ABSOLUTAMENTE RUIM

AS PEQUENAS MORTES

Wesley Peres

Rocco  -  119 p.

Em artigo publicado no Cândido, de julho/13, o jornalista e escritor Márcio Renato dos Santos escreve um artigo sobre literatura experimental: “Nos trilhos da ousadia”.  Nele, entrevista a professora Dirce do Amarante que diz: “toda a escrita é uma experiência com a linguagem.” O artigo também dá voz ao escritor Carlos Schroeder que afirma que “Toda maneira de experimentar é na verdade uma maneira de representar uma escola estética do passado.” André Conti, editor da Companhia das Letras também é chamado a depor e diz: “o livro não pode ser apenas experimento. Tem de ser, acima de tudo, um livro aberto, por mais que a prosa seja hermética.” Mais adiante, referindo-se às dificuldades que um leitor pode encontrar ao ler Ulisses, o editor ressalta algo digno de nota: “James Joyce é um humanista.” E depois argumenta que a um escritor não basta ousar, complementando: “recebo, por exemplo, muita prosa poética. O sujeito quer colocar a sua experiência, mas em geral são experiência não muito ricas. São propostas pretensiosas, mas pretensões que não se cumprem.” Voltando a dar voz à professora Dirce do Amarante, encontramos o seu pensamento: o texto experimental é sinônimo de efervescente – “O experimental contemporâneo poderá às vezes ser precário (…)”

Bem, tudo isto por conta do livro As pequenas mortes, sobre o qual desejo escrever neste momento.  Temos um narrador em primeira pessoa, chamado Felipe Werle. Está na faixa dos 30 anos e está subjugado por uma obsessão: tem ou terá um câncer por causa do acidente com o Césio 157, que aconteceu em 1987, em Goiânia, cidade que é o cenário do que é supostamente narrado. Felipe tem uma relação intermitente com Ana, porque se unem e se separam a torto e a direito. Em Ana, ele só vê o lado sexual/animal. Como mulher, ser humano, ela não conta nada. Felipe é músico e abandona esta atividade para depois retomá-la e tornar a abandoná-la um cem número de vezes. Ao mesmo tempo que odeia música, tem nela seu alimento. Resolve voltar-se para a literatura e escrever uma autobiografia. E aí temos todo o problema.

A prosa de Wesley Peres é truncada, mal conduzida, com frases entrecortadas, repetidas ad nauseam  em nome, com certeza, do experimentalismo. Lembrem-se que Conti afirmou lá no primeiro parágrafo que não basta ao livro ser apenas experimento, ele precisa ser aberto. Pois aqui temos o experimento pelo experimento. O resultado é a secura, a chatice, a “narrativa” que não vai para frente porque, seguindo mais ou menos uma espiral ela vai e volta, vai e volta, sem nunca sair do lugar: o Césio, o câncer, a cor azul por causa do produto químico, sexo com Ana, sexo com Cláudia, música, autobiografia. Girando em torno destes elementos, o narrador está perdido. Está claro que o autor pretendeu criar um discurso isomórfico com as condições de seu narrador: hipocondríaco, neurótico, depressivo, vazio. Mas a coisa não funciona. O livro precisa ser aberto, tudo bem? Aqui não há abertura nenhuma, não porque o texto se apresente hermético, e sim porque o texto não oferece nada ao leitor, além de girar e girar sobre os mesmos temas, que acabam cansando e dando vontade de ir fazer outra coisa. O livro precisa ser efervescente? Pois bem!. Nada de efervescência nestas páginas. Ao contrário: uma platitude cinza e mal ordenada, uma rotina chocha e cabotina, um dèjá vu canhestro em que o leitor não encontra o mínimo de humanidade. O narrador pensa tosco e seu texto é tosco. O narrador pensa pequeno. Seu texto é pequeníssimo, insignificante, não trazendo nada de novo à nossa literatura.

As pequenas mortes  é uma novela que pretende registrar a desgraça da contaminação que os habitantes de Goiânia sofreram com o célebre acidente, mas desgraça mesmo é o texto que ela levanta: desestruturado, mal escrito, travado, sem nenhum bafejo de novidade, sem nenhum apelo ao lado humano do leitor. Quer ser vanguarda, quando o tempo das vanguardas já passou e hoje é necessário ao escritor dizer alguma coisa, num mundo em que todos estão desnorteados. Se a literatura tem um papel é o de pensar o homem na conjuntura atual, e Wesley Peres não consegue por um segundo fazer isto.

Aliás, a orelha, escrita por Tania Ribera começa por afirmar que “há literatura de contar o mundo e suas histórias. E há literatura de revirar o mundo a linguagem e cortar na carne e trazer poesia à força, para, em um gesto de cansaço ou esperança, disseminá-la em tudo que existe.” Ela está sendo otimista ou cega. As mortes não contam o mundo, não o reviram pela linguagem, não têm força poética nenhuma. É o fracasso total da poesia, na areia que roda em suas engrenagens emperradas. Wesley Peres é daqueles que não sabem escrever, não têm o que contar, então mergulham num labirinto de formalismo oco e seu livro não passa disto. Enjoa até o mais paciente dos mortais.

Nada tenho contra o experimentalismo que contém aquele humanismo citado por Conti. Para mim, na atualidade, nosso maior escritor é João Gilberto Noll e em cada livro ele ousa, em cada livro vai além do caminho desbravado no anterior, em cada livro experimenta uma nova forma que tem sumo, que dá leite, que alimenta minha sede de novidade. Noll é inquieto e o tempo todo ele busca superar-se, reinventar-se e diz algo surpreendente que muda meu conceito de romance ou de conto. Ele não se subjuga a nada, a não ser ao seu projeto estético de invenção, do qual dá conta de maneira magistral.

Peres fica na superfície de brincadeiras verbais, inventa algumas palavras, corta a frase antes do fim e isto não surte o efeito pretendido.

Para voltar à orelha de Tania Rivera, ali encontramos que é “fato bem conhecido (mas raramente assumido) de que a teoria psicanalítica é sempre ficção, pois trata de um eu que se constrói justamente ao fazer do real um romance.” É bom que alguém do meio coloque esta questão bem claramente: a psicanálise é ficção, não tem nada de ciência e para tentar transformá-la em ciência, o senhor Freud andou colocando os pezinhos no positivismo. E Rivera informa que Wesley Peres é psicanalista e mais: “originalmente, o texto foi apresentado como parte de uma tese de doutorado em Psicologia Clínica e Cultural na Universidade de Brasília”. Então é isto. Um bicho anfíbio. Nasce como tese, que tem um instrumental, um método e uma linguagem próprios e se transforma numa novela despenada. E se o autor é psicanalista e costuma construir o real como romance, de que modo explicar a tessitura rasa de seus personagens, de seu módulo central, das considerações arrevesadas que faz a respeito da cidade, de sua população e, para nem falar, da psicologia dos seres que transitam por estas páginas, como autômatos sonâmbulos a cair num mundo cariado que eles não conhecem e não sabem o que fazer com eles.

E Tania tem um ousadia indesculpável: compara Peres a Beckett, Kafka e GUIMARÃES ROSA!!! É estupidez total!!! Não há nada do niilismo poético de Beckett, nada do absurdo de Kafka e muito menos da poesia sertaneja e metafísica de Rosa. Este é um escritor monstruoso porque conseguiu criar um discurso de primeiro nível que se encaixa à perfeição à mente poética e cheia de culpa de Riobaldo. Riobaldo tresanda à virilidade ferida por uma paixão incompreensível e faz de sua travessia um processo de autoconhecimento e sobe a cada página um patamar que o torna grande como personagem HUMANO. Wesley Peres não transita por estes universos tão substanciosos e densos. Ele tem massa aguada nas mãos, um pirãozinho de farinha que não nutre ninguém e pensa estar fornecendo O alimento dadivoso com sua estética mal enjambrada, uma estética rarefeita, repleta de cacos e farpas, numa voz agoniada que nada tem de grandioso. Tudo no seu livro é dispensável. Tudo no seu livro trai a expectativa do leitor. Tudo no seu livro é uma arapuca sem-vergonha em que o leitor não cai porque este tem o mínimo de inteligência para não se deixar arrastar por este arrazoado de palha e pedra, negaceios sem ventura, um Felipe obcecado que não consegue ir além do próprio umbigo.

Ambiguidade é excelente teor num texto literário. Aqui não temos isto. Temos, sim, confusão da má escrita, desarranjo de quem escreve com preguiça, sem método, e gera um amontoado de significantes no papel que não se entrelaçam a nada e no fim das poucas (ainda bem) páginas, o leitor está cansado da aridez e termina com as mãos vazias, sem ter colhido nenhum fruto de uma experiência que ele imaginou estética e não passa de um projeto, de um rascunho ensebado.

Lá no primeiro parágrafo, a professora falou em precariedade. Precariedade. Este livro, de tão ruim, sobre em precariedade, sobra como o despojo fúnebre de algo que malogrou, de algo que foi colhido antes do tempo. Gastei mal os 24, 00 que paguei pelo livro. Eu deveria ter o direito de ser ressarcido pela editora que faz um belo trabalho gráfico, tingindo o corte do livro de tom azul, já que este azul é uma das tônicas obsessivas de Felipe.

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