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Passagem

É na passagem que estou, que estamos todos. Dura tarefa, estrangulamento lento. A música ouvida é apenas ilusão da pele. O que há de verdade é o silêncio – granítico, empedrado, silente – o silêncio. Nossas vestes se rasgam no esforço de dar um giro e voltar a outro lugar, onde a permanência nos habita. Como animais em decomposição deixamos muito mais que pedaços de roupas no caminho. As fotografias agora mentem em traços altissonantes. Vergou-se o caniço. Os cabelos rareiam e no espelho esta face não é, nunca foi minha. Temo a última dor, o peito rasgado por ave de rapina. Temo constatar o sangue aguado e o lago em que peixes brilham em sua morte de quietude. Estúpida quietude, mortal, vergonhosa. Não queria passar por este desfiladeiro e lutar contra meu pai, não ser arrastado pelo drama da consciência que emana sob luzes rubras. A palidez das mãos é outra aberração. As unhas amolecem ao tentar agarrar qualquer objeto. Em verdade, coisa alguma oferece consistência. Estamos todos no trem fora dos trilhos e os abismos insondáveis de cada lado. Pulsa o cérebro num espasmo selvagem e ele traz esclarecido o que em nós é vulnerável. Toda veia há de se romper e uma a uma as células serão desmanchadas, grão de areia, de barro, de palha. O último ato está a um palmo de nós e queremos nos iludir com a efervescência da plateia. Nem há teatro. Há silêncio – pétreo, desfigurado, quieto – silêncio. E nossas bocas articulando na secura a derradeira camada do verbo fora do círculo.

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Quase

Alguma coisa cresce para o fundo de mim, ao fundo vai, serpente de plumas negras cobertas de escamas serosas, alguma coisa vai, cresce ao fundo, duplica-se no fundo, penacho de sol lubrificado pelo escuro em luz pontiaguda. Não sou o marinheiro audaz, diz a canção, eu também, eu também vejo o navio rubro e não o nego, traga-o para mim, ao fundo do fundo, ali onde dorme o sono, no ninho da ausência, ausência torta, o taciturno traço, o tufo marinho de mariposas em asas debatendo-se dentro de mim, quase lá, quase junto à superfície da camada de plumas e no fundo revestida de escamas soltas pelo sol, eu quase, eu no fundo, no fundo de mim, metade que cresce e em que cresce o estandarte da onda e do navio, minha serpente enroscada, estirada no breu de minha entranha, em ânsia eu, nada de marinheiro audaz, nem na nota da canção martelante, apenas aquele que espera que a dor cesse e cesse fundo pelo fundo deste século de duração mínima, quando os círculos planetários se rompem na lua da ausência. Havia em mim um caudal de ternura represada para escoar na direção de alguém sem audácia para aproximar-se e ser. A aproximação se deu apenas junto ao pão cotidiano. Foi um quase. Alguma coisa que crescia para o fundo de mim com a série de plumas eriçadas estancou num repente de discurso comum, sem audácia, ficando no quase, e no fundo de mim estanquei o caudal quase aberto, quase todo, e em mim a luz da lua da ausência estampou a luz redonda da volta ao mesmo círculo completado após o quase.

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Recompor um rosto

Quando se evoca um rosto é para seguir a diretriz básica da composição da vida, as tramas rarefeitas de um abismo ácido movido dentro da cabeça por densas nuvens cortadas pelo voo dos deuses. Isto requer esforço e fica indeterminado o próprio habitat da vida que, estreitada, vela pelo rosto e seu sentido horário no contrapé da lembrança. Um rosto invocado nas brenhas da convulsão é um solene assobio de hostes a atacar com espadas em punho. Logo elas retalham o cérebro posto a leilão perante as feras. E permanece na agonia assombrosa da busca de luz capaz de iluminar os traços nunca chegados. O que se mediu em conquista foi um palmo a mais de separação, o fosso, a hipótese de entrega desfeita antes do contato a permanecer mais que sua efemeridade.

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Das folhas

O canto das folhas silencioso desce pela brisa. Ninguém por perto para ouvi-lo. Os corações, nesta hora, se resguardam, sem temor, para o que há de vir. E o que há de vir pode ser sombra ou poeira de luz, relógios enlouquecidos em sua dança e rápidos venenos capazes de cortar a vida pelo cerne. Em meio aos que respiram, talvez alguém anseie pela morte para fugir da campana deserta e mergulhar em definitivo na viagem ao fim. Somente este alguém mostra alguma ansiedade. Ausculta suas veias, reconhece nelas o pulsar de relógios cansados e quer parar os ponteiros, para que a série de tormentos desapareça de seu campo de ação. Percebendo o andar das horas, o cicio das folhas, o pretenso suicida aspira pelo vinagre e pela pílula, pelo corte ou pelo sufocamento, ainda que não descarte a vida se prontificando a dar término a tudo. Em seu jogo de esperar, ele dá à vida mais uma hora e nesta hora senta-se no sofá, diante de um quadro a mostrar cena de pescadores, e concentra-se na rede. A vida é teia. Sempre gostou desta imagem – não haveria centro, e os filamentos se distendem pelo mundo de forma mais e mais aberta e o continuum abriria ao delta inconcluso de oceanos de espectros, realidades virtuais, físicas projetando-se por meio das fendas das sinapses, em perpetuações que são princípio de outra relação – . A rede dos pescadores. Quando ela se romper, tudo será tido como finalizado. Os peixes de prata na encrespada areia baterão suas guelras até o completo silêncio. Aí haverá paz. O azul do fim. A canção em nota de pauta derradeira. E de novo o silêncio e todas as barreiras ultrapassadas.

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A quarta marge

Rejeito a pretensão a coisa nenhuma. Sequer à palavra em teia de prata e latão, com centros de diamantes desgastados pelo uso e sem superfície marinha para refletir o porejar dos sonhos ao longo dos cílios. Meus lados humanos e margens animais foram traídos pelo jogo cujas regras conhecia e desprezei. No centro de todos eles ficou não o pai da terceira margem e sim o filho traído pela quarta, uma vez que ele não tinha a quem dar descendência. Seus trastes guardados em volumes de barro foram levados pelo último dilúvio e nada de bíblico restou para salvar uma página sequer de suas cantigas. Meu olhar vê paredes, instantes de outro tempo insurrecional e pegadas que deixei de lado por imaginar meu corpo maquiado em outra natureza de barro. Raios e flechas cruzam seu espaço tirando chispas das parcas armaduras, até os frutos amadurecerem para cair na lama, à devoração das larvas. As florestas devassadas foram encantadoras, até mostrar seu óleo em veneno, até transformar suas flautas em eco do que acontecia no alto da montanha. E numa tarde de concentração, dei com minha pele queimada e meu estatuto tão arraigado em ruídos de pequenas peças de inutilidade, que compreendi a mecânica dos cartórios de se encherem com pastas de papelão – ali não apenas arquivam o que foi, a vida passando, como, da mesma forma, manipulam o terroso ofício do amanhã, momento do rosto enfiar-se sobre máquinas que não entende. Revi pasta por pasta e compreendi por que vivemos numa sociedade de gadget. Nunca mais abri a voz para confirmar meu traçado. Mesmo por que, se ninguém ainda absorveu a terceira margem, de que modo mumificarão a quarta estes especialistas tortos e mesquinhos a insistir que texto é corpo para autópsia? As cartas girando em tantos desaparecimentos são a doença do meu olhar. Meu olhar. Se vira para cá ou para lá encontra o mundo monolítico com a mensagem do “enterre-se” e, de preferência, vivo. Eu atravessava apenas irrealidades e nada sabia desta letra fechada. Nem queria apoio em autores que antes foram meu roteiro. A mim bastava-me espalhar-me pela praia do mundo, aquela encosta sem fim, na linha do norte e do sul como um tanto faz. Parti para os deuses, quando eles não queriam minha paixão. A fumaça do sacrifício tão somente rastejou pelo solo, embolorando as pedras, sufocando as plantas já não grande coisa. Essas contorções das esquinas vi restituídas a mim, em outro porto ou rosto, o que não mais poderia alcançar com meus braços – braços envoltos em névoa sem fonte, névoa líquida, líquido brotando de meu olho há muitas noites sem conhecer a fuga inebriante do sono. O batimento cardíaco rangeu no peito obscuro e vi a fúria chegando para repassar em secura as velas arriadas. A manhã revelou-me pilhas bem montadas de peixes estragados e pescadores a contemplar aquele azul prateado sobre o qual incidia o sol e com o qual nada, nada teriam a fazer. Abracei o limo e a cinza e com a fome a me percorrer nu, nu fiquei nesta história sem hipótese de retorno. E com uma certeza: a canoa permanece cavando seu caminho na água muscular, cobrindo os insetos da quarta margem. E eu durmo, enfim, no pasto, entre cavalos embriagados de correria

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Retraimento

O silêncio impenetrável, corporal, recusa a transformar-se em palavra. Placa, pedra, tumba sobre o peito. Nuvem de chumbo sem passagem. Fico assustado. Há dias mudo, quero dizer algo e não tenho meios. Nem asa, nem abertura, nem ar. Romper o circo de torpor e a maresia sem desafio com que recurso? Há dias mudo, assim continuarei. A imensa muralha-da-china deslocada para meu universo. Eu dentro dela. Só isso.

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Teu mapa

Eu precisaria de um mapa que rodeasse tuas mãos e não me deixasse perder o ritmo que elas têm. Seguro neste sentido, recolheria o fundo da vida e sua lama revitalizante onde se esconde o segredo dos começos. Nada mudo e com palavras de chama acesa posso ganhar a calmaria do cotidiano e nele rebuscar o panorama de sinônimos para tuas mãos e as minhas nelas. Não haverá o gélido talo sem corola e sim a aprendizagem mágica da profusão de versões, o canto inquieto do azul, a espontânea maestria das águas trazendo ao nosso centro cada barcarola em que o dia é germinado. Inundo-me com tuas mãos, farei a partilha de homem adulto: te dou a lírica, me dás a música. E no encadeamento nossos futuros serão lembrados como este passo de agora, este momento, este pontilhão. Tuas vestes soltas a destoar nas cores acordarão em meus olhos uma aventura de harmonias e com o mapa de tuas mãos ouvirei os murmúrios da realidade, eu os entenderei, até marcar o compasso necessário para a úmida raiz amadurecer sua promessa de jamais ressecar-se. Cubro os projetos no escritório com as tuas mãos, cubro meu corpo, meus olhos, para enxergar melhor cada nicho em que deixei algo de mim. A amplidão do mapa não será arbitrária. Sei que terá nossa medida, nosso novo encanto, a transfusão em pequenas porções de goles verdes a por entre nossos lábios o mesmo pomo doce que ontem fora perdido. Na nascente dos rumos, a nova demanda: teu mapa. No quadrante deste mundo ainda feito de cimento e aço, as nossas vozes em silêncio tangendo a rosa dos ventos para que cada porto se mova para onde devemos ancorar. De polo a polo, iludiremos as sombras, sem tédio, sem fuga, sem cansaço. Chegar a novos platôs é o que me importa com o mapa de tuas mãos, tua figura leve, teu exílio agora interrompido. Os pássaros cadentes reerguem as asas e podemos contar com eles em nossa malha de sentidos transpostos para a verdadeira direção. E o avesso se torna o primeiro pano brilhante para nossa mesa, em que deposito a pedra sólida destes versos de um sábado à tarde em que te penso. Reconheço que teu mapa é transportável para muitas tarefas que ainda não sei. E num conjunto de cores e tons ele me ajudará a conquistar a mina, o feitiço branco, o coração do cavalo indômito. Forjarei o revestimento de cada latitude e longitude e pingo a pingo, gota a gota, no teu mapa reencontro o que sempre me fugira. Nada estará borrado. Não haverá cruel vertigem. Despistaremos as canções de cassandras. No restaurado fulcro do chão batido rumo ao teu peito, observarei tua boca e nela a vivacidade a celebrar o inadiável: estamos a cometer um encontro e é radiante ser acossado para teu círculo. As tuas referências estão no mapa. Eu as vejo. E sinalizo em meu poente o alvorecer. O piso de mosaico segura meus pés para depois soltá-los nas linhas cruzadas do teu mapa. E desta forma, a espinha dorsal do corpo e da fala arderá o verde rubro do contato para nos abastecer do pomo, da letra, da vigilância vidente. O cambaio em mim terá tua unção e farei jus ao teu mapa, pois outra coisa não tenho realizado nestes últimos séculos senão procurá-lo. Eis teu mapa. Eis os víveres. Eis a flutuação. Não me perdi. Não me retalhei. Não atravessei a porteira errada. Sob a luz apreciável de teu mapa, descanso a matula, meus cães, os vales sem fundo. A trajetória derrubará os muros, aqueles derradeiros, os insistentes, os que brotam por iniciativa dos brutos e nada importa o quanto não nos toleram. Que seja palpável a mansidão da vida, conforme diz Fernando Canto. E o que tardará? Ainda não sabemos. A ramagem do teu mapa se distende para os ossos de meus braços e eu a umedeço com minha esperança de jamais voltar ao antes. Quero a grande praça, o mirante, a paina leve aromatizando a cor do dia. Vasculho teu mapa na milimétrica edificação do que pode vir. O inevitável. O selvagem. O insondável. Na aragem dos milênios, faremos fortes nossas cordas para que enfim toques a música que é tua magia primeira e me comoveu no teu primeiro gesto. Teu mapa é a reserva orgânica, a grande floresta, o duto das resinas. Teu mapa. Aqui e agora. E nós sob telhados garimpando a cortesia de que precisamos para mantê-lo vivo. As vozes da noite como serão? Acalantos. A fantasia da completude como será? Inebriante. A carga da tarefa sem farsa que contorno terá? Floração. Com teu mapa, nenhum outro mundo precisarei inventar. A avenida da madrugada enluarando teus cílios repletos de umidade crucial para a caminhada e para a subida. E a flor frágil criando espírito em nome de nossa cercania intricar-se em mescla inseparável. Gastaremos nossos fluidos no segredo de nosso estado e tua leveza brindará cada batuque que ouvirmos, uma vez que estaremos também em paisagens avessas a nós. É rígida nossa coragem, não tenho dúvida. O futuro dispensa ruínas e sanatórios. Cada signo do teu mapa não será desidratado por animal algum. Levarei comigo a singularidade de tua voz ouvida a primeira vez. A primeira vez do encanto, do brilho, da entonação precisa. Cavalgaremos acima do tempo e do espaço, experimentando este maravilhoso pavor que é sentir-se vivo, segundo Heloísa Seixas nos ensinou. E eu que sempre fora tão forçado a resistir, hoje quero estar entregue, porque esta lição eu a absorvi de Noll e nela acredito.

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Ponto de observação

Não regressei. Não avancei. Vi um abandono na esquina. Era como um lago congelado. E nas bordas, endereços desconhecidos. Sem núcleo onde pernoitar, sem misérias maiores do que as que já vi. Eu me sabia despojado de músicas e a tranca no peito vertia o amarelo da febre. Meus membros, um tanto flácidos, necessitavam de cadeira e eu estava preso a um único ponto, o passageiro das grandes horas, o transformador, aquele dono da simples tarefa de tornar um momento o pomo da liberdade. E eu não me movia. Contemplava o vazio em forma de semente, na esperança infantil de nascer dali a intensa luz. E simplesmente tudo continuou na mesma, quer dizer, na névoa densa do princípio.

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Bicho livre no espaço

Perguntaram-me o sentido das manchas nas mãos, da rede nos olhos com som distante de outras vozes. Não sabia o que responder e abaixei a cabeça, crente que me deixariam em paz. Perguntaram-me pela maligna energia dos meus dedos na tentativa de tirar forma do barro, pelo adeus negaceado na série de gestos perdidos nos círculos sem centro. A nada soube responder e levantei minha cabeça, para encarar o incalculável langor dos astros, prontos para refazer nossas marés. Perguntaram-me ainda muitas coisas que não ouvi. Puxei o paletó sobre os ouvidos e corri até o bar mais próximo. A música amarela entrou em mim com a fluidez sinuosa de uma calma sem fim.

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Masmorra enodoada

Havia uma história difusa batendo nas janelas. Era cheia de nós. Repleta de facas que cortavam em carne viva. Não deixava tranquilos os olhos que percorriam a apoteose das maravilhas a desfilar como é comum nos finais de tarde. A história espalhava-se – magma vivo, muro de interditos. Ficava impossível abrir-se ao ar, querer um palmo de espaço, pois ela fechava tudo, mestre do encurralamento e da ceifa e do pescoço no laço. Esforços para bandear-se para outra região de recomeço nem adiantavam. Tudo tinia no seu rubro azucrinar, sua febre de veias grossas. A cabeça precisava sacudir as sombras, livrar-se das volutas girando em torno do mesmo eixo, do castigo inútil de cair contra o peito. E se a beleza se fazia apelo vivo, a história, afogando as janelas, cortava o impulso primeiro para rebater em cinza a véspera da alegria. Nada a suportava. O enodoado de suas cordas prendia os membros por horas na mesma posição, até tudo ficar dormente na palavra muda. Como superar o contorno e espinhento a turvar a visão? Como reagir com um mínimo de dignidade ao flagelo? A beleza se distanciava, se perdia, e a vida canalizava-se para estrias repletas de pó até tudo perder o movimento, o nome, a personalidade.

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