ARABESCOS DE RENDA PAIRANDO SUAVES

NERVURAS DO SILÊNCIO

Lindey Rocha

7Letras     58 p.

 

Nervuras do silêncio é um livro sem extremos, escrito num tom único para se dizer em silêncio.

Lindsey Rocha escreve em staccato, com frases de pontuação abrupta para interromper a retórica e o derramamento.

Seus poemas em prosa seguem as vertentes da solidão, da busca, das apalpadelas no real, mas fugindo do registro realista por meio de pinceladas que tocam as alucinações e deságuam na delicadeza de uma visão em que o amor é sutil, não declarado. As máscaras vão sendo despojadas de seu peso para sobrar o rosto sem tinturas diante de temas que a obcecam.

O olhar de veneração poética para a natureza e para as pessoas é outro recurso seu que atinge bom rendimento, dando uma pauta de reflexão aos escritos, uma reflexão intimista de quem apenas toca o objeto e não o desvela em sua totalidade. Então, o clima é de distanciamento, com pitadas de melancolia e a consciência inevitável da perda como uma de nossas constantes na perene desordenação dos dias. E tudo sem gritos, sem esperneio, na percepção clara da “alegria provisória” e sem raiz no solo cotidiano que ela pisa como bailarina segura de seus passos.

A ironia que cerca muito dos escritos é de fino trato. Um jeito de mostrar o outro lado da face e dos retratos, um caminho de “caligrafia do infinito” pelo qual ela desvenda que tudo tem uma outra dimensão, o the dark side e que sua poesia é mestra em revelar, às vezes juntando “o doce e o obsceno” que “se mesclam” numa composição de caráter flutuante, sem apontar o dedo para nossa cara, mas insinuando-se como planta que medra por entre aquelas máscaras antes referidas.

A maturidade das imagens construídas com o cinzel da poesia acesa para os mínimos detalhes abona uma escrita em que tudo é “só pétala”, revelando a leveza do conjunto dos poemas, sua uniformidade encantatória, sua magia de dizer o mínimo do máximo no contido espaço que cada um ocupa. A poeta nos dá um mosaico, “dedos de prosa” para a “impassível microfibra” que irá deduzir “veludos, sedas, lãs”, com o que compomos um quadro de maior figura e chegamos a um ponto de revelação das intenções reais da artista.

E ela escreve com o balouçar da brisa poemas que são aquarelas, arabescos de renda pairando suaves, mal tocando na textura física da página, usando nervuras de vidro para “quebrar transparências” que vão eclodir o previsível e trazer a novidade do que Lindsey Rocha tem a nos dizer. E o dito vem pelo filtro do difuso, do conteúdo indeterminado, quase obscuro, da inquietação frente aos distúrbios bem dosados na forma enxuta de sua carpintaria. Também está atenta ao dialógico como alimento essencial da literatura, quando afirma que “uma página são inúmeros livros”, tocando naquilo que poucos sabem ver: a literatura é alimentada pela literatura não pelo real que é apenas um discurso de um determinado ponto de vista.

Na visão dos pombos ela registra a desolação do urbano, o parto difícil da percepção que saia do lugar comum e tenha olhos e sensibilidades para outros contornos que, mesmo diluídos, compõem nossa rotina, embora não tenhamos mecanismos precisos para desvelá-los. Por isso, a autora escreve como escreve seus “prelúdios harmônicos”, numa noção de tempo que é fluidez, fluência, passagem, do qual fica apenas um leve pólen no fundo de nossas mãos. Desta forma, o que a poeta nos entrega tem a aparência de sementes à espera da explosão do nascimento, para então nos encher de cor, sob as nervuras do silêncio.

O erotismo igualmente é tematizado de modo anuançado, tênue, numa atitude de quem toca o corpo escondido atrás da cortina ou envolto em lençóis de nuvem. O corpo também diz muito pelas vagas referências, pela sensibilidade-radar fazendo confluir para o poema seu calor e suas múltiplas faces não de organismo, mas de ser etéreo e aí se flagra outra poesia com seiva e sumo de alguém a experimentar o amor com cautela, como antecipação da queda e da perda, nas “pautas vazias da tarde”. Tudo isso na cuidadosa escala de tons e semitons cor pastel que não deixam nada grifado, evitam o declamatório, a enunciação passional porque isto poderia destruir o corpo enfocado e dissolvê-lo em nada.

Até quando vem a náusea existencial, ela é transmutada em alguma coisa branda, numa tela impressionista, com véus cinza tolhendo a luminosidade subterrânea da razão que manda lamentar, e a poeta apenas aborda por aproximação.

Esta é a poesia de Lindsey Rocha. Um voo sobre superfícies muitas vezes duras, tocadas com volatilidade para fazer o leitor navegar por algo também cerebral e não meramente emotivo. Ela escapa da emoção fácil e coloca diante de nós uma galeria de quadros-convites para a reflexão, expondo o domínio de sua técnica de contenção e fugindo da banalidade dos recursos surrados do gênero.

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