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Bandônion

Garras ciciam no espelho da noite

Silêncio – reflexos – monstros

A sede de ar ainda paira

habita a rusga do barro

Breu – mofo – mosca

A teia  de reflexos margeia o som

e a ciranda de cimento acende

a  gota

A gota cintila – hiato de lua

O quadro cai da moldura

O rosto estampa o tapete

Breve carta  Beiço de sangue

A manhã se antecipa ao seu clarear

Como os passos bêbados

retraçando a calçada

no último risco do néon

(1997)

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Dois

Penso num ponto:

geografia do vão

momento caligráfico

de repor a semente

no chão

Penso no gesto:

geometria do sim

movimento oligárquico

de encenar a vida

pra mim

(1997)

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Quadro III

Meus ninhos voam com o vento

Sobram sombras tontas

e um sândalo de quem passou

Que fazer?

Entre as mãos a imagem não cria raiz

Rui a cada palavra

o filete frágil do perfil

sempre a se diluir

na amplidão do improvável

(1996)

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Sortimento de tons

Reordenei a pele

e sob a pele a nervura

de cada osso

Uma aranha de luz

dança o arabesco

de minha carne

me tece em dom

som de oboé

violoncelo doce

Da grama vem a cor

gesto e projeto

de manuscrito

O vinho borra

a intimidade inesperada

e este andamento

rebrilha no cristal

invertido

a dar vazão ao céu

razão ao mar

(1996)

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Análise

Todo dia mancho

a mão em tintas diversas

percorro com os dedos

o rosto no espelho

Ignoro o enigma

e  quando a madrugada explode

sou outra vez duas vidas

mescla de tinta e traço

um rosto muito baço

no espelho fosco sem jeito

de revelar coisa alguma

(1996)

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Quadro II

Junto as mãos à teia

treva bruma lápides

Em cada redondo

há hastes

segurando pérolas

O minúsculo brilho

salta escorre desce

perfura a terra desce

uma gota sorvida

no instantâneo de ficar

(1996)

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Quadro

Que a música me amarre ainda neste resto

e me fixe no chão

Depois podem nascer as correntes

que devastam o ar

e  eliminam as épocas de seu lugar

Meu lábio supura sol abrasado

Dos olhos pinga noite camuflada de medo

(1996)

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Pincel de Marta

As horas são tantas na esquina

Resumo voos num gesto

Há escafandros para penetrar o tempo

As carpideiras parem rios de mênstruo

Os corcoveios da rua tremem caminho

Ando o pó e a sílaba da cidade

Há mel nas escadarias para aguçar os tapetes

As estrias do dia rebatem na cortina

As trilhas do azul gemem no azul da noite

Penso entre colunas no degredo de papel

Há ensaios tontos nas mãos que lavo

As veias do sul se abrem a gerar esquadrias

As mulheres são maçãs alteradas

Os homens são vinho vencido

Os garotos são talos tensos

As meninas são abstração manchada

(1995)

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Cantar

Do jeito de cantar:

canto – a voz é pera na geladeira

pelo parado no ar

fio de brilho no brilho da luz:

engano de sombra

coisa quase de ficar

Depois meu jeito de cantar é meu jeito

assim como quase andar:

camelo cansado em busca do lar

luzes de enguia no estômago

lupa pra ver melhor

se não dá canto (é o jeito)

pra disfarçar e destacar

pequenas coisas que atravancam

todo dia dia lento

Puseram um véu sobre o piano

não era véu era vento

Fui tocar e fiquei mudo

na sala minha voz fez ladrilhos de estilhaços:

latidos

Fui pra rua esperar espiar

expiar o silêncio

(1995)

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Saudade

Falta de dor

Só a ferida

assim pulsando

fluente

mantida luminescente

escrava de seu contorno

Só a ferida

falando

incontida

da falta da falta

que vibra

como um peixe

como um rio a ir

sem cor

sem margem

sem fio condutor

(1995)

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