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Kafka sai do bordel
Nada foi bem esta noite
Contempla um rapaz que passa
suas coxas
seu traseiro saliente
Kafka pensa:
se por um processo
de metamorfose
eu adentrasse este castelo
estaria pronto meu veredito:
rasgo a carta ao pai
descubro a Amerika
longe do mundo dentro de mim

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A palavra não existe a priori
Ela nasce do corpo
do corpo no corpo
do corpo do corpo
Brota um fluido da fricção
ele se solidifica no ar
Eis a palavra
uma tabuada de gestos
uma cabala de suores
uma cantárida de apegos

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A faca corta rígida petulante
Rasga espicaça estraçalha
invasiva
Corre célere aos riachos de sangue
Ali encontra os ossos
Executa os ossos
esfrangalha
Laboriosa investe seu fio
contra os mitos – revela-os
de palha feitos
A faca sabe tudo
Assim talha o fruto ainda há pouco
sensaboroso
agora maldito
A faca sabe
A faca amputa reduz abrevia
Na veia do cântaro velho
a faca afina-se
comprime a veia
destronca a flor
cuja pétala nem nascera
A faca é má
Sua natureza animal
rejeita o ar
tosquia o gosto
trinca o ressaibo do sentido
A faca má vil purulenta
agachada encolhe a fibra
rasteira prostra o alento
horizontal anula o vértice

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Cigarra

Morta

a cigarra na pedra

reluz

brusca  intermitente

no seio da hora

o silêncio do meio-dia

Morta

a cigarra é vítrea

corruptela de asas

(não levam transparências)

nenhum volume

nenhum som

Morta

é o parêntese interrompido

inesperada viagem em mala

deixada no porto

no pátio

na imensa sala

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Curitiba

Os rios

submergem

de frio

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Passagem

O rio tange suas margens

até que uma ponte as una

num mesm0 traçoasssagem

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Verbum verbi

As palavras têm pelos

na sua polpa de ser

Revirá-las é cortar o néctar

descobrir o veneno de beber

(1999)

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Primeiro pacto da criação

No primeiro dia da criação

sujo de tintas

de sons de geometrias

tonto de cosmos e retocando um ou outro tom

Deus sentou-se à mesa

ofuscado pelo branco linho enluarado

Na outra cabeceira

esperava o Diabo

Olham-se balançando a cabeça

medindo as mútuas dimensões

Então gargalham zombeteiros

invencíveis e fazem o primeiro brinde à criação

Estava assinado

o projeto de nossa condição

(1999)

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Instantâneo entre sombras

Garras auréolas e pardais

fremem no fio do punhal

e um silêncio de sombras

cobre as cores

Destaque-se a moldura:

cera amalgamada com terra

e a gaiola azul boiando no abismo

Varais de silêncios

com digitais quase rubros

fervem sob os tapetes

O punhal desce corte reto

correto no prumo e na cisão

Esguicha a luz

e no claro as sugestões se apagam

(1999)

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Retrato que Toulouse não fez

chove na noite

da janela

o húmus ferve

febril feito um órgão sob lã

as gotas

os pingos

as coisas tantas

tontas na vidraça

esparramam a cor

concentram o breu

na lombada dos livros

tigres vampiros fossas

dias noites pássaros escuros

mar sem o absoluto

os vidros espessos

espermam na mesa o remédio

caneta lúcifer navio pomo cola foto

cão ídolo recorte horóscopo

atuar de modo constelar

chove direto no paralelepípedo

e a flor não se amassa

A NOITE É UM MEU E SE PERDEU

(1999)

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