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Varanda e névoa

                O professor apresentara Linda a R. no corredor da universidade. Linda, sensível, poeta, pianista. As paredes esticavam os braços para acariciá-la. As paredes zuniam, e R. as ouvia, o coração palpitando na pele, o chão em magma. Afundando, afundando.

                Seria possível a vida agora? Os cabelos compridos, a suavidade ao falar, o jeito de quem busca compreensão. Era isto que R. compreendia. Era o que tinha para dar?

                A interação. A plenitude. A plenitude plena.

                Como levantar-se da cama cedo, agora, e dizer: pronto, irei. Como não ir? Afastar-se? Anular as possibilidades? Esquecer o contorno ao alcance da mão esfarinhando-se por quase nada.

                R. resistia. A quê? R. incentivava estratagemas. Não colocar as cartas sobre a mesa. Inventar outro baralho, outra configuração. Dizer numa palavra única a extensão que vai dele até ela, que se espalha pela cidade e está concentrada no peito e formiga nas mãos.

                Na carne de R. a dor da derrota. Meio mundo esfacelado antes do começo. Se ia a um restaurante, a refeição era só metade, ficava presa na outra ausência, no que procurava dizer de si para inteirar-se dela.

                E a seu respeito dizer o quê?

                Este estorvo, o ninho de abelhas, os aviões em vôo rasante, a certeza do deslocamento, os pincéis borrando a tela – a desterritorialização.

                Massacre da razão sobre os escombros do cálculo, da estratégia não definida, do arranque primário. Florista, uma caixa de chocolate, um disco – coisas assim.

                Enquanto decide comprar flores, encanta-se com a manhã, mergulha no frêmito, prepara a festa, beija o ar da manhãzinha, R. revira-se nos lençóis.

                É isto. É fácil. Basta uma festa. Linda de negro, o colo ressaltado pelo vestido escuro de seda, o vinho. No calor do enlace, a possibilidade da palavra. Marcar cada sílaba para que não se perca o sentido do gesto. Que ela entenda, santo deus! Que ela vire a cabeça devagar e diga: sim, compreendo, consinto, quero.

                R. morava do outro lado da cidade.

                Ligou e ninguém atendeu.

                Nos lençóis tinha uma praia lânguida. O deserto embutido nos panos, murchando nas flores reclinadas no vaso, com as pétalas caindo sobre o pequeno embrulho de papel acetinado.

                Para reverter o quadro e ordenar a cabeça, R. decide pela casa de campo. Se afastar do bulício. Beber o silêncio e, pelos seus veios, a tranquilidade da decisão, o refrescor não mais possível, o discernimento entre tantas ondas contrárias. Lá. Não aqui. Lá, pela beira da noite, para afastar de si a opressão no peito, as têmporas latejantes, a aguda certeza de não fazer mais parte do mundo e querer entrar nele a todo custo.

                Acende a lareira para aquecer a sala. Acende algumas velas dispersas. Acende o ânimo de concentrar-se em si mesmo a fim de se saber melhor e puxar o fio da meada e, no fim deste, o bilhete com as inscrições do passaporte. Faz um chá para acalmar-se.

                Da varanda, contempla a paisagem. Vales, montanhas, árvores. E o rio convertendo o campo numa contínua festa úmida, um rio de curvas bruscas e muitas pedras – contra elas a espuma efervescente ainda que gelada. E a água leva galhos, folhas pela sua transparência. A água eleva no ar a presença martelante de uma canção. Peter Walsh e a compensação do envelhecimento: as paixões permanecem na mesma força de sempre, o poder dando à existência seu sabor supremo, apoderar-se da experiência e transformá-la em plena luz.

                R. envelheceria um dia? Sim. Talvez. Antes disso, muito a fazer, pouco a decidir.

                Na varanda, degusta com vagar o chá na grande caneca. A névoa da tarde se esparrama pelo verde, pincelando cada detalhe de novo tom, a transformação da luz em algo que se afasta.

                De repente, de uma encosta, ele vê a figura esguia e branca de alguém a aproximar-se. É um rapaz. Está nu. A pele muito pálida de quem nunca viu o sol. Passa correndo. R. não sabe se há outra moradia por perto.

                O rapaz escala uma pedra quase bloqueando a curva do rio. Ele estende os dois braços ao infinito. Com as mãos fechadas. Depois reclina-se sobre si mesmo e fica longo tempo na posição.

                R. toma o chá e observa. Não entende o ritual. Um maluco? Outro desnorteado? Alguém conferindo à natureza o poder que ela não tem?

                É quando o rapaz se ergue. Fica ereto. Algo cai de uma das mãos. R. não sabe o que é. O rapaz se reclina. Toma o objeto. Então R. percebe: um canivete que tem leve brilho na névoa mais densa. R. avança no entendimento: o rapaz investe o canivete contra os pulsos.

                Largando a xícara no beiral da varanda, R. corre em direção ao garoto. Precisa descer a encosta, atravessar galhos e troncos, subir na pedra.

                Sobe na pedra e vê: o rapaz inscrevera dois profundos cortes, em forma de L, em cada pulso. O sangue escorre. R. paralisa os movimentos e contempla a figura tão branca. A beleza do jovem. O gesto seguro de quem rompeu alguma coisa que doía. Vê o sangue na pedra. Sabe que nada pode fazer.

                De volta à lareira, sente profunda perturbação. Por quê? A brancura do menino, sua beleza, o gesto final? Ali terminara ou começara algo. Por que justo dois cortes em forma de L? Esta a perturbação? E a nudez veio a que propósito? De quem nada mais tem a perder?

                Linda desfaz-se por algumas horas nos tormentos de R. Este apenas fixa o fogo. Vazio de si. Vazio do mundo. Os olhos presos às chamas. Imóvel, descentrado, imóvel. Vê o fogo. Vê a nudez. Vê os talhos. A pálida pele macerada e tingida de vermelho.

Para Daniel José Gonçalves

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Reversão

Do palácio de sua febre, ele via nuvens em curvas pelo céu. Por trás delas espiavam anões de circo, com seus brocados a cintilar no fim da tarde. O mar vinha até a porta, quase batia no tapete, e o barulho do mar era o barulho de todos os afogados e dos barcos impossíveis, dos pequenos portos construídos em enseadas com árvores frutíferas, cabanas de pescadores morenos, conchas em fio para o próximo verão. Se ele se revirava na cama, as ondas do mar e a curva das nuvens o acompanhavam num ritmo muito físico. Ele contemplava os tantos quadros na parede, sem compreendê-los. De encostas distantes vinha um tocador de violão e vinha um menino a soltar pipa e um camponês envolto na dourada colheita do trigo. Tudo cercado por névoa, como se não houvesse dor, como se todos dissessem – vivemos para te consolar, ainda há espaço para ti no mundo, não perca as forças dos braços. O lençol era um grande ancoradouro de ostras e canções distorcidas. Estas se embaralhavam, enquanto conduziam seus sentimentos (do homem febril) para pontos exatos de expressão: era isto que eu queria ter dito nessa ou naquela situação e assim por diante. Como a situação passou, de nada vale reter a palavra. A palavra é um tapume. Guarda peixes dourados, cáfilas de camelos, desertos gelados ao pôr do sol. O sol fora inclemente e ressecara as lagartas. Outros bichos ficaram sem comer. E o cientista andava pelas dunas aprisionando o sol no subsolo de areia e este som lembrava o trem subterrâneo das grandes cidades, as plataformas gigantescas filtradas pelos sistemas de segurança que captam a imagem em pontilhado nervoso, rostos e corpos a servir depois para o grande embate dos inquéritos. Febril, o homem olha para o criado-mudo próximo à sua cabeça. Os vidros de pílulas. As redes espalhadas pelo mundo para melhor explorar quem trabalha – as elites de empregados fixos, a massa de empregados móveis, sobre quem desabam as cargas do caos social. A hera em torno dos frascos, pequenos lagos frescos na toalha, com sombras de florestas de um tempo azul. Quando foi mesmo? Rumorejam troncos no estalejar do amanhecer. Correm as lagartas, os pequenos insetos já são devorados, os maquinistas de trem põem os grandes monstros em movimento para fazer da cidade um campo de batalhas insondáveis ou explicáveis por poucos analistas. Ninguém deseja medir o fervor dos trilhos, a odisseia da fricção de ferro contra ferro. E voltando mais a cabeça, ele vê a xícara esmaltada. A árvore lá de fora está nela, balouça-se nela como um pano de pelúcia cuidadoso para manter o brilho estável há muitas gerações. Entre o cinza da árvore e o vermelho das pequenas flores, um emaranhado sem distinção nítida. Ele já bebeu várias vezes hoje o seu conteúdo e certamente o fará outras vezes ainda. Em quantas ocasiões pensou em desistir de tudo. Não apenas pelo desespero, mas pela enormidade das tarefas a fazer. Hoje, sob seu peito murcho, sob as toneladas de chumbo, uma voz foi dando cotoveladas em meio aos escombros, até colocar sua cabeça de fora, retirar um tanto de entulho e dizer: que tal resistir? Que tal procurar reunir os restos de força e permanecer na luta? Os reacionários tomaram conta do mundo e você vai entregar-lhes a vitória de bandeja? Não mergulhe no suplício, na catástrofe, no emparedamento do subjetivo. Resista, homem. Faça ao menos mais uma página, diga ao menos mais uma palavra. Ele se vira para o outro lado. A janela. O ruído do tráfego. Passa as mãos pelos cabelos suados. O amargor porejando lábios pode constituir-se em energia de trabalho. Nas espessuras metálicas da cidade, no frio do corredor da faculdade, nas aulas quase vazias de interação deve haver a possibilidade de um parêntese. Escancare-o. Talvez a aurora rubra jamais ilumine a totalidade do mundo, mas faça a sua parte. Uma escada sobe de seu queixo até o teto. Repleta de multidões de maltrapilhos. Ele reconhece que o universo é um cancro e a febre uma verruga na beira do abismo cerebral. Depois virá o pó inelutável. As pílulas são carne para nutrir os fantasmas indecorosos de sua mente. Ele fecha os olhos, as pálpebras cansadas. E pensa se ainda há tempo de retomar a vida no inferno multifacetado da cidade, retomá-la de um ponto indefinido, quando foi derrotado não sabe ainda por quem.

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Névoa e Jean Lucas

Manhã de pura névoa. Estradas de barro soterradas na névoa. Casas feito olho míope a espreitar entre camadas de névoa. Crianças em silêncio, sem entender por que o tempo enrodilha-se em seu coração. Tempestade de quietude a pairar sobre a névoa. Cães que latem e mordem andando devagar em torno do silêncio. Pela vidraça, o menino Jean Lucas contempla a névoa e vê fantasmas, navios, torres de igreja. Todos os pinheiros desapareceram. As frutas ficaram úmidas no vinagre sem fissura da névoa. A colcha escorre da cama e cria a represa de dobras no chão. Jean Lucas sonha com minhocas e o labirinto delas dentro da Terra. As folhas vão ficando pesadas e cedem ao vazio. Num lugar sem lugar definido a névoa nasce para distender-se e ser. E ser sempre a mortificação parada no tempo. Entre o balanço de uma cortina ou outra, nesgas da paisagem – pura ausência, quietude. Cada coisa parou, cada coisa transformou-se em estalagmites e sonha na forma. Não há outro refúgio senão olhar. Jean Lucas olha, agasalhado nos seus quatro anos, na sua visão de minhocas que se contorcem na névoa. A névoa bota véus sobre o entorno. Crianças pipilam num local meio longe. E o som de suas bocas é errático, sem mensagem, fonte de estilhaços de vidro para a paisagem dentro da quietude na névoa. O mundo é uma estação de trem, a fecundidade da partida, o esboço esgarçado nos fumos da máquina a ir e vir. Jean Lucas pensa numa viagem, suas histórias com elefantes, a bola de futebol, o refrigerante. Enquanto o trem corria dentro da noite, o menino enxergava os faróis nos óculos do tio. Jean Lucas foi ao seu colo, aqueceu suas mãos nas mãos do velho homem de letras, outro dia quase morto. Jean Lucas não se interessa muito em aprender a canção. Só repete suas últimas sílabas, vogais vagas na névoa. Os pinheiros respiram em linha. Jean Lucas quer saber o que é cordão umbilical. Depois conversa sobre as cores, conhece quase todas, entre risadas e silêncios, fatias de névoa a encrespar a viagem, a deixar no trem um assombro de túneis. Jean Lucas apresenta suas artimanhas de menino. Dorme um pouco. Acorda em cada estação. Quer saber o que há lá dentro das malas. Anima-se com a bola, vê minhoca na voz de cansaço do tio que falou todo o dia, reviu livros, organizou apontamentos. A névoa já é um desfiladeiro de rochas líquidas esperando o silêncio, enquanto o faz nos buracos do mundo. Para Jean Lucas, minhoca come terra, bebe terra. Ele não sabe muito bem onde está a boca do bicho. Recolhe-se ao colo do tio de novo, evoca todas as horas na escola, as sombras vindas das janelas. Se há um cavalo no centro do tempo, o menino monta nele e desgarra-se pelo mundo, como num trem dentro do silêncio. Há peças de luz no vago soturno das névoas. As névoas respiram em amplitude os desdobramentos da paisagem. Com os pequenos amigos, Jean Lucas faz teatro, inventa a fada e a bruxa, esquece a névoa perdendo o mundo, mastigando perfis e o tom de cada coisa. A paisagem vista pela janela é algodão e move-se na languidez. O tempo também respira. A Terra acalma cada passo e no decorrer da névoa repassa a névoa como um sólido abstrato. Atrás das árvores a noite já espreita. Pequenos faróis nos óculos do tio é o que Jean Lucas encontra na noite durante a viagem. A mão do menino segura a mão do tio, escorrega por ela para os encantos da noite, da viagem, todas as estações esperando com a mala pronta. Depois ele dorme e, envolvido com o tempo, sonha em meio a camadas de névoa e não tem como distinguir o que vê.

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Tia Alvina

O morro dobra-se volumoso, como se fosse uma explosão de barro contida, até a beira da estrada. Para abri-la, certamente foi preciso desbastar um pouco aquela massa de terra, que acaba de repente numa linha perpendicular, em contraste brutal com a montanha esparramada por toda a paisagem. A estrada deve ter nascido de modo espontâneo, os antigos aproveitando a estreita garganta entre os dois morros. A montanha é de verdade formada pelos dois morros que ladeiam a rua, deixando entre um sopé e outro a pequena tira de pó para os carros e um riacho lento, mais na frente transformado em lagoa. O passar do tempo ajeitou as coisas para a trilha, favorecida pela condição física e sua pele se foi alargando em estrada que hoje é rua a escoar o tráfego da parte norte da cidade.

 Bem ali, no ponto onde o morro vai arredondar-se, antes de despencar em parede reta para a rua, foi escavado o espaço mais ou menos de um campo de futebol de salão, o terreno para a casa de tia Alvina.

Um caminho estreito, ladeado por pencas de folhagens, leva até a varanda da pequena casa de madeira, pintada num verde pálido, sujo pelas nódoas do pó que sobe da rua sem cessar. O pó misturou-se à tinta, criou estrias confusas e a ação do tempo é mais visível que qualquer capricho da tia. Eu gostava de sentar na varanda, entulhada de plantas que tia Alvina jamais se preocupou de combinar uma com a outra. O banco era um antigo balanço feito de ripas e fixo em duas pequenas pilastras de cimento. Eu sentava, via os eucaliptos nunca fixos, como se estivessem presos em cordas grossas e invisíveis que os puxassem para um lado, depois para o outro, cuidadosamente, folhas e galhos rangendo baixo, som de apertar os dentes. Eles cresceram do outro lado e pareciam pregados ao morro da frente. Tia Alvina olhava-os com certa apreensão. Eram altos demais e podiam puxar raio, ela dizia. Eu olhava aquelas formas esguias, claras, de certa sonolência, lentas no arredondado dos movimentos quase sempre cadenciados, deslizava os olhos pelos troncos manchados de um cinza azulado, feridas escorrendo na pele às vezes encaroçada, eu lembrava como a parte descascada aderia sem relevo aos dedos, como era cetim de madeira, e ficava intrigado a pensar como a magreza daquelas árvores seria um dia transformada em sabonete. Entre elas, ia indo um riacho pachorrento, com suas águas pretas na espessura da lama. De longe era um espelho com muito brilho. De perto, uma tristeza, porque nossas pernas se enfiavam até os joelhos naquele leito mole, trazendo as folhas já podres para cima e o mau cheiro. A água cinza, parecendo coalhada por grossa fumaça, não nos permitia tomar banho. Pela encosta do morro, usando a confusão das trilhas, os bois do patrão rico pastavam obsessivamente presos à grama.

                Ao entrar na casa, eu sentia o cheiro da poeira, o cheiro dos gatos e dos canários. Muitos móveis eram cobertos com toalhas de crochê. O pó ficava entranhado nelas, envelhecia-as e os cuidados da tia eram inúteis para deixar a casa com ar de arrumada. Minha mãe sempre falava contra a tia, afirmando que ela era desmazelada, ordinária e eu não achava isso. Via era a tristeza tirando as forças da tia, emperrando seus braços, impedindo que a ordem saísse como ela desejava. Das asas dos canários parecia saltar ainda mais pó, que os gatos aparavam em seus pelos e depois espalhavam com preguiça por baixo das poltronas e das mesas. Sobrava pouco espaço pra gente se movimentar. Não era possível andar sem esbarrar aqui e ali. As coisas sempre tinham quinas demais, estavam sempre nos lugares errados, atrapalhavam a caminhada e, correr, nem pensar. Nem de esconder era possível brincar. Esconder-se onde? Atrás de cada móvel já estava a parede e tudo era estreito demais, visível demais, na cara demais. Por isso, minha mãe acabava sempre por dizer que a casa da tia era um armazém de amontoados.

                Da cozinha, chegava-se direto, apenas um degrau, ao rancho, espécie de alpendre. Comprido e estreito, o seu telhado era mais alto próximo da porta de entrada e, na saída, mal dava para nós, meninos, passarmos. O chão de barro batido. Vermelho. Marrom. Liso, com o andar de tantos pés. Estava cheio de bicicletas velhas, enferrujadas, desmontadas. Um pouco da história desse veículo morava ali. Rodas imensas e grossas, largas. Rodas mais estreitas e esguias, com aros finos, melhor desenhados. Tudo na mais estonteante desordem deixava o sol varar muito chapado. O sol não conseguia entrar no rancho sem ficar alaranjado, sempre com um aspecto de fim de tarde. A ferrugem também tinha seu cheiro, como o de pepino muito tempo numa lata. Eu olhava os selins, furados pelas molas, os selins com nódoas de suor de tanto ir e vir da fábrica. Alguns para-lamas mal raspados ainda deixavam ver esbeltas mulheres nuas com bocas muito vermelhas. Pareciam cantar no banheiro, onde foram surpreendidas. Eu não entendia porque estavam nuas e com sapatos, sapatos altíssimos, nos quais devia ser muito difícil manter o equilíbrio. Entre um caibro caído e outro, a folhinha do Sagrado Coração estava rasgada, enfeiada, retorcendo o rosto de Cristo que parecia ali extremamente furioso. Faltava um pedaço do seu nariz. Asas de barata pendiam das teias. E o pó, muito pó.

                Tia Alvina foi uma mulher magra. Rosto comprido, as maçãs esticavam-se encovadas para baixo, revelando os ossos. Os cabelos lisos acompanhavam as faces e os olhos não tinham uma localização precisa. Ela olhava como bicho acuado. Eu tinha a impressão de que, de uma hora para outra, as duas pupilas iriam cair, rolar pelo rosto, espatifando-se no chão. Nada parecia segurá-las naquela região desolada, sem profundidade, sem firmeza. Os peitos da tia eram sugados dentro de um vestido largo e não lhe davam nenhum realce. Com aqueles peitos sumidos, a tia ficava com mais aspecto de insegurança, algo enviesado passava por ela. Ela olhava com ânsia, melhor: a luz dos seus olhos era curta, insuficiente para chegar até onde estava a pessoa com quem ela conversava. Era assim que, quando falava comigo, eu tinha a sensação de ver seu olhar cair um metro antes de mim, ela parecia não me distinguir ou focalizar, orientando-se pelos meus sons. Eu morria da pena da tia. Baixava a voz para conversar com ela e isso devia dificultar sua percepção. Aquele rosto desfigurado, sem cor, sem movimento, espetava em mim uma culpa tão lodosa como o riacho, para nós, simples valo da fábrica. E as palavras da tia eram, na verdade, pequenos e estratégicos tapumes com os quais ela estancava soluços, represava o choro que um dia teria de explodir e inundar toda a casa. Eu detestava olhar para ela e relembrar as palavras duras de mamãe. Olhando para ela, na verdade, eu odiava minha mãe, sempre maquiada, sempre tinindo de nova, orgulhosa de ser a única da família com um carro e morando no centro. A beleza de minha mãe na casa da tia era tão gratuita quanto uma escola de samba num hospital. O ar ressabiado de minha tia dizia-me, mesmo sem eu ter condições de entender, que alguma coisa fora-lhe roubada e ela sofria por isso.

A xícara em que ela me oferecia café, o pano de prato em que depositava o pedaço de bolo, tudo me fazia relembrar as vagas conversas ouvidas uma ou outra vez: o tio batia nela por ciúmes do filho mais velho. Não suportava chegar da fábrica e encontrar a mulher conversando com o filho, o Darci, já um mocinho. Com cheiro de cachaça e de óleo dos teares, o tio esbravejava, enchia sua barba de saliva e começava a dizer desaforos para a esposa. Darci corria para o sótão. Qualquer defesa que ele esboçasse, dizer, por exemplo, que não via mal nenhum em conversar com a própria mãe, tornaria tudo pior. Muitas vezes eu ouvira minha mãe e meu pai conversar sobre isso, outras tias comentavam o absurdo de um pai ter ciúme da mulher com o próprio filho. Eu via em tudo um horror que não conseguia localizar direito em nenhum ponto daquelas pessoas. Elas eram manchas contaminadas, limitavam-se por fios muito frágeis e um certo veneno varava por elas, transformando suas vidas numa dança macabra. Eram bocas de monstros na escuridão e se autodevoravam.  A língua de cada parente morria murcha no cimento e, se eu a esmagasse, corria o risco de trazê-la grudada na sola do sapato. Do meu jeito, eu procurava sofrer um pouco por aquela mulher. Mesmo sem gostar de bolo, comia tudo. Mesmo com repugnância daquela caneca trincada e amarelada pelo uso, eu bebia o café ou capilé – meus modos de acompanhar tia Alvina em seu calvário. Se eu dormisse num fim de semana em sua casa, ela insistia:

                – Não pode dormir com fome. Quem dorme sem comer e por acaso morre, faz o armário ficar sempre aberto.

Minha morte não me espantava. Ficava encolhido na cama, tentando interpretar os ruídos da casa e descobrir como a morte chegaria para levar a tia. Nunca ouvi meu tio brigar, gritar com ela. Só podia dormir lá nos finais de semana. O tio nem aparecia em casa, ocupado de bar em bar. Assim, Darci, um rapaz que não gostava muito de moças, podia amorosamente, sem sobressalto, cuidar de sua mãe.

Eu não simpatizava com Darci. Ele era um moleirão. Tinha um traseiro arrebitado demais e comprimido em calças muito justas que também apertavam o sexo, deixando no lado esquerdo um volume ovalado que me intrigava. Para falar, pousava o cotovelo esquerdo sobre a mão direita voltada para baixo e inclinava o indicador em arco para o chão, ficando o polegar levemente fixo no queixo. Revirava os olhos e passava longas horas lendo revistas com artistas do cinema e do rádio. Corria para a tia:

                – Mãe, não é divino?!

O Darci me parecia uma desengonçada trouxa de pó que mais confirmava o cheiro de mofo e madeira úmida a boiar na casa, saindo dos retratos, pousando nos móveis, nos vasos de planta, como um tecido misterioso a registrar a vida tão azarada de minha tia.

Sentado na cadeira, eu fixava os olhos nos braços da tia. Várias manchas roxas, mal disfarçadas pelos respingos da massa de pão. Acreditei sempre que aquelas eram sinais arredondados de feridas curadas. Para mim, tia Alvina devia ter sangue ruim ou ser muito picada por mosquitos que, pousando em cobras, maltratavam depois dos braços ressequidos dela.

O quarto onde eu dormia ficava no sótão, entre o de Alfonsinho e o de Darci. Ao subir a escada, cada tábua rangia com som abafado ou estridente, todos longos a me dar a sensação de estar enterrando os pés na barriga da madeira que protestava de dor. O cheiro de mofado e pó era mais concentrado ali em cima. Talvez voasse dos travesseiros e das cobertas de pena. Fronhas e lençóis tinham indefectíveis manchas idênticas às de chá na toalha e sobre elas havia uma crosta ressequida, leve penugem de pano não lavado. Essas manchas sussurravam sobre doenças ou sobre o vício secreto de Alfonsinho. Diante de sua porta, podia ouvir seus suspiros, seus gemidos. Ele nunca descia para comer ou brincar. Segundo a tia, ele era um santo. No ano que vem, vai entrar no seminário, é um devoto de Nossa Senhora. Minha mãe falava com palavras repartidas entre os dentes, disfarçadas em lá-rá-lás com o pai, para eu não compreender. Sabia apenas da parede do quarto, próxima à cama, com nódoas, a prova para quem quer ver – alertava a mãe. Ficava um segundo prolongado diante da porta e escutava o primo e tal ato me causava arrepios nos braços, nas pernas, nas têmporas. Fixava o crucifixo negro sobre a cama que me era destinada e procurava perceber o caminho entre aquele vício e o corpo de metal niquelado, ridiculamente distendido numa cruz. O arroxeado dos braços da tia a palpitar na massa de pão e, no café, eu comeria pão untado de sangue e do amarelo daqueles lençóis a envolver a solidão de Alfonsinho dedicado a Deus, livre do mundo, murmurando palavras compridas naquele quarto tão quente.

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O morro, depois do aplainado do terreno, crescia alto por trás da casa. Gostava de correr pelo capim alto, como no cinema, mas minhas pernas eram picadas, arranhadas, feridas pelas hastes cortantes, pelas folhas duras e finas nas bordas. Não podia ser poeta, voando naquele espaço. Das plantas ressequidas vinha um outro cheiro de coisa velha, mais adunco, como se estivessem cobertas de estilhaços de vidro a machucar narinas, pulmões. O manto sufocante do capim cobria o morro de ponta a ponta, e as touceiras tinham raízes enfezadas, avermelhadas, com uma quantidade estúpida de formigas. Se uma entrava pela meia, a perna ficava rubra e ardia. As unhas deixavam na pele uns traços esbranquiçados, meio semelhantes às que havia nos troncos dos eucaliptos.

De cima do morro, eu via o casario ao longe. O vento fresco me deixava navegar por uma sensação de perda. Cada telhado com sua chaminé, cada grito ao longe criava um buraco no vazio da tarde, adensando o molho de lonjura e saudade. Faltava alguma coisa em mim. Eu perdia alguma coisa pousado naquelas árvores e não sabia seu nome ou seu movimento. Uma espécie de suspensão, de asa tentando voo em lugar errado varava minha mente, e meus olhos encontravam no ar uma expectativa sem definição. Havia farrapos de história até onde alcançavam meus olhos. Alguns desfaziam-se assim que eu os contemplasse. Da casa da tia Alvina subia pela chaminé uma fumaça azulada e sob as telhas eu adivinhava a tia andando de cá para lá, o avental mais longo que o vestido, as panelas empilhadas na pia, os canários assobiando entre as varetas das gaiolas. Ouvia no vento as sílabas do tio traduzidas por minha mãe, os escândalos que ele fazia por causa de Darci. A lembrança daqueles olhos da tia que por qualquer movimento poderiam cair, deixando dois ocos horríveis em seu lugar, ampliava na paisagem a cor sem traço, a sensação de um vazio pessoal entre cada árvore. A tarde de repente parada ficava envolvida por crianças gritando distante dali, os carros passando, certas buzinadas de desespero, algum ruído de bicho, o chiar do vento a levantar vozes sem corpo, tudo dava as mãos para me aprisionar numa angústia fria. Eu me sinto sobre um piso de cristal. Um passo mais rígido e tudo estará estilhaçado e eu cairei, arrebentando as gaiolas, estragando as plantas, jogando os restos de bicicletas na rua para atrapalhar o trânsito e causar muitas mortes, minha mãe em cima do barranco, vestida de barro, falando em um código de lá-rá-lá que minha tia entende e põe-se a correr, com o avental grudado na cara, para ninguém ver os dois buracos profundos, já que os olhos tinham sido picados pelos canários, espiões do tio, delatores do amor de Darci por tia Alvina. Tudo se estraçalha, se esvazia o lugar das coisas. Tudo desguarnece o trivial de qualquer expressão. Eu fico militarmente parado, sondando os sentidos. Aspiro o silêncio com certa animalidade angelical e deixo-o escorrer dentro de mim. Tentava inflar-me com ele, ficar maior, voar até o alto do alto, para de lá ver a paisagem e então compreender. Minhas pernas chamuscavam pelas mordisquelas do capim e das formigas. Os olhos são filtros dos relevos do morro e dos bois, do barro, do brilho preguiçoso daquele riacho sem serventia. E eu não ordeno nada, sei apenas da necessidade de ficar imóvel, estancando o fluxo. O fluxo brotava da Terra, das fendas das telhas, das manchas dos braços da tia e dos lençóis de Alfonsinho, dos gatos que hipnotizam os canários, das folhagens abundantes que coroavam tudo. E tecia-se um mosaico estrangeiro, anulando meu esforço para entender os rostos e as falas daquela história. Sondava o enigma e o enigma fugia de mim com a brandura do balançar das árvores nas quais alguns insetos trilavam. Sob o chão dava para ouvir uma cachoeira gorgulhando, a levar um rio que jamais encontraria o mar. O céu a passar em sombras, essas a envolver as árvores. A casa cercada pelas árvores e pelas sombras resiste numa luz dura e ali eu repasso meus olhos, o coração em curvas embriagadas.

Um dia, estava descendo do morro e alguma coisa chamou minha atenção para a janela do quarto de Alfonsinho. Parei atrás de uma moita. Lá estava o primo: completamente nu a absorver o sol e o ar. Seu corpo era uma ventosa aberta. Distendido no parapeito, ele tinha os olhos fechados e acariciava o sexo. Vi a mancha negra do púbis, tão incompreensível para mim, porque Alfonsinho era de um loiro extremo e a pele tão branca como a da tia. Ele segurava com força o pênis, movimentava-o, e dos galhos foi soprando uma voz a falar em vício secreto, em manchas na parede. Fiquei magnetizado pela visão. O corpo nu recebia toda a luz da tarde, parecendo sobressair num quadro de propósito colocado no meu caminho. O primo tinha um jeito meio louco, enfurecido. Será que ele bebe como o tio? Meu pinto de repente me deu a sensação de estar sendo mordido pelas formigas. Quanto mais eu olhava, mais suava. Queria ver e ver. Um gosto de ampla abertura se foi desenhando em meu interior, um matiz de festa correu pelo meu sangue. Não consigo dar nem um passo, eu preciso VER. Estou tomado pelo quadro do qual a janela era a moldura. Estou fascinado por aquela carne exposta e livre. O sexo do meu primo está ensolarado, sua mão sobe e desce, torna a subir e apertar com força o talo que parece sangrar. Mais formigas riscam minha pele. Nunca me senti tão sozinho, tão ausente de tudo. Uma punhalada de sofrimento gozoso atravessa meu estômago, congela meus olhos. Estou absorto na visão, fascinado pelo corpo exposto e livre. Não sei se entendo, mas olho, olho e vejo.

(1991)

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Moacir e o símbolo


                Pela janela do dormitório, o bosque úmido, compacto. Ramo ferindo ramo, folhas envoltas por folhas. Um manto envolve cada verde e goteja sobre as pequenas flores vermelhas, sobre as raízes expostas. O chão lodoso afunda até a sensação de pensar. A mente de Ricardo divaga. Já soou a hora de dormir. A luz já foi apagada. No tempo frio, seu pijama é fino demais. Ele se posta à janela, sorve a luz da estrada que dá um pouco de alento e visão do bosque e permite embaçar a vidraça. Ricardo respira muito próximo ao vidro. E se eu for até a cama de Moacir, convido ele pra ficar aqui comigo, só ficar aqui, olhando. As nuvens carregadas pesam o céu, o movimento lento lá em cima ameaça, tem qualquer coisa como uma véspera de guerra, muito sangue na roupa, empapando as botas. Os cavalos relincham sujos, as crinas despedaçadas. A espada que corta a carne dos cavalos abre nos músculos uma ferida macia de tecido mole. O sangue não pode escorrer livre, é represado no pelo grosso. O cavalo dá uma gargalhada de dor. As pequenas carroças quebradas afundam entre barris de óleo e mantimentos azedos. Quando um homem tenta pular sobre elas, uma lasca de madeira penetra sua coxa. Antes de cair, ele tenta rezar. A cara vai de encontro ao chão encharcado, um estreito filete de água barrenta entra em sua narina. Ele não lembra de nenhuma palavra. Mas seu sangue suja mais a terra. O Moacir podia ficar aqui comigo. Assim dá pra sentir o inverno e esta parede deixa de ser parede. Ele pode ficar aqui, respirar comigo no vidro. Aí a gente faz um M, depois um R e sopra em cima. As linhas das letras ficam mais pálidas, sem desaparecer. Uma camada de luz sobre outra camada de luz, um pouco de claridade atrás da nuvem.
                O sino bate. Ao acordar, o primeiro lance vital de Ricardo é olhar pela janela. O sol está indefinido, porém, já não chove. Pelo bosque, um outro verde brilha. Alguns passarinhos estão agitados e barulhentos. Ricardo veste-se com rapidez, o coração fazendo a pele do peito balançar. Ele sabe que o passeio não será cancelado. Vai poder voar o dia todo, sem aulas, sem deveres.
                Na capela, contempla Moacir lá do outro lado. Seu amigo é um ano mais novo, o aspecto doce de um bichinho de estimação. Ricardo sente vontade de acariciar aquela nuca que sobra entre o cabelo e o blusão. Passar o dedo, só o dedo, como quando a gente faz letra no bafo da janela. Vou dar um presente hoje pra ele. Vou deixar ele o dia todo feliz. Ele vai ver como sou amigo dele. Ricardo não consegue aderir à missa. As palavras do padre são apenas fórmulas prontas, peças de um mosaico que de tanto a gente passar em frente nem distingue mais a forma global. Deus nem importa hoje, só pra agradecer a não chuva. Deus é uma ponte sobre o rio raso. É mais estimulante passar na água, arrastar os pés no pedregulho, sentir a correnteza espremida entre as solas e o leito.
                Saindo em fila, Ricardo concentra os olhos nas dobras do blusão do amigo. Lembra os penhascos do mar, aquelas rochas cinza, esverdeadas,  onde ele encontrava ninhos e, um dia, uma cobra esturricada. Bem feito, subiu ali pra catar os ovos. Se deu mal, é pra aprender. As ondas vinham violentas, espirravam o branco da espuma em coroas esfrangalhadas até o topo das pedras, atingiam seu rosto. O risco entre o céu e o mar, praticamente imperceptível. As suas massas de fogo azul claro navegavam no mesmo espaço, fundiam-se numa arcada da qual ele não via o fim, nem o começo. O começo podia estar ali, próximo aos seus pés, um passo mais embaixo, naquela fúria aquática de movimento disforme e o fim, lá atrás, no corte do morro quase transparente. Por que a fumaça aqui deixa os morros um filete só de terra e ar? As dobras do casacão de Moacir, um casacão lanoso, grosso, bom de pegar. Ricardo sente uma felicidade estridente ao compreender o corpo do amigo aquecido. Sabe que aquela pele não sofre nenhuma entrada de ar frio. Bem ali, em cada centímetro, a pele de Moacir está aquecida. Ricardo tem vontade de gritar, agitar os braços para ver se consegue erguer-se um pouco do chão. Estremece. Queria beijar o inventor do casacão, beijar a mãe do amigo que soube tricotar tão bem a proteção que o garoto merece. Ricardo quase tropeça no degrau do fim do corredor, antes de chegar ao refeitório.
                Sentam-se lado a lado. O prefeito de disciplina libera a conversa, depois de exortar a todos que ajam com rapidez, sem demora, não podemos perder o dia. A previsão é de tempo bom.
                – Que legal, né cara, a gente vai poder sair.
                – Só de pensar que não tem aula, sinto cócegas na barriga.
                – O que a gente vai fazer?
                – Sei lá! Aproveitar! Caçar, jogar bola, tomar banho no rio…
                – Tá doido, hoje tá muito frio.
                – É, mas a gente esquenta correndo ou lutando.
                – É, mas acho mais transado a gente fazer uma cabana no mato. Você topa?
                – Claro, Riqui. Vai ser uma cabanona só nossa.
                – Puts, que legal! Vamos tentar subir naquela árvore que faz um pescoço de ema.
                – Será que o padre vai levar a turma naquela fazenda do tio dele?
                – Claro, pode olhar o aviso lá no mural.
                Ricardo é tomado pela atenção de Moacir. Para ele é como se não houvesse mais qualquer pessoa no largo salão do refeitório. O mundo é uma ausência porosa. Todos os ruídos modulam um som de outra base, outro hemisfério. Se Ricardo parasse para pensar, perceberia que viver é como uma foto que focaliza o objeto de interesse. Só tem traços nítidos o amigo, o restante é mancha e mais mancha, com alguma cor, nenhuma forma. Ele olha o nariz de Moacir. Está mais vermelho. De certo, porque é arrebitado e pega mais frio. Percebe os gorgulhos do amigo bebendo café. Gostaria de esfriar o café para ele, para ele não sapecar a língua. Vou dar o meu chocolate pra ele. Claro, tenho duas barras guardadas, vou dar as duas, é só a gente chegar na fazenda. Vou colher pinhão pra ele, aí a gente cozinha.
                – Você topa colher pinhão?
                – Nem precisa, cara. É só juntar do chão. Sempre tem de montão.
                – É isso aí! Imagine só se a gente ia conseguir subir num pinheiro…
                – Ah, é fácil…É só ter aqueles troços de por no pé e fincar no tronco…, aí dá pra subir.
                – E caçar, será que…
                – Nem force. Quero matar um montão pra assar depois no espeto.
                – Eu não gosto de matar bicho, é uma maldade.
                – Ih, qualé? O que é que tem? Não vejo mal algum, a bicharada vai morrer um dia mesmo. E, matando pra comer pode. É a lei da vida. Você não lembra? Nossa, olha o fatião que eu peguei…
                – Só com essa aí não precisa comer mais nada.
                Ricardo ouve uma luz de música entrar em seu ouvido, abraçar o coração, o estômago. Ele está unido de modo integral ao mundo. Tudo é uno. Não há qualquer fissura, qualquer rachadura em lugar algum. O mundo está tinindo de novo e ver o amigo falante, bem disposto, convidativo, dá ligadura a tudo. Que legal, ele tá topando tudo. Detesto quando ele fica emburrado, cheio de vazios. Não fala nada e eu não entendo o que ele quer. Mas hoje o mundo está refeito. Do refeitório às planícies do universo vaga uma cor sólida de bonanças. Inexiste qualquer saudade perturbando, nenhuma ameaça de prova pela frente, nenhuma nota baixa deixando o rabo sujo na superfície. Ricardo teme sufocar de tanto que os solos internos se embaralham, a alegria crespa das mãos aos olhos. É como estar no colo da mãe na noite de natal. É como abraçar o pai depois de um gol. Ricardo observa como a luz da janela divide-se em quatro pequenos quadriláteros nos olhos de Moacir. Ele fica ainda mais bonito deste jeito. E ele é meu amigo, é ele que vai ficar comigo hoje, e vamos poder caminhar o dia inteiro juntos. As águas que batem no rochedo são calmas, não provocam ameaças. Os ninhos estão cheios, protegidos pela galharia ressequida que não deixa o vento estraçalhar os filhotes. Naquela caixinha branca eu tenho as duas barras. Vou fazer uma bruta surpresa pra ele. Porque ontem, quando pediu, eu menti que já tinha comido tudo. Ia dar uma pra ele e ficar com a outra. Mas agora vou dar as duas inteirinhas só pra ele. Quero ficar vendo ele comer o chocolate perto do rio. O sonho se faz de repente uma estância genuína, possível, uma área cercada pelo vento brando da maré. Cada ponto atingido por seu corpo tinge-se de espesso feltro, seria bom reclinar a cabeça, o coração, no conforto da hora, sem nenhuma penugem atrapalhar a corrente das sílabas. Dizer com palavras, dizer com gestos. Eis que hoje tudo é possível, a doação ao outro é um bem, solfejar a amizade é cantar a ópera mais perfeita. Ricardo arruma as mochilas apressadamente. Só tem cuidado maior ao envolver a pequena caixa de papelão com a toalha de banho.
                O padre prefeito vai na frente com os “peixinhos”. A turma do futebol caminha mais atrás. Passarão o dia correndo em busca da bola. Os “caxias” formam seu grupinho estranho, há um código misterioso a deslizar entre cada palavra que soltam. Certamente vão catar mato e depois classificar e nomear com atenção de médicos. Quase na derradeira posição do grupo, Ricardo está ao lado de Moacir, disfarçadamente isolados. Ricardo pendura-se no ombro do amigo, corre até o barranco que ladeia a estrada, dá um pinote para cima e solta-se na direção de Moacir, impulsionando com um repelão afetuoso a caminhado do amigo. Assobiam. Um puxa a mochila do outro, como quem pede para ser arrastado. Cada um tem a sua vez para tentar pisar no tênis do outro. Entre eles, a aura de calor visível. Entre eles, a disposição plaina de afago. Há um pequeno reino sem reis, nem súditos. Um pequeno reino onde um, com mais voracidade, deseja submeter-se ao outro, para servir, para agradar, para fazer feliz, fazer rir.
                O imenso prado descortina-se. Ao longe, um casarão branco. Pinheiros em profusão. Capões como bolhas verdes. E o rio, manso e tépido, voluptuoso e doce, a estirar-se em lentas curvas, dizendo que deseja receber, ter toldos envolvidos em suas águas. Ricardo e Moacir, donos do seu pedaço, já sabem de antemão em que pedra ficarão, em que reentrância guardam suas coisas, para mais livres desfrutarem a vida selvagem. O agreste de cada animal e planta adoça mais o tremor de liberdade. Os garotos sob o sol se sentem divinamente endiabrados. Sem regulamento, portanto sem horário. Tudo é deles e tudo aceita ser possuído por chutes, sopapos, gritos, impertinências. Na varanda do casarão, eles percebem as grandes latas de doces e outras guloseimas. Às vezes, estar feliz chega a ser insuportável , e o sol alto permite só camiseta e calção.
                Depois que Moacir saiu para o mato a fim de dar uma olhada, Ricardo criteriosamente começa a cabana. Trança quatro estacas maiores bem pelas pontas, como nos filmes imagina que os índios faziam. Amarra-as em cima e firma as pontas soltas no chão. Vai, de baixo para cima, preenchendo os vãos com galhos que depois ele cobre com folhas e arbustos menores. Quase metade da manhã, o seu trabalho. É quando dá pela ausência do amigo que não voltara. Assobia o código de sempre e nada. Segue as vozes que estão abafadas dentro do mato. Tem a caixinha branca pendurada na trouxa feita com a toalha e que com certa solenidade atira sobre o ombro esquerdo. Cumprimenta o padre prefeito, atarefado em catar grimpas para a fogueira tradicional. Dá um pouco de atenção à pele do padre: branca, muito branca. A barba grisalha vai até quase o estômago. Sem camisa, a barba ao vento, o padre não parece a fera alemã que urra no refeitório, que os policia na capela, nos corredores, no dormitório. Ricardo sente vontade de rir ao constatar que os mamilos do prefeito são grossos, inchados, escurecidos. Como os meus ficaram ano passado.
                – Padre, já ajudo o senhor, tá?
                – Isso, menino. Dá uma mão que a fogueira fica maior.
                Vê outros colegas mergulhando e, ao ser convidado, diz:
                – Depois, depois.
                Outros rodopiam com galhos de pinheiro seco, trazem os ramos pela ponta dos dedos como se tocassem algo sujo ou venenoso.
                Para. Volta-se e vê sua cabana pronta, vizinha da curva do rio. Bonita e forte, como um copo emborcado. Nossa cabana, ali é um bom lugar para o chocolate. Lembra que fará uma bandeira com a camiseta listrada de vermelho e preto que colocou na mochila de Moacir. Bandeira rubro-negra, pra demarcar a alegria, a festa, a vitória. O vento suave não esfria o tempo e o céu sempre mais azul vai soltando um sol errado para a estação e maravilhoso para o passeio. Os troncos. Os que ele vê da janela do dormitório são mais finos, mas escuros. Não tem a sensação de umidade, pelo contrário, sente o convite para o toque, a devoração, a carne ferida por dentes de açúcar. Os troncos são bons, as árvores são boas e são minhas. Pega o estreito trilho dos caçadores e, andando alguns metros, encontra Moacir entretido com outro companheiro. Estão arranjando um jeito de subir na árvore e mexer num grande ninho, visível entre alguns ramos mais acima.
                – Moacir, a cabana tá pronta.
                -…
                – Ei, cara, o que você tá fazendo? Não pode mexer em ninho…
                – Ah, vê se não encher, tá?
                Outros garotos passam correndo. Moacir integra-se à turma, como se não tivesse visto Ricardo. Este, sem entender a situação, percebe que o coração virou uma grande rocha e o rio e o mar foram inundando, inundando, até trazer lama sobre tudo. A lama seca com rapidez, parte-se, tudo fica fendido, uma rede miserável de rachaduras e mau cheiro cobre o rosto do mundo. O mundo bota as veias para fora, os ventos rasgam o tecido delas e jogam pus e ferrugem no olho de todos. Não dá pra enxergar direito? E este cavalo alucinado dando coices no estômago? E esta vontade de urinar, esta vontade endiabrada, mesmo estando o corpo completamente seco. O funeral entrega seu protocolo assinado sem nenhum estojo de veludo. E a vertigem que vai de uma têmpora a outra, por dentro, enfiando um estilete podre pelo cérebro, misturando os nervos, cavando na boca um enterro de moscas em camadas com baratas e morcegos? O chão perde o núcleo, altera sua química. Ricardo senta-se no tronco caído. Põe as duas mãos trôpegas a segurar a cabeça. Meu Deus, o que foi? Por que ele falou tão duro, por que não me deu bola, por que saiu com os outros e nem me ligou? Algo desliza por suas costas: a pequena trouxa da toalha. Ele a abre, pega as duas barras de chocolate, enfia-as de qualquer jeito na boca, até não suportar aquele bolo de serragem e papel a amassar a língua, doer nos dentes. Cospe tudo sobre os arbustos e vai açoitando-os com a toalha. Não quer chorar. Precisa aguentar firme, entender o que há, conversar. Só que as lágrimas vêem como doença. Chega a pensar que a testa está se dissolvendo, encobrindo seus olhos. Toda a paisagem vem negada. Tudo é salgado. Alguns filamentos do papel prata do chocolate trancam-se entre seus dentes, dando-lhe uma sensação repentina de choque e gelo, um amarrotado de frio partindo o esmalte dos dentes. Olha as árvores, pesadas sob o manto úmido. Os troncos negros, indistintos, tudo uma muralha agressiva de coisas sem rosto, sem formas, também sem cor. Esculturas de curare.
                Ao sair do bosque, a primeira visão de Ricardo é Moacir com o seu grupo. Todos estão selvagelmente destruindo a cabana. A fúria maior é de Moacir. Ele toma pequena distância, corre, joga-se com os dois pés contra as frágeis coberturas de folhas e hastes, até cair e desaparecer no interior do que era a cabana. Depois, levanta-se, grita, estendo os bois braços, rodopia no meio dos destroços, expelindo gritos de guerra:
                – Ihhhhh…hi, hi, hi, i, iuuuuuuu….rá-tá-tá-tá..iiiiiii, hu, hu, hu, hu, hu, chipum, hi, hi, hi,
crausk, crausk, crausk…
                Aos poucos a cabana é um amontoado de galhos quebrados, confusos. Ricardo queria deixá-la firme, segura, pronta para ver como ela estaria no próximo passeio, que tipo de mudança o tempo provocaria nela. Sonhara que então entraria naquele monumento rústico que de certa forma materializava os momentos largos e plenos do passeio de hoje, da leveza de Moacir, da sedução de estar com o amigo sintonizado na sua sensação de ser livre e atingir a unidade do sentimento compartilhado. Olharia cada ramo ressequido, sondando a ação do tempo que também aprofundara a amizade entre os dois, gerando mais certeza, mais resposta. Ao aproximar-se, ouve um colega perguntar a Moacir:
                – Quem fez essa joça?
                – Ah, foi o panaca do Riqui… quem mais podia ser?
(1991)

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Noite alta


                Tinha na boca um gosto de lentidão. Talvez nem soubesse o que isto significava. Passava os dedos nos lábios e, de certa forma, sentia um estiramento de dor na ardência provocada com raiz em alguma região desconhecida.
                Ao se encostar na parede, a dureza da madeira surpreendeu-o. Não esperava encontrar um recosto tão firme ali. Olhava cada pessoa com indiferença. Todavia, se alguém o observasse com um pouco mais de agudeza, veria que sua indiferença é impostação, puro blefe. Na verdade, os olhos buscam, dois longos caminhos líquidos a saltar daquelas órbitas na direção da efervescência de copos, cujas bocas devoram álcool em todos os tons possíveis.
                Ele mordia com vagar o dedo, e os dentes enterravam-se sem resistência na polpa agreste da mão, afeita a tanta coisa que é impossível narrar. Fazia isto, agora sim, sem atenção, porque seus olhos fisgavam cada um daqueles corpos bastante jovens, todos entretidos com alguma coisa que se pode chamar de viver numa sexta-feira.
                Talvez, como ele, nenhum daqueles tivesse qualquer compromisso formal amanhã. Só fariam o de sempre: dormir até mais tarde, engraxar os sapatos, arrumar o quarto, cuidar de raras plantas em vasos velhos. Talvez fossem almoçar num vegetariano para desintoxicar, queimar os excessos, ou visitar os velhos, no lento calvário semanal com um objetivo mal disfarçado: dinheiro.
                No entanto, ali estavam eles e todos vibravam, de certa forma. Todos tinham uma tensão colorida presa nos jeans. A maldição parecia coroar aqueles rostos de suor poroso. A marca não era muito distinta, mas também não se escondia. Não, coisa assim não se camufla, ele sabe. Em cada boca, possivelmente o mesmo verme amargo deslizava. No forno de saliva, a tepidez do aço se fazia mais morna e aconchegava o bicho com fúria. Ele punha a ponta do indicador na boca, buscava um dente, o irregular das obturações tão seguida e molhava-o vagamente. A lembrança de outra ponta umedecida. Sacode a cabeça. Não pode prender-se em nada que foi. Nem que virá. A vida é apenas este retalho ausente.
                Descobria em cada olhar um movimento de alerta. Uma busca surda como o fruto verde prevê o estilhaço da pele madura. Como um avião prevê sua queda, mesmo quando não há. Cada olhar era uma frase mal resolvida e, dali do seu posto, ele conseguia sentir o emaranhado aéreo a correr sobre as cabeças. Avolumava-se entre as pernas. Crescia como torre de coisa nenhuma entre uma língua e outra língua. E nada se dava. Ele enfiava com mais vigor a língua contra o chumbo do seu dedo e olhava. E esperava. E bebia.
                Com os olhos fora de foco, misturava relances de filmes e livros, de coisas simplesmente ouvidas ou sonhadas. Nada. Nada do vivido concreto aparecia ali, encorpava-se, dava um mínimo espaço à glória de ter sido um dia.
                De fumaça em fumaça, a noite sobrevivia e enganava a todos.
                Ele então gritou. Sacou de sua ansiedade menos neutra, mais confusa e gritou. Um berro longo e certeiro, cheio de vidros, fraturas e planos. Um grito que nem a lã recolhe, nem o perfume estampa para o desdenhar de uma promessa. Soltou o bicho ferido. Este teve asas e adejou sobre todos, circundou todas aquelas caras lindas e sequer tinha direção. Apenas a textura de um veio na terra amanhada para o plantio. O grito não era pele de orvalho, nem luz de pêssego. Vinha do fundo e, na superfície trôpega, se acende em sentidos múltiplos e vai e vem, quase na síncope de uma cópula. O grito simplesmente vem, nasce e vem e se espraia. Qualquer que seja sua natureza. E ele gritou. Longamente o som foi se dizendo inútil entre os já saturados sons daquela noite.
                Ele morde os lábios. Talvez surpreso, talvez não. Porque o máximo que fizeram alguns foi virar a cabeça maravilhosa e olhar. Olhar sem dádiva, olhar sem endereço. Olhar de quem já se acostumou a tudo. Um grito, o que é que tem?
                Sentindo-se um tanto inflexível, saiu no nevoeiro. Tentou ver em si um personagem de alguém. Não havia objetividade para tanto. Apenas a crosta da cidade. A mula que dorme, como é a cidade de madrugada. As ancas recolhidas ao fundo da terra, numa derrota do cio. Foi andando surpreso, sim, de ser esta a única cidade que conhece sem nenhum rio a atravessá-la, ao menos no que é visível de chão entre os prédios. Os rios sufocados, eliminação de uma geografia utilitária. Sim, disto ele entendia. No nevoeiro ele se cobriu de noite e se foi.
Para Wilson Bueno, in memoriam
(1989)

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Suburbano alento


Ele tomou do sax e deu uma nota. Um agudo sentido de nuvens esparsas correu pelo ar. De cima, a cidade era uma vítima encantada depois da agonia. Ele tocava uma nota e intercalava-a no silêncio. O vento batia em seu rosto e enleava o comprido cachecol de lã entre os cabelos. O sax sobressaía. Tromba metálica ao luar. Emitiu outro som, um viscoso vibrante, conectado por seus dedos nas chaves douradas. O fragmento de música desceu pelas paredes do edifício sem concentrar-se em nada. Ia para baixo em densas fatias, metades de fruta repentinamente decomposta. Entre as vergastadas suaves do cachecol, ele correu com os olhos a cidade e pôde ver na rua o instante exato do som espalhar-se e insinuar-se entre paredes e árvores. Nunca mais farei isso, nunca mais poderei executar tal sina. Vive-se uma única vez a despedida e ele sabia, ali, não ter forças para outra investida. Lembrou, viu os lábios dela, ainda embaçados pelo vinho e as palavras em cetim de aço: Como está não dá mais. Ele não sabia o que dizer. Na verdade, sempre temera esse instante, pelo que tem de derradeiro, pelo que tem de irrecuperável. De sua parte, fizera tudo para retardá-lo e a desaprovação nascera ali, agora, de tarde, enquanto os olhos dela soluçavam através de uma sebe desfeita de lágrimas. Ele não entendia. Não sei o que pensar, você vem terminar e é você que chora. Ela passava os longos dedos nos cílios inferiores – a beleza de um gesto, o sentido daquela luz espiando nos olhos. Ela salmodiava: É que não quero te perder. As ovelhas da antiga paz eriçavam-se pelo labirinto oco dos ossos dele, gorgolejavam pedras de cobras secas e ele só via o sumidouro do mundo. Não quer me perder, mas vem dar fim a tudo. O lábio pintado ela mordia com lentidão. E eu beijei esta boca, amei esta carne, me escondi nestas curvas quentes, ele só pensava, e é este mesmo corpo que se separa de mim agora. Ela parecia um tanto atônita, feito as vésperas de um crime: É que a situação está insustentável. Posso te amar como irmão, nunca como amante. E a faca cortava seus últimos retalhos de alma. Mas como só agora você descobriu isto? Por que permitiu que chegássemos até aqui? Ela não podia perceber os tetos de vidro ou de barro desabando, o cérebro encolher-se numa letargia de veneno, o sentido perfilado em traje de gala nas esquinas da alma, nas ruas da alma onde o vento arrasta papel sem serventia: E como poderia perceber antes? É só amando, é só no amor que o amor acaba. Não, ela não via nada do que ele estava vendo, nem como os elefantes da África de repente criam asas para cair mais solenes sobre o cristal da caça: É que eu não tinha experiência, nunca fui muito boa nessas coisas do amor, nessas coisas de tentar me ligar a alguém. Tentei e não consegui e queria preservar nossa relação que é muito importante. Entre seus cabelos cortados rentes, ela lhe parece tão vulgar, presa aos discursos tresandados no ar, sua palavra tão rasteira, sua argumentação frágil. Ele teve um rompante de retórica, teceu as delícias verbais sobre o amor, fez as considerações mais sensatas e ponderadas sobre a convivência e a crise. Crise é vida! Conflito é húmus! Dúvida é sangue que irriga para renovar, afastar a matéria venal. Via na mulher, quem sabe, apenas o farfalhar de algo a se partir e, com jeito, tudo seria remendado a tempo. Buscou em poemas um sumo mais etílico, inventou voos de considerações a respeito do circunspecto coração. Não banalizou, afinal, a palavra no desespero tem ardência que a razão ignora. A palavra em desespero é devaneio que flutua nas águas do princípio e sempre se pode pinçá-la para dirimir o acidental, banir a crosta com as persuasões do amor. Abriu o flanco de suas mãos e com cuidado de príncipe usurpador do trono, teceu com cuidadosas sílabas o mais veemente discurso que lhe entregava em nome da reconstrução. Pediu que ela não chorasse, para ele enfim não desabar. Ela foi apenas prosaica, incentivando-o ao choro: Depois passa. Ele sabia, como um cirurgião ao abrir o ventre de um canceroso, que de nada valiam seus ensaios. Ela, enquanto isso, mantinha os olhos acesos e dos lábios descia aquela exalação, meio limo, meio albume, nutriente e veneno: Não dá mais, eu me enganei, eu te quero como amigo, é só isso, nunca mais quero tirar a roupa diante de você. E a tarde explodia o amarelo do recolhimento inexplicável. O vinho susteve-se parado no copo durante alguns séculos. Ele sabia que o nemoroso das tardes, sejam ensolaradas ou úmidas, nunca mais. Quando ela se foi, ele postou-se na sacada e não via, não ouvia, não palpitava. A tarde era um resíduo e este resíduo mordia nas suas engrenagens o contato com a mão. Dali ele contempla a cidade e seus afazeres de luz, murmúrios lá embaixo jamais traduzidos numa voz lógica. Busca outro som no sax. Um veludo pleno de intrigas sacode a noite. Em qualquer esquina do encanto, ele pode sentir que a fertilidade está cancelada. Nunca mais. Um próximo amor será apenas o amor depois dela. Que emergência vaga entendo eu agora? Que medo é esta atmosfera comprimindo meu estômago? Que resposta darei a mim amanhã? A capa escura enroscada em seu cérebro, o estreitar-se das têmporas duras, como me curar de tudo isto? Para onde vou enviar o triunfo de mais uma queda? Arghhhhh!!! Velharia de trastes, coisa morta! O sax inunda cada vão. Quem passa na rua recebe como um mineral que gotejasse do mais banal arrebatamento o som enrodilhado sobre si mesmo. Ele sente os olhos. Os olhos ardem. Vermelhos na noite. Sombra sobre sombra. Um salto resolveria, não obstante, um salto nada explicaria. Como homem, ele busca, antes de mais nada, a explicação, não o fim, o álibi contra o envelhecimento. O sax prolonga sua garganta metálica e até as planícies da lua sobe aquele visgo, fel, meio ilusão, resto, corte, mágoa.
(1989)

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Objeto transitivo


Se de todos os barcos fica um porto, por que não fica um porto para as múltiplas andanças em que me envolvi em círculos, sem encontrar a casa do pai?
Não quero mais arrolar a nuvem sombria, os discursos niilistas, as facas cortando cada impulso para ir além desta hora. Quero que a fase da barata escamada no estômago esteja ultrapassada e eu possa retomar a seiva de minha raiz.
Durante o período do grande mal, perdi o meu corpo. Nestas últimas semanas, algo surpreendente e esperado vem acontecendo: recupero meu corpo. A depressão não é doença da alma, dos sentimentos, do cérebro e suas alquimias. É doença do corpo. Perdemos nosso corpo, não temos como olhar a vida e o que vemos está distante e nos é alheio.
Agora, nos saltos da recuperação, o corpo é meu. Sinto-o meu, sinto-o em mim e posso deitar sobre cada detalhe do cotidiano outro olhar. Até sobre o mais simples: as revistas chegavam e sequer eram tiradas da embalagem. Agora, devoro-as.
A interação com o corpo tem vitalidade de linha ascendente. A revista não é apenas objeto de papel para ser visto e lido. Ela tem pele e sua pele se transfunde com a minha, suas cores me revitalizam, mostram que o mundo pode ser outro – um vitral, um quiosque, uma praça, uma onda em movimento perpétuo, estímulo e convite para eu dar-me a grata satisfação de começar um processo, mesmo sem saber onde vai dar.
O corpo em mim de novo, energizado, exige que eu me movimente. O imobilismo nas trevas do suor baço, da falta de nome, da ausência causticante de moldura para o quadro, do quadro em branco, é cantata de outra pauta. Ali não ponho mais minha voz. Minha voz grita verde.
Ao contato com revistas, livros, anotações, cedês e toda a cornucópia de um dia na biblioteca me abro um sistema interno/externo de amplificações e, deste modo, ultrapasso o pequeno, o mesquinho, o acachapante.
Mato o animal viscoso atravessado na garganta. Ganho a promessa de reentrar na vida e escancaro portas. E, em meio a este mar, vem o telefonema: meu livro foi aprovado, o editor apreciou-o tanto que volta e meia o relê e sente-se estimulado a escrever. Diz que deseja ficar com a cópia impressa como raridade, para um dia provar ter sido ele o editor que me descobriu.
Se de todos os portos fica um barco, parece que meu barco entra na água e sem estagnação/calmaria dos ventos. Eu vou ser, mamãe. Não, para mim mesmo que venho perseguindo o vulcão desde sempre: eu vou ser eu em mim mesmo, eu em mim. Que os deuses me amparem, que a aflição seja frutífera, que a ansiedade agora a me siderar torne-se bom acolchoado no qual reclinar a cabeça já coroada com a certeza de quem sou.
Preciso mandar embora os demônios que me sugavam de graça, só pra se divertir com meus despojos. Quero ser habitado pelo impulso de estar em mim e inteiro, mesmo que tal inteireza seja provisória. Quero a garra rubra encarnada em meu cérebro para eu poder dormir/acordar no embalo de estar gerando um fruto mínimo a ficar e a ficar rodando na raia de muitas vidas.
Ah, se eu pudesse dizer como Drummond: “falta pouco para acabar/ o uso desta mesa pela manhã.” Uso e uso há tanto esta mesa. Durante o mal, ela era amolecida e destituída de espaço produtivo. É de novo madeira, barco, mar forte para a caminhada que está chegando. Quero dizer: caminho desde sempre com sérias rupturas das roupas, das retinas, das unhas.
Neste instante, a caminhada é que vai me levando a algum lugar, àquele nicho: o livro. Tao: o caminho, o caminhante, o caminhar. Na mesa eu me vou. O que não implica grandeza de bazófia. Saboreio a simplicidade do ser no ser, do ser em mim no meu corpo de novo agora.
Livro é objeto, objeto para passar entre mãos, encolher-se sob os olhos, nele pousar, distender-se ao longo do lápis que o anota, murmurar na mão suada a dobrá-lo. É isto que quero, nesta mesa e barco e corpo. Simples assim, um livro-objeto-no-mundo-de-quem-irá-compartilhar-alguma-coisa-mais-do-que-a-palavra. Amém. Se do mar fica no barco a marca, que em todos os dedos a me folhearem pule uma palavra-chave e diga: vai.

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Enquanto a manhã se inventa

 Bebe um gole de vinho – áspero na garganta.

 Traga fundo o cigarro – zoeira nubla os olhos.

Agarra com firme malemolência o peitoril da janela – lá embaixo as tantas pessoas numa manhã de sábado. Como tantas vezes, hoje é sábado.

Ergue os olhos – as flechas coruscantes de luz parecem cangaceiros enlouquecidos.

Escuta a cidade – na verdade, uma cachoeira metálica, sem interrupção, nunca.

Liga o rádio – a mesma propaganda de uma autoescola com aquela artistazinha banal.

Dobra os lenços e guarda-os no armário – dois brancos, três amarelos, um vermelho, um cinza, um verde, dois listrados, dois meio tom entre lilás e roxo.

Lembra do armário de Mike Rourke em 9 ½  semanas de amor – não ri, na franze os olhos, não se pergunta.

Desliga o rádio que toca um roufenho e redeglobino Fagner – a ave noturna acordou e ficou besta? Ah, os tempos da Casa do Estudante, o Folhetim enrolado na mão, enquanto atravessava o Passeio Público e o cheiro seco dos animais aconchegava a leitura.

Fixa os olhos longe – alguns passarinhos sem nome entre ele e o horizonte. E pousam no fio. Por que não sofrem um choque?

Abre a camisa – o peito, sua parte mais bonita, realmente, sua fachada.

Desfolha uma Playboy – tanta xoxota luzindo de fresca selvageria, os pelos apertados, a graça das coxas que segurariam seu pau. O que mais se quer na vida?

Remexe entre os dedos a mínima cruz de ouro – que será de mamãe? hoje é sábado…, está no tanque?

Olha para o interior do quarto – a desordem não se define na cegueira da claridade.

Pega o sax – que jazz poderá ainda salvar o mundo…

Repõe a Playboy na prateleira com um pequeno chute – ao acaso, revê uma bunda tatuada pela tanga ausente. A raiz treme.

Revê na parede cada quadro – obras de amigos que ainda não têm nome.

Acende outro cigarro – o quinto desta manhã, o trigésimo desde ontem, quando o médico proibiu o fumo.

Vai até a porta e encara o pôster de Cazuza – não pode negar que nele a beleza é um tique de tragédia.

 Volta ao copo – o vinho murcho ainda é áspero, como se concentrasse a luz azul da manhã.

Sobe no parapeito da janela e se lança – então os dois olhos castanhos, o cabelo encaracolado, negro, a face mulata, o corpo esbelto voltam à lembrança com maior nitidez. Sabe que agora é tarde.

(1989)

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Pequenos combates e um descanso


 Dou a primeira batida no pano branco. A mosca se remexe um pouco e não cai. Mosca ou gato tem sete vidas?

Gregório bate por sua vez. Acerta. A mosca tem um breve acesso e fica paralisada. Foi fácil por que ela já estava tonta, eu disse.

Na quina do armário agora. Meu golpe é seco e forte. A pazinha de plástico amarela abriu uma pequena fenda na superfície trançada de quadriláteros. Visivelmente, as coisas pioravam para mim.

Da cozinha, um cheiro de carne na panela e cebola.

Gregório crava os dentes no lábio inferior. Fica um brilho úmido ali. Um fulgor elástico. Dois a zero para ele.

A outra mosca pousa sobre o Sagrado Coração de Jesus. Eu não me importo. Mando chumbo. A mosca escapa rápida. Em linha de ângulos quase retos. Revoluteia no ar, e a estátua cai em dezenas de pedaços.

Ela grita da cozinha. O que estão fazendo aí dentro?

Nem eu nem ele respondemos. Quase nos olhamos. Mais moscas vieram aos trancos. Ele esmaga uma sobre o lençol. Pequena, estreita mancha meio marrom, meio vermelha. Sorri alguma coisa além do verde da vitória.

Simplesmente três a zero.

Não esmoreço. Bato forte sobre o seu braço esquerdo. Ele se assusta. Porra, doeu e nem acertou. Seu calção negro é justo. Retrata o selvagem do corpo.

Na verdade, não estou interessado em moscas.

Meu coração acelera com o gosto de queda para o interior de imensos precipícios.

Ele volta a dar porrada na cortina. Mais uma desgraçada cai agitando as asas, pinotes e rompantes de quem vai se extinguir.

Sua pá é vermelha e mais nova. Mais rígida. Como a musculatura sadia de suas coxas.

Penso. Qual o segredo de tanta perfeição. As linhas exatas revestidas de pele enxuta. O tecido sem nódoas, sem dobras, as mínimas escavações que nada camuflam.

Calco de leve na coxa dele e encosto a mão. Ele sorri. Ali não havia nenhuma mosca.

O rádio é ligado na cozinha. Estação estranha. Música popular e internacional. Música sertaneja com duplas que guincham. A lamúria dos corneados preenche a casa, rasteja sobre os tapetes.

Gregório me olha. Porra, cada música que ela ouve. As palavras se arrastam acima da umidade luminosa dos lábios dele. Quando chegam  a mim têm um sumo pesado.

Sacudo os ombros. Fazer o quê? Não posso doutrinar todo dia.

Ele se estica de bruços sobre a cama. Tenta alcançar o rodapé com a pazinha. Acerta o ponto preto de movimentos frenéticos.

Aproveito e deito ao seu lado.

Acaricio suas nádegas. Os pomos, que volume! As linhas arredondadas terminam num quadrilátero de fascínio calculado.

Hubert Fichte diz que não há nada mais belo que uma bunda masculina. Pelo menos nada é mais que esta.

Ele ao meu lado. Tenho minha mão sobre suas costas. Sua carne, sua temperatura, o lento perpassar de sua respiração.

Ele larga a pazinha no chão.

Reclina a cabeça sobre os braços cruzados na borda da cama. Me olha longo, para seus olhos num instante de reflexão e avaliação.

Continuo viajando sobre suas colinas tesas, firmes. Vou de alto a baixo pelo vale estreito entre as nádegas. Sinto através do tecido sintético os pelos rígidos, minúsculos arames entrincheirados. Para proteger?

Quase sem movimento, vou encostando minha testa em sua face esquerda. É quente. Afinal, nele tudo é muito quente.

O cheiro da carne e da cebola inunda a casa. A música sertaneja vai manquejando sua lamentação entre ruídos de talheres, pratos, panelas. Ela diz alguma coisa lá da cozinha. Nós não entendemos.

A mosca remanescente passa veloz entre nossos rostos.

Lentamente, Gregório desvira-se e fica deitado de costas, sem tirar os olhos de mim, sem deixar de aceitar.

Outras moscas por aí. Pousam em locais diversos por pouco tempo. Nada importa mais, nossas pazinhas estão muito longe.

Olho para tudo que é ele, para tudo que constitui a forma dele, sua substância física. Está de pau duro.

Toco-o. Depois agarro. Ele sorri. Por cima do tecido, beijo aquela coisa aflita.

Com os dentes, abaixo a borda de elástico do calção. Os pelos brilham. O tosão meio bicho, meio humano, um cheiro empoeirado de planta na margem da estrada. Salta o caule, transborda a carne. Seu pau é moreno, afilado, me lembra a maquete de um bólide, de um artefato de guerra que poderia ser doce, se não fosse a guerra, e é doce.

Um clima de lento espaço de morte. Acaricio a glande. Rebaixo a pele. A polpa aveludada tem o mesmo lustro rubro dos lábios de Gregório. Encarnada, de matéria para aguentar grandes pressões, para amaciar cada estocada. Suporta a minha língua. Vasculho o pequeno orifício que leva a mundos estranhos.

Toco o seu pau com cálculo. Apenas com a ponta da língua.

As trincheiras do meu corpo querem lançar pólvora pelo ar. Minhas reservas vão além do nível suportável. É uma agonia que galopa entre garras muito violentas. Um buraco de ansiedade confrange o peito, oprime os ossos e os músculos numa pasta flutuante. Quando tenho uma reunião importante e a decisão mais drástica depende de mim, tenho sensações parecidas. No escritório, chapinho num tanque raso. Com Gregório, é o próprio oceano móvel debaixo dos meus pés, em torno de minhas mãos.

Prendo o pau dele com a boca, chupo a palpitação que se alonga envolvida em minha saliva.

Com lentidão e espera, ele sorri. Ai.

A música mudou. Propaganda de um imóvel. Eu aqui, como imóvel móvel que remove mais que montanhas.

Abaixo outro tanto o calção negro.

O instrumental fica todo explícito.

Seus testículos parecem estourar dentro da capa nem um pouco flácida. Dois pequenos olhos fechados. Ovos bem resguardados. Eles tramam a matéria. Mais esparsos, os pelos escuros estão reclinados no suor, na ânsia de Gregório a estirar-se feito o langor da borracha ao sol.

Ergo um pouco mais sua bacia e abro as coxas. Lá embaixo, entranhado, quase não visto, a entrada final está escavada e coberta de penugem espessa. Os anéis delineados no mínimo matagal. A reentrância de não sei o quê. Esgarço e enfio a língua, o dedo.

Mordo, chupo, aliso. Alimento.

De repente, a porta.

Corro para chaveá-la.

Ela grita da cozinha. O que estão fazendo tão quietos aí dentro? Antes de fechar a porta, eu respondo. Acertando a mosca.

(1990)

 

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