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A ave migrando pelos escolhos

O canto noturno da entranha da terra seca, do pau a pique, do barco afogado em espuma, da face aprisionada na vidraça reta, reta. O canto noturno. A bolota de terra. A tripa forrada. O barco rasgado. O pau desfibrado. A face sem miolos. A faca inebriante rasgando o ar e dando entrada ao som. O som. Os sons. Triturantes, majestosos, com fibromas em suas cordas, enovelado delírio no ouvido preso a entranhas, ao pau, ao barco nada navegante, à face de rugas cascateantes até o peito. O canto noturno. De persuasão manhosa, versão crispada de dedos a escorregar pela parede macerada com os nódulos de cimento. O canto noturno. A ave rasgada em pleno voo, sua entranha a volutear sobre telhados, a terra comida,  solidificada no ânus, o barco longe, inalcançável em termos de viagem, a face em multiplicações de penas espargidas pelos vasos abertos que também querem sangue, pus, miomas, catarro, secreção de linfa verde no toque com o chão de brilho falso. Então eu sento e escrevo. E isto custa.

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Falo da caverna ensandecida da lua

Tento armar na tela o último retalho do rosto entrevisto num vislumbre. E que fique comigo, dentro, feito minhas artérias desde a infância. O horizonte se alarga no sentido daquela face. Por seu meio, o mundo é mais mundo hoje, canção sem ausência, travessia por todas as margens. E me reconheço no transe doméstico de acalentar a luz, refazer o dia metálico, elástico, untado na plasticidade da silhueta móvel, ali, lá, em qualquer lugar onde estou ou não estou. Pudera eu confiar nos astros e nos santos, na intervenção das esquinas, para reaver cada coisa em seu ponto máximo, e o rosto no meio delas. O incenso que se insinua daqueles lábios é música aos meus olhos de expectativa, e sempre assim estarei até que raie o dia em que não seja apenas um retrato na memória. Em miragens de antigas solidões, a face atravessando deserto de flores secas e caules de pedra moída. Escuto o ritmo dos passos e vejo serpentes devorando o vazio do entrefolhas. Miro-me no espelho mais uma vez em busca de retocar não sei o quê. Opresso o peito, viro à direita meu olhar e encontro as árvores nuas de sempre. Desde que séculos não passa o rosto entrevisto por aqui? Arremesso no tráfego do vento um pedido insinuando breve estado de acalmia. Que eu contemple o rosto por horas vastas me bastará. Até armar na tela o primeiro retalho recebido por inteiro entre minhas mãos, alucinadas mãos.

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Inexistência

Relegado a um canto, ele sente o bramir do pânico que chama de caos e não-ser. Ninguém chega ao menos a supor a natureza destes invólucros que, a partir de dentro, o encaçapam na imobilidade e na asfixia.

                        Nele, talvez, esteja repercutindo tudo o que leu, num esforço de erguer-se do chão para justificar, ao espelho, uma grandeza de mínima conquista a contrapelo do turbilhão. Na sombra e no silêncio, tendo ao fundo o mar e seus abismos, ele apalpa o próprio corpo, pois nem este ele tem certeza de continuar consigo. As esferas em torno dos olhos e dos pulmões e, por isso, também da mente, apegam-se à profusão de luz cegante, para jogá-lo com mais dureza e ímpeto contra as paredes.

                        Há torvelinhos de discursos, fragmentos de falas escritas na areia e no barro, tudo repuxando seus olhos para a dimensão da amplitude. Acontece que ele está estreitado pela própria ascendência de uma espécie de maldição: pensar. E, no pensar, pensar-se, aprisionando cada gesto na clarividência da lupa. Esta foi tendo vida a partir de camadas e camadas de matérias lidas. Então lhe fica difícil distinguir no emaranhado o que está sendo visto.

                        Ele sabe: o mundo em torno não é mais dele. As pontes ruíram. Ainda mais: quem transita por aí hoje dispensa as pontes, porque dispõe de outros meios e necessidades. Enquanto isso, ele sabe: aprendeu a usar os próprios pés, a sustentar a cabeça numa linha além da demarcação improvisada ali na frente. A fúria dos que ele encontra não é que seja bárbara. É vazia e, assim, que impulsão pode lhe fornecer em termos de caminho e andanças?

                        Tem consciência de que se manteve distante. É que a matéria do mundo, o barro dos dias apresentam-lhe constituições inócuas, uma vez que nada diz nada à voracidade com que, um dia, ele teceu seu ficar-de-pé, crendo num ajuste de contas provável com o próprio nada de onde ele provinha e onde, assim mesmo, ele acreditava encontrar ordenações que pudessem trazer ao seu ser o que até então se conhecia como a verdade do ser, sua substância, essas coisas, cartelas de todo ignoradas por quem hoje se põe a caminho.

                        E o que ele vê, com ou sem lupa?

                        O porte auferido ao longo do que entendia como substância de experiências, além de deslocado, é traduzido como desvantagem de criatura primária, sem a nutrição segundo fórmulas entronizadas por tudo aquilo que luze no mundo de negociatas rápidas. Noutras palavras: ninguém repara nele. Constituiu-se como um zero para o redemoinho engrenado no meio do mundo.

                        Então, com um sorriso quase invisível, diante do espelho, ele reconhece seu anonimato. Não por que seu ser e sua vida sejam refratários aos nomes de hoje. Não, ele simplesmente não existe,

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Partitura de trinados

De noite os pássaros se recolhem em ninhos escondidos. E de repente a cidade perde parte de si nos cantos silenciados. O vácuo no ar é promessa de outras asas, chilreios pronunciados com bicos bebendo o é ter. No alvorecer estão de volta, vitalícios, pois se sucedem em gerações não registradas. A colcha de retalhos da geografia urbana se completa. Sobre o movimento e o tumulto e o vai-e-vem, a campânula sonante de quem traça teia na atmosfera. Mesmo que na pressa a dispensemos em nome do pequeno lugar – nosso ofício, nosso dever, o labirinto de tarefas chãs e repletas de assinaturas – a  canga, a canga, a canga, e nós sempre mudos.

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A escrita não é apenas o que está no papel

Um ponto se dissolve a poucos passos daqui. Presença? Sombra? Silhueta? Ramo de uma lembrança rápida demais para captar. As teclas do ar insistem em martelar o que mal vemos. E a sintaxe desaparecida entra pelos olhos, até fermentar seus poros no pulmão de fibras rijas. O instante talvez seja tudo o que passa. O que não se detém em marcas. Vamos atrás de um objeto, e ele se esboroou em pétalas intocáveis. Morremos de parto prematuro a cada hora, insistindo em bracejar em meio à carne. Crescemos um pouco a respirar o ar não nosso. A distendida paisagem se enovela no paradoxo do ausente e restamos em situação morta, com as guelras precisando de oxigênio. No recente silêncio das bolhas à superfície, contemplamos caras e perfis refratados em mil tons. Neste momento, evitamos o falso sinal de uma presença. Com braçadas incisivas, voltamos à margem e tudo outra vez se nos devolve em escuridão. Despistamos os milagres fáceis da linguagem e queremos fundada uma comunidade de intercâmbio. E só nos cabe reconhecer: por uma fresta, as palavras fugiram e foram petrificadas nas roldanas a levar para longe os significados. Nossa fábrica de sentido é a escrita do esquecimento e assim nos mantemos a boiar num óleo espesso, transposto a custo e transformador de restolhos em especiarias para os turistas de Veneza, prisioneiros do monóculo de suas câmeras.

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As palavras querem pouco

As palavras travam luta lenta para subir por suas pernas e urbanizar seu rosto de menino do interior. Ali há marcas de cercas, rebanhos tresmalhados, juncos inclinando-se ao longo da pele elétrica dos lagos. As palavras querem pouco: tão somente iluminar as ínfimas nuances em que ele guarda alguma coisa ignorada. Não doerá nada, isto é promessa. A dor é ilusão de ótica ou de opção. As palavras rastejam da página, sílaba a sílaba, e querem recortar-se no umbral arredio dele para levar alguma coisa – digamos, a boa nova – e basta ele se abrir para o não-mistério do que dizem. Haverá outra performance, pixel de rosto em close na delimitação da luz. Dispensado está o medo. Como o Carlos de “A espinha do diabo”, ele haverá de escapar no final, mesmo que a estrada até o povoado esteja deserta e os amigos sejam feridos. Os fantasmas ficarão resguardados no mesmo casarão semidestruído. Alguém esperará na praça com garrafa de água fresca nas mãos e outras palavras – o sabor do brandy. Estas para enredarem-se nos braços do garoto com cara de quem veio da vila, dos matos, para ele enfim adquirir forças de manter-se em pé, aberto à pomba da paz. E deverá ouvir o que lhe será dito: as palavras serpenteiam para o bem. São vitória antecipada e vão além da bomba caída no pátio, sem que seja necessário entregar ninguém à vingança do fantasma.

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Nos músculos da lembrança

A manhã apareceu num dilúvio de névoas. Navios tresloucados, zonzos de noite insone, despregavam-se com preguiça dos galhos das árvores. Quebrei meus olhos na vidraça, tentando reinventar os pássaros. Tanta indigência na manhã me levou de volta aos baús. Não encontrei fotos, nem preciosos guardados de ontem na memória. Sabia com ânsia nos membros que a todo custo seria necessário dar outra forma ao dia.

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Outra vez, os navios

Os navios se amarram em minhas mãos. Não querem ir para a ilha dos abandonos. Sabem que lá inexiste salvação. Apenas fantasmas fugidios de baús, estrias de rostos cortados por lágrimas de carnaval sem dono. Ali tudo é passado, monturo, entulho, aluvião. Resistem a partir  desde cedo, se congelam no adunco de suas proas e até a noite vir permanecem na atitude de negação. Nada posso fazer, nada ao meu alcance, além de lhes dar umas frases, umas gotas de palavras ingênuas que mal justificam sua decisão. E eles me olham, clamando por algo maior, muito além do meu poder.

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Cães e algas


  Vou me divertir muito se os cães fugirem do vidro em que estão aprisionados e, correndo pelo jardim, ultrapassarem águas e muros. Haverá um momento em que chegarão às pessoas e às algas que elas cultivam em outros vidros. Não há como evitar o choque. Presas e plantas tendem por natureza a rejeitar a simbiose. Aquele velho roto há séculos enterrado diante do vídeo, forçosamente terá de relancear os olhos e encontrar outra luz. Nesta, diversos perfis e movimentos. Dilatados assim de repente o espaço, oestômago e o cérebro do velho, no empastelamento do reality show, ficarão comprimidos, pasta deformada entre o fio das presas e o emplastro algo balofo de algas que até há pouco pairavam na luz azul da matéria. Os cães rompedores de paredes e biombos rasgam cortinas e sofás. As algas gritam sobre silêncio de veias ondulantes. E, em meio a membros confundidos, o velho terá de deixar o pufe, abandonar as chinelas, tirar dos olhos a remela da mediocridade que o deixou pregado por semanas naquelas disputas macaqueadas por homens e mulheres anabolizados e juncados pelo sebo de silicone. Cada seio, cada nádega, cada cacho viril perderá a aura de autistas comandados pelo rei do espólio da nação. Na confusa e escamosa casa de seus algozes, o velho ficará pirado ao constatar que cães e algas destripam-se sem solenidade. Mergulhado em sua piscina de pó e graveto, granulado como a luz que o enfeitiçou, o velho será uma estátua de gases flutuantes. Volatizado, porque sob bombeamento de nada via músculos reluzentes, verá as unhas arroxeadas ao tentar salvar seu reino circunscrito pela bastardia vulgar de um big brother que o currou das têmporas aos intestinos, nem as orelhas escapando. Vou me divertir muito, eu, um ser inglório, que oscila entre o nada e o vago. Soltarei os cães, cuidarei das algas, até que a guerra se torne inevitável e o velho se veja obrigado a levantar sua honorável bunda daquele malemolente acento e perceba-se na contingência de um teatro de pequenos absurdos, muito mais lógico, porém, que o circo místico a que bovinamente se submeteu, domesticando, inclusive, a coluna na lama fria destes gorgolejos que a telinha cospe em sua cara, em nome de marcas que pagam caro para ele nem sentir que cu e bunda foram borrados numa ferida só. Do jeito que é, o velho não vive na posição de dono de sua dor, nem a percebe. Ela não está na caixa fosforescente. Ela não consta na estatística do lucro lupanar. Ela é alvo apenas da lúdica distração que lhe jogam feito pipoca aos macacos, pipocas ejetadas pelos saquinhos RM.

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Contra o vidro da noite

Saem as barcas. A música no rastro da espuma. Estou pensando no vazio – eu sou o vazio. Luz indistinta na enseada coroa o contorno das montanhas e da ilha e, ao mesmo tempo, meu corpo reduzido à cinza de mim mesmo. Estou sem mapa na bruma. Um peixe cintila na brecha da água, depois desaparece na profundidade das ondas. E de mim? Faço o quê? Como estender os braços até o vento noturno e de cima, daqui da sacada, pincelar de brilhos vagos o ar de admiro? O ancoradouro parece mover-se. Tem o estranho tato da água-viva contra o vidro. Meu rosto adere ao vidro da noite, como fez a personagem de Heloísa Seixas. Filamentos de algas estão presos nos pilares. Ali, também, um ninho. Pode ser víbora enroscada sobre si mesma. Meus pulmões arfam com a atmosfera fria, inesperada nesta passagem de contemplação. A dor é quase sempre um eterno limite. O caos de estar no ser que vê a contemplação nos reflexos de negro cetim. Os olhos úmidos vibram como fogo e rejeitam a espera como módulo ou espectro de sintonia. Ninguém na paisagem. O contorno da montanha é o perfil de meu próprio corpo. Sou duplo e míope. Além disso, contenho todos os travamentos do mundo. As pedras não me falam. Suo crateras de espaço marítimo. Não contenho o corte que leva tudo de mim, até ali, naquele centro onde não estou, ali, onde o azul vai-se fazendo verde para tingir os barcos. Imagino quantas criaturas que não conheço, ali, sobem e descem, acendem e apagam suas barbatanas de asas de borboleta, sem ter noção alguma de minha existência aqui, enterrado em goles de bebida difícil de tragar. Aqui é o mundo, ali há um mundo. Que desnudamento de convites por toda parte! Em cada meandro desta serra, nos recantos das encostas visitadas pelo mar, entre as pedras rendadas de musgo, na areia a estender-se em degradações do cinza ao marrom, cada elo faz a corrente não se ligar ao elo em mim. Fico na sacada medindo a extensão da vida num circuito que nem pude imaginar. A vida é muito mais que um apartamento forrado de livros, que o desaguadouro de tantos textos, que o feitiço de um pensamento retalhando chispas contra o ferro frio. Nestas casas, nestas ruas confortáveis, neste silêncio de luzes que falam sussurrado, nestes bosques para proteger a privacidade, que vida é essa, que vida é esta a me escapar e, mesmo assim, insistindo em mostrar-se só para provar que fui um boi preso ao pasto, roendo grama, roendo toco, roendo arame.

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