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Véspera de carta

Saber colher noites

separar escamas

reter estrelas

manchar a mão na escada

o rosto na pétala

a rua

com tanta frase desgarrada

reter no corpo o corpo

e se prometer viagem

aragem de ir

(1998)

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Dizem que os grilos vivem

Eu posso tirar

de cada aresta

a escama da palavra

Depois voar

beco

berro

jorro     lugar

De

pois

de

por

re

por     a     penugem    aflante

do ar

no lugar da sombra

eco

elo vazio

Ela irá coar

ecoar

o pomo da luz

(1998)

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A boca

Uma gota

basta uma gota só

para o incêndio começar

Desmanchar a boca

seu início

no que tem de mais cru:

a sílaba

o verbo eriçado em dado

de quase queda

Basta uma unicamente uma

cama de som em fúria

sax alucinado de luar

pela estrada

pelo dom do cimento

Mágico e efeito de olhar

a boca a dizer: a sílaba

um verbo em seu trono lento

verte osso e veneno

Dizer um trecho

mais que ajuda de esfera:

corpo

coração         hiato

sangue rente

de repente a derreter a boca

oca cimitarra que corta:

a sílaba

um verbo de demo  de deus

dom som tom

corte fora do lugar

o oco: boca

vegetália úmida ocre rubra ruiva

(1998)

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Nau

Quero escrever

até que a morte

me separe de cada verbo

e em cada verbo

reste o nervo

e em cada nervo a erva

em cada erva a ave

arribando de volta

no bico um ramo verde

pra anunciar que a viagem

recomeçou

(1997)

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Palavra

Minha ave amarga

ronda tonta a mesa

Depois de bater pelas paredes

não resiste à vertigem do papel

Pousa leve no tom azul

como o monge

que decifrou os peixes

Transparente de si

deixa as nervuras à luz

E perceber é possível

a difícil trama de sua virtude

Remexo-a com sofreguidão

preparando a massa pra textura

enquanto muito longe de mim

outro voo apronta trajetórias

(1997)

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Poemato

Onde os caroços sobram

a fruta eriça o sol

A luz apascenta a forma

gesto esparso sem ser

de estações divisoras

de anos homens mulheres

Os passageiros são crianças

a divisar paisagens

e fantasmas ocos

na região das paredes móveis

Permitem às portas

a abertura de viagens

para organizar os sinais

Não sabem ler nem andar

não ficam mais transparentes

Passam pelas vidraças

como morros e vales

decantados em semiton

Repousa nas mãos

um pássaro solilóquio

pendente de monólogos

que apenas dança

entre uma sílaba e outra

da viagem que foge

em trilhos do infinito

As paredes deslizam

e contêm o urbano

a fugir entre as asas

de metal e madeira

As crianças dormem

sorvendo caroços

para a viagem prosseguir

mais ou menos em paz

ao nada transparente

da alucinação

(1997)

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Festa e conviva

Poderia ser imagem de barro

destas com muitas constelações retidas

um gemido congelado no oco do ar

resguardado em cavas profundas

ocre vermelho nuance

espectro de licor espesso no cálice

quando tomamos a festa

interferindo em gestos e sons

ou um canivete sem acompanhamento

gesto de dançar no ar

a cada passo recobrar o pássaro

e escancarar as penas

na escadaria os sapatos soltos

De madrugada é sempre vidro

andar nu

cantar o corpo torneado na madeira

no cristal de néon

na substância adstringente

Os meneios espalhados pelas quinas

para o vento recolher o bolor da foto

a reentrância do camuflado

a instância derradeira

daquela palavra

Poderia ser imagem de vapor

destas com muito ramo estirado

um cavalo paralisado no esgar do salto

e no gozo de ser cavalo

porque o tempo é só cavá-lo

(1997)

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Orquestração

Que posses espectrais

gesticulam os olhos

coroando-os com saliva e sal?

Que corpo mantém

acesa a madrugada do ócio?

Quanta metamorfose

é luz no silêncio

do único túnel escancarado?

Quanta conversa

anterior ao tempo

indefiniu o silêncio?

Que passo de ontem

é o fugaz verde

deste mergulhador insone

tresnoitado de todos os mares

em busca de rotas

sem saber que a Terra

é um simples projeto cotidiano

- traço em branco -

rumo de nau desgovernada

porque naufragar é o que salva?

(1997)

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Instantâneo

Inesperada ave

rompe o azul e a noite

De suas asas

uma gota de som

fermenta na cidade

preparando a luz

e a lucidez do voar

(1997)

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Verniz

Verde névoa

em rua cinza

ao primeiro sintoma de luz

Janelas escancaram ruídos

no fluido dos nadas

e vagos azuis cinzelam o sol

Outra vez canta a boca torta

Outra vez a voz submersa

e a música inconstituída

Que direito tem a carne a mais?

Que segredos as curvas que se caminham?

Que azedo é este sempre travado?

(1997)

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