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Inverno

Não há neve. Mesmo assim, a cidade está branca. O branco do vazio. Vazio de sentido. Nenhuma direção, nenhum lugar, nenhuma gente. Quem passa é ninguém. Quem fala, longe, é ninguém. Quem pensa, entre as paredes, é ninguém. Cidade branca. Cidade vazia. Cidade nenhuma. Todos recolhidos em busca do fogo, do sentido, da reinvenção da paisagem. A noite gelada é oficina para as cores que virão.

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Lispector

Ele para diante do ovo. Finca os olhos na ponta adunca, quase espelho para as estrelas. Um ovo em cone continua a ser ovo? Sem transe, sem cálculo, sem discurso, seus olhos vagam pela espécie rara. Ondas de ar fazem a ponte entre a luz da pessoa e o não-esférico que espera ser entendido. Os lábios em linha reta podem ter ligação com antigas experiências no porão que a hera cobria. O ovo cintila, fazendo as vezes de uma palpitação. Alguns passos em torno da mesa e o ovo é a mesma figura, nota calcária representando uma carência. Dos olhos ao ovo alguns veios materializam o silêncio do que é dentro. Algo pode explodir e romper as fronteiras. Algum inseto também desejaria instalar-se nestas linhas e nelas botar um ovo de outra matéria. Um ovo insignificante ao lado deste disforme avilta suas marcas além da singularidade. Nada se mexe para retê-lo ali, para guardar sua permanência. Para ele ser resguardado entre asas de quem ainda não é.

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Agasalho

O espaço entre nossos corpos nada preenche, nem o gráfico luminoso do suor sem fronteiras. Parelha de seres lassos, nunca fundidos. Não há simbiose e eu queria esta letal felicidade. As víboras que se engalfinham em nosso pasto têm cabeças rubras que se roçam em música de contrabaixo. Nos subterrâneos do que te continua, do que me continua. Miseravelmente dois. O cosmo de lábios de vidro partilha as peles com sílabas vibratórias. Que não temos como reter na condição de aconchego. Sobem as torres. Mergulhamos. Abraçamos o nada. Ainda somos dois.

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Matéria de vidro

Tudo está no lugar. É possível viver no grão lustroso de um dia. Tudo está no lugar, mesmo que fatos e ocorrências estejam ligados com fios tênues, colas quebradiças a um primeiro impacto. As armadilhas para submergir mostram seu vermelho de atração para o motivo derradeiro. E leões e cordeiros confundem-se na terra rachada e de cada greta desponta a cabeça de espinho envenenado para rasgar um gesto. Poucos são os solos firmes. Contudo, dá pra ir levando – com destroços se monta a jangada. Se há ordem no transtorno, e o desmoronamento pode vir a qualquer empreitada, o corpo se registra na condição de hóspede provisório e arranja seu canto, onde trabalha para aprumar-se porque é urgente manter-se de pé. Na posição vertical  há mais horizonte. Consolo corriqueiro para quem mal sai dos círculos obsessivos de ficar em torno do mesmo eixo. Acontecerá um encontro. Alguns temas travadores serão sanados de sua volúpia estranguladora. Nada é grande coisa. O que se há de fazer? Melhor romper o sistema de evasão, do que se enfurnar na nuvem de sintético calabouço, quando cada célula é praça de vírus. Haverá um encontro. Palavras trocadas servem de garantia passageira para adiar a morte por uma estação. Heranças de sombras ganham por ventura sua dissipação. A claridade revelará naquele olhar o milímetro a milímetro da impossibilidade amadurecida durante anos. Esta é a liga frágil, a compensação. É o trabalho do momento. O que se une com cordas rarefeitas, sem consistência.

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Corpo e língua

Como dizer o que a língua é travada para dizer, e o corpo sabe muito mais? Conjugamos as sílabas em farrapos sonoros e eles se perdem no ar, os canais entre as bocas. O corpo na sua solidez finca as garras, contorna as sinuosidades, torna-se catedral de ressonância. A palavra é pura convenção e não cheira, enquanto o corpo impregna os lençóis e as mãos, e a presença transforma-se em elástica eletricidade vagando sutil em cada poro, em cada lembrança, no pilar que levantamos para suster a breve maravilha. A língua e seus sinais evaporam logo depois da elocução – gesto diluído, olhar sem êxtase, copo pelo chão. O corpo permanece amainado e, nu ou vestido, repercute nos olhos com a vital corrente. Esta interpela nosso pensamento, nossos conceitos. O corpo lateja no desassombro. Seu percurso no outro corpo chama para as pequenas luzes banidas no dia circunstancial. A língua, tramada em sons, é ausência de posse. O corpo ancora-se no corpo e sua teia de calor esgueira-se pelos vínculos inseparáveis. Mesmo quando o outro se despede e a energia imperecível ainda ferve naquele que fica. A língua diz. O corpo devora. E o empenho errático do desejo monta sua barraca para a próxima vez. Febril na avidez, ele então entorna a língua, faz dela matéria sua para o arremate em pontas de meadas. As meadas se constituem em câmaras e na estação do primeiro beijo a ser repetido operam o abismo. Como nosso domínio. Como o trajeto trilhado em outra direção – certos de que a jornada oferece um veludo mineral a suprir de grau em grau a ânsia. A língua, com vestes de brilho fosco, tem sua interpretação em que vela as reais travessias. No corpo nada fica impune. Em superfície ou profundez, ele retrata os arranhões, as palavras que devorou, a mentira do outro abraço. O corpo até que teatraliza, se bem que algo assoma primeiro e antecipa as partituras dispensáveis – em nome de uma verdade que só ele, o corpo, consegue ter: a carne.

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A fome da morte

A morte é uma escova. Raspa a pele do corpo com implacável vigor até chegar aos ossos. Ao encontrá-los duros e brancos, se espanta. Queria matéria deglutível à sua gula. Joga os ossos na fogueira, tosta-os por uns minutos, depois chupa sua medula e atira-os no depósito situado às suas costas. Arrota. Deita-se na rede a apoiada na própria foice se vai balançando, os olhos presos nas estrelas. O planejamento do dia seguinte sob as pestanas. E dorme com algumas formigas passeando sobre as vestes um tanto maltratadas.

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Na sintaxe do inefável

Um pouco de morte pinga em cada copo. Que a música de Bach nos proteja. Que ainda haja estradas para qualquer lugar, e tenhamos o direito à extravagância de existir. A corda no pescoço não fomos nós que pedimos. Os espelhos reveladores sequer saíram de nossas mãos. A fratura do espírito é fruto das marteladas daqueles que venderam sua carne por poucas moedas. Ficamos na sintaxe do inefável, enquanto eles percorriam as ruas para aplicar-se em suas escancaradas seduções. A torção do destino vige agora na gota em cada copo. Precisaríamos desvendar a esfinge? Ela é clara e luminosa e sopra em nossa chaga o sal dos ventos e das estátuas impermeáveis. Recebemos o horto seco, sem lugar onde esconder a couraça arrebentada pelos fatos. É lacônico pensar sobre isto. Na temporalidade do jogo, perdemos a capacidade de replicar, o fogo rastejante de um protesto bem composto. Tudo é reto no fungo das excreções. Estamos escaldados, e a gota de morte no copo é uma efervescência a mais. Há pouco soubemos que nossa pele, estendida em varais, se vende a preço de custo nos mercados populares. É outro lance: compramos alguns quilos e nos reinventamos.

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Traços de um ciclo

No começo, era uma rosa vermelha aberta em pétalas flutuantes. Com o tempo, tornou-se rosa amarela, repleta de pus. Sem magma interior, cristalizou-se em pungente corte. Aos poucos, superada a tormenta, foi outra vez tornando-se rubra, até chamar o veludo para seu interior. E ali deixou-se acariciar. Com o vigor renovado, a vitalidade reergueu o caule, e a linfa ardente passou a explodir em cada pétala, capturando os cristais do ar, as gotas absorvendo em seu íntimo os cálidos meneios – um encontro.

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Abraços mudos do invisível

A rosa é esta: carnívora, estéril, metal a triturar o ar e dele extrair o veneno para as pétalas. O ar é este: cápsula de som escondido para proteger a rosa em sua voracidade – a cicuta escorrendo pelos ramos e depois desdobram-se no chão em ondas de rebentos purulentos. O veneno é este: sangue de mariposas sugadas num descuido noturno, quando tresandavam pela névoa em busca de novo acasalamento para comemorar o mormaço. A noite é assim: guerra de elementos embriagados pelo delírio. E quando acordamos, vemos apenas os estilhaços sobre a calçada, escondidos no jardim, e pensamos apenas numa vidraça quebrada.

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A transparência dos meus crimes

No embalo de tua cor morena, minha razão comete série de crimes sem fim. E à noite me concentro em teu sorriso benigno e penso em tua beleza, se ela é modo de ser anjo, plenitude da alma, pureza das ações. Um órgão ecoa em meus ouvidos. Sufoco-me na ondas da música e não penso em chegar à sacada e gritar toda sorte de impropérios. Meus crimes são bem cometidos, sem vestígios, sem clamor para as grades. Ando e ando em torno de mim mesmo e vejo: nada fiz além de um passo em volta de ti. Flutuas em meu sangue, na borbulha contaminada da excitação, e é transparente ser assim. Apenas um toque é o que desejo, apenas recriar-te. Vou pelas avenidas carregado de livros e te encontro em sintonia com a simplicidade despojada de camisetas amarrotadas. Meus braços respiram a urtiga – vontade de te enlaçar e não dá, não dá, não dá. Volto depois, me ponho de qualquer jeito na cama. Sondo o infinito numa forma de fazer os caminhos, os nossos, se encontrarem. Bebo de canções baratas o romantismo simbólico que gostaria de ajustar às nossas peças. E se nem conheço que material de molda, como posso prever qualquer conjunção?

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