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Bateias circulando na água barrenta

Vou compondo estradas. Com pedaços de outras e seus desarranjos. Com imagens caducas que nunca entendi. A árvore da vida fica onde mesmo? Qual é o fruto de seus galhos e sombra? Não dizem os tratados que comê-lo é encontrar a morte? O grande desvio. Num ponto mais ou menos determinado, a história partiu-se em mil frações e nunca mais houve como juntá-las, sequer para o mosaico mequetrefe que poderia servir de painel ou lembrança. O baú de ossos regurgitando de trapos, ainda que dentre eles alguns cintilem. A verdade, contudo, mantém-se inalterada: o campo do tempo vem se estreitando e fica tênue a possibilidade de uma jogada. Às vezes, um telefonema vara a fortaleza de papel e a gente pensa que o convite fará a abertura definitiva. E só dá mais trabalho: voltar à crosta, encaramujar-se, medir a extensão da ferrugem. O filósofo disse que o mundo nos contém e aqui tudo é para conhecer. Só que os sentidos ficam amargos depois da breve festa para os olhos. Amigos essenciais estão reduzidos a esqueletos no aconchego cetim dos caixões. Borges estabeleceu que “a verdade é que ninguém pode ferir-nos, salvo aqueles que amamos”. Pelo jeito, então, o amor acumulou-se e supura destas fendas sem aprumo. Vou compondo estradas, o que é tergiversar diante daquela composta por mãos e tirocínio que não me dizem respeito. Queria mesmo a coragem e a decisão de outro traço, a arquitetura mais no interior de meu nicho, para acomodar-me com meu tamanho real. Mas o que ficou de quem teve um princípio de construção comigo? Que restou das levas de bateias circulando na água barrenta para encontrar a pepita? A mina esgaravatada no morro, sustentando-se em vigas roídas por cupim e treliças de teias. O desconcerto? O intoxicante manto de papel com que me cubro para não ver além dos muros tudo o que poderia ver e haver para a mesmice de uma redução supérflua. É isso? Tudo o que vejo e há. E o muro há. A coisa certa triturada e de sua metamorfose nada reconheço. Vejo e há. Isto eu reconheço, apalpo, sonho. Sou obrigado a compor com Lucrécio: “giramos sempre no mesmo círculo sem poder sair”. O voo de meus desejos espraia-se em permanentes distâncias. A estrada ruma por si em conduções ignoradas por minhas mãos. Os pés, cavados na pedra, respiram mal seu arremedo de ir, valendo o mesmo que ficar. Na matemática das horas, resta a mancha de exaltação medida. Como nesta madrugada, acompanhado por Horowitz que dedilha Scarlatti, Chopin, Liszt, Rachmaninoff em high performance. Também posso recorrer a anotações e encontro: a Praga de Kafka era uma intersecção de elementos eslavos, barrocos e góticos, com um pé na Idade Média. Por outro lado, o gesto de apertar a mão em cumprimento vem da prática dos duelos: era uma forma dos contendores verificar se o outro não portava arma escondida na mão desarmada. Quando, hoje, nas ruas cruzam-se tantas mãos, que tipos de ferimentos mais ou menos disfarçados trazemos para dentro de casa? Em cada aperto, transferência de calor, o que se revela de tudo que não queremos ver ou entender ou preservar? Quando Apuleio, em O asno de ouro, descreve o palácio onde entra Psiquê em suas andanças doidivanas, projeta suas pinceladas em Dante. Umberto Eco segue os mesmos passos no portal de sua capela do mosteiro. Por sua vez, Nicholas Evans ao colocar duas mulheres conversando, eis o que dizem: “Li num livro de interpretação de sonhos que, quando se sonha com cobra, é porque a gente está obcecada por pênis”. A outra acredita ter uma resposta providencial: “Que alívio, porque eu só sonho com pênis”. E você, linda garota, canadense que canta uma espécie de techno-blues e aprendeu português e capoeira e é descontraída a ponto de levitar na tela? Eu me casaria com você. Só que não tenho o ouro de que você precisa. Ficou lá no barranco a caverna mal cuidada, os trastes todos pelas bordas e nenhum veio de pureza encontrada para garantir um espectro aberto à vida de múltiplas aventuras. Mas, com Horowitz me ciceroniando ao longo desta madrugada, os esteios tornam-se mais fortes, as vigas reverdecem e, quem sabe, de bateia em bateia, a gente encontre um consolo para o tudo não havido. Vou no que há, sem barganha faustiana. Você vem e canta para mim um blues rústico e eu faço café em chaleira mesmo e aí a gente se põe na borda da pedra, recama o rio com olhos de música e retoma a estrada num ponto qualquer em que a abandonamos. Teremos aprendido, à sombra de Nietzsche: “o nosso próprio ser acha-se bem escondido de nós mesmos: de todos os tesouros, o nosso é o último a ser desvendado”. E quem falava de composição de estrada, de pepitas, de minas arranhadas em encostas de montes, como posso não me haver lembrado disso? Mas esta história de tesouro a desvendar em nosso íntimo lembra esses mantras de livro de autoajuda em que obsessivamente se martela na mesma tecla e acho que isso não convém ao momento, porque “o suor, a dor, o medo da medida errada” são as “fontes da invenção”, segundo o que andei lendo em Kurzweil. Por isso, transformemos nossa dorzinha suada, nosso medinho de tudo estar fora de medida numa criação a quadro mãos: você, linda canadense, faz a música. Eu componho the lirics. Vou no que tenho e, assim, compondo estradas, nelas tenho uma via para chegar aos que antes de mim disseram com tanta eficácia o que nem mais preciso expor. E por birra ou confirmação, retorno a Borges: “Y podria hablar de la eternidad como hablé de la rosa: de las generaciones de las rosas que en el fondo del tiempo se han perdido quiero que una se salve del olvido, una sin marca o signo entre las cosas que fueron. El destino me depara este don de nombrar por vez primera esa flor silenciosa, la postrera Rosa que Milton acercó a su cara, sin verla. Oh tú bermeja o amarilla o blanca rosa de un jardín borrado, deja mágicamente tu pasado inmemorial y en este verso brilla, oro, sangre o marfil o tenebrosa como en sus manos, invisible rosa: eternidad”. Gumbrecht acredita que o lirismo de Borges é um modo de resistir à modernidade em seus problemas de representação. Pode ser. Deletando a pieguice do dom para nomear, fico com a rosa. E como todos se apóiam em todos para ter voz própria, assim componho estradas: com lajotas tiradas do caminho de outros, no barro moldado por outros abro minha picada. E tudo ia bem, eu inflado com minhas pequenas ousadias de roubar daqui e daqui pétalas e talos ao longo do silêncio da madrugada soprado pelo ruído ventoso dos circuitos do computador. De repente, em meio ao texto, salta um desses avisos intraduzíveis sobre não sei o quê do arquivo e siglas repletas de números e letras e o texto (estrada) que eu vinha compondo foi para o espaço ou para as tubulações amplas deste maquinário que não domino e se desdobra feito gigantesco e pueril caleidoscópio ao infinito de espelhos que se reproduzem em ícones e links e janelas que nunca sei onde vão dar. Claro que imediatamente fui atravessado pelo facão da impossibilidade de resgatar o que havia sido extraviado. O próprio computador enviou a partir de meu texto um e-mail para o diabo? Talvez. Perdi a rota. Se já é difícil compor estrada, a minha vinha ao sabor do que ia encontrando em anotações esparsas, em lembranças aleatórias, em sugestões de passarinhadas em páginas que desdobro ao vão de mim mesmo. Recuperar como. O roteiro que se fazia na medida do encapelado silêncio de mais uma noite não dormida, evaporou. A tecnologia não é segura. Estivesse eu com lápis e papel… Saboreando texto e disco, este chegou ao final. Claro que o computador, ziguezagueando entre uma linguagem e outra, quis justapor as duas em sua memória que não tenho capacidade de nomear e ficou com a mais vistosa e com razão: Horowitz. Dancei. Perdi os arranjos. Recompor um caminho não traçado, não há como. Vou refazendo estradas com sugestões de outros e seus arranjos. De bateia em bateia, pela água há muito mexida, prefiro mesmo é terminar com o último verso de Manuel Bandeira em Libertinagem: “A paixão dos suicidas que se/ matam sem explicação.” Isso sim é viver e tem um rastro que me leva a Pound: “And Li Po also died drunk./ He tried to embrace a moon/ In the yellow river.” Minha serelepe e esbelta canadense, não tenho ouro, nem contrato para manchete. Fico com este rio amarelo onde tento te abraçar. De algum modo, ali, abres uma clareira e eu refaço um pouco da estrada.

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Amor de verão

O bostinha passou em frente de nossa varanda, justo no momento em que Maristela, minha noiva, estava sentada no meu colo. Mal deu pra olhar de banda e constatar: é mais um surfista oco, com inscrição colorida em inglês no peito da camiseta e uma tatuagem ridícula em qualquer ponto de sua beleza. Disfarcei como pude a olhada. Mesmo assim, Maristela perguntou: o que foi. Inventei: parece que conheço. Na manhã seguinte, eu varria a calçada, pra justificar a hospedagem de graça num fim de semana na casa do tio de minha noiva, quando a figura despontou outra vez. Acreditando que ninguém me observava, joguei meu olhar perscrutador naquela cintura. Que deslumbre, matematicamente composto pra mexer. Sem camisa, só bermudão. E logo ali na beira, a barra da cueca preta e a pele não queimada. Engoli em seco. Ao levar o cigarro à boca, o tipo me olhou. Também fundo, querendo. Conheço a raça. O mundo se ausentou pra mim. Nem vi Maristela do meu lado já baforando: que tanto olha esse cara? Não pude conter o vermelhão e tentei a política: olhando que cara? tava apenas curtindo o solão, tomando ar. Assei uma picanha estúpida. Bebi tudo o que tinha de Antártica e lá vinha a criatura. Só pra me tentar, quem duvida? Eu disse pro pessoal que ia até o mar. Digestão. Cheguei na praia. O loirinho se alongava numa pedra. Quem quisesse ver reentrâncias e saliências que visse. Eu quis. Puta corpo exato, perfeição pura. Peito lisinho. Puta gostosura de carne tostada pelas ondas. Potro louco por um ferrão. Ofereci cigarro. Nem duas palavras e Maristela e as primas gorduchas aportaram. Ela foi guspindo: quer dizer que dá em cima de garotão, seu viado, escroto, pra mim chega. Todo mundo se mandou. Fiquei sozinho na varanda. Viado, eu? Mas se sou eu que como essa putadinha, todos eles adoram chupar, imploram pela pica no rego, lambem meu sovaco. Como vou explicar pra Maristela? Se ainda não fosse tão crente. Dancei nessa. Ninguém em casa. A tarde dava a última guinada no céu, quando um cão molambento entrou no jardim. Veio todo torto. Ossatura de faminto. Sentei no primeiro degrau. Com um toco, coço suas sarnas, espremo os bichos, arranco cascão. Tento aliviar o lombo do flagelo. Ele fecha os olhos. A língua suga as narinas. Foi o que me restou. Nem vi mais o tesudo. Bermudão, tatuagem, cabelo parafinado. Acho que nem quero.

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Depois do banquete

Cheguei do banquete durante a madrugada. Bebi muito sem conseguir me embriagar. Na hora da dança, as músicas eram estranhas. Nunca ouvira nenhuma delas. Sentado na mesa, pensei: posso ficar aqui, preso aos meus pavores, ou posso cair na farra – a grande farsa.

Quem ali estava devidamente feliz? Quem não forçava a barra? Por que não faria eu o mesmo? Então fui para o meio do salão e pulei muito, até encharcar a camisa.

Na mesa, meu pai e minha mãe continuavam taciturnos. Há dois anos eu não os via. Achei-os muito velhos e decrépitos. Eles não se entrosavam com nada. Como eu. Se bem que eu ainda tinha a capacidade de fingir. Entre o salão e a mesa, bebi muito, dei abraços, fiz de conta que a vida era alegria inteiriça.

Quando cansei, no começo da madrugada, senti que o pavor poderia me dominar. Bebi mais. A decadência de meus pais me acabrunhava. Não que penso na morte deles ou coisa assim. Isso faz parte do grande amargor que sempre carregamos. Ver meus pais velhos, no fim da linha, só provava uma coisa: de verdade o tempo passou.

Eu não sou mais menino, eu não estou mais com eles, eles não podem mais me proteger. Claro que nunca me protegeram. Foram meus carrascos com todas as letras. Só que naquele tempo eu não sabia disto. Estar em casa com eles era estar bem guardado, o navio seguro no rumo certo, o acalanto de uma presença que eu imaginava voltado para mim. Veio vindo a vida devagar e eu os fui perdendo, mesmo que eles nunca tivessem sido meus. E ao perdê-los, eu me perdi de mim.

Não queria crescer, tornar-me esta monstruosidade cheia de brechas que é o adulto. E não teve outro jeito. Tornei-me adulto, ainda que jamais tenha sabido por quê, para quê, onde e o que fazer com isso.

Meus primeiros anos de adolescente foram enterrados num internato. Lá, aprendi muita coisa. Veio o momento de sair. Tudo o que aprendera, não servia para nada. Ao contrário, atrapalhava. O mundo era de um jeito que não era o meu, impunha necessidades que não eram minhas. Fiquei tonto de espanto. O que eu faria? Haviam me transformado num molde para o qual não havia massa adequada ou vice-versa. A cada lado que me dirigia, encontrava a matéria estranha, os dados fora do prumo. Precisei fugir para dentro de mim, modelando ali dentro alguma coisa que me dava sentido.

Por algum tempo funcionou. Agora, tudo se mostra trincado, derruído, e eu não tenho solda para cobrir os esgarçados. Os temores me fazem suar em pleno frio. Afundo ao sol do meio-dia. E depois de rever meus pais e constatar que praticamente estão mortos, o menino em mim tornou a afogar-se nos velhos entraves.

Também estou velho e nunca encontrei um jeito de entrar nos cotidianos. Foi sempre assim: eu aqui, a vida lá. Os fatos acontecendo muito longe de mim. É uma ferida inadiável reconhecer que o menino perdeu seu lugar e para sempre. Uma transição tranquila e festiva entre o que chamam de fases da vida? Jamais ocorreu. Simplesmente não houve fases.

Tão somente uma: a infância. Rejeitei  o crescer e seu bolor, as obrigações estafantes que não levam a nada, este mundo desértico cheio de nuances e tremores que apenas sabe cobrar, impingir, e coisa alguma oferece em troca.

                               Fiquei preso numa hora mortiça. Fiquei preso numa corda que me puxa para lá, quando o lá não existe. E estou sem recursos que me deem condições de cortar a corda. Não há legitimidade aqui. Meu estar aqui ressente-se de consistência, raiz. As ações reativas que ainda posso mostrar não me trazem a recomposição do que jamais demonstrou unidade ou rosto ou identidade. Ignoro quem eu seja, além do emplastro viscoso a carregar comigo.

Ao chegar do banquete, nem tirei o terno. Atirei-me com sapato e roupa na cama, ardendo em febre de reconhecimento: ao longo dos anos, tornei-me um nódulo presunçoso. Babei no travesseiro. As têmporas chiavam feito piano desafinado e sempre a mesma cantilena: do pânico faço meu tecido, e os seres esquálidos vistos hoje estão a quilômetros de ser minha família. Sou destituído. Inexiste efeito a partir de mim.

Agora, quando acordo nesta segunda-feira de sol metálico, a opressão chega a estreitar no peito meus olhos. Tentei refúgio em deus e logo pensei: se a vida é uma caminhada para ele, segundo dizem tantos pernósticos, por que tem de ser esta aspereza, a agonia, mil punhais cravados na pele? Não tive aqui na Terra mão de pai sobre minha cabeça. Não tenho no além mão de pai para me dirigir. A solidão absoluta.

 À medida que as horas passavam, com tenacidade e clareza a idéia única tomou conta de mim: não dá mais. Até aqui foi possível sustentar certo equilíbrio. A certeza de que dos entulhos cresceria algo. Nada, que nada. Sei agora. A tenacidade e a clareza da ideia tornaram-se mais impositivas: só na morte se respira a tranquilidade. Pois. Decidi morrer. Sei de que modo, um modo limpo, sem dor, sem tragédias cinematográficas. Coisa simples.  Preciso ainda dar conta de alguns compromissos, evitar que a vida de certas pessoas fique complicada com meu aniquilamento.

Assim que organizar o que falta, acabo com a farsa, com o fluxo equívoco. Ponto. Pronto. Ao tomar tal decisão, vi que nada mais importa, nada tem força para me chamar. É bom. Poderei acabar sem ter do que me despedir, do que desistir. Pronto. Finaliza-se a cena. Um ponto final em certas funções, boa dose de uísque, escolho música capaz de trazer certa plumagem macia e deixo de ser.

Houve época em que acreditei que superaria este estágio e chegaria a algo próximo de chamar de realização ou esperança. Me enganei.  Decidido pelo fim, noto que um certo processo de leveza se vai apossando de mim. O mundo? Argh, que interessa? Um festival de mediocridades, nada de novo nisto. Falta pouco para eu nunca mais acordar e ter o longo dia pela frente e não saber o que fazer com ele, afinal. Falta pouco para me desfazer em pó e verme. As engrenagens do mundo continuarão, por certo, em sua dança de exigências malucas, travestida de seriedade. Isso nada mais tem a ver comigo. O que já é alguma coisa.

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O sopro da vida

O que pode uma palavra amarrar quando o sopro da vida está amarrotado, um maço de cigarros em bolso de paletó abandonado? O sopro da vida é apenas um traço, uma grafia na pele que protege os ossos do mundo. E os animais da morte farejam de longe. E as torres cantam seu silêncio de cimento e ferro. Nada se diz, nada se dirá. Um sopro de vida no peito, estrada para máquinas de destruição, em lugar de armaduras para o plantio. Gota a gota o sangue quente expele lava pelos olhos. E troncos de gases sólidos vigiam a última viagem das mãos. Documentos, títulos, obras, feituras do homem simples ou do complexo, em nenhum complemento há amarras para o sopro da vida fazer-se sopro e não apagamento. Registre-se o fato de névoa: que palavra sustenta o  fio da vida? O longo, o tortuoso, o obcecado fio da vida cortado logo de início pelo umbigo. Segurança? Proteção? Consolo? Qualquer jogada mais séria daria abrigo à carne murcha e renovável, se o sopro de vida resistisse ao próprio vento da vida. As estrelas caem do céu até a lama mais próxima. O cordeiro afunda em espuma venenosa. Há rigor quando se trata do fim. O mesmo não ocorre para a semente. Se crescemos, crescemos em espaços indigestos de tons cinza e pérola esmagada, e fica para nós o mapa do acompanhamento até a última morada. Negaceamos o tempo todo, o que de nada adianta: inexistem palavras para garantir a continuidade. Perene, apenas o apagar-se da vela, a lenta escultura do vento sobre a pedra a esfarelá-la. Brincamos com o pequeno cão como se tivéssemos um sorriso novidadeiro cheio de cápsulas e alvéolos para produzir fluidos de perenidade. O espaço se ab re, então. Queríamos isto. E vemos a cidade envolta em seus viscos frios e tecnológicos e nada faz bem aos nossos olhos. Perdemos a digna energia do enrijecimento em nome da molécula plástica sobreposta a nossas unhas. Garantiríamos o ardil diabólico contra ataques do mutismo maligno. E o silêncio escarnece de nós. As sombras devoram nossos votos. Foi roubada a metafísica do corpo. A carne, integrante de nosso ser, é um pequeno crime voltado para nossa própria carne. Os restos mastigados nos esperam ao luar verde da última noite. Os navios transportam cadáveres pelos mares juncados de caveiras sorridentes. Nem guardarás teu fruto no escaninho mais profundo do corpo de certa mulher. As mulheres juram longa transparência e nem ali haverá grumos de sopro de vida. A nudez espontânea de nossas mãos aponta para o norte e ali grandes geleiras coroam a geografia. Fizemos pactos tortuosos com nossos inimigos e agora eles nos cobram todas as cartas. Quais foram guardadas no paletó, junto ao maço de cigarros? Existir é a condensação florescente do finito infinito entre cada dedo e sua raiz na palma pálida. Retrocedemos à noite do lobo. Enlouquecemos em cada gole, em cada pílula, em cada consulta ao mestre, vazio de ensinamento. O gelo do norte queima as etiquetas pregadas diante dos olhos para nos orientar. Foram banidos os contratos para o pensamento. O corpo verga no vazio. O corpo atreveu-se a amar outro corpo como figuração do ser. E mesmo assim desapareceu o solo para o sopro. Quantos à revelia de nossa organização mostram retratos desbotados, sem personalidade, amordaçados no marrom. Eu não sabia que estava frio, nem tu sabias. Ao menos teremos um elo comum entre o fim e o fim. No escarpado da cidade precipitamos máscaras, cônscios de que não mais as usaríamos. Aí ficamos desnudos e recorremos a outro expediente para matar o amor que nos matava. Pensaste que aos olhos humanos bastaria um peixe para garantir a fertilidade das mulheres. E há os rapazes. Em que grota derradeira derramarão sua vaga e opaca substância para filho nenhum. Muito da ferocidade submarina – a carregar cada morto de nossa lembrança – espraiou-se pelo contorno dos bens e vimo-nos reduzidos à vazante que a lua consome. Os objetos de descanso boiam no grande oceano para nosso desespero de insones com arco e flecha em busca do sopro da vida. A claridade de manhã foi espelho sem reflexo. Não  nos miramos, não nos preparamos para a vertigem. E assim perguntamos aos deuses e aos vermes: o que pode uma palavra ou muitas sustentar quando o sopro da vida é sola gasta de sapato? No teu ouvido ficou o retiro do destino. No teu corpo, as raízes sem chão para vingar. A madeira do rio dispensa a construção de casas. Tudo é vago no desenho mortal. A taça rubra entre teus lábios e os meus. Depois ouvi a sonata que entontecia, enquanto apareceste com um blusão gasto, menos valioso que o paletó deixado no cabide. Havia esperado por horas, talvez por meses tua chegada. E ainda no portão te reconheci morto para minha necessidade de palavra e sopro. O nascer não se faz por anúncio das horas. Como as mulheres não se dão ao trabalho de tecer outros véus à espera do aventureiro sagaz. Se ele destruiu cidades, por que voltaria para casa? Assim te pergunto eu. E aguardo pela resposta no teu corpo de madeira do jeito de um rio do mar a engrossar o discurso dos mortos. No opaco das armaduras nós voltávamos à origem da Terra e a onça lambia nossos pés, após tocar as folhas com sua ausência transposta em guinada transparente. Este é o enigma inicial do sopro. Pelos continentes e seus arredores estive muitas vezes, desconhecendo tuas paragens, tua maldita e insistente distância quando mais precisava tocar teu peito em nome daquele sopro de que nada sabes, pois sequer levas o troco de minhas palavras sempre e tão repetidas. Quem sabe, tua adolescência seja um vento dirigido, mesmo sendo um homem como o é a mulher. Não ergui cantos de mágicas percepções para nossa localização ser mais exata. Não me interessou nunca a pureza das fronteiras. Ofereço este arcabouço, este projeto de algo vão e vil e pergunto outra vez: é possível à palavra ser o enigma do sopro e este estabelecer o que jamais foi mantido em forma compreensível?

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Os círculos azuis

Ele acorda. O mar está vivo. Levanta-se da cama, carregando consigo parte dos lençóis. A noite foi só um bloco tranquilo e negro de apagar-se entre sonhos dos quais ficaram breves sensações e não adianta o esforço para captá-las. Abre as cortinas, depois a janela. Na varanda, percebe as plantas em movimento de respiração contínua. Como vem ocorrendo nos últimos dias, ele não vê o mundo. Tem diante de si camada de névoa a deformar o contorno das coisas objetivas. Se tivesse bebido, falaria em olhos de ressaca, embaçados pela sombra do álcool que se incrusta no cérebro e devolve ao entorno sombras modeladoras a existir em outro patamar. Espreguiça-se. O corpo está leve. Apenas a visão pesa nesta neblina cinzenta a alimentar sua retina com espectros. Não espera muita melhora com o passar do dia. Em verdade, olhar assim o mundo é uma forma de ser, a forma de seu ser de uns tempos para cá. Seria difícil precisar quando o processo começou e sua razão. Sabe apenas disto: acorda e não vê mais com clareza. Pensa em poeira, em nuvem deslocada de sua dimensão aérea e depositando-se no fogo de seus olhos para que eles não mais ardam, para que eles encontrem outro sustentáculo e não sejam o sentido exato usufruído por tantos anos. O opaco, sem luz, é uma realidade a se impor com muita precisão na imprecisão. As cores fogem pelas vias do turvo e a forma primeira de um móvel ou das próprias mãos impede o sentido da luz e da própria dimensão material do que noutros tempos era o seu ver. Ao menos um ver direto, de transparência, sem o matiz cinza e turvo que agora realiza seu estar em casa, no universo. Ao voltar para o quarto, vai ao banheiro. O mar, ao longe,  ele sabe que é claridade serena e ondas de coloração, ainda que não o veja. Tenta pregar os olhos no espelho. Ali tisna um lusco-fusco também comum a todas as manhãs. Joga água fria no rosto, o que lhe arranca um suspiro, como se se tivesse afogando por decisão própria. O peito parece inchar, depois murcha no desafogo da atmosfera em volta, do ar que ele solta. A respiração brusca é incolor, um tênue fio de dinâmica física fugindo do seu corpo na mesma mecânica de anos a mantê-lo de pé. A cortina de cerração toma-o de assalto por todos os lados, como se o chuveiro estivesse há muito em funcionamento, espargindo névoa e escuridade por onde ele anda. Acontece que ele ainda  não ligou o chuveiro e nem está pensando em banho. Concentra-se no assombro de costume das últimas manhãs: velar pelo toldamento de suas vistas, esta invenção nova como ponte ofuscante entre seu eu e as circunstâncias escapadiças. Ele diz: estou encapotado na sombra e não encontro brechas de luminescência para outros lampejos e há muitos dias isto vem acontecendo e não sei o que significa. Enturvado, desce degrau por degrau até a cozinha, quase toda erguida por paredes de vidro que refratariam o sol marinho em fagulhas a se deitar pelo chão com refulgência. Foi ideia de amigo arquiteto. Para que, junto ao mar, vivesse a sensação de estar flutuando entre a materialidade do som e o incorpóreo da luz. Agora, a sombraria bruxuleia perante seus olhos encapsulados pela meia-luz, pelo alvor cinza de manhãs não mais pigmentadas pelo flamejante do mundo sempre a esbanjar cor. O descorado apaga o resplendente. Nada em nada transluz. O que o arquiteto executara em baile de irisantes e cálidos balés de forma em movimento torna-se o borrão de seu olhar vidroso, camadas de obnubilação entre ele e cada detalhe ao seu redor. Senta-se. Bebe o suco que a empregada preparou. Degusta o néctar invadindo suas cavidades, como se ali assim cada tom fosse recuperado, transformando-o num manto multicolorido de intensidade de luz. Mastiga com vagar uma fatia de pão de centeio, apenas com manteiga. Pensa se terá dificuldades para ler. Apesar da experiência por que vem passando, ainda não atingiu o ponto alarmante de encontrar as palavras entre espessuras indecifráveis. A empregada quer saber sobre o almoço e se alguém virá. Não, estará sozinho e lhe dá total liberdade na escolha do cardápio. Volta ao quarto. Toma o livro de sobre o criado-mudo e se distende na cadeira de preguiça da varanda. Num primeiro instante, vê-se embaraçado na concentração. Nota que está tenso. Uma criança que vai ao médico e teme a injeção, a intromissão de um corpo estranho em sua carne frágil. Respira fundo e, ao longe, o antigo azul do infinito lhe é agora muralha de melanita, camadas alvacentas num deslavado meio neutro, sem a convicção brilhante de outros tempos. Então abre o livro. O sol incide sobre as páginas. Em lugar de um quadrilátero de brancura a assaltá-lo e a ofuscá-lo, o que se ostenta entre suas mãos é o gris de folhas marcadas por sinais mais escuros. O que não impede a leitura. Deixa de prestar atenção no pardacento a circundar sua visão, como uma engrenagem que tentasse eliminar a memória da paisagem, e põe-se a ler, esquecido do gradual desaparecimento do circundante. Ouve o mar. Ouve mais o discurso do autor em seus torneios exatos para captar o purpúreo barroco de seu tema. Faz um breve balanço mental: em sua vida, manhã após manhã, o mundo se vem mosqueando num tisnado baço, na mesma medida em que o autor aprofunda seu lúrido labirinto até chegar à ametista de uma história sem história, só o desfiar da alma em decomposição, por saber-se cercada de um cosmo ligeiro em demasia, onde quase ninguém mais tem tempo para isolar-se das constelações chamativas e, solitário, pôr-se próximo da meditação que é a literatura, a pintura, a música de autores eruditos. Esta alma presa ao cardão e à angústia de não se adaptar à assepsia das modernas parafernálias de controle e manuseio rápido, quer manter sua auscultação dos mínimos ruídos do que há por aí, como um modo de integrar-se a tudo. O autor dá conta da proposta. Página a página seu personagem enovela-se mais no distanciamento social, sobe uma montanha e passa a residir numa caverna, também de frente para o mar. Renunciou a tudo: dinheiro, carreira, amor, prazeres. Seria quase um santo dos tempos modernos, alguém convicto de que imagem demais, conforto demais danificam a natureza humana que, embrutecida, já não tem senso capaz de captar as pequenas nuances da vida e com elas montar mosaico pessoal  e intransferível em que habita o sentido. Fecha o livro para usufruir do que leu e não se furta de um paralelo entre sua vida e as ordens que se impõe o personagem. Sabe que algo radical também lhe acontece. E pelos olhos. Um entardecer constante que não o perturba, ao contrário. Ele vem usando este estágio de ver/não ver como um convite a escolher outro ângulo de estar no aqui e agora. Jamais comentou o que lhe acontece com quem quer que seja. Quando sua namorada vem passar uns dias com ele, consegue ter um comportamento dentro da normalidade e nada chama a atenção dela. O enublado de seu senso de realidade não é prelúdio de cegueira ou qualquer outro distúrbio da visão. Ao menos ele não encara os fatos desta forma.  Simplesmente um dia acordou, as circunstâncias não ofereciam as cores vibrantes comuns até a tarde anterior. Estranhou um pouco. Pensou haver dormido demais e logo retomaria sua visão comum das coisas. Não retomou. Passou, a partir daí, a se acordar sempre com a pergunta: será que hoje a cor será cor novamente? Não era. Mesmo que não se estabelecesse em trevas, a casa se foi apagando, ele até gostou disto, mesmo com certa inquietude. Acreditou que estava prestes a novas experiências e é assim que vem encarando o embaciamento ao seu redor. Retorna ao livro. Lê mais algumas páginas, nas quais ecoa fúnebre a crítica ao vício do consumo, do ritmo vazio e pragmático a que a maioria das pessoas se entrega, sem muita ou nenhuma consciência. Interrompe outra vez o romance e passa a fazer considerações objetivas sobre a situação que vem mantendo: mora em ampla casa, numa encosta verdejante que dá para o mar; venceu a última crise (grave, dura) de depressão depois de terapia intensiva e duas internações – de Andrew Solomon: alimente-se, tome suas pílulas, movimente-se, não goste de sua depressão; sua namorada é mulher linda, inteligente, delicada, mesmo que não aceite nem de longe a ideia de casamento – liberdades conjuminadas tornam-se prisão com disfarce; o nível financeiro não lhe causa danos; a cada exposição suas esculturas vendem bem, mesmo alterando significativamente a linguagem em relação à última fase, o que deixa os críticos um tanto sem centro na hora de definir seu trabalho. E coisa de uns quinze dias, a sombra macia em seus olhos, modificando seu sentir, sem lhe alterar o estado de ânimo. Pensou também no efeito retardado de algum dos muitos medicamentos que foi obrigado a ingerir para vencer o pânico e o impulso à autodestruição. Logo desfez tal esquema. Afinal, há meses está livre daquelas ingestões e nada  precipitaria um incidente inesperado. Prefere mover-se pela renovação de outro ponto de vista. É algo novo, um fenômeno a lhe trazer outra plasticidade para o mundo e disto haverá de resultar alguma coisa interessante, seja em que campo for. Os dias seguiam neste ritmo, nesta cadência. Até que certa manhã acordou-se e percebeu que círculos azuis tomavam conta de seus olhos. Passara a noite com a namorada que cedo foi para a cidade, cuidar de uns problemas de trabalho. Levantou-se e tomou um banho prolongado. Os círculos azuis permaneciam e com mais intensidade. Por algum motivo insondável, ele soube que aquele seria seu último dia. Não ligou para a namorada, nem para os amigos. Por que criar alarde? Vestiu uma bermuda branca e uma camiseta branca que ele mesmo pintara: múltiplos círculos pequenos e coloridos em torno de um grande círculo azul. Deitou-se de novo e chamou a empregada: caso eu não me levante até o meio dia, chame o médico. Ela esfregou as mãos, nervosa, ânsia aflitiva: o doutor está passando mal? Ele lhe deu um sorriso de gratidão consoladora: nada, não, apenas estou indisposto. Solícita, ela procurou ajudar: o doutor quer um chá? Ele manteve o sorriso aberto numa benigna demonstração de afeto: faça apenas isto, chame o médico, caso ao meio dia eu não esteja de pé. Ela então se afastou e ele aprumou-se melhor na cama, para esperar o que viria. Ao tocar as doze badaladas, o relógio da cozinha alertou a mulher. Ela esperou alguns minutos. Abriu a agenda e ligou para o médico, no nervosismo de quem cumpre contrafeita uma ordem não bem compreendida.

Para Lindsey

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As duas faces

Para ti não há um rio seco afogando-se na névoa. Ou não é isto? E as margens do rio se alargam até os fins do mundo, para conter todos os rios e lagos e mares no chão crestado da tua caminhada. Ou não é isto? Tua preferência é pelos barcos e estes deveriam assumir o primeiro plano. Mas que sei deles, além da madeira que os compõe. Reconheço na tua cara o desprezo. Paciência. Poderia falar de bois. Deles, pelo menos o mugido ou o rabo em ritmo de espanta mosca. Feras de pelo fulvo te esperam com frutas envenenadas pelo vento. Isto também não te interessa. És um homem de grandes bares. Resistência a 130 garrafas. Eu, apenas mulher lírica. Tentando arranjos. Em verdade, a teia única em que prender palavra que te valesse. O sumo das frutas arde em teus olhos. Teus pés mancham de modo enviesado e quando pensas em peixe encontras uma pedra e na pedra, o corte da faca que um dia cortou teus laços com as portas abertas. Se eu não fosse tão calada, teria te mostrado cada rumo desses envelopes. Acreditas apenas que sou mulher de asneiras. Por ter lido livros sobre os astros. Busquei, sim, resposta que me deixasse menos escalavrada. De ti  esperar o quê? Fui lírica. Esta a palavra mais rica que conheço. E minha vingança: nem imaginas o sentido dela. Na tua camiseta, nos teus pelos, tens músculos exagerados, o calção dois números maior. Procurei fugir da mediocridade da vida burguesa, da banalização desses sonhos todos embalados pela tevê e o esgotamento de seu som. Por isso os livros. Com que nem atinas. Perda de tempo, maluquices. Sei, sei o quanto falas. Ainda te manténs de pé por insistência incompreensível. Cada centímetro do teu corpo pede hospital, sondas, mercúrio, bandagens, máscara de oxigênio. Largaste todos os manuais da vida, os apontamentos de portos possíveis (sinta o som dos “pés”), os projetos de ultrapassar por um dia o horizonte. Se fosse mulher de atitudes duras, te encostaria na parede e perguntaria por quê. Antecipo a resposta: nem assumiste consciência disso. Dar um passo além do horizonte, que história é essa? Teu cansaço é morte de café requentado, caneca de ágata lascada de tanto rolar pelo piso. O emaranhado de teus pensamentos não tem um nó central. E não podes esquecer: sei por ser lírica. Pelos livros, pelo piano, pela correria a fim de não perder cursos e palestras. Tu, bem, no bar. Eu me matei para absorver e criar fórmulas que dessem viço ao nosso encontro. Sei, claro, procurei a moldura. Enquanto refazias no cotidiano a camiseta, os pelos, os músculos, o futebol, a barriga em ponto não mais estratégico. Com um lápis vermelho sublinhava outra linha. Aquela capaz de te pôr diante do meu olho sem negaceio, com claridade. Talvez nem penses mais, talvez apenas sigas o vácuo acústico de obsessões a te cercar onde quer que estejas. Outras mulheres, por acaso. O futebol, com certeza. A cerveja como dogma. Olhas o sol e ele ilumina tuas feridas, antiga geografia. Isso porque abri uma por uma. Estudei plantas curativas. Inventei emplastros. Não te interessas? Sequer assim desisto. E encontras casais miseráveis em funções Pavlov, marionetes despidas de qualquer tremor mais profundo. Que tal um espelho? Em que dedo a diferença contigo. Em ti, tudo pré-programado. Relógio de corda. Pilha é sofisticação em demasia. E suportei com minha suavidade cada arranque dos cordões que te faziam em movimento. Teus componentes convergem para o copo e não negas bebê-lo e bebes, porque os poros absorvem do ar esta sede que esmaga. Desenhei muita sede em cada poema lido. Não descobri o modo de supri-la. A minha. Para a tua, cerveja está de bom tamanho. Palpitas na secura e nenhum lençol te acolhe, além destes que preciso lavar quase todo dia, tanto é absurdo teu suor, o caminho de pelos ao longo do tecido. Ensimesmado, às vezes vejo que tentas recordar aquelas cantigas banais, um dia tidas como margens seguras a te acompanhar vida afora. Acontece que o álcool faz dessas coisas, uma de suas traições. Mas me jogas na cara o costumeiro argumento  de teoria de intelectual. Não teorizo. Vejo. Analiso. Meço. E ao medir, a conclusão é um teorema irrefutável. Vida adentro tudo é lento e pouco. O cavalo morto em teu estômago é madeira de rio anulado. Porque acumularia ciência de barcos. E de redes. Estás, como homem de meia-idade, travado por tudo que fizeste ou não fizeste. E este cavalo morto? Não me convences que é brincadeira. Ao teu derredor foram espantadas as lavouras e os pássaros e nada de generoso e intacto se oferece ao teu encosto. Que queres, afinal? Não se suporta teu hálito, teu arroto, teu bodum. A natureza se fecha à tua passagem. O que considero lógico, mesmo sendo mulher de letras, como repetes com o eterno desprezo. Estás privado de faíscas que tocariam a mecânica da existência para um patamar menos duro. Por quê? Ora, é muito simples: camiseta, pelos, cerveja, músculos, futebol – é assim que perfazes teu dia, teu ser, teu destino. Quando tentei intervir, me jogaste para escanteio: eu era uma intelectual que só entendia de livros, não de gente. Eis aí! E assim estamos nós. Sabes que foste ofuscado pelos reinos perdidos, não sabes? Mas é claro, meu querido. Vives no estamento concreto dos encontrados. Para tua configuração basta o 2 e 2 são 4. A comida no prato. A cerveja fermentando o estômago. Eu que corra de curso em curso. Eu que perca a vida. A tonelada de minha paciência. Eu a bordadeira. A fiandeira velando para que o lance de tua sorte não fosse partido. E continuas pelo sinuoso rio desidratado que vai de tuas costas ao eixo do mundo. Aquele, o comum, no qual cada gesto foi pré-fixado e moldado num único sentido. Sentido dentro das balizas deles, é claro. Que seja: o convencional. Doas tua vida a cenas que foram montadas quando nem eras nascido. O pó não te incomoda. Eu é que complico, claro. Eu com a teoria. Na solidão espaçosa, ampla, porosa tu fundas um singular lamento que nem o poeta captaria: o de estar só. Veja bem: optaste pelo copo. Fiquei com o livro. Não há incompatibilidades. Há ranço, odores, fartum. Quando te vi, eras um texto subscrito por palavra alguma e muito borrão. Tentei botar ordem na casa. Tramar o discurso em manifestação viva da língua. Correste ao boteco mais próximo. Quantas vezes perguntaste: afinal, o que eu queria? Lamento, eu só queria a ponte que vai do nado ao nada outra vez. Amanhã seremos pó. Hoje somos carne. Pretendia vivermo-nos. Lamento. Não me entendeste. Eu também não te compreendi.

Para Eliége

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Poço

Eu poderia cortar os pulsos, ver o sangue escorrer até formar grandes coágulos no chão. Ao chegar a este momento, de certo não estaria mais vivo. Uhau! E o tapete e suas manchas? Quantos arabescos consumiriam meu sangue, acabando em outras linhas e desenhos? Fazer assim: cortar os pulsos. É um grande ato? Um ato corriqueiro, um desconsolo de quem não vê mais a paisagem. Os caminhões continuam subindo a ladeira. Os gansos, em torno do lago. O menino perplexo com o azul do céu – nele sua mãe vê sinais de outras civilizações. Ele não teme o ataque e sim que ela desapareça em meio a tanto entusiasmo. Como ele vê o céu através da vidraça do ônibus, diz que o céu está todo riscado e quer saber se aquelas são rotas de extraterrestres. Morto, não irei para lá, não verei qualquer chapa de aço brilhando como luz final no emaranhado da última dor. O norte do morto é o fundo do poço, o fundo da cova. Sem contas, sem carreira, sem o pavor, sem ter de carregar os olhos a fingir que vêem quando vêem mais nada. E sem o mar, incapaz de desbaratar a claustrofobia. Qual a hora mais propícia? E se chegar alguém justo no primeiro corte? Imagino que são necessários alguns. Este patamar de sangue e etc. não está superado? A morte não será limpa? Frascos de pílula, fígado desfeito? Claro, claro, é que às vezes ainda me fixo em antigos capítulos. Ah, os folhetins! Ouvirei a vizinha no eterno grito por seu filho Pedro. Ouvirei, lá no quarto andar, as gêmeas com seu choro arranhado. Ouvirei no fundo dos tímpanos uma voz que não desejarei interpelar: assim: afundo no azul diáfano do nada, cortado de rotas de astros, peixes transparentes revelando o segredo de sua circulação, uma criança apressada atravessando o palco com um punhado de terra, as árvores em balanço lento do outro lado do cristal. Vem o último suspiro. A face de deus se revela: as teorias e as racionalizações estavam erradas. Deus tem o rosto encarquilhado e apresenta um chicote sangrento nas mãos. Suas vestes estão esfarrapadas, manchas de suor, e não se deixa fotografar, nem admite conversa. Não deixa ver livro de anotações ou assemelhados. Entre as rugas, grumos de nuvens, e ele se perguntando: por que tantos se suicidam. Vai até uma estante improvisada, toma algo parecido com conhaque avermelhado, busca um banco, senta-se e me encara. Bate repetidas vezes com o cabo do chicote na palma da mão. Penso que é chegado o momento. Quero argumentar, preciso explicar, afinal, ele no seu Absoluto, nunca soube o que é dor. Não me permite a fala. Eis ele ali, deus. Será capaz de fazer um milagre e reverter tudo? Me recolocar no princípio do meu tempo? Duvido. Melhor é não se apegar a esta história de última imagem. Já vi quem pintava o paraíso – na volta dele – a partir de um desenho no teto de sua igreja. A última imagem – miragem, recorte de lembrança, avião dando rasante sobre as casas, o copo de vinho, o menino que se afogou no poço da casa da avó, a lombada de um livro não lido e que nos fustigou durante anos. Se for para ir, vamos todos e inteiros, e de uma vez só. Nada de arrumar dança de folclore e voltas para a mesma taba desgastada pela dança dos lobos. Contemos os pulsos de modo convicto, depois os cortemos. Ou vamos ingerir pílulas até a cegueira permanente dos olhos. Morramos de tal modo que nada possa ser remediado, nem as lembranças, nem as tantas vezes em que deixamos de ver os amigos, porque estávamos acuados e não éramos senhores de nosso tronco, pernas e braços. E qualquer explicação cairia muito aquém do poço em que de verdade estávamos encerrados não pelos irmãos de José, mas por seus e nossos demônios. Morrer é só morrer quando nada pode ser remediado, e a morte se estenda sobre cada ato anterior com um significado, não mais tão esgarçado. Assim, mais garantido. O caminhão na ladeira, o ganso no lado, o menino Pedro sendo admoestado pela centésima vez, as gêmeas pedindo novas fraldas. Tomei um bom banho, vesti roupa razoável e opto enfim pelas pílulas. Ingiro a primeira com a tranquilidade de quem em breve voará sobre o mundo.

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Traços de Pechisbeque

Morrer com o verde espiralando-se até virar cinza e sumir no horizonte; com todas as ruas vazias e sem ida ou volta, porque se pode tentar um outro projeto; com este esmagamento no estômago, monstro de mil patas, voraz, insaciável, devorando o interior dos músculos e das veias; com a demora escorregadia do chão a sugar passo a passo a última ventura; com as minas prontas em cada esquina do corpo à espera do inimigo que não virá de ponto cardeal algum, porque ele está instalado dentro, no fundo da agonia, e nada há de tirá-lo dali, nem pai, nem mãe; com a certeza de que as pequenas cenas iluminadas foram golpes de vista mal postos, pois em verdade havia apenas montículos de cinza agitados pelo vento; com o desdobramento da alma tornado papel e nele se inscreve a mensagem repetida à exaustão e ela não chegará à ilha, não será lida pelo náufrago; com os livros à espera de um circuito digno: o corpo a vibrar por eles e o corpo afasta-se mais e mais de cada ponto vital e tudo se entrecruza à beira do precipício presente desde que a vida foi vida; com estas estampas desgastadas na parede do cérebro; com o órgão tocando sonatas para surdos e mancos; com a regência do dia comprometida pelas correntes da hora a levar sempre ao mesmo lugar; com a insônia estranguladora da vivacidade e a vivacidade há muito tempo com o prazo vencido e não renovável porque falta o pagamento devido não se sabe por quem; com os pequenos deuses transformados em impossibilidade, deuses ocos, deuses malsãos trazem incenso e mirra e logo tudo foi posto na mesa dos venenos e ali a alma pasta; com a boca besuntada de excremento; com as unhas do pergaminho oval da vida rompidas na primeira curva e as vísceras se abrem e o lamaçal as devora para depois o sol secá-las em cordas podres, inservíveis para segurar o que quer que seja; com os amigos mantidos afastados para não perceberem de quanto estrago o pânico é capaz. Morrer devorando os deuses: as mãos de nada servem, o sangue tem tom de conserva ultrapassada, e de muito longe surge a litania para garantir a estupidez de cada gesto, quando nada pedia movimento.

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Casa falida

Como fazer para o mistério tornar-se luz? Abrir o peito ao terapeuta até ele escavar a última pedra, medir a casa e constatar que cada lance arquitetônico seguiu um traçado contrário ao originado um dia e tudo ruirá, a poeira será tão densa, os olhos cegos mais cegos serão na impossibilidade de encontrar contorno no caos. Pedir que a mulher se sente ao nosso lado e recontar a história: não é nada disto, muito pelo contrário, quando eu vinha do sul e nos encontramos, houve um erro de cálculo, o que a cigana leu não era para nós. Eu deveria simplesmente ter continuado meu rumo, desse onde desse. Com temperamento febril e mãos trêmulas chamar o filho e expor aos seus nervos a história que ele não conhece e desemboca sempre no suicídio. Ele precisaria de elementos para a reconstituição do mosaico e talvez pudesse ler nossas legendas com olhos novos e aquela luz, ainda pálida, se faria ao menos sobre os papéis que ele desempenhara na vida. Por algumas horas aprisionar amigos ao nosso redor e declarar com ênfase de quem vai sumindo na sombra: o que vocês vêem não é bem o que vocês vêem. São outros os elementos, o cheque mate foi renovado muitas vezes, o frio salpicar a pele de pequenas estradas vicinais que darão em porto desativado. Estas vigas aí, de verdade, não sustentam coisa alguma, além de uma lenda perdida quando éramos crianças e os titãs devoraram nossa seiva, trocaram nossas mãos pelos pés e somos agora quem procura averiguar se há espaço para desacertos de tal monta. Depois de algumas palavras sussurradas entre copos e xícaras, poderíamos sair pelas ruas do bairro e constatar que muito mais coisas há a dizer. Contudo, o que sobrou da escavação do médico e de nossa própria – diária – é difícil para quem continua andando. E veríamos os mortos em cada varanda, este assunto difícil porque, morto por morto, todos são iguais. Continuam fixos em seus retratos de ontem. Se um dia tivermos a primária ideia de que haveria bruscas ou lentas mudanças entre nós e eles, os mortos, agora constatamos que nada mais pode ou deve ser revisto. A trama deles está completa. A nossa, esgarçada. Com as mãos para trás, caminharemos algumas quadras, mediremos o quanto somos um assombramento em nossa própria vida. E diremos palavras sem contato. E chegados à praça, sombras vagando no seu desarvoramento, teremos a mesma  pergunta: como fazer luz de um mistério? Como concatenar-se consigo mesmo após a grande ruptura?

 

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Uma felicidade insuportável

Ele era taciturno. Sua cabeça conhecia mais os desenhos da terra que as figuras do céu. Ele parecia carregar mina de pedra dentro de si, peso que vinha de outras gerações. Ele batia uma vez ou outra as asas e nunca voava, estava preso a alguma coisa sólida demais, indestrutível, a triturá-lo enquanto sua cabeça girava em torno de si mesmo. Ele vagava na sombra espessa e às vezes parecia um navio pronto a ser carregado, só que nunca aparecia ninguém, e ele ficava ali, enojado no balanço das ondas, o casco a enferrujar. Ele não tinha amigos, e os poucos que teve não preservou e nunca soube a razão dessas deserções a acontecer uma após a outra, verdadeira praga a esvaziar sua vida. Ele levava as mãos pendentes ao lado do corpo, e elas jamais traçavam um sinal de boas-vindas, de alegre chegada, de partida repleta de promessas. Ele não bebia, e seus lábios não tocavam em nada além da água, e sua alma era esburacada, por onde vazavam as tentativas de represar algo para amanhã. Ele tinha uma espiral interna a começar pelo estômago, passava pela garganta, atingia o alto do cérebro, sempre numa velocidade atroz, altissonante. Ele percebia o ardor das têmporas, mesmo que desconhecesse os motivos. Ele não tinha um remo ou uma horta de que cuidar. Ele não era nômade nem autóctone em qualquer região e mesmo assim teria dificuldades para acertar o nome do lugar que atravessava no momento. Ele via asas negras em muitos recantos do mundo. Ele não tinha vínculos com mulheres ou homens, e amor para ele não era nada além de fumaça azul numa tempestade azul. Ele nunca se olhava no espelho. Ele media o espesso de suas feridas. Ele tinha horários vagos para tudo, por isso nunca os preenchia. Ele não acreditava em qualquer dos ídolos que nos últimos séculos arrebataram multidões. Ele não se sentia só, conquanto soubesse, desde o alvorecer, que estaria sozinho e jamais mudaria tal condição. Ele ficava um pouco perplexo entre o mundo das aves e o mundo dos animais, as rotas corroídas pelas pedras. Ele não deixava sinais de sua passagem. Ele não queria nada mesmo a não ser esta corda bamba, este vir-a-ser em que se conhecia acumulado de nadas e transformando-se em algo com forma de plasma. E saber que a qualquer hora poderia suicidar-se era sua insuportável felicidade.

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