www.pauloventurelli.com.br

Toada de pedra
sobre os muros da casa
Toada de esquinas
Ângulos enrijecem-se
Moldes de brasa
O ar endurecido
vasculha os cantos
Cada canto descarnado
acelera o empedramento
A casa reta não oferece redondez
Abriga soluços de ferro
e o ferro se parte
em fragmentos
A câmera que vigia a morada
tem um lodo ressecado e tardio
Não permite que outros acessórios
sejam vistos no testamento
de lavra petrificada
no entorno do lugar

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Esquadras batem no seu peito
As antigas rotas voltam à tona
Ele bebe a vertigem
Nas ilhas pensadas
a população tem o coração
devorado por jacarés de vidro
Acossado por gânglios da derrota
ele se vê sem a clausura dos afetos
A erva de seus braços
desce até os dedos
Pinga que pinga
suco do seu interior
Nunca soube quem foi
Acossado pela identidade
cadê seu lugar seu porto no mundo
Queria apenas estar recolhido ao canto
onde pudesse com sagacidade
reconhecer os marujos
que passaram por seu navio
Talvez pudesse convidá-los
para um conhaque

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

A manhã ressona
sob mantas de pelúcia
Ao esticar os pés
eles escapam das cobertas
Um passarinho ligeiro
pousa sobre o dedão
e bica-o
A manhã resmunga
sacode o pé
O passarinho salta
Depois volta ao dedão
A manhã agora recolhida
vira-se de lado
e recupera a paz

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Nos gestos de sábado
um barco flutua
no horizonte
Seu costado mescla
incursão ao longe
e um curto desterro
Na rosa dos ventos
o barco coleta hiatos
do tempo de memórias
Herdeiro de viagens
em torno da Terra
ele intervém com gana
na mescla de nuvens
a toldar a amplidão
De seus estames florescem
papoulas em tom rubro
com estrias em azul
O homem amplia-se
na sanha do conhecimento

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Ácido
o acinte da garra
na ferida em riste
Por trás da máscara
o corte insiste:
refazer em breu
o suor de flagrar
pelas esquinas
Orfeu reinventor da paixão
No acúmulo de fendas
marujos de faca célere
A combustão da raça
ofusca o sol
Rapace o lacaio
das tramas conjuga
bordão e vício
Nada resiste
ao som avaro
Dissipa-se a casula
a esconder
forma tosão apego
Ontem mais que agora
a vida erra
o já era

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

A ausência extrai da casa
o sumo o sentido
confirma as paredes
Os livros com seu discurso
se esparramam
são mariposas de esqueleto meio aéreo
Nada figura nos quadros
Sua nudez levanta do chão o pó
A marca da ausência
está no telefone
A mente extrapola o corpo
na armadilha tosca
de silêncio em tijolo e argamassa

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Dor – um elefante pontiagudo
estúpido endereço de casa sem ninguém
A gota pinga
derrete o aço das entranhas
escorre pelo pé
dissolve o piso
Sem chão
precisamos nos agarrar em algo
Algo não há
Estremece o núcleo
A dor insiste com seu ácido
rói cada osso
Não mais nos habitamos
Necessário permanecer aqui
Se o ar foi mastigado por formigas
não importa

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Há o caos
O visível e o invisível
O aturdimento dos sentidos
Um canto de sortilégio
na inutilidade da paisagem
O relógio congela sua hora
A ópera do mundo abre as cortinas
Ninguém na rua
O magma escorre pelos braços
esculpe nas mãos um clamor:
a improbabilidade
Resíduos de som afrontam a janela
Inútil paisagem
Borbulha nos olhos o inviolável
contato com outros olhos
O ritmo gago do néon
emplastra o quarto
Ressurgem lençóis amarrotados
A mancha a corrosão da lembrança
Alguém range os dentes
contra a desrazão da porta
Cadê a escada?

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Flui o cotidiano em patamares
que se inventam
Fantoches gritam pela vida
Há um recolher de peitos
que se inclinam sobre peitos
Tanta ventania escancarada
nas janelas rubras das têmporas
Meu falar é voz muda
despenca por paredes
Flui o cotidiano em cada passo
Duendes se avizinham
com avinagradas palavras
Estas paredes me ouviram
a destoar do branco
São abismos de som sem nome
Flui a hora – negação do tempo
Nada se afigura no meu escrito

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Os prédios vão tocar o entardecer
As janelas úmidas já foram armadas
Aqui embaixo
carros e gente – calçadas
O ânimo estremece nas veredas
Ninguém olha para ninguém
As palmeiras – como o vento quer
O espaço barulhento
e a intimidade secam
As praças nada salvam
A morte está ali
em cada ferrão de carne
prometendo ilhas de chegada

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário