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A máquina dentro do homem

Desdobrando-se em mil volteios o homem taciturno tenta arrancar de dentro de si a máquina emperrada. Ele tem certeza, há tempos, de que as engrenagens falharam em muitas de suas interações. Por isso, o peito estufa; os olhos ardem; as mãos perderam a mobilidade. Ignora se o auxílio de alguém poderia livrá-lo do impasse. A máquina perfura em certos pontos a pele, vazando ali um fluido untuoso. O homem domina as ferramentas, utilizando-as de todas as formas conhecidas. E isso ainda é insuficiente para quebrar o emperramento. A máquina dentro do homem resiste a investidas e não permite ser arrancada como se arranca o ovo de um ser vivo, por exemplo. Desvirtuado de seu caminho pelo colossal erro de cálculo, o homem taciturno não dorme, não come, pois passa os dias reclinado sobre o peito, na tentativa de se desfazer das grandes placas de aço soldadas em seus ossos. Sofre os danos da disfuncionalidade. Não é ele nem mais o dentro, nem o fora. E se pergunta se o imenso mal não estaria na inabilidade das mãos. Pensa em cortá-las. Talvez assim o peso perdesse em densidade. E na irresolução, mais se empenha para tirar de si o grande desengonço, mal feitos da carne, capaz de digerir as suas energias, sem que ele possa combater o que o consome.

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Aquilo: a infância

Estamos indo. E o que fazer, se não ir? Ficou para trás o cheiro de terra dos barrancos, onde subíamos para a curta aventura de ver a cidade de outro ângulo. O riacho talvez nem exista mais. Sob a ponte, a sombra dos segredos, a umidade pegajosa grudando nossos pés num caminho que nunca terminaria. E terminou. A goiaba verde quase trincando os dentes e seu complemento: um copo d´água. Depois, a gente se espraiava por outros lugares: o pasto das vacas do vizinho com muita bosta arredondada, o terreno reservado da olaria, em que grandes buracos de terra retirada mostravam que nosso planeta é feito de camadas multicoloridas, umas mais densas, outras menos, a se desmanchar ao toque dos dedos. Parecia não escorrer o tempo em meio às pernas sujas. As roupas no varal com cheiro de tanque, e a gente passando entre elas, parando só um minuto a fim de ter o lençóis batendo em nossa cara, como se fosse máscara instantânea de aspiração e nova forma. Neles estampávamos os traços de nosso suor, e a mãe… precisava lavar cada peça outra vez. E assim estávamos indo, sem saber deste ditame da vida, as armadilhas no canto dos olhos, as mordaças sendo preparadas em oficinas não muito distantes. E quando estacionamos em nossa mesa de trabalho, os cheiros voltam, os contornos ganham outra grandeza, o influxo parece estacionado num ponto impreciso. E vemos: os olhos estilhaçados nos vitrais da primavera, os doces em compota escorrendo degraus para alimentar formigas, as gretas nos pés e na terra se encaixando no sentido de haver trocas de calores e fluidos sem nome ou de química muito evanescente. E é agora o quanto sabemos: estamos indo. Que outra coisa nos compete neste circo de lona rasgada e feras desnutridas? Pela vidraça, lá fora, o sol faz riscas de cores sobre a poeira e pensamos enlouquecer nesta palpitação tão tardia, nestas remadas de barco a seco, neste estorvo roendo a garganta que trama e trava palavras. O sol. Este aqui a nos tocar tem a mesma composição daquele lá, quando estávamos no rio? Apenas sabemos que a pele a recebê-lo não é mais a mesma. A pele está bordada por outras camadas que não são de nossa inventividade. O que era já não é mais, claro. Escuro. Mas, o que era? Que sentido era aquele, num pé no chão a pisar cocô de galinha, numa coxa fisgada pelo espinho da laranjeira, numa minúscula farpa introduzida no canto do olho? Era o ir que não víamos. O ir que hoje comanda do gesto ao pensamento e tanto nos paralisa na falta arrevesada daquele tempo torto que parecia endireitar, consertar, amansar cada ameaça de nódoa. Nódoa na ponta dos dedos, nas canelas finas, nos cabelos polaquinhos e bem curtos para o bem da economia doméstica.

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Fração pronta para esboroar

Amadurece o tempo das suas mãos. Sem pânico. Sem labareda alta demais. Você sabe da desnecessidade de querer agarrar o mundo com os dez dedos. Pouco do pouco que todos vivemos deixa filamentos além do ato de passar. Alguns grãos apenas nos cantos das unhas. Com eles, quem sabe, uma floresta. E se o desconsolo vem, o manto cinza, abrimos a janela mais um tanto para o lastro do dia abrandar o aperto no peito. Pouco do pouco que tivemos resta em lembrança, em fugaz passagem pelos olhos de cenas cujos nomes esquecemos. Somos o barro, agora é nítido. Somos o ar, agora o respiramos feito cavalos cansados. E sentamos na poltrona e rimos com o lustre aceso, pois ali está um circo de bichos alados navegando ao redor da luz. De tantas agruras ou apertos cósmicos, sabemos que até o conhecimento é uma fração de terra pronta para se desfazer. As festas se foram e em verdade há muito nos desinteressavam. Eu respiro o cosmo, e o cosmo me absorve em minha exalação de ares. No calendário, os números não parecem mais nossos. Tantos foram os caminhos embaralhados que resta hoje sobre a mesa apenas uma carta e nela redesenhamos o naipe. Viramos a cabeça e ali está o baú de guardados e temos certa inépcia em abri-lo, pois o que mais importa está noutro lugar, e ali poucos têm acesso. E o grande orgulho é que nunca fomos ovelhas rumo ao matadouro. Resistimos com o algodão suturado de nossa presença diante de nós mesmos. Quanto tempo temos? Que importa. Restam ainda alguns dias para novas páginas serem retocadas e podemos escolher com modéstia onde colocar o ponto final.

Para Jessé.

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A alma no tapete

A alma disparou contra os vidros da janela. Ricocheteou depois nas cortinas, vindo a estatelar-se no chão. Era composta de uma química poeirenta, com nódulos de era da profundeza. Soando e tinindo na eternidade de suas batidas, a alma arquejava, não querendo entregar-se a nada que tentasse apreendê-la. Sua permanência no tapete danificava-o pelo visgo que ela passou a emitir, e suas correntes de cogumelos floresciam em negativo, porque sói à alma ser um tanto diferente de como a imaginamos. No deserto de sua estruturação entrecortada por marcas de séculos de andanças, a alma inventava cruéis gestos para se manter longe de contatos – ela temia a prisão. No descaso de sua melodia roufenha, ressabiada ela queria pôr em revista toda a sala, mesmo que não tivesse condições para tanto. Gritou bem alto que não voltaria para nenhuma garrafa ou ânfora. E rasteira prosseguiu em seus exames dos móveis. Foi quando encontrou uma gaveta repleta de roupas velhas. Acomodou-se ali e dormiu por toda a noite. Antes, cheirou uma rosa de crepom mais ou menos amassada na lapela de um paletó.

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Os espelhos instáveis

Da solidão das páginas lidas tiro o substrato para minhas mãos recuperarem a firmeza. A casa é bamba e retrai-se aos meus movimentos. Pelo chão escorrego até o grande poço e ali se estabelece uma luta que nem posso mais afirmar se é minha. As imagens vêm corroídas por associações nem tanto casuais e, de tão arraigadas, não explicam meu sangue em espiral. E o tornam ralo e transparente, expondo o teorema, cujos índices arfam pelas minhas pupilas. A amarga revolta desta posse contra o estado de coisas produz os espelhos instáveis em que o rosto da corrosão fala de dimensões que despossuo. E sob as pálpebras, os reflexos do mundo longe trazem ondas com multiplicidade aleatória e revolvem o que outrora foi minha luciferina afirmação de mim mesmo para então despontar, entre vasilhames, retratos, lápis o que não quero ver: agonizo.

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O coágulo azul

Na mesma sala o silêncio perdurava não sei desde quando. Talvez desde a respiração dos barcos. As janelas eram asas fechadas para proteger a sombra em seu coágulo. Alguma inquietude era entrevista entre as paredes. O forro do chão rasgava-se em mil fendas e por ali era vertido o último ar. Súbito, o silêncio mesclou-se com a sombra e as bordas do coágulo ampliaram-se pelos poucos móveis ou marcas de pé. O tempo não registrava passagem. O tempo era o aldeão roto de roupas e pele parado no limiar da porta, onde nada havia. E por não ver as camadas e os labirintos da casa, nutria-se do veneno das tábuas e tapetes e jarras. Na mesma sala em que não entrei por medo do que vivia.

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A derrocada

Um passo, um único passo e ele caiu no abismo. E o abismo era verde. Sorvedouro. Túnel de cristal arrancado dos olhos de monstros. Camada sobre camada, ele foi sendo um outro que não ele mesmo e não atinava com a função das asas. Tudo era pleno de vazio, e ele queria ficar num canto, não receber ninguém, não ouvir voz nenhuma. E em suas mãos levava o grande volume com poemas de Drummond. Que deixavam de ser poemas para derrubá-lo na impossibilidade de dar um outro passo, um outro único passo.

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Repressão

Havia um círculo em torno de meu cérebro: ferro, incandescência, lã plasmosa. Eu mal me podia mover. Um único gesto e o mundo desabaria sobre minha cabeça. As corredeiras da mente expeliam lava. Não tinha instrumento para controlar os lobos e outros componentes orgânicos quando eles eram donos/escravos da situação. Tiritava a ponto de meus dedos estalarem. Sorvos em hiatos cada vez menores mastigavam as pílulas da razão. Eu suava feito animal de carga, e a carga era toda interna, e só as chibatadas vinham de fora e construíam a catedral de lama de meu íntimo para quebrar, inutilizar restos de asas. Havia uma siderúrgica enferrujada mas rangente dançando apertado entre as têmporas. Eu não podia controlar coisa alguma. Os borbotões para anular a praia da chegada vinham em caudais violentos, mesmo quando eu já me transformara em fragmento, pedaço de marujo ao léu da baleia. O chão era a brecha viva onde a lava me comia. A mente também esconjurava-se em fissuras, rachaduras, ranhuras e no opaco de seu brilho caolho mascava seus movimentos vazios. Eu precisava verbalizar tais contramarchas, dar-lhes corpo, agarrar-me a elas para as coisas do mundo terem identidade, rosto, traço capturável, mesmo em relâmpago, na vã impressão e imprecisão de continuar inteiro. O surto, o colapso, a adaga ardente estreitavam os outrora vastos salões de andar pensando. Eu estava comprimido sob os cobertores e o sumo gosmento de minhas células gotejava ao redor da cama e cobria o tapete e nele os chinelos boiavam. Não podia dormir, não podia falar, não podia segurar entre os dedos qualquer chave. De certa forma, talvez, fosse eu ali, embora eu perdesse o corpo no espaço vago. Estava triturado sob luz espessa em demasia. Eu continha todos os motivos para as pedras rolarem meus olhos. Os limites, as fronteiras fora da tela e do foco. Só a baleia borbulhava seus filhotes de rabo mole em minha garganta. O eixo do sol furava o alto de meu crânio e depois regurgitava cinza nos pulmões. De certa forma talvez este ser era eu. Era?

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Em direção ao sul

Estendo meus braços ao sul do nada. Toco o nódulo do fruto vermelho. Sem nome, eu e o fruto. Estico meus dedos como se fossem cabo de aço sustentando ponte suspensa. Abrigo o osso e ele se parte, e a carcaça cai. Cai no duro silêncio do enjeitado, sem música de cobertura, sem o alento de um pastor com suas palavras repetitivas. O grande abismo é o sinal para a queda voraz. Nela, tudo se desmancha. Entreabro os lábios e acabo achando que o melhor é calar-me. A morte que acoberta todos os acontecimentos está ali – verde, barata, com pergaminhos sob os braços. Mesmo assim não vou interrogá-la. Não tenho qualquer protocolo sobre a circunscrição dela. Estou num posicionamento apenas: distendo os braços ao sul da poeira e atinjo o pomo de fios, teias, cálculos de engenheiros fabricadores de tocas. Um dia eu poderia ter sido feliz, é tudo o que me ocorre dizer. Deus não quis (é tão fácil tecer mitologias para sobrecarregá-las com nossos acasos). Ele, Deus, estava de costas para as danças astrais do meu zodíaco. Burilava o aço musical da grandeza de outros, mais cordatos, e nunca próximos de mim. Agora, cabe-me esta série de colunas esboroando-se sobre os bois ruminando pedras. Flexiono os braços no pomo ressecado do sul, mesmo sem esperança  de alguma cápsula soltando sumo. A certeza é única: sou refém de ventos oblíquos, de bilhar indefinido. Quando eu brotava, naquele momento Deus atingira o limite além da exaustão, quando tudo se torna fumaça, desenho incorpóreo, e a perspectiva do mundo assume o remoto repasto da morte. Deus ceifou a verde grama e deixou-me a pedra e apontou-me o sul, conciso feito o câncer, e do casual de minhas horas veio a associação a explicar minha alma: ela é um momento ao sul e incompreensível como são os teoremas tecidos à noite. No entretempo, os lírios do campo, aqueles que não tecem etc., na sua conformada condescendência, sem alarde, permitiram que Deus mandasse os anjos mijar em sua corolas. Com a tirania divina, eles perderam seu róseo virginal e tornaram-se pequenos cálices de urticária e afastam até os insetos mais intrusos, nunca levados pela consideração da etiqueta.

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Salmos da folha seca

Quando você sonhar comigo, pense pedra, lama, a impossível inflexão. Reveja os rios subterrâneos na mentira de cada unha. Cante com voz de tronco e sua necessidade desamparada terá ressonância pelas xícaras da cidade, com gosto de chá tomado no outono e no fim do muro. Guarde bem guardados seus lagartos dentro da incapacidade de distanciamento, afinal, suicídio é só um brilho repentino entrevisto em meio a muitas janelas no escuro. As teias da vida são as teias da hora e você pode pensar: se eu atravessar o pino agudo deste minuto, quem sabe chegue ao próximo e ali consiga me deitar, me deleitar, me permitir engolir cerejas feitas com o champanhe de todos os olhares tortos que lhe acompanharam durante a vida. Um sonho, quem sabe, seja a borda final, a única flor invulnerável entre os dedos macerados de pão e vinho. Coisa de louco é virar cão bem na hora de voar. Por que você haveria de cair nesta esparrela? Tente no tédio da malemolência reles tudo que vale a pena: de Vagabond a um tratado taoísta. Depois inverta a ordem. Vá a romances sentimentais e perceba neles a coragem de dizer. Ali não há máscaras de estéticas e estilos e refinamentos para melhor se fingir. De cada página pula a grande lagarta. Ela é verde. Ela é nossa. Ela bordeja nosso corpo. Pela embriaguez da exaltação da hora você fez um salmo e imprimiu-o em mil cópias para distribuir a amigos. Quem o leu? Você não sabe sequer contar o que empilha na mecânica aquosa de cada piscada. Seus cílios dormem levemente arrebitados para o azul do infinito. E serão noutro momento barcos para recapturar aquela luz repentina do último suicídio numa sombra tropical. Quando você sonhar comigo, não descasque com vidro as maçãs guardadas. Não espere mensagens cabalísticas no trincado das portas. As portas são a sepultura ou campo vivo do capim, só isso. O aveludado de Dori Caymmi no insuportável oco da madrugada pode desdobrar o cobertor em dois. Para Nietzsche sobreviver na hora mais sombria da noite é duro para quem está vivo e tem a impertinência do eu para moldar. Vá a Primo Levi e perceba que a hora da libertação não é grande coisa. A destruição já fora realizada noutro carnaval de horrores. Tornar-se si mesmo novamente é que é a favela despencando morro abaixo, feridas pelo umbigo. A multidão de dores voltará e voltará e não apenas isto: cada uma há de ficar pintada de rubro como ancoradouro a cada dedo aproximando-se da faca. Que exaustão é esta, dirão alguns, criticarão outros, uma vez que ainda não me explicaram qualquer diferença entre um campo de concentração e uma cidade, dessas rotuladas como grandes ou amontoadas ou em carnificina constante no cruz-credo das ruas. Primo Levi disse que o que parecia definitivo era exatamente a exaustão. E depois dela aparece risonha e franca a nota fiscal da vida: recomeçar de um ponto em que o eu não há mais. Querida criança, quando sonhar comigo, tome um gole de Jim Morrison: “I bring these few rags/ back home this evening/ & lay them at your feet/ Miserable witness/to a day of tragic/ sadness/ take me to bed/ Get me drunk (lay me out)”. De que adiantou o almirante da marinha, se Jim Morrison tendia a Keats, Kerouac, Rimbaud? Ele nunca achou o eixo da vida em movimento, nem no ferro velho da esquina. Light my fire, me perdoe, não posso deixar de lado este chavão. A insanidade também é poesia. Por isso, ao sonhar comigo outra vez, não esqueça de espada: a batalha nem começou.

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