www.pauloventurelli.com.br

Fulgor noturno

No umbigo da noite

um telefonema me resgata

- mas é sempre mesma a vida

que não ata nem desata

Postado em por autor in Poesia 3 comentários

Os preços da vida
são altos não é camarada?
Estás resolvido a não pagá-los
Tudo bem
Correta conduta
Pega o rumo do Vale da Morte
Procura um túmulo em caverna
Talvez haja um terceiro dia
Te levantas envolvido em
panos brancos com as marcas visíveis
Os cinco buracos
Faz um milagre
Te transforma em pão e peixe
Comida para todos
Com a fome saciada
merecerás ser adorado
Na seita nova
serás o Momo Artaud

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

A mancha e o sal do corpo
profundo por persistir nas palavras
do desencanto
A intimidade pública
continua a diáspora para
testemunhar o anoitecer
O anoitecer de árvores
que fazem da chama frágil
a prédica de um cartógrafo
O segundo andar anuncia a derrocada
de novo planeta
O olhar da linguagem
sobre as mãos
confirma a madrugada sem nuances
A mancha sobre o peito
nada aproxima
nem os lábios têm intenção clara
O sal do espaço acossa
certa circunstância do gesto
Renovar a hora noturna
saudando com cautela
o amigo cuja fertilidade
transforma este texto
(Releitura de João Maimona – Angola)

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

O tempo anômalo
fere as vidraças
parte os jarros
Que razão tem ele
para tamanha estupidez?
O tempo é vesgo
e voa torto
Assim não escolhe
quem vergar
Age com os envelopes em branco
passa ordenações
com plasticidade de desalento
a cada figura
a cada matéria que toca
Que é transitório
todos sabemos
Seu tópico de relevância
é o espatifamento
Trunca a palavra no pescoço
o amálgama que fornece
não é seminal
Nó e o que dá
E não desata
mutila e acossa
e incuba a morte
seu fruto predileto

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Escrevo: deus é zero
Nenhum lado do outro lado
Não é monarca
apenas estigma
de infância mal alinhavada
É galeria
de macacos amordaçados
Seu alaúde sem cor
é exasperante engano
a quem espera música
Na carne dele
besouros de opacidade
traçam enigmas
fáceis de resolver
Não é caminho de esboço
é beco de rapazes sem raiz
é gonzo enferrujado
a gemer para perturbar
nosso sono
Deus é nada
e cata pulga no meu cão
e sacia a ânsia deste
de ter dedos entre os cachos
de seu pelo

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Tenho pra mim
que vou contar meu poema
Fazer como faz o pintor
em sua tela:
ouve a tinta o pincel a forma
Cumpro a voz do poema
e talvez me cale
O pintor também emudece
no abismo de treva em quadro
Sei lá se convenço o poema
a me ouvir
Não ser retrato
Nada de dor e que tais
Ele falará de um adeus
(breve) coisa assim pra
quem se foi há algum tempo
Cifro o poema no ritmo
de pé quebrado sem atadura
Nada de rima metro de ginástica
Lhe dou a voz que rouca
é mina pra tudo
que tem fim nesta hora
Para Carlos Dala Stella

Postado em por autor in Poesia 1 comentário

Me pediram para ficar em silêncio
Recusar a lâmina invencível
da palavra
e na penumbra mansa
repousar em silêncio
Em silêncio desfolhar os livros
Foram persuasivos
Me mostraram correntes emudecidas
para eu permanecer emudecido
no assombroso silêncio
Que eu me embaraçasse com o silêncio
e deixasse em desuso a palavra
Que eu não falasse
Que me infligisse o silêncio
para o silêncio morar em mim
Chancelar a porta cerrada
contra as palavras
Cobri-las com o manto de Bispo do Rosário
Sem rajadas de realce
me mantivesse numa
espécie de esclerose
em silêncio de permanência dura
Sem acalentar o discurso
Que adotasse a mudez
o gesto turvo de quem não é
Em silêncio
Me pediram isto
Me pediram que na invernia
desse as costas às palavras
Açoitado por ferrugens
janelas corrugadas
grandes extensões de corredores
Me pediram
Sem alicerce eu ficaria retesado
num silêncio de corredor sombrio
Assim deste jeito mudo e calado
desatinado no silêncio
Que pelas vertentes
do silêncio eu deslizasse
Numa forma de negar-me à palavra
da mais branda à mais eriçada
e do silêncio fizesse meu lívido cocho
pastasse ali e chafurdasse em silêncio
e no insondável nada buscasse
para nada falar
negando a palavra
evitando bloqueando a palavra
Que fugisse da atividade febril
e obsessiva da palavra
Me deram o silêncio para guardar
Nos sulcos de Casais Monteiro
eu nada dissesse
num longo corredor
nem a ocasional palavra
O silêncio sempre
exumasse meu peito no seu ser
alagado pelo silêncio
Que fosse embora da palavra
A coreografia do silêncio
sua medula seu núcleo seu tutano
E todo me encolhesse
usando cachecóis de madeira
e nada soasse vibrasse pulsasse
Eu sem força adesiva com a palavra
Me pediram isto
para eu permanceder no oceano
do silêncio
Para me calar
e fosse cedrino o silêncio
Deletar o visco da palavra
a mucosa da palavra
o ranho da palavra
Se da palavra vivesse
a partir daí com ela
cortaria o vínculo
longe do artifício
da coleante submissão à palavra
na real perspectiva em abismo
Que cessasse a dança do verbal
Que não dissesse nunca mais
sem afinidade com termo nenhum
sem glosa mote dicionário
analogia associação diálogo
Me pediram para ficar em silêncio
Então este texto

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Tudo o que rasteja voa
Nada mergulha sobe desce
nas entranhas do universo
tigres corças odores insetos
árvores copadas árvores mirradas
Cavas grutas cumes encostas
lugares plenos de gente desertos
cidades nervosas ou langorosas
prisioneiros marinheiros cozinheiros
sombra e luz pavor e alegria
as estações do ano e seus meses
a continuidade das ilhas
o pipocar dos arquipélagos
estações de trem ou rodoviárias
ruas ruelas becos esquinas
Os garotos os rapazes os moços
as visões em tom maior
as visões em degradê
as visões dos alucinados todos sãos
Tudo precisa viver e pulsar
A ampla liberdade irmã sutil
da magia de acordo com Al-Shâbbî
Na desmedida com a morte
Aqui os terrores da noite
as amplitudes azuis do dia
aqui na minha mente

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Atordoado
o bicho come o bicho
Não há festim
nem gosto
Há matança
músculos estraçalhados
O sangue negro jorra entre os ossos
Os nervos rompidos se esgrouvinham
As presas rompem
trincham
esfacelam o outro
O outro com as vísceras expostas
ainda respira
Sorvos de arranque
O outro sempre vítima

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

O tiroteio acabou
A cidade está calma escura
Parece que as pessoas a abandonaram
- Ilusão
Estão escondidas e tremem e suam
Pressinto a presença delas
A lua gigantesca
reproduz as ruas mortas
Decalcando-o
assim me rendo a Zaniewski

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário