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Corte

Há infinito espaço

no corte do punhal:

roseiral de carne ferida

longos cais da percepção

e anêmonas

Doidos homens nus

a varrer rua

passam

Há um brinde em mil

entre o corte e a gota

suada do rubro cetim

a morte à espera

verde na epiderme

de toda fera assanhada

Como um traço no papel

o corte brisa a vida

entre o aço e o ácido

e a fala amara rouqueja

atiça a vesperal de ida

se põe a falsear

pra última vez dizer

adeus ou nunca mais

(1995)

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Solário

O sol com cara de feriado

pousa o amarelado no chão

Beira as estantes

ameaça apagar as lombadas

Sua transfusão transparente

lembra um desses lagos

de antigamente

Protegidos tínhamos a felicidade

no respaldo que merecíamos

De que adianta agora

cavoucar matéria de tal ilusão?

Único refúgio

os livros impõem sua presença

e assim alargam adensam

qualquer coisa inextinguível

no indefinido

(1995)

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Sonata da chuva

A chuva envolve a cidade

Manto cinza

Arfas no mesmo ardor

No peito treze cavalos de western

Em dia como hoje

goteiras cantam

sob pegadas úmidas

Detrás do encanto

uma sonata de Schumann

atravessa as paredes

Nem confessas o sabido:

a trepidação de hoje

acolhida pela água

antecipa o fluxo de amanhã:

a presença disfarçada

(1994)

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Do centro da tua raiz

Dorme contigo

o vazio movente do nada

Calma amigo

cada músculo é capaz

de amamentar o mundo

também de matar

a massa vaga que se avizinha

O azul da tarde

logo é cinza

e assim será

Abate a fera com um discurso

Logo a manada te cerca

com ferrões pulsantes

Qualquer dia entrega os pontos

e nem vais ficar com a linha

(1994)

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Circuito

O sono espatifa-se na vidraça

Nenhum som dá prosseguimento

ao sonho

(1993)

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Navegância

Os barcos não se soltam pra navegar

apenas pra trazer nos cascos

nuances do mar

e cristalino de ondas

Revelam a massa da beleza

e põem no gesto do mundo

o exercício de voltar

(1993)

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Para Nil

Esta beleza aérea e tão concreta

Esta catedral silenciosa

no músculo que se estira

Este leve esboço de paraíso

onde o homem é pouco mais que homem

Este mesclado de sargaços e asas

denso como bebida de sol

Este escavatório plano de moléculas

que se juntam e sonham

novo mar de véspera

para acontecer e alongar-se

no murmúrio do século

(1993)

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Pensar o inócuo

O sorriso cego diz bruma

bruma parada

fazendo pântano

com imagens de involução

centro onírico de terrores

Um músculo aberto na face

- magma de ruas

espaço de multiplicação

revigora lembranças

a textura da sede  da falta

O corpo arqueja sob a luz

alheia-se na teia feroz

distende pela planície

único impulso de bater na mesma fome

A ferrugem alicia a juventude

O projeto toma sombra

corrói sua medula

(1993)

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Zen

As palavras fazem o homem

Palavra e homem são necessários

para haver homem

para entender o homem

Homem e palavra são necessários

para haver palavra

para entender a palavra

(1992)

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Contorno

Palimpsesto

gravado no espelho

Ali o rosto em mil camadas

desvenda-se ato por ato

Um gesto cambiante quase revela

o contorno da paisagem singular

Laborioso o tempo

depositou a simetria no espelho

E o rosto nômade

desfolha-se para registrar

sua lavoura de figuras várias

e deixa vulnerável

a matéria da feição:

traço a traço – tudo já foi

(1992)

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