www.pauloventurelli.com.br

Na pele do som
no contorno do sopro
a fala vem
em crespos cicios
Escorrendo pela laringe
sulcos de terra são exalados
pelas narinas
Se a fala tem alma
esta dança na palavra
material de barro
estrutura de vento
Pela crosta de cada verbo
sonda-se o muco
no núcelo armado em breu
O mundo pelo verbal é composto
em denso e aberto
Se Biéli consumido em chamas
não passa pela serra da palavra
fica-se aqui a pensar:
fazer o que com este formigueiro
bramando palmeiras
pelas costas?

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Chega a manhã
com pardais de fogo
Invade as janelas
doando luz
Tu a acompanhas
com o fecundo cabelo de noite
e o longo arrebatamento
A manhã pousa leve
sobre as muradas
acorda serpentes cambaleantes
A insônia esfarinhou-se
em sua mutação clara
A manhã domina os reinos
Blinda-se de cicios
e paira com o corpo suficiente
ao longo de telhados e varais
A manhã arrebata a claridade
de horas tecidas sem sol
Suas garras afastam a noite
e fecunda teu coração
de cautelas: o que virá?
(Releitura de Oscar Acosta)

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Mudar uma pedra do lugar
Sorver em gestos largos
o ar da casa pintado de branco
Blindar o peito para
a ausência não entrar
e com destreza
furtar-se ao bate-estaca
Que assombroso embaraço
A garganta comprimida
por varas noturnas
e as mãos aéreas
na intransigente busca
Não há único fio no lugar
Descompasso de delinquente
em fervura que converge
para a brasa na qual se assam
os peixes da alma
Cada compasso irregular
De dentro comprime esta história
de quadrados rompidos
sem se conquistar o círculo
O êxtase do desamparo
infiltrado pelos poros
Nada para ler
na língua do possível
Em branco
as cenas prosseguem
A semente do jejum
fustigando a atitude
do já arcado
Momento de manobra
de insatisfação
grito travado
A boca seca sem deus
O espírito fosco
prestes a corroer
a sola dos pés
Nada anda nada vai
A cabeça em castigo
de dobrar-se rumo
aos calcanhares

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Piano da noite que se fecha
presença líquida de uma espera
Todos os silêncios dos homens
são fragmentos de uma quimera
Espalha teu sêmen nas ruas
de corpos que por fim são ternos
doce de uma língua de sombra
feito passos pela lã do tapete
E depois que as luzes se apagam
asas no tempo a avisar
que o dia enfim está a acabar
porque nada resta de lembranças
nas mentes desejando se recolher

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Na figura de Paul Éluard
vejo árvores orvalhadas de sol
Discordo de que sejam retas
Não tenho um sol ao qual
dar seiva em qualquer espécie
Para mim as folhas não são marmóreas
Gosto de tocá-las flébeis
sentir sua verdura
reclinando-se para o chão
Nelas parece haver ninhos
que só o calor de meus dedos desvenda
Me é difícil ver o mar adormecido
Aos meus olhos ele sempre fervilha
tem erupções
é um anjo endiabrado e largo
a espumar cóleras brandas
enrolar areias
fustigar nos pés a vontade de ir
Concordo que a Terra seja vertical
- este é um modo de fugir do chão
e se as sombras das árvores são árvores
não sei
- para mim são frutos à espera
do amadurecimento

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Tudo em volta
é objeto pontiagudo
corpúsculo lancetado
garra cortante
Ao redor a broca punça
a pua anavalha
a sarça adelgaça
A pele afiada geme
sob o cutelo
Os olhos serram-se
ranhuras de arado
No entorno
cada espiga é ferrão
Sobressai na forma
de ponta com gume
certeiro ao dardo amolado
para rasgar em agulha
o embicado caroço
da sensação de ser lança
O derredor é descampado
com furadores de prontidão
e se eriçam na contenda
Estiletes em figa
lavram a carne
na condição de estrias
O espírito da verruma
rompe e arreganha
a esfaqueada esperança
de desimpedir a passagem
O ar nega-se a brotar
Escalpelado transpassa
a torre de rasgões
arromba as unhas
e na voragem de mina
escava os vasos dos dedos
Ali bota ovos de cutelos
Os punhais escorraçam
os talhos e encarnam
no endereço mentido
a asperidade do ser
que despolido vai ao caloso
e desgrenha o último sorvo
da lima em cilindro convertida
A incisão se faz fatal
Nada ostenta macieza
Cada arranque engrena-se
no estrepe de facas mudas
silenciadoras do espinho
atravessado na garganta

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

O fundo da tarde
guarda barcos de silêncio
Neles jovens marinheiros
se despem para beber o sol
Expõem na pele
a geografia de viagens
sem gramática
Nas pálpebras cerradas
emudecem outras noites
com vivência igual a nada
Com arrojo
eles revolvem a tarde
e encontram razão
para a languidez
de seu deserto

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

O lacre do dia se abre ao vento
Que te incomoda nesta história?
Labirintos que te preenchem
de incertezas?
Talvez descubras o sentido
roubado por alguém
Estás monopolizado pela
permanência da transição
Nas paredes internas
algo te deforma
Na rotina há pesadelos devaneios
pedaços de arroubos
O que armazenavas?
Teus ímpetos descarnados
evaporam das mãos
Um corpo à sombra
é cálice – segue sem nada
Nada de chance de recuperar o dia
As horas se rompem
eis o primeiro vacilo
(Releitura de Lenilde Freitas)

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Que fazer?
Rasgar a roupa
ou mantê-la em gesso
perfurar a pele
ou decorá-la com suor de cavalo
Esticar os dedos até Macedônia
Encolher o corpo
e alcançar o próximo mar
Desjunte
Se retirar da língua
suas palavras
alguma coisa trava
Se eu mantiver
sua integridade
a frase torna-se torta
Nada sai voando ao sentido
Se desbastar a árvore
ela nua gritará de frio
Pode encolher-se tanto
até virar semente
Um pouco de embriaguez por favor
A roda é este dia animal duro
até a hora em que a febre apodrece
e de uma vez por todas
o corpo se esvazie
A pedra dos pés
é recheio do caminho
Nunca caminhar
por roteiros tontos
(Releitura de Flora Figueiredo)

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Que fazer dos nutrientes do dia?
nesta delicada solidão?
Adolescentes – deuses pagãos
têm sua dubiedade estampada
em gestos lânguidos
Buscam leviandade
no insensato no remoto
no desconforto do sim do não
Tudo acontece na fronteira
Mais que predadores – a
barganha entediada com o
brilho que deles jorra
Tão cegos
Brenhas cutelos interlúdios
Dias de pindaíba
A renda das acnes
desvenda a esfinge?
Julho retido nos casacos
A beleza não foge a galope
Faz parte exaurir-se no alarme
De uma janela salta
o temperamento da distância
Ver dádivas no enigma
a fluidez perpassa os dedos
Bichos da cidade
parte do lamaçal acústico
A vivacidade a torná-los
ébrios de si
Tecem a metamorfose
ignorada em seus corpos
A exasperação arde
na habilidade de ficar de pé
Antevê-los mortos
Sentir a resina do seu não
Há apoio precário
xadrez em leque fechado
incerto da energia
Ser ou não ser
é o terror de espuma
carvão langor
(Releitura de Lindolfo Bell)

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário