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Marinheiro da terra

Minha única margem é a que sustenta os navios em sua fúria de partir. Ali o balanço das águas é feito do aço do voo  das gaivotas, e eu nunca posso fechar os olhos para o farol não se apagar. Os navios escoiceavam contra o trapiche e eu os retinha pelos dentes, sabedor de que nem todos os tripulantes haviam chegado. Nem o roteiro dos mares está pronto. Numa longínqua casa, a mulher de um século borda o estandarte que estampará as viagens. Por isso, minha obrigação é manter-me na margem, os músculos rígidos, para que os cavalos aquáticos não sejam atraídos pelo espaço aberto do oceano. As ondas nem sempre cooperam comigo. Se ratazanas deixam seu labirinto, elas se acalmam. Aprendi um tipo de assovio modulado pelo vento. Em horas de inquietação, solto-o no ar e os grandes bichos oleosos desfilam seus pelos incrustados de esgoto e as ondas se encolhem e os navios se aquietam em sua ânsia de despregar-se e partir. E eu garanto minha função na única margem de meu serviço e de meu sustento. Por muitos meses fiquei ali, resistindo a alguma coisa já perdida na memória e nas células das águas. Então solto os monstros e eles desandam rumo a ilhas ainda desconhecidas. Eu volto para casa. Tenho as mãos arranhadas e a certeza de haver perd

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Dizeres

O que há para dizer despensa mistério e não requer seriedade. É assunto do mundo dos bares, dos bailes. Está na boca do camelô quanto na do deputado, na mão do insurgente, quanto da negra fraca como palha puxando seu carrinho cai-não-cai de montanhas de papel. O que há para dizer é simples (complexo) feito um grilo ou caracol. Deixa de lado coroas, diademas, diplomas de cidadania e os aveludados corredores dos burocratas. E dizemos com as sílabas todas, e o sabemos desde há muito tempo, mesmo não sabendo, não havendo clareza, nem disposição para agarrar o corpo da forma com garfo e faca – e depois vem bom trago de vinho. O que há para dizer, agora, amanhã, sempre, na caverna, na praia, no ar, nos monturos urbanos destas impossibilidades oferece a todos a mesma compreensão, pois no seu nó não se cruzam vozes polissêmicas, nem há camadas de palimpsesto para desgovernar a mente em direções outras além desta: o que há para se dizer em qualquer ou variado tom é: nada vale nada, e viemos sendo enganados pelo sentido do sentido desde o primeiro vagido.

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Vidro partido

E o êxtase brota das páginas. Poucas páginas lidas entre divagações incontroláveis. Êxtase truncado, sem a fonte cristalina de ontem, sem o maço de propostas se abrir para portas e terraços. E cabeça enevoada luta com suas poucas armas, resiste no centímetro dos palmos e desavenças consigo própria e com o núcleo duro em que se reúnem caroços e fantasmas para decidir o bloqueio. Êxtase de grota, de plantas apodrecendo no porão em que foram esquecidos velhos engradados de mercadorias sem uso e um livro de Shakespeare. As plataformas amplas de um tempo já mastigado (não engolido) em tempo estão encolhidas e dormitam sob feras de pelo eriçado. Difícil dar um passo, porque elas podem despertar à toa e avançar e rasgar as últimas telas resguardadas como herança para o filho afastado. Das poucas páginas lidas, o êxtase quebrado, as costelas sustentando coração e pulmões a funcionar feito engrenagem obsoleta. Êxtase de curto alcance, um reles pigmento na abordagem do cotidiano. Pendurar nele uma fração do custo que é manter-se vivo, atuante como se exige de alguém organizado (e treinado) para produzir. Rever o discurso quinzenal do médico a pinçar larvas e plantas aquáticas do fundo do lodo, do fundo do espelho. Êxtase de poucas páginas, quase nenhuma ideia, o amarelo insistindo em correr pelos dedos. E depois? E depois? Enfileiram-se os dogmas da sombra e obrigam a tese cinza a defender a postura dela diante de uma banca de iletrados.

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Epifania partida

Qualquer iniciação dói. Dói no nervo exposto da expectativa, dói na flor arroxeada cujos canais de nutrição tentam explodir sua pele partida, macia. A iniciação é absorver o abismo, como é convidar-se ao inferno corporal de manter-se outro depois do um. As mãos perdem as luvas da autoridade sonhada e se revestem de outra pele, com inscrições a ordenar subida ou descida. Iniciar-se em ramo, breu ou fontes é abandonar a lisura da primeira natureza. Depois ocorrem as chuvas, os meios transbordantes, ou um ínfimo deserto que começa em origem desconhecida e acaba por tomar todo o dogma parcial dos poros antes abertos ao que viria.

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Julgamento

Em sua frente, o prato. As moscas embicadas ao redor. A circundar o prato, pequenas manchas de cinza dos muitos cigarros sofridos entre lábios que se ressecam mais e mais, num ritmo tal qual o do trem em plena madrugada. O homem se desconhece. Nada de levar em conta as camadas interiores em que se enterrou faz  muito tempo.  Põe os olhos no prato: alface esverdeada, réplica perfeita de um vômito murcho, tomate a luzir no óleo pragmático de qualquer cozinha. Ele tem certeza de que a Terra mudou de rotação: a paisagem na janela modificou-se muito desde ontem. Ou foi construído um muro durante a noite. O gato vem aninhar-se a seus pés. O homem arrepia-se. Qualquer organismo vivo lhe provoca ânsias e julgamentos precipitados. Levanta-se. O cigarro entre os dedos. Tremula na intensidade de uma mariposa que já deixou as asas na chama da vela. Lentamente dirige-se à gaveta da cômoda, onde guarda os escritos da  mocidade. São muitos cadernos e outras tantas pastas. As bordas amareladas por este onipresente anão de botas. Ao acaso, relê qualquer texto. É extremo o pecúlio da paixão, o desarvoramento da mente a explodir em encontros com o nada. Difícil reconhecer-se naquelas linhas. Em que palavras ficou seu rosto? Em que tom a lisura da vontade acertar? Mistura cadernos, cinzas, restos de comida. Pensa que a única colagem de elementos díspares seria um sobreposto a mais nas múltiplas tentativas. O óleo da salada (nos dedos) penetra fundo nos velhos papéis, ou pouco de brasa deixa-os chamuscados. Se endereçasse a uma editora, sob pseudônimo pomposo? Desacredita de teoremas euclidianos. Houve uma vingança em algum momento, quando a corrente partiu-se e ele ficou à deriva. Recosta-se na cadeira e assim mantém afastados os papéis. Que nojo! Que borrões ilícitos! Que natureza travada no vagalhão de tantas noites! Arrasta os chinelos pela cozinha. Coça o peito com certa brutalidade. O momento passou, sabe disso, e nem estava nele. Cavalgou um potro inexistente. E nem pode reclamar de feridas, porque estas foram-se desmanchando aos poucos num leite azedo, arremedo de suor. Na mesa da sala os textos foram espalhados com muitas de suas palavras ilegíveis. Os garranchos, as correções, as notas à margem, cada item é um labirinto de Dostoiévski. Que admirava e hoje deixou de ler. É em si o útero, o esperma e o óvulo ressequidos sobre um tampo de mármore hospitalar. Cuidado, há chance de contaminação. Os vasos na janela largaram o alerta e decaem em suas plantas mal cuidadas. Ele se refugia dentro da crosta. Deseja cristalizar-se. Sabe que este estágio demorará para materializar-se. Ainda assim, se K. tornou-se barata, muito mais acessível é arranjar-se como pedra, caco de vitral, fosco pedaço de uma xícara quebrada ontem e ainda espalhado pelo chão. É o que ele espera. Se inúmeras vezes amassou o papel escrevinhado, arremessando-o ao lixo, hoje ele é o papel amassado, o rabisco, a cesta cheia de dejetos.

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Paredes

Olho as paredes. Procuro adivinhar o que escondem.  Há as orgulhosas, de aço. Há as imponentes, de vidro. Há as simples, de tijolos. Nestas, os regos da chuva criaram a caligrafia tortuosa do tempo que as completa e as desnuda no vento de passagem. Em que medida são ninhos ou arenas é impossível  dizer. Atrás de cada uma, a carnificina ou o abraço, a desorganização do corpo ou o punho férreo a impor a única direção aceitável nesta época de condutas tramadas em salas de estúdios. Algumas vibram, outras estão aquietadas há muito. Se bem focadas, tremem por alguma coisa indecifrável. Em que horas estarão abertas para revelar seu terreno repleto de marcas de pés e mãos? Talvez nunca. Os homens gostam muito mais de se esconder do que revelar suas tramas de sobrevivência. Diante das paredes penso: será que só eu tenho o avesso desdobrado à superfície para intromissões que gostaria de ver distanciadas? As paredes desconfiam de meu olhar e impedem a distração de quem só anda por andar. Há as janelas, claro. Contudo, por que vivem tão cerradas?

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Que viagem é esta?

Hora após hora, nos desdobramos em mil para tornar verde o marrom de nossa empulhação e de nossas máscaras mal enjambradas sobre os olhos. E com os lábios na horizontal do solo reconhecemos: ainda não é hora ou a hora passou enquanto dormíamos agarrados a bonecos de pano. Sobrevivemos a mais um dia na inútil tarefa de pensar uma batalha ganha, esquecendo-nos das armas enferrujadas sob a mesa, a cama, o tapete. Vencemos coisa alguma. E como poderíamos, com estes braços de plástico misturados a composição de pior espécie? Desde cedo estivemos presos ao visgo vítreo que nos prende as pernas e ficamos sem caminhar, sem nos mover deste círculo idiota marchetado com merencórias insígnias, porque pensamos que o brilho delas nos traria grandeza. Esta grandeza: os azulejos da cozinha partidos, vertendo corrosão, as brechas repletas de vermes que disputam nosso alimento. Nada é grandeza, nada traz grandeza, é bom saber. Que gritem os comerciais a glória de viver! E toca a andar em círculo, a ferver na mesma bolha, nós que somos tão palhaços que sequer de maquiagem precisamos para ainda continuar outro minuto na virada do relógio e seus ponteiros estrangeiros. A boçalidade de estar aqui é estratagema sem base. Engalfinhamo-nos em estratégias luzidias apenas para esconder o pau de galinheiro em que há muito estamos empoleirados. A menor parte de nós é um crepúsculo de morte adiada. Ao recebermos a notícia do falecimento de um amigo, abrimos as páginas rotas para confirmar: hoje ele, amanhã nós. A hora é espinho e recende à merda. Os projetos viraram véspera. No abutre que voa, voa nosso último assobio ao subir a escada, antes de encontrar a cozinha numa mixórdia pelo derradeiro assalto. É um pio acreditar em contato salvador. Nascemos para a hemorragia contínua: tudo de nós se esvai à medida que os ossos enlanguescem.

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A respiração dos olhos

Grandes massas de céu prendiam os olhos numa esquina entre luz e sombra. Os olhos, peixes arredios, vagavam pelo azul fosforescente e recusavam a função de barcos, para carregar o corpo até o outro lado. Saltavam e corriam, independentes do peso há séculos acumulados no corpo e em suas gavetas. Estas gavetas eram mortuários de quase tudo o que se passou: perdas alastradas no grão de cada hora, estilhaços do pensamento obsessivo vomitado sem trégua pelos vulcões da mente, restrições de ordem tão entranhada que até a palavra não dá conta dela, rejeições por tudo que antes brilhava como farol do dia. De costas para todos estes alarmes, os olhos mostravam uma segurança inviolável e iam esgueirando-se com graça pelos focos evocativos da carne. Para eles inexistiam estantes abarrotadas a colocar em itálico a vida que talvez pegou o bonde do autoengano. Eles respiravam e sua respiração germinava verdes caules para homenagem ao sol e suas linhas inalcançáveis. Os olhos também palpitavam e sabiam que em sua órbita podia haver reservas de diamantes uma vez à disposição das palavras. O ar do mundo era o ar dos olhos. Os olhos miravam das altas torres para torres ainda mais resplandecentes de cuidados bons com as engrenagens: ir aos poucos recuperando o espaço perdido, o retorno dos pequenos momentos de reclusão e solicitude. E por este expediente, armazenavam o óleo para os interiores desgastados. Os olhos removiam as pedras e as asas cansadas, ressuscitavam os pássaros de outra era e prometiam amplitude ao que estava engasgado no mesmo passo. Isso era bom, grande vitória, afinal, depois de tanto tempo de entulho.

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As roupas

O desamparo das roupas largadas sobre a cadeira e a cama – ramos partidos de uma árvore que não vingará mais. Nas roupas, as dobras guardam cisternas em que pássaros não pousam, nem répteis circundam, por menosprezar a esterilidade da terra nevoenta. Salobra é cada peça, e as marcas dos dedos  nelas são murchas, incapazes de ressurreição e viço. O casual abandono não é casual. Acumulam-se as roupas, porque o corpo já se abandonou de si, na consciência dilacerante de que o tempo não joga mais a favor de sua dinâmica. O corpo e sua dinâmica. O corpo e suas engrenagens sem espírito. A caligrafia agônica da efemeridade deposita em cada fio o fel e o abraço de mortuário. Oscilante ou endurecida cada peça fala, enquanto garante a mudez das encruzilhadas perdidas. Claro que tudo poderia ser mais vaporoso e festivo, contudo, houve obrigação demais, falta demais, efeitos de conflitos que ora são vermes, ora, sondas, e a rapacidade do tempo, ao lado deles, tritura o bálsamo da alegria a evaporar. O quarto impermeável do mundo. Falta caução para uma viagem, mesmo curta, distender-se além dos três metros quadrados. As roupas não são partilhadas e o vulcão extinto revela em sua crosta faces por acaso esculpidas que nada dizem, nada sopram ou murmuram. Foi-se a época do gesto triunfante, do peito farfalhando mil promessas de amplitude. Se bem olhado, em cada canto do quarto há o refrão de um escárnio, a pele soltando-se dos ossos, os dedos feito fagócitos tentando comer o que não há ao derredor. Houve trapaça um dia e outro dia. As muralhas súbitas apareceram, anulando a geometria dos olhos. O que amenizará esta teia de buracos? A purulenta degradação esgueira-se por baixo da porta para logo reinar sobre as roupas e compor o níquel trivial do definhamento. Há em cada tecido lâminas de prontidão para alertar que a próxima curva pode ser a última. O repentino lacre quebrado de um salto no azul não ocorre mais. Acontecem cinzas e suas montanhas, e o noturnal endereço das roupas desnuda o corpo de promessas. Degradante e sem ingresso, o corpo reclina-se até o chinelo e vê as pilhas de livros não lidos Porque não há poeira sobre eles. As roupas embaçam suas cores nos restolhos disformes. As roupas aquietam-se onde são largadas e nem sabem se ganharão as ruas uma vez mais. Talvez sejam cartões de passagem de ônibus sem mais crédito.

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Ordem

Meu sorriso é uma ferida escavada no chão.

Chico Buarque

Aproveite o dia. Lá fora a chuva é mormaço em água. Nada de Marianne Faithfull. Ouça os gansos preparando a orquestra de galhos secos e pedras em ponto de farpas. Fuja do álbum de fotografias. Quem está ali há muito se desvaneceu em copos e reviradas sob o lençol, cuja eletricidade você nunca entendeu. Abra os armários: quanta inutilidade vem sendo acumulada, hem? As roupas mal respiram no seu aperto de pano. E também o que cobriram foi revelado em tripas acolhidas pela pele e esta está rígida, enquanto os ossos aguentam  o mal-estar da modernidade trazida para dentro de casa. Morda a maçã com a consciência de um crime. O sumo leva ao chão desenhos de tintura transparente. Pise neles, depois arraste os chinelos sobre o tapete e perceba como ele geme em sua inquietação. Acumule todas as pastas num único lugar, sem se importar com seu conteúdo. O sol vindo através das vidraças tratará de desbotá-las e você estará livre de outro amontoado: anotações, sínteses, sinopses, textos que um dia seriam sua obra-prima e hoje arquejam sob a poeira, porque o império desta é muito mais eficaz. N sala dos quadros, selecione os preferidos. Embrulhe-os. Remeta-os aos amigos, sem querer resposta. Limpe com cuidado o nariz e analise os hieróglifos espontâneos impressos no lenço, só para dizer que você pode fazer algo de original. Mantenha as portas fechadas e mudo o interfone. No calendário, ainda coalhado de estampas de meses passados, marque com certa aleatoriedade os dias desinteressantes, os dias de travo e imperícia e núpcias com o vaso seco da janela. Se você tiver algum cobertor limpo, deixe-o por aí. Ele dispensa a marca e o cheiro de seu corpo, o engate de seus pensamentos presos a teias com certo centro. Os insetos da casa têm direito a estar onde estão. Por que se arriscar a medir os livros deixados por ler? São tristes no seu silêncio forçado, mesmo que isto independa da sua vontade. Aquela adrenalina que pelas manhãs costumava irmanar seu corpo ao dia está queimada. Claro que você larga a santificação por um pedaço de equilíbrio. E por trás do equilíbrio, as colinas esfarinham-se, as estruturas de madeira cedem ao influxo de fungos e outras tecnologias da natureza. Arranje as canetas no cuidado de um colecionador. Recorde quantos lances de grandeza você sugou das biografias, até chegar a este lago raso, no qual os peixes morrem. Há talvez uma rosa no meio da sala. Dispense-a. Para que você manteria pétalas sobre a mesa, se a própria mesa é marginal no processo da desfiguração. Unhas limpas, barba feita, roupa trocada. Deite-se na calidez da água da banheira e corte os pulsos. O vermelho é tão intenso quanto foi a vida que deixou de ser. Mas olhe, antes de tudo, não esqueça: coloque o computador dentro do forno do fogão. Suicide-o lentamente com o gás volúvel das comidas.

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