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A longa noite dos ovos ocos

Longa e voraz a noite se distende ao comprido dos braços. É uma nódoa só de carvão, um fetiche de escamas partido ao meio, um incêndio apagado sem causa para o seu começo, sem necessidade do seu fim. A noite é vertical em seu intumescimento de fera adestrada para qualquer bote e se alguém duvidar, ela lhe pega pela garganta, sacode o corpo inteiro, até arrebentar cada centímetro das entranhas. Depois, senta-se sobre elas, cospe, mistura à umidade da urina esses restos, fazendo todo o locus perder seu lugar. A noite se proclama felina quando em verdade é devoradora e desova ocos sem fim. Na luz incerta e espatifada de seu corpo abriga os diabos solitários que gostam de voar com suas vassouras e pousar sobre os telhados, trazendo maldição para as casas escolhidas com um ovo em cada porta. Sua memória de fezes esculpe magma em cara retorcida e arrebenta os poucos elos a ligar criatura à vida, mesmo aquela mínima, desenvolvida e crescida no limo escuro do subterrâneo. A noite voraz e longa fermenta em ciclos ácidos, aninha tecidos e na abulia de seus ovos encrespados de pelos deixa a todos com o corpo em ferida, cortes, arranhados, longe do poder de cicatrização e próximos de dores de sal sobre o sangue. A noite é lamacenta e crua e por isso tritura os rostos, esmaga os olhos, as lembranças dos rostos e dos olhos, os traços deles na memória, em que canteiros de acantos servem de renovação para os ninhos. Com ela, nada é vívido no sentido do saudável, do músculo tenso para soltar a flecha. Nada se assegura no esteio da morada e ronda com chamas de gazes quem por ventura pensar em driblar sua vigilância, o pus de mil olhos grudados no ato de cada gesto, mesmo insignificante. Os relâmpagos dos corpos, em especial quando estão juntos no centímetro cúbico que lhes cabe deste latifúndio, são absorvidos pela noite que também consome mínimas doses de energia e o álcool de bocas coloridas no burburinho do encontro a insistir em estabelecer conluio. A solidão escamosa, fria no friso do gelo é seu bofetão mais centralizado e pontiagudo de sua perversidade nada infantil: perseguir, arrasar, embrutecer. Depois, refestela-se com os ossos, as cartilagens, as veias feito couro rígido. Fluídos de tessitura gosmenta desarticulam a ação dos desatentos, daqueles que têm os olhos presos na dança dos copos, e sua gana, sua garra viva são coerentes com a raça dos que esmagam pelo puro prazer de encontrar a carne carcomida, feito um entroncamento de homens suicidas em qualquer metrópole deste pequeno mundo de fardos em série, de série de fotogramas em preto e branco, do preto e branco da ginástica de ter de pendurar-se no corrimão para não rolar escada abaixo, no final de que espera o fosso com lubrificante aceso para tisnar a última posta de carne livre das garras da noite. Ela, a noite, alarga seu halosobre bocas que queriam sondar o silêncio, a pedra do silêncio, para dela extrair seiva destinada a um carinho atroz: boca na boca, boca com boca, boca para boca. Caladas, estas cospem cinza e de cinza se cobrem os corpos sob a noite dos inutensílios, dos mantos rasgados, dos peitos trocados por vil moeda, dinheiro que só a noite mede e contabiliza. A arte acabou, a vida perdeu a força, Eros dançou na farpa do talho, no pau a pique, e a cada gesto seu ela, a noite, grita mais alto, apagando a série finita de sinais vermelhos e convidativos para a ultrapassagem. Com ela só resta o gris da volta ao claustrofóbico, a abertura foi ilusão, o doce embalo, um convicto veneno.

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Pulmões mecanizados

O corpo ao sol da varanda estica-se, depois revira-se sobre si mesmo. Não tem gancho no ar para ampará-lo. Ele é todo rigidez de nervo e pele, este órgão de completa amplitude a tudo vestir. O corpo tange-se para dentro. Cerca-se lá pelos buracos negros da irreverência. E os movimentos, cada qual por si, circulam feito serpentes ou lagartos sem sol e do fundo da caverna. Estes movimentos anseiam por expressão, saída, outro corpo de arranque. Porém morrem no nascedouro, abortam-se no mesmo corpo ao sol da varanda, quando buscam menos trituração e mais ar para seus pulmões mecanizados na mesma compulsão de girar e girar em torno de eixo inexistente, só que com poder de reinar até distender a imensidão de seu manto mortal pela extensão realística do corpo ao sol da varanda.

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Frutas marrons

Tenho um pressentimento de ave, na nave desta noite – as frutas todas intumesceram por falta de acurácia de alguém apreciá-las. Abandonadas ao sol do meio-dia – neste inverno hoje inesperadamente quente – roubaram da mesa a cor marrom tom a tom e se fartaram dela, até desbotarem seu laranja, seu vermelho, seu violeta. Assim, morreram na véspera. Foram atingidas pelo raio lento da insipidez de línguas matraqueando, quando podiam desgustar o sabor som a som de cada toque colorido em seus redondos, alongados, ovalados formatos deperfume ao paladar. Esquecidas em sua miséria de vida curta, apodreceram como ocorrerá a tudo o mais, afinal, ninguém me negará que foi fora de hora o fato de sua honra de fruta saboreável deixar de ser cumprida. Este meu pressentimento de ave se debatendo contra as tardes, enquanto busca um resto de alimento entre tantas paredes brancas – e retas.

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Uma outra palavra

Não havia deuses vencidos naquela sala, nem mutilados em seus poderes cantados a mármore. O que havia, com todo sinal da graça, era a carne amorável, o tópico propiciatório do assombramento mais tenaz. Na dissipação das muitas palavras espargidas a esmo, vinha o filete da concentração animando uma outra palavra que apenas horas depois nasceria sobre o branco do papel. Sem nódoas, sem vento torto, sem escaras da mesma posição mantida estática. A palavra de modulação medida na mesma pose de príncipe entregue ao olhos feito flor de madrugada. No ajuste entre o que se dizia e se pensava, o hiato só seria completado muito depois de horas gastas em tergiversações. Ali, naquela sala, brotava o encanto de vestígios numa ária salmodiada em silêncio para de repente explodir em centenas de palavras preenchendo a biblioteca. Do remoto anseio veio a renovação e esta instalou-se no ambiente como ocasional, mas na verdade era forja para a velha forma assenhorear-se de matéria nova/velha e com plasticidade justificar o sábado em pequenos ritos verbais.

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A manta

É preciso remendar, reinventar o pano roto. Por teu intermédio sei como montar a manta. Mantenho o trabalho até o cansaço inútil. Depois o fulgor não se assenta, a fagulha fulminante fulge no fogo que é acinte. E aceso fio o véu com teus cabelos. Tenho acesso à pequena vertigem da contemplação e todo esforço de gravá-la é vão. Rebusco em pensamento o perfil do acontecimento e este repõe as peças até agora esquecidas. Relembradas, elas se dispõem em ordem basta e a manta mantém seu inconsútil severino até a nova configuração. A figura surgida é sortilégio, é o bravo encanto do canto em que quilhas quebramo gelo há meses. Não refugo, nem recuso os brancos quentes que ofereces como quem chega numa manhã fria para agasalhar. Sei tudo afora. Estou livre dos trastes que rasgaram o pano tantas vezes. Assim, passo a remendar a coisa boa – de tuas praças vem o vento e vem o canto carregado de agulhas e fios. E fio obstinado o rosto e o passo, a maravilha é o que encontro em emulsão de tantas sombras transformadas em luz. Tenho a manta imantada em teu rosto. Eis a revelação. Ao escrever, acordo o escrutínio e teus olhos velam com placidez meu entusiasmo. Eis o rosto na manta da escrita.

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Meu outro Quixote

Triturado entre os espelhos dos teus gestos, procuro a palavra sem susto para te dizer neste aqui e agora pleno de farpas do não-ser. Não-sou quem está no teu ângulo, então farfalho em sombras, como não-sou quem rege teu discurso em que sobrevoam garças. Misturo-me mais às encruzilhadas, cismo morrer de overdose de vazio. E fumo cigarros seguidos para aliviar a barra e a barra vem repleta de ostras podres para sufocar o resto desintegrado do ficar. Sou maneirista no ovo espinhento da reflexão quando não te ignoro e só te vejo tocando o rebanho para a colina afastada deste pasto. E deste ponto lanço outra vez a bandeira do chamado, mas nada recebes, porque teus olhos disciplinados o foram para outras formas. Quem sabe, em uma hora eu já não esteja aqui e será um alívio voar sobre os mares em direção ao imutável silêncio do que não tem mais nome, nem dele necessite.

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Pau pêco

Como um eterno navio a cruzar ondas que estão ausentes.

Um barco a remo com homens sem braços para movê-lo.

Uma estrela para brilhar onde a noite nunca vem.

Um corte da pedra: assim duro, assim seco, tanto nada.

Um beijo despojado de lábios porque a boca já mergulhou

na sombra, e o mergulho aéreo do corpo todo nuvem.

Um gesto à porta, mas a casa totalmente no ar.

Na mesa a comida feita de fibras plásticas.

Um cavalo que galope o próprio casco e no rastro

vê a grama inexistente.

Um menino que nem nasceu e antes de tudo está sem mãe.

A mulher que sem amor deu de si ao espectro invisível.

O fantasma das mãos no peito carente de pele para o tato

de calor em chegada e cheiro para o voo.

A garganta aberta no centro da praça.

A palavra em vão mastigada pelos dentes apenas arnelas.

A argila do suor sozinho tentando escorrer em gotas

quando o corpo moeu-se em ritmo da não-música.

O apelo para estender-se, ficar, inventar a permanência

justo no ponto em que se ergue o hiato.

A ponte a vagar entre margens.

As margens de um rio sem ir.

O imenso esforço para reter o fluxo da meiga

silhueta perdendo-se na trilha desavisada.

A onda matutina escolhendo-se sob a máscara

do esgar tático.

O espelho embaçado, e apalpa-se apenas

um contorno obscuro.

Por quê?

A resposta está na outra página.

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Poema da melancolia

Dentes, que parecem de ouro, apodrecem seu âmbar resinoso na carne já puro pano, plástico amassado. O sol não penetra na fímbria mínima entre o osso que morde e o músculo liquefazendo-se, sem linfa para regá-lo. Um cheiro muito mais que estranho exala-se da chaga. Nos fluidos que sobem, alguns barcos de papelão tentam sustentar-se por alguns segundos, na esperança de chegar à ilha que também foi corroída e faz água. Assim, a ilha para a moradia, podre, é cova para a carne de vivente sem outra chance, porque nem o sobrenatural acalentado nos pagodes da infância tem agora alguma serventia diante da infiltração do pus que exsuda alma e tutano e medula e a lagarta da antiga alegria que o vento soterrou. O azedo da palavra trincada bate também sobre os olhos. Dentre as dobras do desespero, ergue-se o monstro. Carantonha esverdeada de quem passou a noite sob néon, ele aponta a cimitarra para o que resta de pescoço. Nenhum gemido, nenhuma sílaba pode testemunhar a ação, o terror do fechamento, o encilhamento de restos de músculos com pedaços de ossos e pretensões endoidecidas de se reinventar a ilha em outro desvão deste mundo que parece conter tanto espaço. Os dentes apodrecem sob o navegar das nuvens.

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A velha vida

Que dor nova é esta que te surpreende como um regato de repente jorrando das próprias mãos? Moisés invertido, bastaria que a montanha tocasse teu peito para inundares o mundo com o canto ofegante que tuas entranhas tramam. Como podes ainda encontrar outro tipo de luz e espanto no mesmo pavilhão em que há anos te convertes em pó? Passaste a vida em vigilância, testando a inclemência e o capricho dos fados, com a carne inquirida pelos acontecimentos. No recesso mais obscuro daquilo que em ti é o ser e, portanto, o pensamento, dias após dias constatavas a falta de víveres, a improcedência da viagem, o desalento de um roteiro que passava por seres que te desdobravam e nunca podias te pôr ao abrigo do extravio, pois eras tragado sempre pelo mesmo capítulo. Assim, que novidade pode haver neste leviano esperar de que hoje a sorte ditaria outra superfície para teu corpo perpassar, longe da diáspora, de lume atado ao núcleo mais definido em tua cartilha assimilada em todos os tons? É assombroso como as avarias te deixam a zero. Que remate pensavas infiltrar nesta atitude que repetes à exaustão, acreditando tocar o duradouro, e nada, nunca, vai além do lacunar acaso de quem chega para momentaneamente te fertilizar? Quando lanças mão para colheres o fruto, te reconheces uma vez mais roubado. E não foi sempre assim? Metamorfoseavas em anjo o trivial personagem de um arranjo, nem tão esquivo, uma vez que estava assegurado, como premissa, que ao aconchego que te iludias dar, iriam arrancar tuas próprias vísceras, os ossos industrializados em máscaras para o mais comum e movimentado carnaval. Agora borrifas a cara para tentar acordar. Por que relutas em entender que foste outra vez mutilado e, em lugar de tisana, serviram veneno e dissipaste teus abraços com estocadas em espantalho?

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Poema do corte

Quando você vive um dia em que o sonho acabou, você ouve o silêncio. Ter por acabado o sonho é apenas isso: o mergulho no silêncio. A martelada no vidro. O guincho de ouvido a ouvido. A explosão entre os canais do sangue. E o silêncio. O repentino desmoronar do que parecia acertado na medida justa de um encanto. Encanto construído há anos. A punhalada entre os olhos quando pequenos fatos prometiam o afago. O cutelo afiado onde você tinha certeza de ter modelado o veludo. É assim, um corte, um talho, uma inesperada falta do que era essencial e intransferível. Você poderia dizer que enfrentara arenas vivas, afastara mecanismos opressores, contornara fossas de impossibilidades. Tudo voltado para a chegada do bem a multiplicar-se por dias nada mais que dias de vida. Vida. E quando tudo lhe é negado, você nem vai ao espelho. Olha as mãos. E ali está: o silêncio. Não foi possível. Você sequer chega saber a razão. Acabou. Tudo empalidecido. É o silêncio que lhe cerca. Ouça. Que pode mais você fazer?

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