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Lagarta verde (lay me out)

Quando você sonhar comigo, pense pedra, lama, a impossível inflexão. Reveja os rios subterrâneos na mentira de cada unha. Cante com voz de tronco e sua necessidade desamparada terá ressonância pelas xícaras da cidade, com gosto de chá tomado no outono e no fim do muro. Guarde bem guardados seus lagartos dentro da incapacidade de distanciamento, afinal, suicídio é só um brilho repentino entrevisto em meio a muitas janelas no escuro. As teias da vida são as teias da hora e você pode pensar: se eu atravessar o pino agudo deste minuto, quem sabe chegue ao próximo e ali consiga me deitar, me deleitar, me permitir engolir cerejas feitas com o champanhe de todos os olhares tortos que lhe acompanharam durante a vida. Um sonho, quem sabe, seja a borda final, a única flor invulnerável entre os dedos macerados de pão e vinho. Coisa de louco é virar cão bem na hora de voar. Por que você haveria de cair nesta esparrela? Tente no tédio da malemolência reles tudo que vale a pena: de Vagabond a um tratado taoísta. Depois inverta a ordem. Vá a romances sentimentais e perceba neles a coragem de dizer. Ali não há máscaras de estéticas e estilos e refinamentos para melhor se fingir. De cada página pula a grande lagarta. Ela é verde. Ela é nossa. Ela bordeja nosso corpo. Pela embriaguez da exaltação da hora você fez um salmo e imprimiu-o em mil cópias para distribuir a amigos. Quem o leu? Você não sabe sequer contar o que empilha na mecânica aquosa de cada piscada. Seus cílios dormem levemente arrebitados para o azul do infinito. E serão noutro momento barcos para recapturar aquela luz repentina do último suicídio numa sombra tropical. Quando você sonhar comigo, não descasque com vidro as maçãs guardadas. Não espere mensagens cabalísticas no trincado das portas. As portas são a sepultura ou campo vivo do capim, só isso. O aveludado de Dori Caymmi no insuportável oco da madrugada pode desdobrar o cobertor em dois. Para Nietzsche sobreviver na hora mais sombria da noite é duro para quem está vivo e tem a impertinência do eu para moldar. Vá a Primo Levi e perceba que a hora da libertação não é grande coisa. A destruição já fora realizada noutro carnaval de horrores. Tornar-se si mesmo novamente é que é a favela despencando morro abaixo, feridas pelo umbigo. A multidão de dores voltará e voltará e não apenas isto: cada uma há de ficar pintada de rubro como ancoradouro a cada dedo aproximando-se da faca. Que exaustão é esta, dirão alguns, criticarão outros, uma vez que ainda não me explicaram qualquer diferença entre um campo de concentração e uma cidade, dessas rotuladas como grandes ou amontoadas ou em carnificina constante no cruz-credo das ruas. Primo Levi disse que o que parecia definitivo era exatamente a exaustão. E depois dela aparece risonha e franca a nota fiscal da vida: recomeçar de um ponto em que o eu não há mais. Querida criança, quando sonhar comigo, tome um gole de Jim Morrison: “I bring these few rags/ back home this evening/ & lay them at your feet/ Miserable witness/to a day of tragic/ sadness/ take me to bed/ Get me drunk (lay me out)”. De que adiantou o almirante da marinha, se Jim Morrison tendia a Keats, Kerouac, Rimbaud? Ele nunca achou o eixo da vida em movimento, nem no ferro velho da esquina. Light my fire, me perdoe, não posso deixar de lado este chavão. A insanidade também é poesia. Por isso, ao sonhar comigo outra vez, não esqueça de espada: a batalha nem começou.

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Flutuações pelo desassossego

Prufock tinha tempo para tudo, para a neblina amarela, para a pergunta que voa rumo ao prato. Mas, aqui com meus botões e barbantes, haverá ainda realmente tempo? As imensas e triviais ondas do cotidiano. Os tantos protocolos a assinar depois de uma verdadeira devassidão de espaço em branco para apor nossa legenda barroca. Os ônibus apinhados com gente bolorenta que viaja por horas a fio para o seio seco de um emprego mal pago. Os rapazes na rua, inconscientes da gravidade de sua presença, e tratores triviais contra os monumentos e outros momentos menos solenes. As praças dos shoppings apinhadas de pobres coitados que já abandonaram sua cabeça há muito tempo. Todos eles estão prontos a alegar que poesia é difícil, ainda que assistam a filmes interrompidos de tempos em tempos por jingles barulhentos e ordens para usar aquela margarina, trajar aquele jeans, depois de comprar uma série de armários em que depositarão a última espinha dorsal da vida. Haverá tempo de ao menos a multidão bordejar de leve os palácios em que a corrupção é travestida de democracia e liberdade? E para os pequenos atos corruptos desta mesma multidão cega, sonhando com um cabresto mais apertado, por milho azedo como sobremesa e massagem com toques eróticos a lhes dar a fugidia sensação do que foi o prazer em outras plagas? Como libertar o boi ruminante de cada estômago? Como sacudir estas cabeças entorpecidas e gritar algo mais pontiagudo que refaça as entregas rápidas entre um neurônio e outro? O império dos sentidos foi abafado pelo império do sentido único, rei imperial, rotulado dentro de pequenos vidros que se carrega no bolso do paletó como cartões de visita. Tenho medo de encarar estes rostos nos quais brilham soturnamente olhos iguais. Há uma urgência de ação e sei contar apenas com palavras, giz, saliva. O mundo talvez nunca esteve em seu lugar real. Hoje está misturado às cinzas do que restou de um banquete em que havia poucos convivas. Na cobertura de um hotel de luxo se realiza uma festa de meio milhão de dólares. E os barracos pendurados à beira de esgotos, rios de merda, veios de doenças que sequer têm o garbo dos cavaleiros do apocalipse. O governo faz dinheiro para dar aos banqueiros e alega que não há verba para a infinidade dos raquíticos dos muitos andares de baixo. Claro, nenhuma novidade nisto, nem faço força por um ângulo menos batido. A novidade é quem comanda hoje o abuso, as artimanhas, as pressões. Havia um tempo para longos romances escritos e lidos à sombra da casa, da árvore, da certeza de crescimento (por falar nisto, cadê o imenso romance de Tânia Faillace? Depois do alarde de suas mais de 10 mil páginas, um recorde para os bonecos de palha, o completo e miserável silêncio. Ela deve estar ocupada em transformá-lo em novelas reader´s digest.) Agora, livraria é loja de departamento, onde ficamos, agora, cegos na luxúria dos neons sem matizes, pois todos procuram atingir nossa retina ao mesmo tempo. Aqui dentro, em mim, às vezes sinto uma felicidade febricitante por estar justo aqui, trabalhando com os mesmos instrumentos e objetivos de minha caverna sine die, quando até os desenhos animados atingiram tal complexidade de manufatura que são estampados como o pico do barroco e eu me esbulho neste abrigo meio subterrâneo e sei que tudo está fora do lugar, no entre-lugar, e desaprovo as andanças do supérfluo emaranhado, enquanto em tempo recorde meus insidiosos propósitos de investir no intransitivo se largam ante a zoeira geral que se espalha pelo mundo devorador de todos os tempos. Na borda final, estou convicto, há um grande precipício com monstros que nos esmagam, mesmo que fazer um tratado sociológico sobre isso demandaria tempo que já não há. Lancei meu anzol e pesquei uns restos de alga, um anel de lata, uma camisinha amarronzada pelo conteúdo podre de seu erotismo com certeza realizado às pressas. O sexo não é mais o desamparo da necessidade. É a cor viva da coleção, da estampo no peito, só mais um tipo de tatuagem. Os encontros são dissociáveis e não geram saudade, só o estímulo vigilante para outro encontro na névoa transparente das muitas praças de alimentação das quais o aconchego foi expulso como intruso. A partilha é um ritual intransponível, exige corpo e alma, entidades de que ninguém mais dispõe, traçadas que foram pelo abafadiço de grifes obrigatórias. Cangas, garrotes. Meu declínio é a faiscante comprovação de um tempo que beijava vidraças e janelas com a reemergência de campos complementares na voz do outro. A voz do outro é só acompanhamento para a música em série tamborilando em todos os ouvidos – estes, ventosas ressequidas que se vão quebrando e o que há de padecente nesta atitude, neste mundo, sequer é atingido com a agulha de um dedo mais ágil. Estão sedados os soldados deste tempo de mutilação, indolência, apatia, estocadas dadas só para fazer parte da mísera contabilidade de quem não tem outra consolação na vida a não ser meter-se pelo buraco. Opaco, o tempo deste tempo deste universo não apresenta mutações, está prenhe de perdulários entre as quatro hastes tecnológicas da tela que é libertina de modo abjeto, sem a letra em sangue de Sade; de modo abjeto, destituída de inflexões provocativas para tirar do pódio as falsas e ocas solenidades. Haverá tempo para o bazar diluir-se e a combustão do ser ser de novo o perfume áspero de algo que começa? Estou rangendo no medo muito meu de nada poder fazer para mudar a palidez arisca destas tantas máscaras, também pousadas sobre minha pele. Desintegrado, meu monitor psíquico e mental registra uma chusma de sonâmbulos e não tenho como sondar outra escada para fugir do similar ajuste que a mim mesmo foi imposto. Parto, verbo e nascimento, está armado ali no jardim onde, tenho certeza, alguém enviou por sedex o solo minado para eu me restringir ainda mais em minhas flutuações pelo desassossego, antes de tomar chá com torrada.

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No espelho do mundo

A vida escorre na voluta da fumaça – silêncio, pedra sem cristal, lagoa parada à margem dos fatos. A vida não tem medida – ontem o tamanho inexpressivo da semente secou no umbral da hora. A força havia se extinguido em nada dentro das cápsulas enganosas – ofereciam gelatina como estrutura e os ossos sofreram mutação genética em flores de papel recheado de algodão. A vida é punhalada nada sutil de cinema B. Faz a escadaria parecer solta no espaço e põe fantasma em cada patamar para driblar a sorte da luz. A vida não começa de manhã, só no emplastro da tarde, com a cabeça vulnerável tomada pelo exército químico-intolerante, dominador, a tornar desertores os estímulos ainda rastejantes nos degraus. A vida se esquarteja em quadros obsedantes, colcha de retalhos em que foi perdida a sutura firme das projeções do futuro, neste instante nódoa de agonia, paralisado efeito de estímulo fortificante – nada a frente, pouco atrás, coisa alguma aqui – meio? A vida destoou das safras acalentadas e mistura-se com cacos de garrafa, perdido o néctar, destrambelhado o impulso, nada a frente, pouco atrás, raso aqui. A vida, coordenação confusa de empenhos mal nutridos não vai mais parecer um cerzimento à altura do pano, também roto e roído, rosto sem perfil no espelho destoando dos signos.

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Samba

Tua presença se enreda nas grades do portão. Ali o colar sobre a pele morena rebrilha no tom simples da beleza que é jornada entre o portão e meus braços. A morenidade que esparramas pela casa não tem o mel da ilusão porque se infiltra aqui como balbucio concreto do que mais gosto e aprecio em minhas jornadas. É um pouco áspera a tua voz, contraste com a doçura que vais aprendendo a soltar à medida que nos atrevemos em gestos sem despistes, além das fronteiras garantidas pelo sol. Um pouco da glória do mundo pinga seu ferro gusa na área habitada por nossos instantes ligeiros. Depois, recamamos a hora com as reviradas alucinantes de cada degrau da alegria calcado sobre os abismos. E a trilha trigueira da tua pessoa nasce do ardil de um samba bem tocado por nossos instrumentos que se juntam e se estraçalham na plenitude a dispensar qualquer filosofia e pontes sobre os sofismas. Basta chegares para eu pôr fim à palhaçada dos meus dias. Deponho as máscaras, solto as asas em sua dimensão verdadeira e não preciso tecer os cristais baços que me antepõem ao outro. Meu corpo no teu corpo é uma verdade de cúpula, cessação do rastejamento e da toca. O moreno de tua presença rearranja todas as fórmulas químicas que andei surrupiando só para sobreviver.

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Quando queríamos mais

Dobrado sobre o punhal manso da sexta-feira, trazendo o cansaço da semana em cada trecho da pele a arder, penso na inutilidade do amor, mito que tanto nos ocupa e nos seduz e, durante boa parte da vida é a medula sem osso a orientar nossa loucura. Chegamos num patamar de escombros e medimos as entregas, todas elas, ato por ato. E olhamos o fundo do baú. Nele, algumas estrias demarcam o tanto que foi retirado e não reposto. Na cozinha, a porta dos armários está torta, e o vidro de compota azeda próximo ao local da água. Perguntamos: é isto então? A imensa composição de atos e procuras se extingue nesta gênese atônita do vazio? Por que não nos avisaram antes que chegaríamos ao nada? O amor dado é esta carcaça mesquinha sobre a mesa a lembrar um frango desossado, comido sem pêssego e farofa. Agora, cumpre-nos levar adiante o quê? Sobre este punhal não há reza, nem feitiço. E ainda continuamos ávidos por qualquer coisa remota, roída nas rodas do mito. A saída é o verão, pensamos. E mal entrado o calor, estamos aprontando as malas para lugar nenhum, certos de que não adianta sair daqui. O mar não nos salvará, a onda não devolverá o eixo desfeito na ardência de tantos dias postos entre parênteses.

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O ritmo do ano

O cansaço é um verbo de vento em tom de cinza e barco emborcado. Mas assistido por gaivotas. O corpo não responde com prontidão ao jogo de escanteio. E a música na pele fica estirada num som único, quase parado. Estar cansado é estar voltado para dentro, o mundo desfolhando-se na falsa perspectiva da janela. Algumas alegrias curtidas pela longa ferida do ano pontiagudo e empilhando-se mesmo assim em atos, fatos, bugalhos. Ventou muito por meses seguidos, o que não significa todas as folhas no chão. Tronco vergado é balanço. O cansaço é um substantivo de canal estreito para a entrada de conceitos. E não está impedido o jogo de atirar-se de mãos plenas na âncora do depois das horas. As horas minerais a refazer rota e leme. Assim se vai. Assim se aborda o cansaço na fôrma de um verbo de vento em escultura de areia. A cabeça não tem como segurar a geometria rota dos ventos. Ela pende, ela é o tronco sem viço, ela é o fantasma peculiar para balanços no pomo da hora. A hora regurgita o pensamento e ficam caladas as palavras. No contorno delas, o depósito de cinza e restos de folhas. Assim se vai. Assim se toca no totem mal arranjado do pensar e pensar sob a mesma agulha.

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A longa trajetória é não ser

O horizonte é tecido com panos rasgados pelos dentes do cachorro. Não extravasa o copo. Não ultrapassa a meia-lua das unhas. Descorado e sem frescor neste livro. Tem uma ou outra morada de bruxa. Olhá-lo é atravessar o hades. É entrar no huis-clos, e o inferno está em nós, nossa carne o festeja. Nada suplanta a presença soberana do horizonte em condição de trapo, copo seco, dente trincado. Há um buraco em disfarce na esquina, e o ovo dos vendavais se gesta sob o peso das penas caídas. O horizonte é um varal de roupas estendidas, manchadas. A cachaça curtida na palavra para trançar a palavra com saliva grossa nada dissolve à superfície de encosta gretada dos lábios. É a baleia encalhada na areia verde para tantos pés e prenhe. As redes para devolvê-la ao mar rompem os dedos, as pálpebras queimam. No prato quebrado, criou-se uma crosta de pó e azedo e irá sempre misturar-se à comida, pervertendo seu sabor. Arranja-se um par de patins para ir rápido e direto ao seio da montanha azul. Lá: pedra, abismo, cacos de árvore e cascas de animais triturados por outra espécie predadora. A águia rouba teu filhote e começa a devorá-lo pelo olho. Teu deus não arranja proteção sequer para as fisgadas que tua perna lança ao cérebro, em luz de cera derretida pelos músculos retesados, depois flácidos, depois corrompidos por mais uma das tantas doenças que já catalogas. A morte é outra história. O horizonte é um tijolo irregular na luz da paisagem vista pela janela. Não sobra muito dele. O casario em torno te rouba o ar, te dá azar, custa a passar. Ali no horizonte, algumas tribos, como os mongóis, caçam merda seca de animal para a proteção no inverno por meio do fogo, até que um grande poema nacional fale da falta de seu cheiro. Atrevimento de Bernardo Carvalho que antes garantia não ter sentido fazer pesquisa para escrever ficção. Bebes refrigerante sem gás. O pão é murcho. Levaste as mãos pelas pernas da mulher que estavam ensebadas. E de repente te lembras de outro par de coxas retesadas, límpidas, rijas. E terás por um bom tempo o lodaçal do labirinto, o que faz afundares a cabeça aqui e sufocar no peixe podre do codificado pela rotina. Em breve hás de descobrir: há o mundo deles e o teu, e entre um e outro, este horizonte de farpas num instante mudado para plumagens do grande e álacre pássaro.

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Molusco

Não basta respirar, sorver a cidade pelas narinas. Necessário, urgente é devolver a cor de cada contorno assinalado. Depois, sentar-se e medir a eficácia da obra em grau e tonalidade. Custe o pulmão que custar, isto é ainda mais saudável que se deixar a esmo, molusco tonto da própria casca. Se o impulso assassino inscrever sua caligrafia na ponta áspera dos dedos, espalhá-lo pelos quadros é uma forma de arte, mesmo que não esteja prevista pelas teorias. O corpo não se amansa com a respiração ou o álcool. Ele demanda complemento a superar a solidão. O sangue na tela deixa os olhos extasiados e acorda os animais de escama e rastejantes. Com eles no picadeiro, talvez o espetáculo ganhe alguma veemência.

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Carnes mal florescidas

Por estas paragens sem nome, sem antena, sem centro emissor, meu corpo navega, meu corpo carrega a si mesmo no traço de um eco. Faz borbulhas no ar, inverte a posição de estar à procura do centro. O corpo, meu corpo confabula com suas carnes mal florescidas, nelas deposita o pólen da secreta esperança por um milagre, sabendo que este não virá, não modificará a estrutura do que já está posto e perdura e perfura na candura de um ditador que se compraz em torturar, esmagar, danificar da flor ao caule. Por estas paragens aquietadas na grande planície não penso em nada de especial, contemplo tão somente a outra possibilidade, aquela que jamais estará aqui e não será ato ou fato, eu serei o pato no pagamento da conta extensa, pretensa, intensa. Até não restar outra configuração, lanço mão da paixão burra e urro na treva, mastigo a erva, conduzo ao nervo a pitada de salitre. Do horizonte vem a revoada de abutres soletrando a devoração de minhas carnes. Não vou entregá-las. Encho as mãos com lanças e antes de cair estripo uma meia dúzia. Com os pés esfolados, corro pelas pedras por saber que em algum lugar há caverna refrescante. Hei de me recolher para reunir forças no cheiro forte da maresia. E ao me apagar, quero deixar estampado na areia o evangelho menos mitológico e totalmente voltado para a solidão do corpo.

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Os homens e os quadros

Os quadros recolhem o silêncio da casa e o transformam em cor, tons, formas gradação de pinceladas. Os quadros recolhem-se no silêncio da casa e preservam seu espaço de ilha e sombra. Os quadros bóiam na ilha e navegam a hora em instantes de assombramento. Na casa, o homem fuma. Fuma porque procura, está inquieto com suas figuras acesas, a flor amarela no cérebro, seu pensamento a experimentar novas investidas nas faces corriqueiras do estar ali presente e cercado pelos quadros. O homem pergunta em silêncio às composições qual é o quadrante das horas, da mínima hora de permanecer ali, um esquimó em seu iglu. E tece entre sua mente e as molduras nobres a ponte de fumaça do cigarro. Talvez murmurasse, contudo sua boca está hirta, e ele quer preservar a palavra para outra tarefa, talvez para aquilo que busca ao olhar o derredor. Na ilha, na mansuetude das nuvens paradas na sala, ele trabalha com um lápis. Rabisca, escrevinha, faz bosquejos e nada enforma o que lhe percorre a mente nesta vigência de fato indecifrável que ele não pode verter para a escrita. A palavra sobra ante a falácia consentida dos quadros e a palavra é a única gênese confiável neste ver e, no ver, tomar consciência da âncora que se assenta em seu íntimo. De verdade, há colinas e montanhas no interior do homem, e ele não quer amputá-las. Quer escalar cada encosta, dar de cara com o sol e dizer: cheguei, nada poderá eliminar esta conquista. O dilacerante crispar de seus minutos manda-o para a frente, para a tarefa elementar de se pronunciar depois dos quadros, encarnar o quadro, fórmula de vida aprisionada por outros em momentos que não pode diagnosticar. E se fizesse isto e os quadros desaparecessem? Como se comportar diante de uma parede de repente muda? Põe o lume no centro da moradia. Seu pânico não é perverso nem bondoso. É a implausível sequência de quem está fumando em busca de chave mínima que abra grandiosos cofres, nos quais estão guardados, em ordem, todas as configurações para o dia fazer sentido. Ou, ao menos, para na cena oclusa, abrir um crisântemo ou uma procissão de Érico da Silva que se abrase em incenso e cantorias e não mais o mortifique. Na finitude da sala os quadros estão no lugar de sempre. O homem, não. O que não é nenhuma desordem no mundo. É tão somente a meticulosa tarefa do homem ser ele mesmo.

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