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Gato na vidraça

O gato selvagem arranha a vidraça. Seus olhos de ametista baça lembram o pôr-do-sol cor de ventos na areia. A hora é um poço e pode tragá-lo. O gato arranha a vidraça com a energia de um beduíno no deserto. A hora é um campo vazio e rejeita quem lhe anda por perto. O gato, de repente, extático. Viu sua imagem no vidro e lembra de um inimigo errático. Ataca. Os quadriculados transparentes se partem, abafados pela grama do jardim. O gato lambe a pata, intrigado com a ausência do adversário, na expressão de quem nem ata ou desata seja o ato seja o fato.

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Para Cássia Eller

Quem é você, que de dentro da timidez, canta rascante – faca lâmina guilhotina da madrugada ímpia farpa de fogo na quina do olho? Quem é você, que faz um filho e ter um filho vale a canção de aço entre metralhadoras de edifícios sem ninguém? Ali no beco nascia uma flor de vidro corrugado que você revestiu com o toque agressivo suado metabolizante andróide da voz que não perdoa meio tom. Quem é você, que é mulher e se afoga em mulheres, esculpindo gemidos em toadas de luar de brasa? Você alarga a noção de gênero e desdobra o feminino até as raias que as convenções não atingem. Quem é você, que resolveu morrer nos festejos de fim-de-ano, fim de caminho, sem anúncio prévio, sem pauta de última música e se contorce em overdose de harmonias tresnoitadas para confundir os que tinham já prontas as manchetes que só importam aos que pastam a grama seca do todo-dia? Você que traz nuvem e pedra, depois faz o peito gemer e o peito é ninho sem ave de arribação, ou canto linear, ou pauta de fácil leitura? Mas, cada música não indicava à sua maneira a direção o sentido a profundidade o outro lado do lado de cá? E de overdose não foi sua vida em cada entrega no palco, onde você se transfigura não em deusa da rastejante adoração, mas em humana figura de relevo só para mostrar que nossas platitudes são rasas demais? Menina do sem-jeito tirada da jaula para ser jogada numa maior e mais fechada. Que história é essa de droga e álcool e químicas redondas ou ovaladas? Lhe espetavam a cada dia uma agenda que exauria sua doce identidade multipartida no périplo contraditório de uma casa a três. Que falem as manchetes, que urrem os laudos, que esbraveje o pai sem norte. Nenhum chegará nem perto da sombra a lhe flechar em cifras e murmurar na segurança movente de um tom cercando feito casca uma palavra. Ninguém tocará seu secreto centro onde você cultivava o que sabia ver. Cada mariposa embriagada ao seu redor não conhece as barras de acrobacias em que você se virava pelo avesso para não se mostrar mesmo quando as câmeras tinham potência de companheira. E assim vão acumular histórias e elas nem de raspão refletem os abismos e vales e dunas em que dançava você sob a lanterna dos afogados. Quem é você, que ousou pular a raia e riscou no quadro um esquema que poucos mastigam e se encheu de lua e vênus e sol pelas picadas de mato? Depois, subiu ao último cume como loba faminta para então descer ao acalanto de uma raiz que a ninguém era dado conhecer, nem tua companheira, nem teu filho, nem os que armazenavam cifras ao teu redor teriam olhos acesos para este escuro devagar deslizando sob cada verso martelado em nossos ouvidos.O centro cósmico de suas nervuras estava disfarçado atrás de um fruto amplo e era ácido como é ácida a manhã, quando precisamos acordar e deixar a praia e encarar a serra e nos arrebentar na cidade multiplicada em vazios de horários rotos. As ondas, o sal morno, o adunco do ar que vem das ilhas e dos sombreiros, o senso de dança dos barcos, tudo vai murchando e temos de ir, ainda vestidos como se fôssemos ficar. Assim, você, na dilatação após cada espetáculo. E quem é você que se afogou livre de sereias ou marinheiros ou sinalizadores? Lembre-se do que Kafka deixou inscrito em algum lugar: agora as sereias têm uma arma ainda mais assustadora que o canto – o silêncio. Temos seu silêncio e nele resvalam as músicas insistentes. Elas devolvem o silêncio ao interior dos ovos e dos úteros e dos olhos empapuçados de quem só vê os outdoors. Você, que ressuscitou Cazuza por alguns instantes dentro de nossa eternidade fingida de tempo que passa, e foi seguindo depois a cinza de um retrato feito a facão, como é facão sua voz de ave atravessadora de desertos e cannyons que alguns percebem como pontes e só você encarava como a falta elevada ao vazio na carência do nada. Todos nós, quando vamos de um precipício a outro, bamboleando sobre a corda não bem retesada, levamos em mãos aquela barra para o equilíbrio figurar como possibilidade. Você ia de um fosso a outro sem barra nenhuma, de peito aberto para os ventos que vinham carregados de sal e asas quebradas e faíscas de luzes e restos de noites mal dormidas. Quem é você, que reinventa o silêncio em nota raivosa e deixa ao pé da página o espaço em branco para alguma anotação? Você não imagina o que o terno mafioso dos babacas vai dizer em suas revistas moldadas para tudo ser como sempre foi. Não quiseram ver o que você vinha mudando canção após canção, suor dentro de suor, voz enrolando-se em microfones de tecnologia avançada, penetrando amplificadores que deixavam suas entranhas no palco e na bolacha cibernética de um cedê. Você nem pode contar quantos estarão de plantão para sujeitar sua história em capítulos que nunca lhe foram meio de ser e fazer o que você era e fazia na situação de mulher artista. Quem é você, dado que o menestrel, a princesa, o dragão e a fada habitavam a mesma carne? Da mesma forma que Renato Russo, agora também há um menino no meio do mundo e meio mundo na cara do menino. A voz que sobreviveu e ouvimos em carros que não vão a lugar nenhum. A voz camuflada a trilhar nossas telas com uma gota de vinagre no depois do champagne podre deste ano torto, forma enferrujada que contamina o bolo, as frutas secas, as folhas do calendário luzindo ali e ali para ser cumprido. A voz frisante. Um talho no abismo. Tatuagem no vidro de névoa. A estrela de latão saltitando no fundo do copo porque, no fim, todos engolimos a sopa de restos que a morte nos permite sorver com garras afiadas e enterradas no peito do corvo. Somos erguidos a um metro do chão e vamos cantando, hirtos, na forma de pensar que isso é voo. O céu lá fora está sendo espicaçado de fogos – é final de ano, gritam os embriagados com a única alegria de que são capazes nesta época pré-programada para isso mesmo: extravasar o nada de que são tecidas suas vidas enfeixadas por cápsulas de vidro fumê e escritórios de telas autofalantes. Assim, certamente, farão com sua vida, tentando encontrar em seus guardados o que você nunca escondeu. Você nos dá a cólera de alguém que era como nós e justo por isso se esfarinhou nas escamosas lantejoulas que mal cobrem a fragilidade de espuma com alguma forma do que somos. Quem é você, que ousou ousar e não nos tirou do barro empoeirado em que continuamos fuçando como se fôssemos animais raros. Não passamos de ralos paspalhões do próprio engano de olhar para o chão, quando o ponto-de-fuga é outro – aquele que oscila ali, onde você não está agora. Mas está: em tom cinza, sentada no ângulo de duas paredes, um tanto cabisbaixa, quase recuperando, à sua maneira, o pensador de Rodin e, do outro lado, no mesmo encontro das paredes, um par de tênis abandonado. Daí brotou sua malandragem, sua cadência do samba, sua música urbana, sua pétala que há de perturbar qualquer jardim neste planeta. Está assim: outra vez o cinza comanda a cena. Você de camisetão listrado, fumando, a vasta cabeleira com um toque easy-rider, a mão esquerda no bolso – talvez escondesse aí a granada – e pintava dessa conjugação o marginal, sonhei que viajava com você, bobagem, hear my train a coming, porque é isso mesmo, você trouxe para o lado de cá o Jimi Hendrix que tentaram nos sequestrar. Você pulsa como um pano menstruado. Seu rosto de ossatura bem demarcada ocupa a tela inteira, a cidade inteira. Não dá mais para escapar do que você veio dizer. Da história de esmagamento e adestramento e fardamento que a mulher brasileira foi obrigada a viver em nome do Estado, da Igreja, da Colônia, da Medicina, você saltou mil séculos para dizer outra forma do dizer da mulher. E disse tão bem que nem precisou de muito tempo para isso. As mulheres deste nosso país maltrapilho que estão enfrentando uma história cimentada no pomo-de-adão como se o masculino fosse medida única, logo estarão olhando para você e encontrando em sua performance o libertário escracho de quem não aceitou a canga. Você está aí, sim, só não vê os que medem a vida pelo acetinado desviante das telenovelas, do capricho em caras de veja. Seu grito voa pelo espaço até estatelar-se em nossos estômagos. E devagar vamos mastigando sua matéria e com ela nos nutrimos: não amarga marginal/defende teu pão/no pau/repousa tua fantasia/no mal/ama teu destino/como tal/tira desse sangue/todo sal. Taí o sal para de agora em diante nossa sopa deixar de ser essa papa de isopor.

Reviera – litoral paranaense – 31.12.01

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Escopeta

Não sei o que significa o corredor estreito seguindo até o labirinto. Também me desinteressa o sentido da flor em pluma pelas vagas desertas. Você sabe, o dia se aproxima – o dia de mastigar sílex, de recompor o crânio sobre o pescoço, de descortinar os olhos para a clareza. Você sabe, de nada adianta espernear. Ainda vou espetar sua ignorância ou sua resistência. Quero a escopeta em riste para atingir sua testa, bem na região central. Aí os enigmas estarão revelados e deglutirei um por um, mesmo que não tenham sabor, mesmo que não sejam meus. A antropofagia é um gesto universal, cabível a qualquer miserável. Vamos lá ! A melhor forma orgânica de esvaziar os corredores rumo ao labirinto.

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As palavras da foto

A foto luze sobre a mesa. Não captou apenas um instante. Configurou o magma do perfil que a palavra não alcança, a horizontalidade do sorriso e sua aura num lago aéreo de transluz. Vibra a figura em sua dinâmica forma de movimento gravado para sempre. É fio gritante de navalha, é carnalidade vaporizando pelo retrato da beleza. Ninguém mais é assim, nem será. O instantâneo diz o eterno de um segundo e põe no segundo o inefável  transcorrer dos ponteiros. Roda o mundo, a foto fica. A cada olhar, uma nova investida, novo apanhado, um feixe de memória, a planície dos dias recapturados pelo corpo. O rosto cinzela a face. A face expôs-se para a câmera. A câmera logrou seu êxito ao lograr o tempo. Tintas, tons, nuances, sombras. A soma para em profundidade dizer os múltiplos planos na superfície do papel. Este também é foto? A foto é um ser. Não o representa, é um mundo e faz parte do mundo além de anexo: é mostruário para se guardar tudo o que naquele se perde. A foto marca pontos sem ser necessário relembrá-los. Ela fica aqui e no seu silêncio traz em alto tom o som que foi ontem e intromete-se no agora para devagarinho ser mais.

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Com austera alegria

Vou deixar que esta flor cresça com a areia das névoas e a seda úmida da madrugada. Evitarei maltratá-la com mais pensamentos rastejantes e a cada manhã para ela terei olhares de contentamento como ocorreu com Henry James ao alugar a casa de seus sonhos, onde havia uma ampla sala de luz e ali anteviu todo o trabalho que desenvolveria ao longo do verão. E se a flor murchar, sinal de um desacerto entre nós, farei de sua queda uma ocorrência natural, sem lamentações. Se Henry James perambulou por muitos lugares, me é permitido fazer outras tentativas para lograr o êxito de uma haste firme, verdejante, até as pétalas se abrirem no ar e dele auferir seu sustento para me alimentar com a austera alegria de um conforto muito íntimo, mesmo distante dos olhares palpitando em minha órbita.

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O quadro

Este quadro é um vácuo na sala. E como tal, antecipa alguma coisa. Fora de foco, fora da moldura desdiz cada pincelada e nega a intenção do artista. Nenhuma expectativa se reconhece nele e seu ritmo é a parada de sentidos. Iluminura apagada antes do texto, o quadro desta manhã vacila seus sedimentos e tudo é torto ou direito, só não se vê a besta do contorno que a mão desenhou mil meses atrás. De mistério nada tem, feito um catálogo de outros nadas enfileirados, e rangendo sob a luz se nega em claridade. É a máquina taciturna de um resfolego, a patada em vertical de bicho inexistente. Ele, o quadro, se dá sem ser figura nem abstração, porque sua pele é o estranho mapa de um país sem subterrâneos no qual os acontecimentos se desfazem antes da hora acontecer.

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Paisagem interior

Nada de muita água na manhã entrevada. Os discos arranhados, as velas dando um ar alargado à sala panda. Das cortinas, abafos de gestos. Dos vãos, só a continuidade de andar para lá e para cá, caricatura da existência. Nada de muito trivial além do comum confundido com a máscara, o esgar de eterna postura no mesmo éter que costura músculo a músculo. A face pendente. Os quadros, as esculturas, o kitsch do popular – em cada gesto deste oco o abismo quase sepultado e regurgitado na querência de permanecer insone. A carroça dos sonhos atropela cada paralelepípedo lambido ao suor do sol, à luz do céu raso, chegando ao canto da boca.

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Com as travas nas veias

Tenho susto deste mar de abraços que demora vir. Fico num bem-estar exasperado da fome de ser. Na impetuosa desorientação da carne em minha carne, o silêncio estagnado é canal de murmúrios por baixo do pano, da pele, das pálpebras. Há entre nós a perspectiva relutante de algo engasgado, o não-dito perfilado em minha pastoral tão íntima quanto o abraço que não vem. E me cego no alarme de meus olhos concentrando-se em sombras tépidas, esta loucura romântica, este zeloso tatear de algo travado em nossa veia, verde demais para ser posto entre nossos dedos, nossos abraços – transformar-se no guidão que nos conduziria até o flamante empenho de um ser um no outro.

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A situação de quem ficou à mercê

A paixão é o início de um trânsito. O signo contaminado na corrente sanguínea com cara de rosto conservado em vinagre. Desfaz as esporas dos poros e torna a pele sujeita a febres repentinas sem nada que as repare, dentro do outono invernal em clima de mar encapelado. A paixão talvez jamais seja o começo. E sim um torto fim pelo que acentua de nossa natureza de cal e gosma. A corça, a chama, o violino que viam os antigos amortalham-se numa lata velha, no interior da mordaça da fome dos sentidos. É o lenço branco de repente ensujecido de tanto rolar por portas de hotel com néon apagado e freguesia apagada dentro de carteiras sem vintém. Todos arrotando seus restos de vazio transformados em cachaça. Com paixão não se brinca. Se queima. A ponto dos dedos ficarem impossibilitados de agarrar alguma coisa, um copo, um cigarro, um anel. Até que venha a gangrena devastadora e leve tudo no campo de cada centímetro de pele. A paixão desmente o fato de ser fruto de opção. É uma escorregadela num corredor sem muro de arrimo, sem lâmpada, pisadela em falso na sala onde o tapete tinha dobras, num paralelepípedo liso de tanta boiada. E as vidraças, em decorrência, ficam partidas e murchas. E nulos os vasos. O estômago contraído quer vomitar a cobra enroscada em seu regaço. Nos ossos, nos olhos a tinir a sombra. Nada mais restando se não a seta ainda sem disparar. E o abalo sistemático no esteio que se pensou firme até um minuto atrás.

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E o que vai no passo inconsútil

Ver tudo em volta com os sentidos alertas ou murchos, tanto faz. Reencontrar as estrebarias do destino. E os poços sem mistérios, rasos em suas águas salobras. Não sobrou o que sobrenadava as pequenas ondas com cores um tanto esquivas para dar alento à sofreguidão de ir em frente. E ir em frente era um sol, um solo vespertino de êxtase. Êxtase desde o começo impulsionador da aguada filosofia de esquecer os males, pregar-se num terreno de glória – mesmo temendo o escorregadio, o frio, o pavio. Havia, no ver tudo em volta, um coroamento de processos sem abscessos. E cada argola da corrente tinha seu ímã de injunção primeira à boca do estômago e ao centro nevrálgico do cérebro. Lugares de sinais não mais crepusculares, mesmo nos encontros possíveis só à boca da noite. Tudo pulsava num ritmo que iria dar em qualquer rio sagrado pela travessia dos corpos. E ali banhados, assumiríamos a ciência da outra causa que basta estar na mesa entre nós. E as mensagens recebidas eram ternos acenos de que isso ocorre agora, neste momento de transcurso por encruzilhadas tão repousantes – só que voltadas para outra margem. Tudo, cada gesto mínimo, voltava-se a mais despertar para as remanescentes marcas pulverizarem-se no nada que lhes cabe por direito. A onda visceral de rutilantes quinquilharias esbatendo-se uma contra a outra constituía a fração do dia conduzido para o encontro que de fugaz permitia à imagem se enraizar em comunhão de afetos assemelhados. Afetos oriundos da mesma trama de consecução inconsútil e com ordem de permanecer no distender-se até onde os olhos alcançassem no seu ver em volta. Por puro exercício de vontade, a alma cavalgou o corpo em forma de comando e caiu na suposição: nada.

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