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O piano range na madrugada
A voz de Rod Stewart
é insulto a qualquer sombra
Ouvi-lo agora é garimpar
amoras entre sons de estrada
Não há detritos lá fora
O mundo foi investigado
Alguém concluiu: é bom
Toca o trompete
A versátil voz destrona dilemas
A tônica do disco
american songs
faz o cinza da hora
capitular entre escoltas
de harmonias
Every morning
lavra o estanho de bules
café fresco
um cigarro depois
Tangível na configuração de som
Rod nada banaliza
A voz faz um travelling
sobre a biblioteca
desvenda os segredos andarilhos
e vamos desbastando a maravilha
passo a passo

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O que eu preparo é a mim
entorpecido
Não desses gases
flutuantes que a gente inventa
na rua em bares hotéis
e que entre a pedra e o pão
têm uma lisura -
não dessas ruas bares hotéis
que a gente inventa
Refazer um lar -
o que eu preparo é a mim
obtuso
desarmado
sem a energia centrífuga
que engulo
A vaguidão que me habita
quem duvida
em dizer que é meu tom?
A respiração das coisas
circunda floresta muda -
esse verniz que me brilha
quem de mim faz delírio?
quem me dilacera?
Febril fragilidade
em amarelo cintilar -
quem de mim vagueia?
quem no seu ser
não é?
Que campânulas me reparam
no que de mim preparo
em insulto de normalidade?
O contraponto é por nascer -
e enquanto isto perdura
desconfiança ondulações -
e de mim tudo se esfuma
nesse seriado de trevor
(Releitura de Lúcio Cardoso)

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Trucagens desvalimentos
flamejantes de rubro candor
no insulto pela remissão
da errância do horror
Que a perda do corpo consiste
num entorpecimento banal
Não é o jeito que irrompe
com a cólica do carnaval
mas o tédio que sinaliza
para rugas de ser e alma
Na precisão do revés
o ser que não se acalma
De junho nos despedimos
com a granítica febre terçã
as duas mãos segurando
a tonalidade da maçã

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Amoras mamões maçãs amadurecem
em minhas mãos
enquanto ouço Morrissey
Lembro de uma camiseta verdolenga
do The Smiths que ganhei
numa loja de discos
Semana passada
um aluno disse fazer música
- na linha que você gosta professor:
The Smiths Joy Division…
Ele me contou o quanto admira
as letras desse povo
Me recomendou Radio Head
É bom transitar por esses mundos
Se quando jovem
dispusesse de tantas portas
quem sabe…
e otras cozitas más

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Não apenas sentir mas vibrar
no infinito interno do corpo
Num átimo reaver
certo rosto – teu rosto
ardente e luminoso
boca besuntada de morenidade
um pouco além dos olhos
Não somente sentir mas captar
na cava mais profunda
o ponto exato de teu corpo
que em neblina se embaça
Teu corpo que faz deste destino
um parêntese em aberto
a filtrar saquear o ponto exato
Ali onde vida e paixão
investigam o sentido
de estar em vida e paixão

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Tá tudo inverno
na peçonha da pele
Hibernam retalhos da memória
e não se sabe o que fazer com eles
As taças tilintam
de gelo nas comissuras
de dedos sem chegança
Tudo inverno de casaco
A esbelteza dos corpos
some feio no portal
de roupas grossas
As mesas murmuram
sob sopa de legumes
Nada importaria o inverno
se seus golpes
não escondessem as saliências
que gostamos de apalpar com os olhos
Tá tudo ácido
ao longo do fio do frio
O inverno é besta
aposenta a carnalidade
encolhe os juncos eriçados
dobra os pelos dos púbis
recolhidos em sexos mudos

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Tudo de vasto
era fímbria
No núcleo do papel mineral
a borboleta dilacera
os fluxos do canto rouco
O predador ofegante
vinha postar-se ao léu
Soberano ordenava
coisa da terra ao céu
Nenhuma hesitação tinha
para impor sua presença
Os livros abriam-se em fungos
As palavras desandaram
Como tudo era fímbria
a ousadia do incisivo
compôs trigais de feno
numa bruta cacofonia
Assim a fronteira
entre aqui e ali
desfez-se em intermezzo
que ninguém mais entendia

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Fecundo teus olhos
com a poeira da tribo
Se sou multidão
Se sou outro
Se sou múltiplo
pouco importa
Rompo as fronteiras
com o lado de fora de mim
Não me reintegro
ao caos do mundo
Vejo alguma fertilidade
no ato de te ver
Os saltimbancos descem
a ladeira da madrugada
Sou hóspede trapezista
nesta cidade de tabus
Aceno ao interdito
rompo a casca
roo tuas unhas
para chegar ao sangue bom
Pelos bulbos desta presença
entro em rotação
Vejo o espelho
Eis teu teorema
montado para não me resolver
Há uma labareda de sândalo
no centro de mim
O mapa degolado
não te localiza
Se sou lacraia ou peste
pouco se me dá
No ato de te ver
pelo menos sei
que a vida agirá

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Tenho sobre a mesa
uma série de anotações
Vem a tentação Dadá:
que tal embaralhar tudo
e ver no que dá?
Há também livros de poemas
Abro-os ao léu
Deles recebo influxos
Influxos?
Literatura não é pilhagem?
Então saquei-os à vontade
Sugo daqui
Chupo dali
e eis meu discurso

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Essa coisa estranha
que morde por dentro
vadeia os véus opacos
e rubra rubra
embrenha-se pelas matas
rasga a penumbra
deixa aturdido
A coisa estranha e trapaceira
enreda-se sem franquia
e com seu horror paciente
fisga as fianças em partículas
A aderência à aspereza da vida
se vai em surtos
Fica o intumescimento
atarantado visguento molenga
A coisa estranha e intrusa
conhece bem seu lugar
Palmilha com precisão
cada palmo de chão
já esburacado
Rompe golpeia entontece
e o figo fica ressequido

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