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Não poder estar lá

Traduzo a trova em teus dedos que não pude agarrar, enquanto a tela do cinema mostrava os horrores dos grupos de rapina que falam em liberdade e democracia e devoram carne humana para depois vomitar dólares.
Tinha ímpetos de encostar minha cabeça em teu ombro, um gesto assim torto, tão marginal frente àquela medonha tarefa de registrar as carnificinas que entram por todos os nossos horrores.
Como um bêbado enluarado, eu queria dizer te amo, esquecendo que não podemos ser românticos nestes buracos escarnecedores de bombas que explodem em nosso lugar. Neste momento, penso em parar as conversas íntimas e ir em busca de autores que insistem na viabilidade do amor em tempos de guerra. Sei que eles têm razão, até por que, quando o tempo e o espaço não foram de guerra, as marcas sobre a carne eram outras. Só que não é bem de filosofia que preciso agora. Preciso desatar o velho nó do peito que, sei, não tem mágico capaz, por meio do rito de seus dedos, de desatá-lo.
Eu ali ao teu lado, lembrando do sonho impossível. Impossível não pelo fato de estares noutro campo e bobagens tais. Impossível porque a minha cabeça, com todas as engrenagens em nada conformadas, ditou-me letra a letra que o amor que eu queria é insubstancial, é um ciclo de destroços para quem como eu flutua entre o terror e o pânico. Ou seja: reconheço a natureza de minha propulsão, sei onde deveria estar e exatamente este saber me faz ver que não posso mais tatear na luz desta escuridão baça, por sinal, a única que conheço, como meu organismo diz, de novo, letra a letra, que ali inexiste nicho em que pudesse me encaixar.
Não preservo mais em meus baús os escassos arquejos de uma esperança. A luz se faz forte: não tenho como estar lá, misericordiamente, não poderei nunca estar lá, e é este amadurecimento, esta decisão florescida na doença, a perplexidade de minha maior herança da última queda, da última vertigem, do último relance de inferno em que perdi meu corpo.
A história é esta: tenho como espaço e meio de ser a tenacidade de celebrar a vida em seus pequenos detalhes, para não malograr lá, onde minha morada me esperava. E a obstinada amargura de minha angústia nega-me o passaporte: não, não devo me dirigir para o lugar que é meu por direito de meus sentimentos criados e recriados com as vistas lá. Não, lá, não, é o que reconheço.
Não evoco nenhum pacto, uma vez que jamais fizemos tal tipo de coisa. Na generosidade escapadiça da vida, acreditei com cada fibra em tom maior, com graça e zelo que eu te conduziria para o meu campo e estas bobagens. E hoje sei o quanto ignorava os arenosos limites do impossível por mim mesmo moldado. Outra vez, não por tua causa e sim pelo material que fui empilhando na minha ação reativa à vida, até estar de todo no sistema interno de conflitos contraditórios a me gritar alto e bom som: plantei e não há como colher.
A três por dois sonhei e o cáustico atropelo do último ano me faz acordar sem autoindulgência. A história é esta: gostava de pintura, estudei pintura, me preparei com todos os apetrechos para a pintura, cheguei a fazer alguns quadros e agora reconheço: com urgência é necessário afastar-me de qualquer tela porque pintar me escraviza em obsessões que racham meu crânio e não posso mais suportar o que escapa pelas brechas.
Com racionalidade nada aliciante, só posso inventar: a pintura restou como estímulo estético, impulso para a vida, matéria de escrita – mas não tenho como vivê-la. Minhas fagulhas estavam, série por série, em fogueira que eu não saberia manter pelos naufrágios irresolutos que trago de outras mãos, em especial das minhas. Precisei abraçar um ícone de neutralidade anestesiante na névoa do reconhecimento: minhas estruturas falidas não suportariam o deslocamento necessário do cotidiano e, quando eu me visse em mim mesmo, estaria tão vulnerável que a demência da dor seria a primeira gota de cada manhã.
Este é o reconhecimento mais eficaz e sabotador que eu poderia desfrutar na curva perigosa dos 50 e poucos e que nem a tragédia grega foi capaz de tramar para aqueles que deveriam cumprir um destino para o qual nada haviam realizado para merecê-lo. Tento retornar ao essencial: o escrever e suas circunstâncias, sem pensar no coroamento entalhado com tanto vigor íntimo: tuas mãos pousadas em minhas mãos me dando alento e recebendo de mim o incenssamento galante de quem convive. É esta a pena concreta: daqui para a frente, nada de convivência, nada de repartir, nada de intercâmbio. Assumo a autonegação amorosa com a clarividência de quem vê uma cicatriz crônica aberta a toda hora no peito. Não faz mal. E faz. Vivemos para tentar entender, e venho entendendo o turvo círculo em que me encerrei por erro de opção, não mais pela razão antiga: ser uma fraude; e sim pela razão nova: devo recompor algum nexo nos meus dias e isto significa não ir para lá, não destilar pelo filtro do sentimento um desconcertante voar hábil apenas para quebrar o resto do cotoco das asas.
Não faz mal. E faz. Minha especulação não é mais espasmódica, é o senso médico de conhecer o poder de minhas obsessões e quanto elas travariam qualquer várzea ou riacho que pudéssemos atravessar. A incerteza de ser constitui-se hoje em certeza de não poder/saber amar. Sobressalto? Algum. E como li em certo lugar, ninguém escolhe sua vida, nenhum de nós. Em sendo assim, registre-se quê!
Sombras, silhuetas e silêncios dormem recostados nas paredes de minha alma. O porto nunca deixou de ser remoto e minha ciência hoje me absolve de todos os crimes: não existe, não existirá, ainda que tenha ajuntado madeira de lei e cimento. A insegurança do meu reino raso está mais clara do que nunca. Outra página do livro das aprendizagens. E alguém até pode dizer: mas, deste modo, sua vida terá de ser mais suportada do que desfrutada. Retruco: para quem não é?
Ao teu lado, parecias mais livre do que nunca, livre das teatralizações, dos cinismos, das linhas dos limites puxados para o centro. E quem garante que minha percepção é verdadeira? Gostaria de com os dedos percorrer teu peito e isto nada tem a ver com a busca de uma excitação banal. Seria um modo de reconhecer a matéria de que somos feitos. Por acaso já não a conheço? E nem há dor, neste pequeno ensaio de desembriagado e desabrigado.
Há o cansaço de quem sabe o que tem pela frente: recompor a vida como organismo, concentrar-me nesta tarefa, para ir formatando o futuro com aqueles que nunca (nunca?) me abandonaram: os livros, e longe, muito longe da essência pulsante a querer ditar caminhos. E assim, a série de ações que devo executar é sucessiva e ininterrupta e nela, com a mente aguçada, anseio ter pelo menos mais alguns dias e neles mover os símbolos de onde estavam para outras cercanias.
E se tivesse agarrado tuas mãos? É reconfortante saber que resisti a tal apelo. Caso contrário, hoje eu estaria sob a escravidão previsível e o recolhimento não seria possível e o festim de minha solidão, travada pelo buraco azul de tua falta. Não me faltas no grande vazio que deixas. É irremediável dizer isto. Meu destino depura-se feito caverna que será habitada. E para quem encontrar nesta atitude boa dose de resignação, posso contrapor apenas: sobrevivo com os meios de minha abnegação para não enlouquecer. Sei que esquecer de nada vale e é ilusão. Nunca esqueci, nunca esquecerei, pois de ti vinha a grande calma, o arcabouço da essência hoje reconhecidamente afastada. Não esqueci coisa alguma, do cheiro aos muitos presentes trocados. Vi onde estou e aqui vou ficar, embora saiba que deveria estar lá, o que não posso em qualquer circunstância. Entendes, será, do que estou falando?

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Garoto Negro

É tortuoso empenho manter o solo cristalino para canoas trazerem de tua presença o negror que me abastece com asas de vida de viés. Tudo tão esplêndido e ao mesmo tempo soturno. Se te olho por instante a mais, pensas logo em desprezo e te voltas para um outro lado qualquer, feito escravo com medo do azougue ou simples criatura premida pela alteridade branca. Ignoras o quanto te compreendo, o quanto preparei minhas mãos para a navegação nestes cabelos baixos. A astrologia de teus olhos estanhados boiando no branco de puro azeite não te revela em astros íntimos minha admiração, o encanto do devoto, o fervor diante da bela carne que emoldura as roupas com suavidade e aderências provocativas. Na tua história, com certeza, nunca houve o milagre que estou pronto a oferecer: a geometria de meus apelos e sentimentos convergindo para a exortação muscular de tua beleza. Nela ultrapasso qualquer malogro e quero que acredites nisto, e com fé de peito aberto, ali luze meu olhar. A complexa miscelânea de sentimentos e impulsos e afetos a fazer minha cesta básica no dia a dia se volta para tuas linhas, porque nelas encontro a perfeição de sistemas humanos depurados pelo silêncio da genética e pela evolução de teus próprios enleios na luta pela sobrevivência. Ausente está qualquer fluxo de equívocos e tabus esclerosados nas velhas rezas do preconceito. O que te olho, te olho com devoração de quem vai ao museu, vê belo filme, inebria-se com a música. Não querem tais palavras afirmar que te afasto de mim como ícone exótico. Pelo contrário, somos tão humanos que te queria mais próximo e te quero mais próximo. Devias levantar a cabeça e acreditar no que meus olhos soltam em cascata lenta. Ouve a nostalgia transitiva que se equilibra entre meu peito e o teu e, assim, queria apenas te tocar para que, na solicitude, ganhasses consciência de tua graça. O que não quer dizer que me ponho um patamar acima e de onde te ensinaria qualquer arte de lidar com as sobrevivências. Estou falando de escolhas. Meu gesto guia-se na direção contrária a qualquer degrau além do teu. Me incomoda o retraimento contra a parede que vejo em ti. Queria que firmasses teu olhar no meu, como um desses dançarinos rappers que, com seus gestos eroticamente simétricos, sincronizados, escarnecem do bom comportamento e não temem apregoar suas formas ocultas. Elas são música. Arremete teu olhar contra o meu e pergunta: “O que foi, cara?” Aí, talvez, eu diga: “Nada, não. Só to vendo como há beleza no mundo.” A partir deste instante, a possibilidade da aproximação irá se insinuando em nossos encontros esporádicos e o que, num momento, foi cordial, benigno, obra do mero acaso, e de figuras distanciadas pelo teatro da cidade, estaremos um passo mais próximo e seremos outra coisa que meros usuários de ônibus: seremos amigos, teremos o que tocar. E um dia dirás: “Era sério mesmo aquele papo de beleza?” Confirmarei com mais ênfase. Responderás: “Gozado, nunca imaginei que alguém visse beleza em mim.” Eu retruco: “Eu sei, conheço todas estas senzalas em que somos castigados para nos anular. Mas olhos de amigo ensinam.” Estaremos eriçados com nossas palavras a bordo e à beira de qualquer fato, e esperarei o momento de nos cingir num estreito abraço. Que nossos peitos se fundam para nunca mais haver espaço entre eles. E se ficarmos tímidos, sem palavra, os copos boiando na mesa em que navegamos por uma noite de calor, lá fora o musgo crescerá nas árvores, as aranhas farão suas teias para envolver as vítimas em gosma. E tímidos e sem palavra e medindo o contraste de nossa pele que, espero, a esta altura seja uma complemento da outra, um laço de chegada, bastará que um finque no outro o olhar direto e com certeza o acalanto retomará o seu lugar. E ali, naquela noite, dois marinheiros vindos da lua ou das ilhas, nós dois embarcaremos na tênue vitória sobre nossas propensões à desagregação. Desconheço tuas expectativas e muitas das minhas. Ainda assim, da mesma forma que as paredes falam e os copos rodopiam entre nossos dedos nervosos, estaremos nos adaptando um ao outro, e nossas circunstâncias serão nossa constância, nossa abertura a esta corrente elétrica que nos roça a todo momento. Seremos amigos. E mesmo nada sendo realista neste mundo, sei que estarei sendo amor para ti e tu, para mim, e teremos um outro senso de realidade: cada um estará dentro da pele do outro, pois é para isto que aconteceu a amizade e seu fervor. E o amor que é uma esfera não controlável da vida interior e da cor da pele, estará atualizado no tocar das mãos, no brinde que os corpos fazem por estar juntos, mesmo em silêncio, e este é o rumo que desejo e espero ecoar em tua beleza negra de garoto que preenche muitos dos espaços transtornados entre a matéria do dia e a matéria do corpo.

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