www.pauloventurelli.com.br

O oco tem patas de pelo denso
É em si um deserto
No centro reina o nada
Diante dele o homem
raio inútil – luz não calor
Homem o animal oco
Um ondular de medusa
No seu costado
marcas de vazio manejado
O oco é potência
a usina do pesadelo
o agreste das mãos
Sem fecundidade
o homem no oco
a vontade é retalho
Irrompe a noite
o tatear da floresta
a turbulência do suor
O homem apenas necessita
do convite do veneno

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Agora me pergunto:
a fenda se cobre com o quê?
Que sentido têm olhos rútilos
horizontes de pulsação e magnetismo
chamando o mesmo ritmo
A fenda da embriaguez
em que bailam olhos de mina
navegam brilhos em incubação
Estar é visionário apego
de ir no torso de idéias
Cada grão de escada
ao não-preenchido
Navegante de mochila
a ruminar sobressaltos
diluo-me no fluido da entrega
Dois olhos de mina
Dois olhos – brilho reto
Assim: antes e depois
O núcleo da fenda vindo
O estouro do halo do alarme
O aviso desproporcional à demanda
Na finitude do perguntar pergunto:
somos abrigo ressonância sanção?

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

A rua deforma a cidade
desmonta passeios e sapatos
escalda pelo contrário a resignação
de quem se decide
dar uma espiada por aí
A chuva é extravagante
Unta de umidade
o invasivo da presença
Os quadros se desprendem
de molduras não acabadas
Os poemas escurecem
a espinha cervical
Sempre há farpas de falta
e o desatino do assombro
Se todos se recolhem
ficam meio de viés
Pode apostar
entre eles não há pios pipios
gestos alimentares
de quem saiu da arca
Nada agrega no verde
cenas contadas
quando ainda havia sol

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Você me entrega
o cristal das horas
o núcleo de frutos que amadurecem
na borda do tempo
a polpa eriçada de presença
Em você a súmula de andanças
e quando recapturo a imagem
os enigmas perdem os caixilhos
Abrando-me na absorção
de que viver é inevitável
Nada de tributos
pagos ao diabo
Minha finitude alarga-se
Saber não dói
Apalpo a sintonia
No abrigo precário
edifico um jeito de ser ereto
Estaremos desnudos
para dilatar na hora
o torno de cada minuto
o tempo que não me houve

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

A manhã muge e morde
os meandros do movimento
e a memória malsã
de milhares de manhãs monótonas
mata a mata de matérias
minguando o memorável
Menino de medos mil
da mãe madrasta
medra na manquitolagem
de metáforas medonhas
marejando no mercúrio
da mera moagem de suas medidas
pelos mantos mantidos
nas mãos mentidas
Veias vãs a vagar
artifícios de ares ardentes
que ele mantém com os dentes
Menino de mãe megera
mede-se em merda
e mergulha em mar de medo

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Nenhuma palavra a mais
Nenhuma a menos
apenas a exata
de corte oblíquo
para que teus olhos
a recebam com elasticidade
e me devolvam
o aviso fatal a qualquer náufrago:
há uma ilha próxima

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

Para escrever não me despojo
das palavras
Enfio ferro pelas unhas
mordo a madrasta pelo rabo
espalho livros jornais recortes
pela mesa e sugo e roubo
Bagunço tudo
nos tonéis de lápis e canetas
que minam meu entorno
Olho o olho de vidro a me passar
telegramas de tempo nunca meu
Memorizo instante de abismo
Sei que daqui a pouco já não dá
Um gole d`água e afogo as moscas
Elas zunem no estômago
Estripo o fígado com memórias
Rodo a andar por cômodos
de casa sem mapa
Invento que sou eu mesmo
Me atiro na cal
com máscara refeita
em café e cigarro
cigarro na tripa da página
Espio pela janela e constato:
o mundo permanece lugar não-meu

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

A música leve e serena
manobra inflexões
pelo tédio da casa
A luz desaloja os ângulos
preenchidos pela precisão
de cada nota
Há ressurgimentos imprevistos
desenhos nos tapetes
criaturas de graça e luz
esvoaçam pela vigilância
da tranquilidade
O caos remove-se
por linhas voláteis de arpejos
Estar neste outono a bater
harmonias na vidraça
é estar com a corola da tarde
entre as mãos
Mescla-se o inebriante
com a floração de tufos
Haverá horizonte exato?

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

O menino corre na calçada
Mochila vermelha nas costas
Corre tropeça cai
Mancha rubra entre pedras
Mochila
ou cara rachada?

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário

A planície se distende
do meu apartamento aos
prédios vizinhos
Como ponto de fuga – o vazio
vazio pleno de talos viçosos
talos de curta duração
talos encarnados
talos que deveriam
provocar erupção
Em sua geometria precisa
rijos e rígidos
atordoam como tonificantes
dispensam a digressão
rasgam cuecas
apontam sem conexão
com meu apartamento
Insolentes na delectatio amorosa
intervêm na disciplina dos arpões
arfam entorpecem sujeitam
cada cado do meu cadinho
Com arranjos pontuais
voam por aí – o ponto de fuga: o vazio
Vazam seu visco nas trincheiras
vivos vãos voluptuosos
vêm vão vêm vão vêm vão
Vão ao vão de tudo em vão
As planícies de encolhem em dobras
Suspiro meu laconismo
Minha serenidade turva-se
Não há sereno
há gosma descarga secreção
há fluxo destempero exsudação
há leite pegamento gomosidade
há geleia muco densidade
há melaço albumina caldo
há colostro
- conta sem saldo

Postado em por autor in Poesia Deixe um comentário