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Poema do vaso

O momento era um vaso pálido perdido na janela. Talvez muitas coisa se relacionassem com ele: memórias de um cão, teia de olhos bassos, os dedos flexíveis em certa manhã de sol. O vaso estava ali e reunia as suas forças, e sua altivez de objeto perdido ou menosprezado não danificava a aura das coisas deixadas num canto. Se aproximássemos dele o ouvido, como o fazemos com uma concha, haveremos de encontrar encantos: vozes triturando a tarde, festas em noites perdidas nos calendários, o cetim quase doce da voz de uma criança resfriada. Como não é certa essa atitude – ouvir o vaso – ele permanece ali, um momento da casa, uma lembrança na janela de que algo merece ser cuidado. 

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Três poemas

1. Da chaga

Esta chaga luminosa feito clarabóia no mar, por ser luminosa é sombria e se perde nos meandros do arvoredo. Sutil e quase reta vem de origens ignoradas e habita a carne com a fé de um arpão.

O pensamento não pode inflar-se e acaba por deitar raízes na chaga que se nutre em cor e domicílio. A chaga respira com precisão e ao seu ritmo todo o corpo se amestra.

Não é um dado do momento, um pequeno acontecimento de contornos precisos para se saber como combatê-la.

Ela é difusa, escapa aos exames, rejeita os nomes e assim ganha mais ênfase para espraiar-se até o último limite do corpo.

2. Do vaso

O momento era um vaso pálido perdido na janela. Talvez muitas coisas se  relacionassem com ele: memórias de um cão, teia de olhos baços, os dedos flexíveis em certa manhã de sol.

O vaso estava ali e reunia suas forças, e sua altivez de objeto perdido ou menosprezado não danificava a aura das coisas deixadas num canto.

Se aproximássemos dele o ouvido, como o fazemos com uma concha, haveríamos de encontrar encantos: vozes triturando a tarde, festas em noites perdidas nos calendários, o cetim quase doce da voz de uma criança resfriada porque bebeu muito o luar.

Como não é certa esta atitude – ouvir o vaso – ele permanece ali, um momento da casa, uma lembrança na janela de que algo merece ser cuidado.

3. Do fim

Assim você desaparecerá e se suas gavetas estiverem cheias, isto não terá a mínima importância. Nada nelas funcionará como um anel de retenção.

Você acaba e suas coisas continuam, assim é que é, assim.

E o outono que estiver atravessando vidraças, espalhará seus brilhos amarelos com a mesma maciez que faz há séculos.

E os animais estarão em suas tocas, estressados da luta para escapar de outro que tentou devorá-los.

Assim, suas mãos, rígidas e frias, não levarão um dedo de prosa ou de calidez, e tudo quanto for humano aos poucos desaparece, até o seu silêncio, definitivamente, postar-se na entrada, proibindo o ingresso de quem chega encasacado, com o rosto em meio tom de inverno.

Assim, você desaparece e as nuvens vagam na imprecisão de seus contornos.

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Pequenos arabescos

1.

As noites afunilam-se pelas bocas e os homens bebem estrelas. Ficam embriagados de luz e dançam nas ruas, formando nova constelação de pequenos sóis.

2.

Entre os dedos da mão do velho, a aranha tece suas teias. No centro de cada filigrana, deposita minúsculo diamante. Com as vistas embaçadas, ele percebe um longínquo brilho no interstício dos dedos, mas não sabe avaliar do que se trata.

3.

Os muros pousam de leve sobre as calçadas. As calçadas estiram-se brandas ao longo das ruas. As ruas encompridam-se suavemente em curvas lentas e serenas. Os homens pisam duro.

4.

Genet criança meditava numa privada, ouvindo os sons do mundo. Depois, fez de seu corpo uma longa, contraditória e ininterrupta festa, passando pelo circo, pelo cinema, teatro e literatura. Em criança, eu subia até o galho mais alto de uma goiabeira, onde devaneava, pensando o mundo nas formas e cores que via. Depois, metamorfoseei meu corpo num constante e ambíguo e intermitente silêncio, rede de lacunas, intercâmbio de vozes nulas ou mudas.

5.

A melosa canção vinda pelo rádio dizia que o amor nos dá asas. Amou a primeira vez e perdeu as pernas. No segundo amor, os braços. E assim por diante. Até que se viu reduzido a um pequeno coração batendo solitário no meio da praça.

6.

Devorou fatias imensas de silêncio. O que não fez dele um homem mudo. Pelo contrário. Suas palavras voavam pelo mundo a toda hora. Mas lhe faltava algo essencial: o tempero do sentido.

7.

Na distância, os cães ladram, tornando a noite mais comprida e aveludada. É como se fossem naus sem rumo, no desespero por um porto onde nunca ancoram.

8.

Amou tanto, mas tanto, que seu coração cresceu de forma tão desmedida que não podia mais entrar em casa. Passou a vagar pelas ruas. Não faltou dedo para apontá-lo, acusando-o de vagabundagem. Acusação que ganhava mais ênfase quando alguém lembrava: e tem diploma de agrônomo, o malandro.

9.

Ouviu de Capitu algo muito sutil, dito ao pé do ouvido. E resolveu calar-se para não estragar o prazer dos que imaginam ver nela um enigma indecifrável.

10.

Quando, na Praça da Espanha, encontrou-se com Dom Quixote, compreendeu porque a vida toda fora chamado de cabeça-de-vento.

11.

Antes de deitar-se, K. borrifou a casa com vários inseticidas contra barata e outros insetos. Ao despertar, sentiu-se com a mente leve e uma inesperada energia alegre tomava conta de seus membros. O corpo bailava sem o comando da vontade, na mesma dinâmica do vôo da mente. Talvez jamais se libertaria do sentimento de exultação.

12.

Ele gostava tanto do mar que passava o ano inteiro pensando nas férias de verão, temporada de praia, lazer, vida mansa. Naquele ano, a ressaca foi violenta e arrasadora, avançou por toda a orla, levando inclusive a casa dele. Que não se aborreceu. Preferiu compreender o estrago como um sinal das águas: elas também o amavam e queriam levar dele algo para sempre.

Assim, roubaram-lhe a casa e a esconderam no fundo de si mesmas.

13.

Pisava tão levemente que seus passos nunca eram ouvidos. Um dia, bebeu além da conta e chegou em casa aos trambolhões. Seu filho pequeno, percebendo a mudança de atitude, comentou: Ih, o pai hoje errou de tom.

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Bailarino

Bailarino fui e sempre dancei em frente às grades, nos pátios das feras, na boca da noite de revés. Dancei no avesso do tempo negado, aquele tempo de transformar pérolas em porcos, dancei por ali, para tirar da noite a fatia do creme mais azedo. Bailarino fui e sempre bailei no oco do olho do rei, na margem das coisas desencontradas, com pés e mãos amarrados no derramado da hora. Desencontrei o mar aberto e o mar fechado, os navios nas ondas vesgas, os peixes de espada em punho escrevendo no ar mensagens que desprezei. Elas ultrapassavam minha leitura e pus-me ao largo, sabendo que dançar é arte de pouco caso. Bailarino fui e sempre bailei na curva da reta geometria, ali onde os garotos mostram seu frescor de quem vem para a vida com todas as curvas pronunciadas em alfabeto silencioso, em musgo de ocaso, como quem grita um hino do tempo no tempo de ser firme a cada hora e se dizer belíssimo, porque é deles este destino. E se Sophia Breyner repete Rimbaud, eu faço o mesmo quando a reescrevo: “por delicadeza perdi minha vida.”

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No centro de um círculo

Conheço a geografia a indicar-me que não faço sentido. O que pouco importa na conjuntura de precipícios ajustados à minha porta no mundo. Avanço no labirinto com todas as velas pnadas e com licores extraídos das últimas palavras que usei com o vagar dos velhos sem destino. Talvez se auscultar o tempo, inexista alternativa, a não ser claudicar escada abaixo para apanhar os jornais de ontem. Manchetes que me assustam pela revelação do mundo. O instinto de recapitular me traz a sonda dos silêncios, mantidos dentro de casa como caixas de que é difícil se desfazer. Um vento a sudoeste reanima as cortinas. Elas refazem os quadros em sua dimensão semanal. Estou no centro de um círculo. Ele gira num sentido que sou incapaz de apreender. Ele é feito de fogo e doma as poucas palavras que ainda armazeno para me virar. Contra o vazio. Aí talvez entre a História com suas figuras que me despertam explosões de mundo. Mesmo que na superfície a platitude é contínua.

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Bruno

Por incrível que a fábula seja, surgiste como alguém comum entre tantos outros comuns. Variantes da mesma trivialidade. E no fugaz do reino deste mundo, foste tomando o palco da festa. Ícone isolado para meu coração confuso, signo de plena vida para meus olhos cansados de martelar na mesma insistência. Colorindo o instante com teu aspecto de garça, teus olhos verdes provocaram tantas relembranças. Entre elas as que apaguei por simples escrúpulo. Espírito vazado por histórias inabitáveis. E eras a fábula da aparição da beleza, num momento tão vulgar quanto outros. Logo tornado parêntese de poesia pela tua bravura de só te fazeres presente. E te distinguias pela poeira alada do que de futuro prometias à palavra. Esta ave arisca a que tudo infiltra. Até o impossível de uma visão impossível. Repovoaste a noite como Orfeu. Cantando tuas canções ligeiras, enquanto a mim me cabia fazer paralelos com outras equações só para não cair no pântano.

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Morte

Lembrar que tudo morre é ordenar as coisas em ritmo de finitude. Ter em cada adereço um desenho de despedida. Assim, chegada a hora, tudo se solta com mais facilidade. Tudo cumpre seu papel de cinza e névoa dissolvendo-se no parlamento do dia. Findar-se. Eis a história. Todas as lutas estão amadurecidas. Ergue-se o braço e toca-se algum contorno. Não como alguém que se vai agarrar a ele. Como quem está empenhado em desfazer-se do último contato. Assim o mar toca a areia. A areia arregimenta os pés coroados de brancura. Eles vão para o fim com o canto doce do corpo turvo. Até tudo tornar-se sombra no mais além do gesto.

 

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Morte II

A morte é uma forma de mastigar tuas feras. Cortar na garganta a derradeira palavra úmida. A morte é o último espaço vazio que habitas.

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Pablo, menino de Cataguazes

1.

A gente atravessa cidades, vales azuis entre montanhas que se perdem quase no além dos olhos, e mergulha num calor puro óleo e chega nos corredores do colégio – ao redor a cidade brame. O silêncio é um barulho pontuado de gente, de carro, de bicicleta. Ali, nos corredores, há quietude, sombra de plantas que confabulam, imensos baús a resguardar segredos de cabelos ouriçados e unhas pontudas. Estamos todos no salão, esperando as magistrais palavras. Estamos todos reunidos, porque discutimos não o grande destino, mas tão somente os gestos esparsos, concentrados em páginas escancaradas, donde escorre veludo e fel. Lugar do saracoteio de autores que nos sustentam. Então, à voz do conferencista que galopa por molecagens e pilhérias, encontro teu sorriso à beira do precipício, a trocar sombras comigo, a me dizer do pluripresente corcoveio. E o mundo todo se refaz em mistério bom de acolher, de ninar, de plantar em cada ângulo das mãos.

2.

Este barco entre estas montanhas, o que é? Este rosto ossudo, de nariz de precipício. Esta boca tão larga, feito cacimba a receber o sol e a dar o sol. Este coração de 13 anos sob a camiseta, campo fértil de inscrição qualquer em torno da arte, da vida, da coisa nossa. Estas mãos tão amplas, espalhafatosas. Este jeito meio camelo angelical. Esta brandura que escorre pela voz e vem à arena dos meus braços cantar o exato perfil da sombra mais exata, sob a qual escrevemos duas ou três curvas de nossas vidas. Este arcabouço que aos poucos se desfaz e vem da beira de um rio, onde reinventas a infância que não há mais e ainda insiste em sua beleza, nem dá mais mostra de montar o ritmo de ontem e ainda insiste em sua melodia. A prospecção de asas que se desfazem no éter. O fluído ardoroso que escapa deste barco aéreo a me singrar e a me faltar. A dizer pra mim frases que recolho neste feixe de dedos que jogo no ar de Minas pra sepultar o que sequer foi erguido da semente. Sei que tua morenidade mancha minha pele com a grande falta. O que levarei ao Sul?

3.

A garra que me ataca não é nuvem, não é rio. É fogo de voz calada, osso de silêncio em onda. Morte de vida intensa e vida de morte em camadas de horizontes superpostos, onde o coração é quina adunca pra refazer o infinito. O infinito se esconde em tua presença de absoluta ausência. A garra que me traça, borda ocos em meu discurso. Singra meus navios de dentro e do meio com sílabas de tanto tropeço. Eu me amarro em cipó de breu. E me estatelo nos amplos campos que me atrevo a aninhar no peito, nesta hora. E me envolvem em seus apelos, nesta manhã. A garra que me arca vem do século logo ali, antes da impossibilidade, quando o menino antecipa os deuses e estes criam o obelisco pra iluminar e cegar e arrebatar. Eu cheguei e as amarras dizem o meu som. E respiro entre rios de fagulhas pra nadar entre os banquetes de crocodilos famintos e toda vez convincentes, ainda que lerdos no peso do lamaçal. Eu cheguei e o meu discurso repete o mesmo espanto, circula a mesma gema, decanta o crustáceo do não. Como não ficas ao meu lado amanhã e amanhã e no depois, que encontrarei no Sul.

4.

Há um gesto esparso neste amplo espaço a fustigar a luz e o som do sol. Por ele, as raízes tremem e trazem ao pó dos lábios uma palavra só farrapo. Se andássemos por este mundo, pressentindo sombras e profecias e barcos geminados com roteiros, diríamos às praças onde nos recebessem que o corpo dói na mesma medida de cada passo, no mesmo tom do seu impulso. E por aqui andou Rosário Fusco e tantas tormentas criativas que, ao raiar do dia, o que vi me encheu de luz em espiral, no veludo da cegueira. É pra eu nunca mais esquecer a condição de fardo a ferver no sangue. E depositar na carótida os olhos desta meia chegada, desta inteira partida, deste fosco rosário de bugigangas que atravanca o ar de minhas correntes. Elas se estendem até tua casa desconhecida pra mim e me trazem dali a fôrma que te fez e é um grande vazio nesta hora de dedos tortos tocando a parede em busca do retrato. E ele vai doer, vai doer, vai cantar sua vagueza por tantos dias que nem sei.

5.

“O que a memória ama fica eterno”.– Adélia Prado.

Cataguases, dezembro/95 , durante o Proler

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Aquaera a dois

Que nunca mais se esquecesse das coisas ditas em ritmo de expectativa e ansiedade, tempo da permanência da miragem e de sua figura como parâmetro do maravilhamento, moldura da grandeza simples de cada verso lido ou escrito, a cada mensagem significativa encontrada num quadro, o detalhe como gadanho de um canto da vida. Todos esteselementos em verdade enlevavam a condição deles a um patamar fora do comum. Que então, nunca perdesse o rumo parecendo afunilar os dois por uma mesma causa afetiva, quando se ganha no braço e na fibra do cérebro as lides cotidianas de cada dia. Que nunca rompesse os frágeis laços colocando entre eles uma figura capaz de aguar em demasia a aquarela tosca que ambos compunham a medo e sem saber o modo adequado de continuá-la, nem com qual pincel.

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