade, toco teu rosto para examinar as linhas em veludo. E digo a frase mais desgastada do planeta e ainda surpreendente: te amo. De agora em diante, teu rosto moreno, teus olhos nadando em sombras farão parte de minha rotina e nada, nada mais será como foi um dia. Até a morte recupera sua impessoalidade. Meu peito cheio de asas a flanar até o teu e, juntos, saímos pela rua, sorvemos no nevoeiro o frescor da noite feita no jeito ameno de nossos passos. Mas isso não vai acontecer, nem pode. Sou alguém se debatendo num mundo que encerra seu último capítulo: literatura, utopias, humanismo. Deves estar num esforço redobrado para conquistar a vida como riqueza e conforto. Entendo tua demanda, é difícil se furtar do século em que estamos inseridos. Sou do passado, és do presente. E em termos de riqueza e conforto, tenho apenas milhares de livros e discos, filmes e quadros, milhões de referências e discursos que pulverizam minha mente num caudal sem eixo fixo. Tenho meu enternecimento meigo em que gostaria que morasses. Assim, não me permiti o silêncio da covardia. Há muito silêncio nos teus olhos. Silêncio de quem está sob pressão e isso eu faria bem: aliviar a premência das paredes que te cercam com boa sonata de Mozart, concertos de Grudjieff, poemas de Florbela Espanca. Que te dizem tais personagens? Com certeza, nada, o que não te desmerece: tua brandura vale os repertórios da arte. Vives num universo de informações vivenciais que não rompem a casca do chão diário e não se tornam experiências para marcar a vida como dom singular. Sei que estou complicando tudo. Sou assim, enquanto és leve, te moves entre esferas de cores e brilhos e momentos que não precisam, com certeza, dessas paradas para se descobrir em que ponto a raiz começa a se tornar sumo. Este é outro abismo entre nossas estações. Eu, indo, quando apenas chegas e nem sei qual é teu país. Mesmo assim, minha disposição é de primeira lavra: ultrapassar os entraves para desfrutar contigo de boa sessão de teatro, de caminhada pelos tantos parques, trocando gentileza que amadurece em minhas mãos ao me sentir amando. E como me atrevo a amar o amor com o amor que gostaria de canalizar para tua doçura magnética! Depois nascemos nas transformações que um ajuda o outro a fazer quando de fato estão juntos. Ali, em qualquer lugar onde estivermos, conheço tua voz em timbre e melodia. O tom de tua fala, em contrapartida, não chegou ainda ao meu ouvido, nem a cor de teu pensamento, o anseio de teu cérebro que ignoro o que busca. Não faz mal. Te encontrar naquela sala, constatar a tez morena de teu rosto pálido, vislumbrar certa dor em teus olhos pacificados me tornou alguém ferozmente capaz de revolucionar o mundo só para nele construir um nicho de paz, isto é, ser. E minhas mãos estão atadas. Meu tempo foi ontem. Todavia, não pude conter o impulso de ir à caneta e ao papel (olha o arcaísmo!) e jogar nas linhas o aluvião (primário) do que despertou em mim a simplicidade angélica de teu rosto. Não podes imaginar quanto lugar-comum pipoca em minha mente. O que é amar se não a consciência irremediável de estarmos sós? É este enorme vazio o meu susto agora. Penso em que ponto da cidade deixas presente o esplendor cativante de teu ser, que olhos têm o privilégio, enquanto estou aqui, envolvendo-me no naufrágio da página semi-rabiscada, de percorrer tua linha, tua cor, teu modo dócil que parece nunca entrar no movimento centrífugo do amor. É nossa tarefa mais pedregosa: amar para perder, sei. E quando nunca temos, o que perder? Percebes o meio como me enredo em clichês, emoções esculpidas, afetos condicionados, para falar de experiência tão rasa – olhar e querer –, tão encontrável no pânico de tentar reter alguém que nos impressionou desde a primeira mirada? Dane-se. Isto sequer é desabafo, apenas a portinhola da mente para liberar toxinas e obter lufada de azul antes de partir. Vou deixar este escrito entre as páginas do teu trabalho que acabei de corrigir. Não foste lá muito brilhante. Entretanto, percebo a fornalha pegando fogo no emaranhado caótico a te dominar. E me encanta. Seria este outro ato: ajudar a dar forma ao que parece escapadiço. Não haverá tempo. Quando receberes tua monografia anotada, encontrando e lendo (lerás?) meu blablablá, estarei longe. Parto para a Europa. Uma série de cursos, lançamento de livros, férias em Veneza. Depois, a pesquisa sobre o discurso amoroso em autores dos anos 90. Interessante, não? Estudarei o que vivo, melhor, o que poderia viver, outras fossem as coordenadas a nos cercar. Nada de espanto com meu esgrouviado manto de retalhos. Bordo sobre o nada, reatualizo Bispo do Rosário. Queria apenas registrar a impressão funda que tua beleza causa em alguém como eu, que muitos consideram arrogante, insensível, na dureza matemática do trato com teorias e com a razão pura (como se tal abstração fosse possível!!). Bandeira disse que a beleza é triste. Comprovo seus motivos. De que forma o amor bateu já suas asas ao teu redor? Aqui tens um naco. Sem preocupação, vá! A brandura causa encantamento, interrogações, reviravoltas. Nas últimas semanas faltaste demais às aulas. Por quê? Em gota de loucura febril (e necessária) pensei a respeito de meus olhares insistentes. E ousei: tua ausência é para fugir de possível impulso que acabaria te fazendo aportar em minha mesa. Tua posição quase incólume, a impassibilidade com que praticamente te postavas a me ouvir acabaram por ferver meus argumentos. Muitas vezes derivei do autor, usei-o como alavanca para lançar em tuas águas a mensagem cifrada: vem, vem de qualquer jeito, hás de encontrar abertura e encaixe. Que aridez aquelas aulas em que tua carteira estava muda de tua presença. Momento de autor e livro ser um engrolado amorfo, ácido para mastigar. Meu objetivo era até bem simples: idade e possível desnível de elaboração de vida e idéias não seriam empecilhos – eu construía pontes e talvez nem as percebeste. Estou indo. O frescor de tua paisagem pessoal, graça e suavidade, norteará cada palavra que eu escrever. Consolo? Nunca! Preciso transformar malogro em desprendimento. Levo a advertência de Hölderlin: “o que amamos não passa de aparência.” São teus olhos, tua morenidade, os cabelos negros, o rosto desolado de quem perdeu abrigo, o lustro dos lábios vívidos em seu desenho de certa libertinagem, os dedos afilados enquanto anotavas alguma coisa, a expressão de candura solerte – só isso o que absorvi. É muito pouco para dar movimento ao centro nevrálgico da combustão. E cada engrenagem em mim, da manhã à noite, em contrapartida, pasta no rastro teu solto pela sala. A dez mil metros do chão, na velocidade estúpida da aeronave, que aspecto de teu ser será mantido vivo naquelas engrenagens? Passearei na neve, visitarei museus. Em quantos recantos o teu espectro? A opressão em meu peito há de gerar algum insight luminoso, originado na outra margem do oceano. A solidão pode ser um seqüestro. Revisitarei o Deux Magot na tentativa de, entre a poeira e a tradição, o frio e o aconchego, abocanhar o imperativo categórico de Sartre e repor no espaço do amplo oceano a condição da liberdade. Intuirei teu veraneio com os amigos, a soltura do corpo ao sol, porejando sal, estimulando fantasias, contatando com as ondas algo que nunca será de meu conhecimento. Que te importam quantas páginas empilharei num hotel confortável. Contigo, preferiria o fluxo pelas ruas, revendo a história, reencontrando páginas de outra natureza. Besta ilusão! Outros braços te acolhem com a vasteza que tua beleza gera. Talvez nem queiras perceber algum entrecruzamento entre este vômito adolescente e certos tópicos ressaltados na monografia. Seja como for, ao voltar, tua formatura aconteceu, cada dia será um longe a mais. Precisava registrar os devaneios, antes da viagem tornar-se muito pesada. E como termino? Adeus não faz sentido. Nunca estivemos juntos. De verdade, não está havendo separação. Apalpo com impaciência o tempo e os modos de dizer. A expressão tem algo de morte temporária. A vidraça de meu escritório está fosca e as luzes lá fora são tal qual algodão borrado. A delícia de me levantar e garatujar teu nome na neblina do vidro. Que posso acrescentar nesta despedida? Ao leres no pátio da faculdade este destrambelhado discurso quanto de ira fará com que jogues tudo para o ar? Aí te lembres: em Paris, estarei acalentando a vaguidão baça de teus olhos, tentando compreender que dor é esta a diluir a luz deles num enevoado lago que tentei atravessar com minhas palavras. Nesta inquietação há um vibrante apelo que ressoou em mim e me deixa na tensa solidão de quem precisa ir, sabendo que nunca me afastarei de fato daquela sala. Ah, teus olhos…

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Catando água com balaio

Sozinho com as lides diárias, sozinho com o gancho do pensamento torto, ele via o mundo afastar-se. Sabia que era um homem que não sabia mais ser. Os amigos em direção à vida espraiada em festas e encontros, nessa série de miudezas de colorido vago que contêm um dia e outro dia e outra pedra do dia, na interminável tarefa de ser (deles). Os que guardava na redoma como amigos, agora em viagens para defrontar-se no escuro cósmico do prazer, no qual ele não poderia estar, pois se atolou na infância e a infância é reino de amarras. Pensou então em isolar-se de vez, outra vez como bandoleiro de Noll que esperara alguém para abrir a clareira de seus sonhos e acabara por chegar a uma espécie insensata (insensata?) de sabedoria a retirá-lo do contato com os humanos. Calculou, no outro lado da balança, a forma irretorquível de sua morte que não seria vingança, apenas modo pessoal de despedir-se – restaria no mistério do escuro vago, as janelas fechadas, pendendo como criança sem norte na beira do abismo.

E no desfazer-se de si mesmo, estaria desfazendo-se do fardo, da sombra, da impossibilidade, do quarto em mofo, onde respirar era um pássaro atirado contra parede de gelo. E as garras no vidro fazendo desenhos para a manhã de névoa completar.

Antes, resolveu sentar-se na poltrona diante dos quadros para ler alguma coisa que desse sentido à maçã cravada nas unhas, ao gesto de querer ir, à alucinação do desvanecimento em grau de confabulação e queda. Porque ele sabe que quem se sabe ao saber-se longe, precisa de animal de recolha para as palavras que ficaram ali pelos cantos.

Na sua história, ele queria isso: sentido para o gesto. Estava incomodado, estava triste. E sofria. Do jeito que o cavalo sobe a montanha carregando a pedra da sombra. Do jeito que a água despenca para transformar-se em vapor que preencherá os desenhos no ar. E o que lia mostrava de quanta beleza são capazes os homens, alguns, aqueles que desde muito cedo aprisionaram monstros sob a pele e fizeram da lua um buraco. E do lago, o espelho para a passagem até a floresta densa, onde um menino se aninha entre folhas à espera do pai.

Ele tinha para si que estava no mesmo estágio, e fios ainda frágeis o ligavam à confraria, pois passara longos anos compondo espécie chã de beleza que a ninguém importava. Pasolini desfilou como satélite ante seus olhos – ele que escrevera primeiro no dialeto da mãe, depois chegou em Roma e encontrou a imensidão de deserdados. Seus romances têm algo desta perplexa manobra de ver o mundo ímpio. E resolveu-se pelo cinema como protesto à palavra instituída e, na palavra, o poder. No cinema, é a tragédia que primeiro lhe vem ao limiar do plano e, com olhar renovador, desvela corpos magníficos de jovens para ele tristes. Os rapazes – moléculas da vida estandartizada na barbárie do gado imóvel comendo o que quer que comam os donos das fardas impostas, a padronização cimentando o nervo central do pensamento.

Ali, diante dos quadros, lendo, sua consciência em rede se desfazendo, avoluma-se igual às cavas da escravidão. Uns compõem a silenciosa maravilha que logo ganha o mundo e são por ele cantados, mesmo na rejeição, como grandeza de ser e grandeza de obra. Outros, como ele, à sombra reflexa dos quadros, na difusão de formas em lenta metamorfose, sequer são vistos ou tidos como existentes. E às vésperas do longo feriado arrastando-se por cavernas e troncos, não sabe muito bem por que meios manter a esperança. Sabe que, outrora, este parêntese de tempo sem o forçoso comparecimento ao mundo, era o largo período de dedicar-se a outro mundo: o tijolo e a madeira forjados no seu verbo escrever – exercício de som e imagem a sinalizar seus dias em módulos e células mínimas de burilamento da pedra dura, da pedra agreste, aquela que estaria ali, ou lá, a segurá-lo no instante da queda. O tempo às vezes é balanço, a corda se rompe, o ar vaza pela veia aberta ao pássaro do vôo em diagonal.

Nenhum arrebatamento tirou-o da contemplação mais impura a que jamais pensara chegar: sem companheiro de objetivos e letras, era figura lastimável na desfiguração de si mesmo, a efígie cara desgastada pela pátria desses dedos aí a não lhe dizer respeito. Mais ou menos como Quixote ouvindo na taberna alguém relatar as aventuras de Quixote, fazendo-o acreditar que ele, Quixote, era um fato. Percebendo-se superfície rugosa de trânsitos tantos, não tinha a quem apelar, muito menos ao espelho. Seco, hirto, escorraçado viu que nada estava bem, sequer a mesa posta, uma vez que a casa fora ao vento. Fechou o livro, depois os olhos.

E dormiu e não sonhou. No oco encompridado do tempo em névoa cerebral, ouvia uma voz: “Chega ao extremo do fio, atende a este chamado. Fala a esse homem, a essa mulher. Faz com que te desejem, para além da sombra, de fora desta solidão, faz com que te dêem boa-noite”. E era Osman Lins a lhe sussurrar. Ele não sabia a razão. Seus olhos pousaram sobre as lâminas intensamente iluminadas pela manhã que se desbordava sobre a sala. Lâminas adensando o significado que nenhum quadro oferecia, nem os tantos textos que ele ia deixar atrás de si, espalhados na rota confusa que a ninguém interessaria recompor.

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A cor da dor

A dor é amarela como a noite é negra. O negror da noite vem do fato de que as estrelas se esqueceram do mar. O mar bailava ao voo dos pássaros e a vida era muito mais possível. Na cidade, com suas previsibilidades pandas, continuamos com nossos compromissos, dentro do que Rick Moody chama de “conforto agitado e incansável da rotina”. Aí, por meio de uma fala comum, a moça loira trouxe o pânico do futuro, representado na figura esguia do pivete que ela pretende adotar. Passamos a viver o macabro do medo em torno dele, o pavor de que alguma engrenagem na lei, na sociedade, nas pessoas emperre certo dente fora de lugar e o menino se perca de nós. Sua solidão nos devora. Seu desnorteamento acelera nosso sangue. De minha parte, não quero mais literatura, nem futebol, nem os espinhosos discursos da política. A vida de fato é outra coisa. E quero o amor. Aquele amor de que nem sou capaz e, ainda assim, é minha única forma de ser, porque tinge minha pele e meus ossos. Quero o amor do não-medo, do não-toldamento, da presença constante que leve ao menino a paz, a certeza, o eixo firme para rodar na vida de modo redondo. Pretendo dar ao menino a segurança que andou me escapando unha a unha. Sei, a vida tirou tudo de mim. Sobrou este resto: o homem atormentado diante de um menino precisando de mim. A vida se esvazia, porque sendo outra coisa, é o que não posso dar, ter ou construir. E só posso dar, ter, construir amor por ele, que é moreno e ágil (como alguns de meus personagens), que é o próprio jogo titubeante de cada ação que não nos dá certeza. E ao amá-lo, constato que envelhecer, mesmo que a prenhe juventude me encha de pressupostos agônicos, é só poder declarar: te amo, fica comigo, vou fazer alguma coisa rapidamente para a vida não se desmanchar em ti em ângulos aduncos, difíceis de trabalhar. Seus pequenos olhos de esperteza febril pontilham a mesa, a parede, as páginas nas quais insisto em enterrar meus olhos. Para quê? Sou um amontoado de circunstâncias tortas e justo agora o viver me exige trave reta e firme na qual amarrar o bote salva-vidas e tecer para o menino o roteiro de navegação em certeza de causa e efeito, semente e fruto. A dor é amarela como a noite é negra, o negror da noite de estrelas mudas, o chão da noite silenciosa, longe do mar, do burburinho dos voos. Enterrei a faca no coração e vi o tanto de sozinho que há em mim. De repente o jogo é outro: preciso do menino para me continuar. O menino não pode dar conta disto. Ele, afinal, precisa de um naco forte, até por que, é mirrado, subnutrido, aquém dos seus 13 anos, e precisamos todos agir com desenvoltura, pressa, ânimo a fim de alguma coisa retornar ao seu lugar ou retomá-lo. O quê? Quem possui bússola para saber? No vagar das horas, me sinto um estranho diante da pilha de tarefas. A náusea do mundo é minha irmã. Sofro de solidão e insegurança, a represália por não haver encontrado meu lugar, como vou lutar para ele encontrar o seu. E agora, ai de mim, preciso com urgência pôr alguma coisa nos trilhos. Encontrar para ele abrigo e pão e o singular recomeço que nunca sei onde está, nem onde vai dar. Até ontem, me fantasiei com certas máscaras. Hoje as vísceras caem pelos olhos, e o menino me abraça, na esperança secreta de que eu possa abençoar seus dias. Inclusive, tenho algumas reservas. O que não tenho sou eu mesmo para lhe dar. Daí a dor, a faca no pulmão, o fígado transformado em pedra. Sou o vil intelectual das entrelinhas muito bem esmiuçadas. E quando se trata de colocar o pingo e a vírgula na frase de corpo inteiro, falho com a presteza com que o menino solta seu riso fácil. Eu sei amá-lo, sei que sei. E isto basta? É o que não sei nesta ciência turva do cotidiano. Na minha solidão, bebo pela beira a insuficiência de um destino feito de palcos vazios e peças mal enjambradas. Apesar dos aplausos, os roteiros apresentados de nada servem. Agora, aqui, está o menino. Seus negros cabelos brilhantes no balanço do mar dentro da noite negra e carente de voos. Necessito de muito mais poder. De me reerguer de minha série inacabada e lhe dar a mão e concretizar o amor em dias ocupados com pão, caderno, tênis, cinema, dentista, e a parafernália da sobrevivência. E futuro de grandeza em pessoalidade não mais ferida. Vou lhe estender minha mão, o braço, a perna, todos os dedos, esticar o pulmão e o fígado, reelaborar o estômago e o cérebro, aprimorar as vistas e o olfato. Noto com a singeleza agressiva dos cegos: onde está minha mão? e meu corpo? e o subsolo chamado alma? Estou de noite e com muita solidão, à beira da planície vazia. As plantas crescem, mesmo após a secura da semente. E este é outro ângulo da dor. Como posso ser um homem se nem sei mais ser menino para o menino? Sei amar de amor encarnado e isto será suficiente? O que requer a vida, para na vida a vida ser vida? Eu só possuo uns rabiscos no espelho e a convicção aflita de ser insuficiente a qualquer causa. Não há mais partido, arte, luta pelos outros, educação como cunha de mudança, rebeldia contra todos os tabus, ira contra todos os desmandos, fúria contra tudo que oprime. Há a insofismável insuficiência minha em ser para o ser do menino. E ele é uma causa, a causa de agora em diante. As linhas de minha paisagem apagada convergem para ele e ali acumulam cor que ignoro.A vida está me exigindo isso. Ele também. E que labirinto vem me fritando, se o menino não é meu, não está em minha vida, é da moça loira e os céus ainda não se deslocaram do lugar de praxe? Quando acordo de manhã, a luz que encontro tem outra inscrição. Nela leio a presença dele, a premência de fazer algo para que o menino esteja inteiro e íntegro a cada minuto da longa hora que agora se inicia. A história é esta: sou um pedaço na luta para torná-lo um inteiro. Quem vai sair ileso deste enredo?

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Atos, cenas e quadros

A lembrança mais nítida que guardo dele – não sei por quê – talvez por ser aquelas as primeiras férias em nosso apartamento, é sua posição na churrasqueira, onde assava um leitão inteiro, para os festejos de fim de ano. Eu andava com tintura de felicidade: meu primeiro ano no doutorado, com o consequente afastamento do magistério, aulas e os incômodos paralelos; as muitas palestras num centro de estudos a forrar melhor meu bolso, tanto que foi possível comprar o pequeno apartamento na praia e mobiliá-lo com estilo e precisão. Certamente ingerira algumas cervejas para as turbinas da cabeça afastar as sombras. Andara pela praia. Vi fogos. Meu coração, pequeno e besta, diante daquelas florestas repentinas e siderais que espocavam em cores breves lá em cima. Depois disso, fui até a casa do vizinho. E lá estava ele: assando o leitão e transpirando feito condenado a trabalho nas galés. O bicho estava inteiro, atravessado de vau a vau. Claro que morto, ainda que algo vivo insinuava-se pelas carnes: a gordura borrifando as brasas. Lustroso como um lutador de ringue. E parecia babar. Demonstrei nojo diante da criatura sacrificada para nossa voracidade. Foi quando Hakim falou:

            – Você não sabe a delícia que é essa carne! Duvido que você vai se recusar a comer.

Veio a hora da meia-noite – a esperada, fugaz, ilusória e barulhenta passagem de um ano para outro. Como venho acumulando dunas de areia, não fiz para mim mesmo nenhum voto especial. São antes de tudo inúteis e por demais infantis. Não acredito mais em mitologias. Uvas, champanhe, lentilhas, folhas de não-sei-o-quê não passam do que são. A roupa branca ainda aceito – um modo de me congraçar aos demais, sentir-me fora de meu círculo cético e irmanar-me àqueles que acreditam atrair linhas positivas para os panos rotos de suas vidas. Não custa um gesto de teatro em nossos pequenos circos de desencontros. E sei que os acontecimentos, bons ou ruins, pouquíssimas vezes estão sob minha alçada. Ainda assim, festejei e bebi e comi como todo mundo. O apartamento novo me esperava e os comuns mortais encaram tal fato como conquista. Hakim, alto e forte, tinha alguma coisa de cachaço em seu corpanzil de rapaz do tipo impertinente: contraria qualquer afirmação que a gente faz, tenha ele ou não fundamento. Nunca levantei questão quanto a isso pois, por detrás de minhas dunas, aprendi que lata de cerveja descansa e deságua mais torrentes que travessias pedregosas por entre polêmicas sem teia. E um tempo depois, lá estava eu e minha mulher no altar, ladeando Hakim e a noiva no casamento deles. Fomos seus padrinhos. Ignoro a razão. Talvez por que fui tão dócil ao comer o porco preparado por ele naquele fim de ano. Talvez por que nunca alterei a voz diante de seus argumentos aéreos e fáceis de detonar – bolhas de sabão. Em meio à sessão de fotos, eu me ia despedindo dele, quando Hakim fez uma referência à máquina, que não entendi de imediato. Ele falava do Atlético, nosso time que estava com performance para manchetes no campeonato nacional. Este era um regozijo que compartilhávamos. Sei que depois ele e a esposa vieram morar aqui no prédio, ocupando um apartamento do quarto andar. Encontros casuais no corredor, no ponto de ônibus – ele em direção à veterinária, onde dá conta de animais, desta vez mais ou menos vivos; eu indo para a universidade, onde os animais apresentam deficiência bem mais complicadas de tratar e, acho, estão mais mortos que vivos.

Numa noite qualquer de uma semana qualquer, minha mulher apareceu com a notícia: Hakim sofria com um câncer e num determinado ponto em que todo homem é submetido à suprema dor e a ataque de insegurança. Ali, onde o terreno minado desencoraja a impulsão. Logo me encapsulei numa idéia de pura autoproteção: ele é um touro de forte, há de superar o cancro sem maiores danos. Isso por que a lista de sombras este ano tem sido nau rumo a precipícios difíceis de sondar: a sogra sucumbiu a derrame e está invalidada; o sogro morreu, comido por dentro por este monstro insone que, ao mover suas engrenagens, sabe despedaçar corpo e mundo, sem nunca recompô-los; meus pais, atropelados, definham estaticamente em duas camas, cercados pelos odores acres de quem não pode se locomover; meu sobrinho, verdadeiro ídolo adorado em sua cor tão clara que lhe dá certa transparência, mas, ainda assim, capaz de ostentar sardas que me inundam de paternidade e me fazem ver nele essas figurinhas lindas que estremecem corações em filmes publicitários, já perdeu vinte e cinco por centro de sua audição; um amigo novo e já amado com corda e navio está com hepatite C e o médico vê nisso leve inclinação também para as garras do câncer. Sem esquecer a morte de Cleon, num ano que é qualquer ano, sempre presente. As sete facadas que o silenciaram ainda ardem em mim, na crosta das horas, todo dia.

A notícia de Hakim doente logo foi varrida e auscultada por complemento macabro: fez cirurgia, com resultado escasso. O mal se espalha para outras praças, sitiando seu corpo. Ele vai precisar de quimioterapia. Até que, num sábado desses, de insônia dura, envolvida por muitos cobertores, no silêncio da cidade ausente, passei a ouvir os arrancos de vômito dele. O som sincopado descia pela madrugada, invadindo o fosso entre os prédios, estilhaçando vidraças. Rebocava minha cama com o bolor do fim, o corte, a sangria, as secreções do corpo devastado. Esculpi, com os dedos hirtos, o perfil do final – essa coisa sinistra, arrogante, maravilhosa, acentuando o vermelho ali na esquina, sublinhando nosso medo – medo que foi razão suficiente para a Santa de Suassuna interceder por nós diante do Cristo moreno em sua brasilidade de compassivo com nossas carradas de culpas mais ou menos justificáveis. Eu não conseguia dormir. E, nos poucos momentos em que entrei pelos tubos da anestesia, era arrancado das trevas pelos urros úmidos de Hakim, que parecia pedir socorro às paredes. Duras, silenciosas, imóveis, sem ter como esboçar um gesto de amparo. E eu ficava enrijecido na cama – mais uma vez estava apalpando a morte e ela não tinha cor, nem forma, nem volume. Apenas o gosto do oco voando trôpego pela madrugada. Estávamos na noite de 8 para 9 de setembro. De repente, caí num sono pesado que deve ter durado alguns segundos. O que sonhei ganhou proporção só alguns dias depois. Sonhei com Deus, eu que sou descrente; com a morte, o nada, o infinito, o princípio da vida. Imenso túnel negro partia de minha cabeça, era a minha cabeça, e em suas paredes, na velocidade milhões de vezes mais célere do que a da luz, imagens se reproduziam caleidoscopicamente, até a exaustão, até o enjoo diante de tanta beleza microscópica ampliada em ângulos luminosos, moventes, recriados em duplicatas espelhadas. Eu acordava, ouvia as golfadas estomacais de Hakim lá no quarto andar. Voltava a dormir. O que tem de especial um sonho desses? Um detalhe me aterra, me leva à margem voraz de um cannyon sem fim: havia duas torres imensas. Eram vistas do alto. As pessoas, de certa forma, eram crucificadas nelas por meio de cordas e assim, as torres ganhavam sustentação. Como dois cogumelos gigantes, as torres tinham um dinamismo centrípeto próprio que as tragava – implosão – e só mantinham-se de pé e em estabilidade porque as pessoas, amarradas nos topos arredondados dos cogumelos, davam uma espécie de liga misteriosa e sacrificante à integridade dos edifícios descomunais, centros de alguma coisa que a bruma do sonho não me permitia divisar. Só via chumaços de gente atarantadas perguntando, buscando, procurando. Na verdade, eram essas pessoas que, sustentando as torres com seus corpos amarrados, mantinham também o capitalismo. As cordas: o capital; os corpos: o trabalho. Marcas. Close nos vergões, no couro arrancado. E eu acordei, falando:

            – Apesar do capitalismo, a vida vale a pena.

A vida era intensa, por que eu tinha a medida do quanto ela já se esvaía de Hakim, liquefazendo-se lá no quarto andar. E ao retornar outra vez ao sono, encontrei as duas torres sendo investigadas, porque muitas pessoas morriam ali, especialmente atraídas pelo grande vazio ao seu redor. Para ele se atiravam num voo que em pouco tempo as pulverizava e nem tinham tempo para uma troca de prosa, no ritmo de apocalipse de Nelson de Oliveira. Outra vez de olhos abertos, eu tinha de dentro a visão de Deus, do nada, do absoluto, do fim, da morte, do princípio da vida. O peito esmagado pelo que via e ouvia, não aguentei mais. Sacudi minha mulher e disse:

            – O Hakim vai morrer.

Ela se levantou às pressas. Por qualquer razão, pedi para que ela subisse. Era um domingo de sol. Li os jornais. Durante todo o dia um único sentimento martelava minha impotência de homem que se quer artista: se eu pudesse colocar em palavras e imagens o que vivenciara no sonho, faria uma obra impressionante. E não a faria por mim. Faria para dar consolo aos outros, distender sua vida para além do duro ofício da rotina. Então veio a terça-feira, 11 de setembro. O mundo centrou sua atenção no atentado às duas torres de Manhattan, esquecido de tantos outros que ocorrem todo dia e não encontram nicho nas manchetes dos jornais, nas imagens dinâmicas da TV. Não estou falando de guerras do imperialismo e sua política de submissão, de fome, exploração, violências etc. Falo deste taliban mesquinho implantado em cada esquina com sua garra draconiana apontada contra a cara de quem não pode ser por não estar conforme ao mundo que nos foi passado como mundo. Vivemos tateando sob a burka. E mal respiramos. E chamamos isso de vida.

E hoje, quando via o jornal da Globo, acompanhei matéria louvando a coragem do prefeito Giuliani que, mesmo em tratamento de quimioterapia, visita os escombros diariamente, em busca de sobreviventes. O telefone tocou. Hakim pedia limão. Enquanto lhe abri pequena sacola com limões meio murchos, ele explicou alguma coisa que faria contra o enjoo. Perguntei como estava. Disse que água tem gosto de quiboa. Que não consegue comer. Afastou a camisa para revelar os quilos perdidos. Sua cabeça lisa refulge. Peguei um copo d’água e como vingança contra as inúmeras ausências, bebi com vagar e prazer, antes que venha a vida e roube este sabor de mim. Lembro de quando ainda falei com Hakim sobre o prefeito de N. Y. que está na luta. Ele concordou:

            – Não se pode abaixar a cabeça.

Será que ainda resta cabeça num caso assim? Acredito que os limões não surtirão efeito. De fato. Ouço outra vez os ruídos sinfônicos de Hakim, neste nosso prédio que não é nenhuma torre e não deve estar no plano de ninguém, a não ser de um ou outro ladrão que se embrenha pelas escadarias em plena tarde, para levar os enfeites de natal das portas. Na quarta-feira, meu afilhado de casamento fará exames. Garantiu que será o dia mais feliz de sua vida, se ficar constatado que o mal regrediu, que a carga química que vem descarregando sobre seu corpo deu resultado. Torci. Torcida de futebol ganha jogo? Na nossa Baixada, cercando o Furacão, parece que sim. Mas não temos aqui coral de trinta mil vozes para acompanhá-lo. Precisei fazer estas notas apressadas para atestar a mim mesmo que algum mecanismo vital permanece em andamento. Só por birra, vou tomar outro copo d’água, ainda que acolitado por acordes cacofônicos que saltam em atropelo do andar lá de cima. Me isolo depois no vinhedo da biblioteca. Ouço Chico ou Gal. Leio Guimarães ou Borges. Vejo um filme. A corda se estira um pouco. Por ela ando, como o francês andou de um prédio a outro. Não ficarei marcado por vergões mais fundos que estes aqui. Nem precisarei me atirar no vazio. Vou sorvendo o gole a gole. Talvez uma cantata de Bach. O ar da vida fica por um instante crispado e, nas suas dobras, um certo encanto aninha-se, como se fosse possível burlar a dor dos homens. Pensei em subir. Levar A doença como metáfora, de Sontag, para ele. É deste papel que Hakim precisa?

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Mater creatoris

Às  vezes o silêncio fica acumulado nas paredes, nos vidros das janelas. O dia, difícil de continuar em sua determinação de tempo sem apelo maior que a permanência simples do horário não-humano. A casa parece balão inflado por meio mecânico,ventre esticado de mulher com a cabeça na escuridão. Entre cada tijolo disfarçado pela argamassa há um espaço inútil. Se a casa estivesse num outro século, haveria ali baratas e percevejos assustados com o bimbalhar dos sinos. Não a barata metafísica de Clarice, nem o percevejo teatral de Maikovsky. Mas barata e percevejo em sua realidade repelente, viscosos à mão e ao olhar.

E as paredes estão muito pálidas, conscientes do esforço para manter a posição ereta. No meio delas, a coisa prolixa que nenhum entendimento pode captar: o ser no tempo, a tarde duradoura na tarefa de existir, sem ter como desdizer o passado, a época da plenitude, da alma horizontal satisfazendo-se com o posto e o morro e a goiabeira.

A casa tem sua abertura para o escuro, e a mãe lá dentro refaz todo dia a útil tarefa de se ausentar do mundo, estando nele de forma enviesada. E no terreiro mais ou menos guarnecido de areia fina, ao lado do gramado, o menino desenha grandes formas, uma brincadeira pessoal de criar projetos de peças impossíveis e desnecessárias. Ele pensa num carro capaz de contê-las, ser movido por elas, ainda que isto não seja provável. O carro não existe. Os desenhos ficam sufocados na areia, porque quando nascem, nascem para não ser, para a não serventia que é a glória de luz do menino.

Com vara, pedaço de sarrafo, ele preenche toda a extensão do chão ressequido. Seus equipamentos não têm nenhum eixo e seu método é solto e arrevesado, como é alcoólico e frágil o que vai desenhando, certo de que nada daquilo produzirá peças de verdade para serem encaixadas em qualquer coisa num mundo de verdade. Por que ele insiste em passar a manhã ou a tarde ocupado, religiosamente, com aquela produção sem serventia, gerador de monstros disformes que estampam desde o nascimento a disfuncionalidade?

 Há um toque de selvageria no menino, magro, franzino, a seguir aqueles traços espontâneos com a precisão da mosca no ar em seus tempos de ócio. Riscos e mais riscos desconexos que não logram a linguagem de um sentido. A textura final exala a expectativa indócil de um quadro esdrúxulo, composição desativando a mais reles quadradura do círculo. De vara em riste, horas após horas, ele esgaravata, tonto, porque, para ele, é preciso preencher o vazio e no seu respirar as linhas ensandecidas são o que ele mais pode oferecer de sua posição humilde de menino no mundo que não precisa de sua ação. Nenhum espaço vago pode sobrar de um centímetro a outro.

Enquanto ele risca e arredonda, o tempo permanece afixado em cada parede ou móvel da casa, derrete-se entre as achas do fogão que crepita sob o leite que sobe e fica logo marrom sobre a chapa e lá dentro é o reino dela, a mãe que não suporta ver o vazio preenchido pelo menino. Seu nervosismo pode ser entendido como neurastenia ou psicose ou desequilíbrio de quem pariu sem exata consciência do processo. Então, entre as nuvens da casa, o que há mesmo é depressão, a vingança das glândulas e dos hemisférios cerebrais sobre o despojamento de vida a parir sem nada saber. Ela é tronco inflexível, feixe de tensão arrastada pela casa, pelo pó que encontra em cada objeto. Adoeceu no medo, tornou-se imprestável para as tarefas, além de se continuar martirizando em cada virada do relógio. No mormaço da casa, na penumbra sem festa, ela crê na obrigatoriedade de fazer e fazer, como se o mundo fosse implodir dali a uma semana e ela nem pudesse terminar o que nem começou. Observa o Sagrado Coração de Jesus e Maria, imagens tão tensas no ovalado, meio inchado, com as linhas do contorno perfuradas ao redor dos corações. Por trás, brilha uma luz encarnada como o fogo do fogão e coroa Jesus e Maria e é ainda capaz de coroar a fé da mulher. Até um tempo atrás, aqueles dois eram marido e mulher. Ela custou a entender o filho na mãe e o filho da mãe. O único sentido em sua vida está enjaulado entre aqueles poderosos signos da raça dos deuses que, no entanto, nunca se movem, nunca aceitam oferenda, muito menos as orações tartamudeadas sob o suor que o braseiro de achas ensandecidas joga sobre suas faces. Sua ignorância insufla-lhe arrebatamento místico e mais forte corre a convicção de que viver é sofrer, estamos todos marcados pela cruz.

A fervorosa papoula da esperança cria no estômago da mãe a certeza da recompensa eterna, um dia, atrás da nuvem calma. E ela não duvida de merecê-la, ela faz por merecê-la a cada passo, a cada mover dos dedos em torno de panos e panelas, o passo sem medida dentro dos quilômetros de encarceramento no interior da casa. O dia-a-dia é construído sobre a sapata irrefutável da fé na salvação, a crença acesa nos Sagrados Corações que serão grandes para acolher todas as dores dela, as fisgadas que correm dos ossos à alma. Corações adamantinos, corações que jorram luz. Aquele Jesus e aquela Maria, portos materiais e seguros do que ocorrerá na eternidade, ainda que às vezes ela vê apenas figuras de papel que as traças não deixam em paz Se não cuidam do próprio retrato, a modo de que vão cuidar da alma de uma maltrapilha como ela? ela pergunta e não sabe navegar entre as garfadas da dúvida.

E nem a fé, nem a esperança contêm na mulher a aflição, o bicho venenoso morde dentro dela. Sente espasmos, vacila, cãibras nos dedos das mãos e dos pés, tudo por ordem de um destino não casual que marca suas vítimas para a grandeza, desde que se enfrente o castigo com cabeça erguida, afinal, todos têm a sua cruz. Ela sabe que se fia dentro dela a doença não localizada. Seus tremores convertem a casa na névoa da manhã em cripta de chamas e o meticuloso trabalho da mutilação recomeça como um grito de pássaro no claro de todo dia. E aí ela grita, esbraveja, vai à porta da cozinha e, ao ver o menino compenetrado em sua tarefa, aninha-se no estômago da mulher a fibra do gosto desatinado de destruição.

O mundo precisa ser purificado pelo sangue do Bom Jesus, é preciso colocar essa criança no reto caminho à mão de Deus, senão o diabo vai fazer dele mais peste ruim que já é esse bicho que nem penteia a touceira. Grita, atropela as sílabas com cuspe feroz, trava a língua no excesso de dentes ou na falta de alguns que não permitem o fluir do discurso sacrossanto como desejaria. Porque mãe tem poder, protegida pela Virgem, qualquer mãe tem a graça de ter trazido vida ao mundo de Deus, então a máquina lá de dentro do corpo que faz o filho cria óleo bento que a protege contra os males do mundo, é a armadura que Deus dá à grandeza da mulher que aceita criar um filho de Deus, mesmo neste mundo que não o mereça. Com o pano de louça enrolado entre os dedos, sua fúria contorce-se entre as marcas esbranquiçadas das juntas e ela não consegue trazer em palavras as intenções do sangue, a missão de que é portadora e acaba elevando à milésima potência a desordem da casa tão opaca, só o braseiro da lenha dando vida, estalando dentro da semiluminosidade da casa sem foco por economia.

Os coágulos comprimidos em sua alma explodem e o cutelo das palavras que arranja corta retalhos no menino que para, olha, pensa em fugir e sabe que será pior porque pior é ter de voltar depois do pior. Por um momento, olhos baixos, sem conseguir terminar a última peça, a curva um pouco mais suave para essa coisa encaixar noutra coisa, ele sente que o nível do tormento pode afogá-lo e só não o afoga de todo porque ele fica apreensivo com a situação dela, sabe que daí a pouco terá de correr e fazer um copo de água com açúcar bem forte para ver se a calma dos nervos dela volta. E ela não suporta vê-lo ali, crê que a atividade dele é mesmo indiferença com ela, porque enquanto ela se mata para ele ter do que comer, ele vagabundeia com aquela vara na mão, riscando pra cá, riscando pra lá, coisa alguma sem serventia. Isso é provocação do demônio, o menino é danado em matar o tempo, fazendo que faz mas não faz. Esse tem o diabo no couro, se não, não passaria riscando horas inteiras o terreiro naquela confusão do capeta que não sobra uma figura com inteireza pra gente ver o que é aquilo que ele afinal desenha.

Ela se põe a xingá-lo, rosário rubro de imprecações e sobe na sensação de poder, de rainha do lar e do fogão, amparada pela Virgem que não há de deixá-la só no mundo com esse imprestável, pois, sendo mãe, só por isso já está ao lado da Mãe de Deus e tem dela proteção e iluminação. Gesticula como santa possessa prestes a acudir o mundo com milagre. Alega que o terreiro está sujo, depois que ela o varreu e limpou com rastelo mais da metade da manhã, pra ele chegar agora e simplesmente abusar do sacrifício dela que não é empregada dele, não senhor, ele que não pense. E recolheu as folhas secas, mesmo sentindo as pontadas horríveis nas costas e na barriga das pernas, que isso ela traz mesmo é da mãe dela, praga de família, as irmãs têm isso também, não tem jeito ou oração que cure, e ela fica às vezes pensando se os Sagrados não poderiam dar mãozinha numa coisa assim fácil de curar, uma dor nas costas.

Se Eles não cuidam disso, vão ter olho bom pra coisa mais avantajada. Será que vão? Será que não esqueceram de gente tão miserenta como eles ali, no canto do mundo, sem serventia ou luz pra nada? Vê a areia maltratada, aquela areia fininha que ela capricha tanto para deixar igual, como se fosse piso lajotado. Aqueles traços no chão, aqueles garranchos idiotas parecem mais a vândala confusão dos espíritos do mal que encarnam naquele pestinha que não encontra prumo na vida, nem abaixo de chinelada e cinta. Sua ordem da casa, do terreiro, fica desafiada e desfeita por ele, o tufão. Nada é mantido como deveria ser, como casa de família que deve ter brilho de louça até na cristaleira. Mas aquele estouvado, quando larga o sarrafo e entra, já desmonta tudo, derruba tudo, mancha tudo.

O menino fica enrijecido, pensando quando foi mesmo que ela teve para com ele uma palavra mansa. Umazinha, mesmo meio mansa. As solas dos pés grudadas na boca da fornalha. A mãe grita, repete todas as palavras e as sombras e as ameaças, as duras pontas com a sabedoria de quem sabe onde dói, como moer, como triturar, ah, que eu não passo de barata mesmo debaixo do pé dela com aquele chinelo de borracha que não perdoa. Ele encolhe a cabeça entre os ombros, deixa cair a vareta, não pode nem fechar os olhos porque fica tonto e pode cair e aí ela vai dizer que é faniquito de marica, porque homem que é homem não fica tendo coisas que só mulher grávida tem. E, se ele cair, o mar de Moisés, aquele que se abriu de gelatina no filme que deixou o menino de olho vidrado na tela, já desconcentrado de tudo o que vem depois, porque vinha encaraminholando, se Deus é de fato poderoso, pra que que o mar tinha de ser de gelatina pra poder se abrir na hora de fazer o filme. Se ele cair, a roupa mancha, suja mais e é danação pura, ela é capaz de pegar a vassoura e desancar o pau nas costas dele, como se fosse mula de garupa assim, estacada, sem serventia, só ser malhada pela fúria da mulher que era magra, sim, mas nessas horas, parecia encarnar o diabo pela força que tinha pra descontar as raivas no lombo dele.

Olhos cravados naquela areia crespa, tão boa de desenhar, ele tenta sem muito jeito, debilmente, apagar com os pés os traços distorcidos, fazer voltar a textura uniforme dos veios do rastelo que ele encontra pela manhã, a areia toda igualzinha, boa para os cálculos daquelas peças de aparelho que não foi inventado ainda e ele aí, no duro da invenção. Ouve aquela linfa maldita saltando da boca da mãe, azedando nas veias, no canto dos olhos, trazendo vidro esfarinhado para as vistas, a neblina, a nublagem, o apagamento das cores do mundo, as falas da mãe latejando debaixo de cada olho, como se tivessem força pra trazer pra fora a água lá de dentro, mas este gostinho ele não vai dar não, chorar na frente dela? nunca, nem que arranque o couro cabeludo com a acha do pau em fogo.

Só então é possuído pela certeza: tudo aquilo que ele cria na areia com a vareta comprida, aquilo a que se dedica por horas e mais horas, tentando converter inutilmente numa forma razoável, com nome de qualquer coisa que já tenha no mundo, bom, aquelas peças para um carro, uma engrenagem não inventada, aquilo que ele faz e não existe de verdade, ele faz apenas para ela, para distraí-la um pouco, coitada. Desde que o pai foi embora, ela fica mais e mais nervosa, a casa é grande demais, de repente só para eles dois, então ela tem de preencher os vazios com os gritos, as raivas, o papelão que faz de zurrar na porta ou janela pra vizinho ouvir.

As linhas traçadas e retraçadas ele faz apenas para ela. É o seutrabalho dedicado a ela. Queria que os olhos dela se enchessem de prazer com aquelas formas que podem não existir, mas existem justo por isso, porque ele está criando cada uma no momento de tirar da cabeça e botar na areia branquinha. Queria que ela descobrisse que aquilo também é o mundo e é para ela, é dela. Que ela pudesse encher com mais luz os olhos, depois ela o aninharia no seu peito, faria cafuné na cabeça dele, como nos outros tempos, e os dois sentiriam o prazer de um estar dando presente para o outro e, por alguns minutos, esqueceriam que ele foi embora para nunca mais voltar. Assim, ali bem encolhido no peito dela, sugando o cheiro de flor de laranjeira, o cabelo dela perturbando os olhos, mas tão de veludo que nenhum mal faz, ele poderia dizer palavra boa, ouvir outra melhor e ela, ela poderia esquecer os malditos nervos. É assim que pode ser a vida. Ele acha que não precisa ser com aqueles berreiros, as falas todas. Afinal, ele está fazendo alguma coisa, colocando no mundo uns troços que nem ele entende, mas que são bonitos, são. E porque são bonitos, ela podia gostar, se alegrar, aliviar a carga de ficar dentro de casa berrando como louca. Aí ele simplesmente ficaria com ela, não sentiria nunca mais vontade brava de se mandar pelo mundo, sem nunca olhar pra trás.

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Ela, ele – a trégua

Ficou entre dar a última pincelada no quadro – paisagem? sensação? rosto capturado em cor inventada por ele? – beber, na poltrona, uísque com água? Ouvir Palestrina? Boccherini? Renato Russo? Grudjieff & De Hartmann? Não que hesitasse. Era questão de gesto ou economia de espaço. Vergões de cor no ar. Dois passos para trás – rosto? sensação? rudimentos de paisagem? Que tal um objeto: vaso, barraca de feira, patinete. Um ser – o negro da feira, de cabelo oxigenado, o menino do patinete e a constante camisa do Atlético, a noiva que recebeu o vaso, nua antes de subir no altar?

De certo modo, a mulher no hospital, acompanhando o pai, abria a vida para considerações a espinhar. De par em par, os vidros do terraço sobre a cidade. Ao lado dela, atropelo contínuo, o chão cavado, a forquilha para o ninho das horas. Sozinho, o início da embriaguez semanal: podia ser, podia divagar e até deixar as portas do armário abertas. Nenhuma pressão do tipo policialesco-maternal, aguda pontada. Não ter calcinhas balançando no box. Ali, dia atrás de dia, o desfile das rendas, os cortes ousados, as linhas da confecção pensada para provocar. Acompanha a evolução da moda ou a imensidão em novos tratados de designers. Mais estranho: na cama, sua percepção era muda. Boneco budista, nada via, nada falava, seus poros não tinham ouvidos. Ação única e rápida. A luz apagada e o mergulho nos circuitos em meio a névoas, o navio ancorado na neblina, o peito desmentindo a alegria da semana.

A luz da manhã, a planura para os efeitos caseiros, o não sobressalto do cotidiano, cada compartimento efetivamente feito para o gesto que ele era levado a realizar. A chegada ao escritório. O almoço. Às vezes, com amigos e companheiros de trabalho, outras, com clientes, ex-alunos, e aquele mar rugindo atrás das dunas, o navio de propósito desprendido da neblina. Nem mesmo assim a casa-de-máquinas ousava livrar-se da ferrugem. A volta, os papéis. Nunca pensara dançar tal valsa. A pintura rendendo tempo e espaço, alternativa para nenhum compromisso ou cansaço, além dos inevitáveis. A vida bordada com o suor das axilas etc. E ela vindo de roupão prateado, as unhas também luzindo, os lábios com fiapos de manga – não, outra tintura de batom.

Pela porta da sala, dentro dos armários de vidro, a louça empilhada jamais segundo a função – de acordo com a tonalidade, vala rascante como sirene de madrugada, criança da periferia, igual a rascunho amassado e retirado do lixo, rumor de MST pelas avenidas, depois concentrado diante do palácio do governo. Roupão, tintura nos lábios, palavras fáceis escorrendo pelo olhar dela com uma ou outra armadilha que ele não identificava. E, ao entrar no banheiro, o cheiro do modess largado ao lado do bidê: ardência, de cujo núcleo subia chuvisco de agulhas, nunca se perdendo nos labirintos, sempre indo direto à inquietação: meu bem, esqueceu de novo a coisa fedida… Lembra dos hotéis na Europa, com embalagens pra higienizar…? Já vou, já vou, tô secando as unhas, não seja chato, tuas cuecas também fedem…

A vida é contingência, fatia de carne cortada do lombo sem anestesia, sem destino, uma vez que nenhum açougue dá valor a este músculo que sangra. Não tinha e ainda não tem certeza. Espera, envolve-se com as bordas moventes da culpa ou da irritação a adormecer os dedos. Desejaria voar, plantar samambaias, partir as paredes. E nunca mais construir nada, coisa alguma com alguém. Não os ideais dos anos 60, não a empolgação dos 70, não o egoísmo burocrático dos 80, não a frieza modorrenta, a lisura de ladrilho de hospital, o rés do chão tecido em comentário mercadológico dos 90. Apenas não ser, ainda que conservando o corpo. E a mente? Um trecho dela, a célula não comprometida pelo sarcoma da rotina e do leite derramado no piso de mármore, entre as frestas das tábuas, nas bolsas de teia atrás de portas e prateleiras. Ir ao mar, andar à noite, ficar nu de madrugada. Ter em mãos uma ou outra menina para não deixar a bílis crescer – de repente, um poema da escola:spleen dos deuses e carpe diem. Os tropos do barroco. O ego romântico. O vítreo cristalino dos realistas. Ainda ensinam esses exotismos?

A vida de hoje: rasa, na espessura de uma tela de televisão ou de micro. Ressonâncias, gritos verdes contidos pelos gráficos dos engravatados nas torres de vidro fumê, onde viver é apenas o burburinho distante, mar sem o sal e o rufar das ondas, horizonte com suporte em organogramas de cores várias. Ficar nu, duas horas antes do banho frio. E ela acompanhando o pai, cujo câncer na garganta obrigava-a a dar atenção aos mínimos gestos dele. Ela, a caçula, a mais próxima das oito filhas, mulheres empertigadas – elegantíssimas, claro, com um toque assim, digamos, de escultura em aço escovado, envoltas em papel celofane – e solenes. Se o rei Lear fosse o pai dessas oito! Que disputas! Que clamores, dos quais nem Albert Finney daria conta, diante do espelho e da amnésia de seu último espetáculo. Este pai não teria dedos suficientes para tantos anéis a distribuir. Ela, não, simples, rarefeita como a pomba que se acreditou componente da Santíssima Trindade. Ela, disponível ao pai, mais, mais do que se poderia esperar de mulher casada – quem sabe, tanto no hospital, carradas de vigília e gestos de amparo, em razão de um desses caroços de culpa, a herança de quem foi jovem nos anos 60-70. E carregava membros da utopia em cada parte do fígado, com ligação direta aos lobos do cérebro, e não pode suportar ver a vida transformada num desfile de fantoches, a farsa da modernidade encobrindo tudo como, durante a ditadura, os gigantescos outdoors ao redor das favelas. A paisagem era um tromp d’oeil e bebia-se a canastrice.

Bem, hoje o que era estratagema de alguns coronéis ocupa o trono do império, é o cetro do tucanato, adormecendo nos cobertores ou corredores de Brasília, sob a cantilena do poder. Ela aninha-se ao lado do pai, contente por ser a voz dele. Sua alma? Sua grandeza! E nenhum bolo queimado no forno, sábado à tarde, enquanto ela desdobrava-se em passar a receita por telefone à amiga de olho sartriano. Sua empolgação era antecipatória. Antes de provar o bolo, afirmava o divino e a massa a queimar, o marrom oleoso perpassando todas as paredes – nova crosta na tela, outra teia entre os pincéis. Nem mais pizza para encobrir a preguiça de ambos. A noite esticava-se e não havia filme na tevê, nem cedê novo. O prazer todo seu: cortar com gilete o celofane da capa, na abertura. Que restasse intacto, capa transparente sobre a pequena caixa agradável aos olhos. Nenhum dos dois tomava coragem de ir ao fogão. Ou pipoca – ela com a travessa tamanho caravana-no-deserto, ele, na despensa, procurando uma garrafa de vinho, sempre tinto, se não, o estômago… De imediato o oco ficava cheio daquela inundação de sal esbranquiçado, mínimas couves-flores, com polpa amarela, fervilhando em seus dedos. E a pizza era um ritual para desviar os olhos da inépcia do momento.

Com o pai, dias após dias, ela renovava, quem sabe, a distância, a vontade de voltar, de reaver a casa, de inovar o passo da valsa tão desgastada como os tacos do chão, ali, onde estavam a toda hora. Quem sabe, ele poderia chamar um amigo, arriscar o churrasco que põe o garfo em meio a essas conversas esfarrapadas, nos fortuitos encontros de rua, quando não foi possível desviar-se do outro. Sair com a secretária nova, ainda com a auréola de barro do interior. Quebrar aquele jeito, o sonso trejeito, a postura modelada em cimento de-ouvir-dizer. Aplicar mesmo civilidade, civilização, cidade grande, desafios do século à beira do fim, um tanto de sacanagem, só para não esquecer a carne e o osso de cada um, e o perfume francês. Ali, aqui, fazer irromper a avalanche. Quem sabe, nestes torneios de urbanóides, refariam a ordem-desordem-aglomeração-empilhamento do atelier. Retocar alguns trabalhos de outro dia. Eufemismo? Esperança? Investimento? Trabalhar com telas mínimas ou médias é gozo da brocha. Mas é exercício em termos de tarefa? É emprego de energia e fisicalidade do ser, aqui, vagando entre os próprios planetas habitáveis, na mesma medida em que sonha enviar sondas até o espaço a circular entre outras modalidades de vida, ali. Ou ele próprio, abandonando seus esquemas prévios, assume certos papéis dela e se põe a ordenar o apartamento.

Assim, ao chegar para o descanso, vendo tudo no lugar, terá como desfrutar de certa paz, com gomos azuis relaxantes, inebriando-se no dolce far niente, a ponto de levar ao sogro, no adunco dos dedos, outro estoque de energia e vitalidade, em calor suficiente para cobrir os rombos do câncer, refazendo no velho senhor o ânimo para levantar-se e continuar do ponto em que foi arrancado, há mais ou menos três ou quatro semanas, sem indício para isso em qualquer das muitas linhas do seu circuito. Então ele sentou-se diante da tevê, um capuccino previamente preparado, já murcho, desses de lata em compra de supermercado. Na terceira ou décima primeira cena do filme – um enredo tão linear, bem fazia o diretor se alterasse um pouco o andar das figuras – cochilou. O resto do café acordou-o com o frio sobre a virilha. O cigarro queimava perto do terceiro botão da camisa, estampando ali a arena lunar de cor sépia.

Ele levantou-se. Dormir agora era jogar-se no espaço da cama todo para si. Única vantagem? Tendo ainda o privilégio de manter a janela aberta, sem o temor dela por bichinhos que poderiam subir do jardim a tantos países distantes, lá embaixo, num trajeto em que eles não incluem a escalada do prédio. No último lance da vigília, pensou em ligar para o hospital, inteirando-se do estado do velho. Amanhã, amanhã, antes de ir para o trabalho. Mesmo por que, podia despertá-los: ela, do cansaço de manter-se num estreito limite, ele, da sonolência dos remédios para encobrir dores e medos. Puxou o lençol. De que forma ela comprava as guarnições, combinando cada detalhe, numa espécie de luxo cotidiano do pequeno-burguês que se esbalda em peripécias de conforto? Sob o abajur, o último livro que ela lhe dera: um esplêndido volume sobre a arte construtivista no Brasil que o deprimira em várias frentes: queria ter as obras em seu acervo, queria ser o autor das obras, queria organizar um volume com esta qualidade. Mas iria dormir pensando nela que, no hospital, talvez velasse pelo pai ronronando em dor, os órgãos falindo devagar como importa à vida, quando decide espezinhar.

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