www.pauloventurelli.com.br

Lombos de cavalos furiosos em sua acalmia

A lembrança do teu corpo me causa um cáustico gelo na espinha. Me deixa ofegante, uma respiração que já não é minha. Sinto teu vertiginoso insondável. Sinto o possível do saltimbanco nesta carne que, trôpego, degustei como quem rouba. De relance, te percebo ainda grudado em crepitação, na radioatividade de meus membros. Gostava de te enlaçar mordendo teus cabelos, segundo a recomendação de Baudelaire. A silhueta que expunhas – meu viático e a dilacerante compreensão que nada poderia continuar. A caligrafia dos meus sentidos se funde à tua. No casual fazíamos nossos nacos distorcerem os lençóis, o magnético e oscilante reservatório de demências derramados em nosso esperma. Bom era nos embolar em patranhas – quem tinha safra de sobra – e sabotar o mundo e nos comermos na violação do gozo, ou seja, açular as normas (todos os acertos). Tua fatura no meu atônito desejo (a arquejante velocidade do serelepe subindo meu tronco). Eu lacrava meu corpo no teu, no mangue do suor nos afogávamos. Imprensados um no outro, anulávamos os lençóis (dispensávamos apoio e aporte). Que banjo depois, na grei dos fora de parâmetros – zumbíamos em duo. O ócio era níquel pós-fornicação. A temperatura no teto do hotel. Repousávamos. Tua cabeça em meu ombro. Amanhava teu sexo murcho, úmido, ali estava o bastão (subir barrancos e sendeiros). Quanta luz ofegavas. Plena mare. Enlameados de nós mesmos, rochas líquidas, a jornada enfim composta (alguns pedaços teus, outros meus). A delícia do usufruto – nossas membranas. Se querias mais, eu também queria e queria. Nada de fendas, contrapesos. A senha ia do beijo às chupadas. Do dedo no entre-nádegas, às bolas redolentas em fricção prometéica. Subíamos, descíamos, entrávamos, saíamos. Colérica era nossa intumescência. Agora o hino solar da lembrança (mais lembrança) vem em bruma convertido. Demando um ponto de ancoragem. O mundo é vasto demais para este minúsculo traço – no que fui transformado? pela ida sem ritual algum.
Afinal, um dia voltas? Roteiro, mapas, sinalizações são teus

Postado em por autor in Prosa poética Deixe um comentário

A reles toada que se afigura nos dias ou A banalidade

A marca de um desconforto retroativo mina seus esforços para ocupar-se com as lides diárias, aquelas que a priori dariam sentido à sua vida. Macerado e errante, ele caminha pela casa, faz isto, faz aquilo sem que o rangido rouco se desprenda das dobras do interior. Em cada desvão parece apontar a cabeça de algo que irá desintegrá-lo. Anéis de ansiedade demarcam o terreno, e ele é sugado para uma pastosa convenção de inquietações e deslocamento. A mente arde sem ater-se a nenhuma meada prática. Desde os livros da semana para resumir, anotar, inscrever neles seu parecer, até as limpezas ordenadas de sábado, tudo são felpas de aço na engrenagem. Esta não vai rasgá-lo por dentro, mas amortecer a perspectiva de um dia de produção. Cada gesto se vai desacelerando e, quando percebe, está exausto, presa de uma aversão por seu cenário, com fibromas no ânimo, em estado de malignidade a transfigurar a ocupação, num agreste exercício de tentar ser livre. O areal das paredes solta-se sob seus pés, tudo reflui exato para o ponto de onde quer afastar-se, tudo chama para a intensificação de um nome, um porte, um jeito de ser distante do seu jeito de ser, um afrontar a vida, um colocar-se no centro, ainda que nada tenha centro. Neste festival de miragem rotulado de cotidiano em que o chão o mais das vezes está no nível da cabeça. A senda planejada mostra-se apunhalante e o intermável rodízio em torno do mesmo toco/corpo aturde-o, e ele se vê reciclando as camadas de sempre – o mesmo gosto – o mesmo cheiro – a mesma textura – a mesma latejante ausência que cega e indispõe e trava e rompe e corta e embrutece.

Postado em por autor in Prosa poética 2 comentários
« Previous   1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11