www.pauloventurelli.com.br

Singular no plural

Vento rústico dos rostos

gesto banal que irrompe das mãos

com réplica intermitente nos olhos

Vento célere e áspero

da pele ácida e povoada

pela memória resistente dos fatos

Vento náufrago forasteiro dos desejos

restaura a posição vertical

põe a palavra em alerta

Vento casual vento largo

do menino de têmpera magnética

a avançar em quilha

pela cidade que passa

órfica veemente

na doce desintegração

(1989)

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Toda essa hora

Toda essa hora é lenha

fugaz alternativa

de sombra em sombra

tecendo o som – sempre o som

O acesso a qualquer labor

é como cápsula que explode

entre um sangue e outro sangue

e abriga tanto monstro

quanto é o início do mundo

Toda essa hora é broca

alicerce de ferro e corte

que interpõe entre um episódio

e outro a chegada: nada

não valeu não rendeu não deu

A caligrafia da carne

só se supõe alfabeto no

contato breve com outro calor:

fusão transfusão desdobram

caminhos

transportam síntese

(1989)

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Animal oblíquo

Grande o animal convexo

desfila seu segredo

entre o enigma de todo olho

Quem o lê não sabe o núcleo

Quem o vê consome um intruso

em sintonia com astro rude

Rupestre sua paralisia balança

na fosforescência do elo

Seu contorno é porcelana

é o antigo papel do alfabeto

A razão não chegou ali

Mescla tinta caroço haste

que sua umidade desvenda

para um episódio encarnado

Se o condenam sua ira é bíblica

vago evangelho atraiçoado

em pregação mais assombro que tema

As termas de suas escarpas

espreitam pra dar em acalanto

Seu  buril avança em labirinto

Acende o candeeiro como motim

E no charco sua graça resfolega

e pra muito se ergue em pose

A singularidade é sua matéria

mesmo que plural mais pareça

(1989)

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Canção da queda

E ponho na minha aurora
o cadeado de Yeats
A noite consumida
no nervo de única palavra
Depois o piano submerso
sob todas as águas
o dente frio no sol
a boca fria qual musgo
A mão avança ainda crente
e nenhuma massa se modela mais
Nada nada que vale
o tom cobiçado
nem uma brasa a arder
no escuro romper dessa espera
Nem a forma de um querer possível
nisso tudo tão névoa inóspita
O corpo é que se encolhe
impossível ao espaço estreito
e deita sua seiva nessa areia
Só ele sabe quanto é vão
reter a luz numa sílaba
mesmo que minha

(1989)

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Tua Aventura

Se levantas o manto
num assombro
vais perceber que a areia floresce
num afago excessivo
num medo de perfil
não composto à luz
Se relutas no olhar
teus dois focos intervêm
como paralisia
e desta o contato estéril
anima a formação de fungos
onde repousavas
Cambiante livre de requintes
modelas postura ereta
e fincas a garra no horizonte
Ali linhas fugidias se aninham
e é sempre uma promessa
lance rápido de sortilégio
ver alguma coisa fenecer

(1989)

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Cigarra

Morta
a cigarra na pedra
reluz
brusca    intermitente
no seio da hora
- o silêncio do meio-dia
Morta
a cigarra é vítrea
corruptela
de asas – não leva transparência
nenhum volume
nenhum som
Morta
é o parêntese interrompido
inesperada viagem em mala
deixada num porto
no pátio da imensa sala
- é hora alongada
múscuo dissolvido em febre
pera petrificada
que vira silêncio

(1989)

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Água em linha vertical

A chuva se esgueira
nas árvores
Quem sabe um barco na rua
uma uva na calda
uma taça no cristal tímido
A chuva desliza
nos troncos
nó marrom de ponto morto
casca de ferida velha
caminho de inseto anônimo
A chuva corrói
cada folha
corpo silente no porto
violão resgatado no silêncio
palavra com palavra – e não diz
O aflito el passeante
Enrijece seus olhos
Na casa de paisagem nua
Está só bem no centro
e no centro uma gota
e nos muros tantos nomes

(1989)

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Poema da constelação

Os pálidos gestos

- equívocos de todo dia

bronze na forma impossível

de uma sílaba

As intemperanças crônicas

- perfil de pântano

em abraço frívolo

e pouco sal

Os arranjos esconsos

- degraus de vento

repentinas esquinas

sem ângulo sem luz

As divagações   viagens

- doença insistente

que se quer adiante

e se recurva no eixo

Os apelos traídos

- perversos adeuses

com asas de terra

a ferir este corpo

As moendas velhas

- substância triturada

que se busca no sumo

e sonda o caos

Os olhos todos

voltados pra dentro

saltando no escuro

colam malsãos

no mesmo perfil

(1989)

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário
« Previous   1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12