O AMOR É UMA DOR FELIZ

FERNANDO BONASSI

Editora Moderna         302 p.

Se a intenção do autor é publicar este livro como juvenil, está redondamente equivocado. O livro não se presta a um leitor em formação pela temática e em especial pela linguagem crua e descuidada que o romance apresenta, num discurso relaxado, muitas vezes ímpio e cruel.

É uma luta árdua chegar ao final deste amontoado de besteirol. Tudo o que há de pior num escritor, Fernando bonsassi. reúne aqui: falta de idéias e imaginação, visão de mundo muito rasa, torpe, raivosa, querendo ser crítico, “realismo” chulo, transparente, grosseiro, kitsch, de mau gosto extremado.

Não respeita nada nem ninguém. Todos são descritos como “babacas”, “imbecis”, “idiotas”. Ainda bem que o narrador se inclui no rol. O avô é alcoólatra, mas o narrador vê tal fato não como doença e tripudia em cima do velho. Caricaturiza o homossexual, na cena em que vai alugar um quarto, ou como coisa, bicho, na cena em que descreve a venda de botons na faculdade.

Sua visão da mulher é abjeta, rasteira. A mulher a seus olhos não passa da um conjunto de “tetas, bunda, xoxota.” O amor do título nunca acontece. Só há sexo animal, puro “instinto” e descrito de forma pouco inteligente, sem qualquer artifício artístico ou imaginativo. Suas cenas não se separam daquilo que todos adoram chamar de “sacanagem”. Quando o estudante de cinema (o narrador) se apaixona pela professora Rosana, esta é apenas um pedaço de carne para seu desfrute. Em nenhum momento escreve sobre a complexidade que envolve um relacionamento. Não usa o potencial do romance para construir um enredo que provoque o leitor, torne-o diferente. É tudo confirmação dos chavões e estereótipos que estão no discurso da cultura e das mídias. Parece seguir a ideologia da eficácia do mercado. Um texto que não gera dificuldades para o leitor, que escorre pelo leito do que há de mais comum e vulgar, a mesma pobreza que se encontra nos enlatados e nas novelas de TV. Falta fundo em tudo. Como um leitor em formação vai lidar com este universo? Que critérios terá para articular um discurso que não caia no machismo puro e simples? Depois de tanta luta das mulheres em nome da igualdade, de condições dignas, de não serem tratadas como objetos, o que justifica um autor arrasá-las por baixo e oferecer isto a um adolescente? Este está no despertar de sua sexualidade. Como o livro contribuirá para ele ver a sexualidade de modo digno, o sexo oposto não como objeto de desfrute e sim sujeito de um companheirismo de afeto e amor que pode durar toda uma vida?

O narrador parece um cão raivoso querendo jogar sua baba sobre tudo. Porque nasceu pobre, isto é motivo para desmerecer qualquer trabalho, qualquer profissão, qualquer atitude de quem lutar no dia a dia para garantir um futuro. Quer ser iconoclasta e irônico e acaba sendo apenas irritadiço, sem fôlego para nada. Tudo e qualquer coisa é pretexto para seu azedume.

Repetitivo, sem lastro, não chama o leitor em nenhum momento para a economia romanesca. É repulsivo em seu ódio ao mundo e às pessoas. Incita a violência e a agressividade. No fim das contas, o narrador é só mais um babaca como os tantos que assim são por ele classificados.

 Bonassi é um autor sem recursos, sem domínio da escrita literária, não tem qualquer esmero com o texto. Ao tentar o humor, é cruel e amoral no pior sentido do termo. Não consegue voar um palmo acima da miséria que todos estamos acostumados a reconhecer em toda parte. Não refrata, não recria, não reelabora nada. Apenas joga no papel as palavras sem tratamento poético. Por isso, não há sequer um momento que exija interpretação do leitor, mergulho nas subcamadas do texto, que inexistem. O mundo do estudante é entregue de bandeja, num texto autoritário que não abre brechas para o leitor pensar por outro ângulo, senão aquele que é forçado pelo narrador. Este respira muito próximo do autor, tornando-se seu porta-voz.

Então o livro se vai desmontando em sua pobreza generalizada. Se a literatura brasileira vai mal em qualquer quadrante, este é o seu mais legítimo representante. Tudo cru demais. Sem convite para que entramos num outro mundo além daquele em que já vivemos soterrados.

O autor parece um homem estúpido que nunca leu nada e se leu, não aprendeu, não digeriu, não percebeu o que é literatura, seja para que público for. Parece um jornalista embriagado com a própria decadência, transformando-a em matéria fecal com que estampa suas páginas. Em nenhum momento realmente escreve. Apenas relata cena após cena, num encadeamento facilitário, que vê o leitor como um incapaz para voos mais densos. Neste universo do estudante, cada elemento descrito é ressecado, quebradiço, passando muito longe da poiésis (criar). Para ele, escrever não exige esforço nenhum. É apenas derramar no papel um encadeamento de “fatos” triviais que incomodam pela grosseria, não pelo acento, pela visão original a descortinar para nós algo em que nunca pensáramos. Quer chocar pela libidinosidade, pelas drogas que são consumidas a todo momento (que reflexo isto teria num leitor que dá os primeiros passos no caminho do desfrute literário?), mas não tem arcabouço de maturação intelectual para tanto. Então choca pela pretensão, pela falta de maestria, pela falta de um agudo senso da realidade que se propõe criticar. No fundo, aparenta um despreparo muito acentuado e os vícios de quem escreve roteiros para cinema e TV, quando não precisa aprofundar nada, trabalhar com esmero, colocar a palavra em tensão fora do trivial. Aqui tudo é rústico, sem burilamento, não valendo a pena o tempo que se perde em ler este catatau que não leva a nada.

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