Poema do vaso

O momento era um vaso pálido perdido na janela. Talvez muitas coisa se relacionassem com ele: memórias de um cão, teia de olhos bassos, os dedos flexíveis em certa manhã de sol. O vaso estava ali e reunia as suas forças, e sua altivez de objeto perdido ou menosprezado não danificava a aura das coisas deixadas num canto. Se aproximássemos dele o ouvido, como o fazemos com uma concha, haveremos de encontrar encantos: vozes triturando a tarde, festas em noites perdidas nos calendários, o cetim quase doce da voz de uma criança resfriada. Como não é certa essa atitude – ouvir o vaso – ele permanece ali, um momento da casa, uma lembrança na janela de que algo merece ser cuidado. 

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