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Pequeno trato da hora

1.

Diante da manhã

o frio espesso dos lábios

coloca no hálito

sílabas aéreas – massa transparente

em movimento de fuga

para que nada dure no ficar

2.

Diante da tarde

o calor espesso dos lábios

coloca no hálito

sílabas aéreas – líquido fervente

em movimento de retomada

para que nada fique no ficar

(1992)

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Angus Wilson

No instante preciso do pleniluna

Simon Carter recosta-se na árvore

à espera do texugo

Contempla no chão o olho da toca:

circunferência irregular

desenho de sal em areia dispersa

Virá a mulher com o cão a tiracolo

interromper vigília tão acurada?

Que será do naturalista amanhã

quando após o desmonte

precisar alimentar-se de gordura

mel silvestre

alho da terra

em torno da tara de um camponês sanguinário?

No instante preciso

um xadrez vegetal

banha-se em luz sobre seu rosto

As folhas de negror verde

refazem as camadas da noite

raio por raio

nuvem por nuvem

vazaluna

A observação do homem de ciência

antecipa a queda dos animais

no cansado ritmo das pálpebras

De repente

em cada olho

anula-se a circunstância

Simon adivinha Marta

mina implodida

à sombra da águia

(1992)

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Paisagens

Rios silenciosos sobre as planícies

deslizam devagar

Carregam em seus espaços

asas de voo lento

Feras de plumas e garras

irmanam-se no mesmo sangue

Botam seus ovos  parem filhotes

com o esgar carnal

dos rios mansos

A Terra delicia-se

com o manjar líquido destes animais

Espraia-se pelas fronteiras deles

sonhando os tempos e as lavouras

A Terra sabe  silenciosamente conhece

o secreto êxtase da simbiose

e no seu torrão úmido

recama a pequena vitória

de permanecer planeta

entre tantas terras

(1992)

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Tarde 15 horas

1.

Às 3 da tarde

o sino é um buraco

soluço metálico

O adejo de andorinhas

risca lugares no espaço

É nada

- breve chumaço

2.

O álcool do azul

A esfera da cidade

O olho do gato

O andar da esfinge

O veludo das sombras

A enguia das esquinas

Nas aspirações da tarde

um sonho inusitado

Apenas 3 horas

3.

A questão não é saber

a origem

nem sequer o fim

é saber se se permanece

entre um nada e outro nada

O olho da tarde

nessas 3 horas

é petúnia invertida

a colher sombras

4.

Repentina vertente de cor

escorre do centro do mundo

aos lábios desta rua

a amarelar o ir  o vir

Nela uma caravana passa

e das marcas dos pés renasce

o obelisco infalível

são 3 horas

nada mais

5.

Ouve-se o silêncio

em guarda pelas paredes

À medida que os pincéis trabalham

e o branco da tela multiplica-se

na voz disforme de novas formas

o quadro fervilha mudo

e tudo diz

no afinco das 3 horas

6.

Medo de ficar

perpetuamente em torno de si

Medo de ir

perpetuamente dentro de si

Entre o plano de voo

e a planura da Terra

seu corpo às 3 horas

seu jeito às 3 horas

O coração a olhar pelas frestas

dos olhos a olhar

os ciganos caminhantes

7.

Hefesto

medonho  trincado

modelado em ferrugem

voa arquiteto e ourives

sonha armeiro e escultor

Já atrás do paraíso

vê com clareza o roteiro

ao som do tempo e das nuvens

a elaborar no assombramento

a sagaz forma do arrebatamento

em récita-luz das 3 da tarde

8.

Resta dizer

que o logro dos olhos

aflora à pele

na cadência inversa

de todos os livros lidos

as insinuantes teorias

abortivas da alegria

mães de oceanos nunca atravessados

Ao sabor do impasse

às 3 da tarde o sol abrasa

e acachapa os fantasmas

Não há qualquer interrogação

nem dúvida  nem anseio

9.

Gira hora verde na praça

espera aprisionada em

morna atitude

Gira na fosca primavera

a querência de ir

e até de ficar

Apenas espera o rio frenético

do ritmo sem corpo

no corpo das 3 horas

10.

Névoa sibilina

As setas moles da palmeira

pastoreiam os vidros da janela

Em torno da mesa

feito artólatras embriagados

eles sondam o pão

e na fenda-mãe despencam

a gula

Gotas translúcidas

encrespam a vidraça

às 3 em ponto

Março é marco

11.

Entre brumas

de montanhas verdes

o jovem K ama o úmido

Ao contemplar a casa exótica

adentra a vida do arquiteto

Deixara alguns incidentes por aí

Provocaria outros ao som

de eruditos filamentos

Às 3 de uma tarde fria

ele perderia o chão

ao cavar na carne

a saudade do doce flautista

12.

A ária não solene

mesmo que contundente

mostra a força do vazio

de todas as vidas

E em contraste com as 3 da tarde

quando o sol outonal

rouba do cinema todas as cores

a voz de Kiri

espraia-se da sacada à rua

Ao enovelar-se nas poucas pernas

de quem anda na polpa da rotina

revela o soturno tato

dos fantasmas corroendo

os corpos que vêm

os corpos que vão

13.

O garoto lê Sylvia Plath

à espera do ônibus amarelo

Nos olhos dele alguma torre se ergue

e ele nada sabe da nuvem além

Lê que há sacanagem na cozinha

enquanto as batatas chiam

e tenta-se a todo custo

meter Hollywood no trivial caseiro

Ele não sabe o que faz

Às 3 da tarde

seu olhar é gato azedo

a atrever-se entre arames e tijolos

Tudo tine enquanto não é possível

se ver noutra vida

Entre as coxas

a ereção floresce para ninguém

A boca seca mastiga lascas de pedra

14.

Olham-se convictamente vagos

Apalpam-se veludamente indefinidos

e assim o mundo gira

e o coração deles conhece todos os meandros

que passam pelos astros

e chegam ao tépido úmido das raízes

Sonham-se concretamente anjos

Nutrem-se angelicamente corpos

e pelos ares deles passeia um fluido

todo luz e todo sombra e todo amaro

e todo veneno e todo aconchego

até que às 3 da tarde irrompe o real

Boca na boca

mão na mão

Fica no espelho o último vestígio

do que nunca será

15.

Diante da morte

tudo está nivelado

O sal vale o açúcar

O açúcar conduz o rio

O rio referve a montanha

A montanha eclipsa o homem

O homem retorna à pergunta

em pleno sol das 3 horas

A sombra imperiosa

se faz mais ainda longa

se faz mais ainda larga

Todos nos sabemos aqui

Todos nos perdemos depois

16.

A inteligência de Nil

esgueira-se pela casa

como gato italiano

com saudade do cio

Lá pelas 3 ele sairá

para um suco na esquina

Volta aos livros

aos meandros saudáveis

dos tantos labirintos

modo único e justo de ser

À noite recolhe-se ao seu corpo

enlanguecido maltrata as estrelas

expõe nas mãos a raiz frutificada

e espera porque segunda-feira virá

17.

A canção cavalgada

segue pelo ancoradouro

rumo ao mar da noite

Ninguém ouve seus passos

ou o vento que ela reserva

aos deuses e touros adventícios

Pelas plagas de água funda

ela voa cadenciada

e ergue em pleno oceano

a glória transparente

que o dia teve

no afinco brando das 3 horas

18.

Relicário de prata

sob o vento

fausto de sombra

que faz fortuna

na irradiação opaca

a transformar as 3 da tarde

em pomo noturno

Charco de fertilidade

minério real sem fraude

os olhos de Nil

amadurecem em papoula

e ainda deixam pelo ar

a labareda depuradoura

do ajuste final

19.

O sustentáculo das 3 horas

é esta cigarra anômala

com seu esguicho

de silêncio vítreo

desde as nuvens

até a rosa podre do jardim

Ai de mim

diz ela transviada

dos dezembros

à toa entre palmeiras

de setembro baço

20.

Ele é simples como a caixa

de um engraxate da praça

simples como este voo intermitente

de um pássaro cego no ar

simples como a lombada de um livro

muito lido por isso muito amado

simples como a curva de um rio

como um copo brilhando ao luar

como a vidraça nublada pela névoa

Ele é simples

e nesta tarde

simples como as 3 horas

que fervem em si

todos os entrecruzamentos

21.

A madrugada inteira a tecer

a aranha canta sua fragilidade

que brilha

na vidraça ampla da sacada

O nó irisado das 3 horas

relembra no vidro

a nitidez e chispa

o contorno da cidade

O fulguramento balança

e o bicho tenta alimentar-se dele

na crença vã

de tudo ter captado

(1991)

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Objeto nuclear

Tenho ainda alguns minutos

antes da meia-noite

algum som de alarme

daquelas regiões   doutros lugares

doutras manhãs   outros ares

Antes da noite se remexer

e confundir seus aposentos

em que pulsa um objeto central

por quem já cortei tantos mares

Antes do umbral da noite

fica de tocaia a atmosfera

deste animal meio angélico

esta tela de amplo resíduo

Antes do gole e do coice

nesta lapa para ficares

a celebração não vai além

deste gesto no próprio corpo

Começar e terminar nas caldas

da mesma carne com avidez

de fruto precário

dançar na mesma vertigem

que é plantar idêntica cunha

em cava de lavra íntima

tudo dano se não ficares

a manter dons de oráculo

para o triunfo de teus cantares

(1990)

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A faca

A faca rola no ar

Espasmos de brilho

fio de corte célere

sinistra matéria

Atinge a carne

e o sulco ferve

nervos  e músculos

estertoram

antecipando o grito

Detida na mão

antes de objeto e mancha

limpa na terra  na areia

deixa entre o ferido

e o globo

um estranho vínculo

sem qualquer fulgor

(1990)

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Brigada de um sonâmbulo

Rumina

apenas o caroço da luz

em sistema de dança

Reaparece

diante dos olhos vagos

que perseguem a sombra

Relembra sobre a vozes da rua

as cartas não cifradas

Refaz

com a mente em brasa

o primeiro contato

Reduz

a rutilância do revelado

à lembrança refeita

outra vez

(1990)

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Homenagem a Marly de Oliveira

Não lerão as páginas escritas

senão no contato das mãos

ou no ventre que a alma

pouco a pouco avoluma

Palavras medos percepcões

expiram pela distância

pelo modorra comum

tal como meu devaneio

Porém

há vastíssimas páginas

esperando a leitura

e há o abismo dos sentidos

que o tempo transforma em ouro

(E a insistência dos deuses

aleitando nossa teimosia)

(1990)

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Atrás da treva

Atrás da treva

a pedra gane

Pelos caminhos obscuros

vai o animal

e as asas de escamas

não cintilam

mesmo lívidas

A rebelião das garras

não faz sentido

não inaugura o princípio

Atrás da treva

a temperatura morna

define os entraves

que roem o animal

E ele morre em cólera

abatido pela escalada

impossível a todo nômade

(1990)

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Trivial simples

Ah esse saxofone

no veludo da noite

serpente célere

procurando as cavas do corpo

(1989)

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