HELENA KOLODY – Poesia da simplicidade

 VIAGEM AO ESPELHO

Edições Criar         203 p.

         Mulher alta. Sua fala é incisiva, com palavras bem destacadas, como se temesse não ser entendida. A risada solta parece mostrar que os 90 anos não agiram sobre ela. No azul límpido dos olhos há a marca da vida eslava, das antigas tradições que ela recria com voz própria, articulando o antigo e o novo em sua poesia que aos poucos se vai tornando patrimônio popular. E há a elegância unida à beleza marcante que as fotos não escondem. Quando organizou sua obra completa, o escritor e editor Roberto Gomes teve a feliz ideia de intercalar entre cada livro uma foto de Helena Kolody, em linha cronológica. Espécie de fotobiografia que revela alguém num halo romântico, com toque de diva. No seu tom sardônico, Roberto Gomes brincava: “que homens foram esses que deixaram esta sereia permanecer solteira?” Cada momento captado da trajetória da poeta ilustra o que a própria escreveu: “Para quem viaja ao encontro do sol,/ é sempre madrugada.”

         Antecipando o haicai entre nós, Kolody nunca se ligou a modismos e teorréias que só complicam a arte simples do escrever. Afinal, que é a literatura se não um modo de refletir sobre as dores e alegrias dos homens, transmutando a vida, tirando-a da vala comum do pragmatismo e ampliando os mesquinhos horizontes em que vivemos tantas vezes sufocados? Dona Helena teve olhos abertos a este trabalho e soube cumprir a tarefa como poucos: “Ás vezes, um sonho cai/ da barca, dentro do mar./ Sem destino, o sonho vai,/ perdido, sem naufragar.”

         No recente caderno especial que a Gazeta do Povo lhe dedicou, ela é colocada na galeria de poetas que são amados por diferentes tipos de pessoas. Galeria em que se destacam Adélia Prado, Cora Coralina e Mário Quintana. O que ligaria a produção destes autores? Exatamente a simplicidade, a recusa ao intelectualismo pedante, o esforço para fugir de hermetismos caóticos que podem satisfazer o ego de quem escreve e nada dizem aos que buscam na leitura a via para superar o deserto social. Deserto este em que se vem transformando o mundo com suas falsas seriedades, com suas impostações que não passam de cenário de isopor. Na precisão das palavras de Kolody, ela não precisa de grandes tratados para se posicionar e entregar ao leitor verdadeiros momentos de captação das grandezas por um viés singelo, quase palpável: “Do longo sono secreto/ na entranha escura da terra,/ o carbono acorda diamante.”

         Lembro da agonia de Shakespeare: consciente de fazer um teatro ao agrado do público da época sentia-se desvalorizado pelas elites. Para mostrar que também fazia arte, escreveu os sonetos, com o rigor que se exigia dos verdadeiros artistas. Hoje é considerado o maior estilista em língua inglesa. Talvez algo semelhante ocorra com Helena Kolody. Não que ela esteja preocupada em alçar voos pelos patamares das teorias literárias. Partindo de uma poesia verbalista, soube conquistar a síntese, sem cair na secura, na aridez, na despersonalização. Uma rápida olhada no panorama da poesia brasileira contemporânea mostra sua platitude: os textos são monotonamente iguais, a impressão é de não haver lastro próprio, os poetas perfilam-se como formados em oficinas de criatividade, quando aprendem técnicas, sem que a produção contenha sumo. Levam demais a sério a advertência de Mallarmé: Não é com idéias que se fazem versos, é com palavras. Kolody encontrou o ajuste perfeito entre a idéia e a palavra. Tem o que dizer. E justo num poema intitulado O pensamento e a palavra, está consciente do nada que acomete tantos poetas: “Roubaste uma centelha ardente/ do rubro ferro incandescente/ e quase sucumbiste de emoção.// Restou apenas um metal escuro,/ pesado e frio, disforme e duro,/ que os outros viram com desdém:/ era esse o teu tesouro, irmão?” Poesia de metal escuro e frio que ela repudia, criando cenas líricas de intensidade. Por isso, alguns devotam menosprezo ao seu trabalho, considerando seu lirismo ultrapassado, sua dicção de pouca monta, seus versos populares demais. Na verdade, a flexão pessoal de seu discurso poético é que a distingue da massa amorfa e irá garantir sua permanência entre nós.

         O crítico Miguel Sanches afirma que ela é “o elo entre uma tradição simbolista e a estética da concisão.” As duas faces, passado e modernidade, se conjugam em Kolody de modo peculiar. Ela soube beber da tradição lírica a modulação sensível do mundo e, ao mesmo tempo, burila tal aporte com carpintaria que evita o derramamento, sempre danoso à poesia: “Travo um combate sem tréguas/ com palavras indomáveis.” Ou “Falam as cartas antigas,/ ressuscitam o esquecido.// Volta o passado nas datas,/ extintas vozes acordam,/ marulha um mar parecido.”

         Na longa entrevista que fiz com ela em 1995, ao falar de uma paixão não-correspondida, Dona Helena causou-me um susto: “Foi aquela paixão nunca confessada, mas que depois eu acho que a gente acaba sublimando e transfere para a poesia. Se eu tivesse casado, eu nunca faria poema. Eu teria me dedicado inteiramente à família. Meu marido e meus filhos seriam o centro de minha vida. Os meus filhos se tornaram os poemas.” Vislumbra-se entranhada aí a tão aviltante submissão da mulher à condição masculina que hoje é motivo de estudos, em especial na área dos gêneros. Contudo, acima disto, surge o estoicismo da renúncia que sua formação católica lhe ajudou a preservar e um veio de dor, ausência e perda, sem que ela faça disso discurso de lamúria e que marca tantos de seus escritos: “Estamos sempre sozinhos/ em nossas horas maiores.// A mais gloriosa alegria/ floresce na solidão.” Ou: “No burburinho do mundo,/ gritam por mim: – Onde estás?/ A voz diz logo: – Eis-me aqui!/ Por trás da voz não há ninguém.” E, machadianamente, dá uma guinada nas armadilhas da vida e consegue sobrepor-se com pinceladas irônicas: “Com frios dedos convulsos,/ desfolhas  tu’alma orgulhosa,/ como se fosse uma rosa.” E ainda: “Não quero ser o grande rio caudaloso/ que figura nos mapas.// Quero ser o cristalino fio d’água/ que canta e murmura na mata silenciosa.” Talvez, o certo acento místico que perpassa muito de sua produção venha da consciência de vulnerabilidade, de carência de porto-seguro que nos deixa à deriva: “Paz inefável de ser livre e ser só!// Por que há um rosto sombrio, voltado pra parede,/ a soluçar baixinho, algures, dentro de mim?”

         Helena Kolody, nascida em 1912, é filha de imigrantes ucranianos. Paranaense de Cruz Machado, atravessou praticamente todo o século 20 e entra no 21 com a imponência da araucária que ela gosta de descrever. Viveu parte de sua infância numa pequena vila catarinense, Três Barras. Em Rio Negro, ainda menina, chegou a trabalhar como pastora de cabras, ocupação que a deixava livre para uma de suas atividades favoritas: falar sozinha: “Deve ser porque sempre fui do tipo solitário e os meus pensamentos já voavam com muita intensidade.” Estuda piano e pintura e, aos doze anos, escreve seus primeiros poemas.

         A família transfere-se para Curitiba em 1927 e, um ano depois, a autora tem seu primeiro poema publicado: “A lágrima”, na revista O garoto, tida como pré-modernista. Em 1931, diploma-se no curso da Escola Normal Secundária para, em 32, iniciar sua carreira no magistério, profissão em que se aposenta mais tarde.

         Um fato que merece destaque é que, no ano de 1941, teve livro premiado no Rio de Janeiro, prêmio este que lhe foi recusado porque ela era do interior, o que mostra que provincianismo não é peculiaridade nossa. E este ano ainda é marcante porque viu nascer seu primeiro livro: Paisagem interior, publicação custeada pela autora, o que será corriqueiro por muitos anos.

         Á medida que seu nome vai ganhando notoriedade, vêm os prêmios, títulos e a primeira tradução: vinte e dois poemas são traduzidos para o ucraniano, em 1983, por Wira Wowk. E só em 1985 ela alcança o sonho de todos que se arriscam na aventura literária: ver seu trabalho publicado com esmero e dedicação por editora profissional. Este mérito cabe ao citado Roberto Gomes, comandando a Criar Edições que publica Sempre palavra.

         O cineasta Sylvio Back também esteve atento à produção de nossa poeta e, em 1992, realiza A Babel da luz, um poemografilme, em 35 mm., homenagem aos 80 anos da escritora.

         Em 1993, outro coroamento, pois sua obra passa a merecer o olhar do mundo acadêmico e temos a primeira dissertação de mestrado a analisá-la, feito realizado por Antônio Donizete da Cruz, da PUC de Porto Alegre.

         Para concluir este breve esboço, quem sabe pudéssemos parafrasear Hiller, quando escreve sobre Beethoven. A poesia de Helena Kolody apresenta suavidade sem fraqueza, entusiasmo sem falsidade, desejo sem sentimentalismo. Ela é profunda sem ser empolada, agradável e soberba, fugindo do bombástico. Suas palavras conotam amor, afeto, exuberância e mesmo tristeza sutil que lhe dá tintura personalística. Cordial, nunca cai na vulgaridade. Não se perde no sofrimento que a vida lhe trouxe. E, finalizando com as próprias palavras de Kolody, neste poema que, em sua concisão, é um verdadeiro tratado sobre o interacionismo, corrente de pensamento que vem revolucionando as áreas do conhecimento, com novas perspectivas para a compreensão do ser humano e de sua produção: “Deus dá a todos uma estrela./ Uns fazem da estrela um sol./ Outros nem conseguem vê-la.” Poema incluído em seu Poesia mínima, de 1986.

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