GRANDE SERTÃO: VEREDAS

 

 

AMOR DE PELEGO GROSSO

 Para quem lê atentamento Grande sertão: Veredas, um dos enigmas do monumental romance faustiano é o amor entre Riobaldo e Diadorim. Podemos em primeiro lugar discorrer sobre este amor como uma relação afetiva que tem condições de ocorrer entre um homem e outro homem. Entretanto, isto parece simplificar a questão, pois não devemos perder de vista que o moço dos olhos verdes, para os olhos concupiscentes de Riobaldo, é mulher, mesmo que tal identidade surja, em sua inteireza dramática, apenas no final do romance.

Guimarães Rosa, indiscutivelmente, com a labilidade da palavra em sua entonação poética, fecha seu universo narrativo-verbal num foco em que ele parece querer discutir o amor como alguma coisa que escapa do plano meramente biológico. O que vemos, então, não é o eterno jogo entre o homem e a mulher. A complexidade do erotismo ganha moldura muito densa que desafia nossos conceitos e nos força a buscar parâmetros que pelo menos nos tragam uma chave razoável para entendermos o que de efetivo se passa na economia romanesca. Amor e erotismo, nesta circunscrição, fogem de qualquer noção de “naturalidade” e se projetam para os discursos sócio-culturais que, afinal de contas, modelam o que entendemos neste espaço amoroso e erótico. André Lázaro, em seu estudo Amor: do mito ao mercado, afirma que “toda a produção da chamada cultura de massa” versa “sobre o encontro de dois indivíduos arrebatados pela vertiginosa força do enlace amoroso”. (LÁZARO, 1997)[1] E, ainda segundo ele: “um amor para o qual fluem secretamente nossos destinos,” é modalidade afetiva a mobilizar “as mais sutis sensações que nosso corpo é capaz de perceber e suscita as mais intensas representações que nossa alma pode imaginar.” Mas, “o que se entende por amor, e por que ele se tornou o signo de nossa felicidade?” ( p. 13).

A cultura de massa aqui está fora de questão. O encontro de dois indivíduos arrebatados pela força do enlace se complica, dado que o discurso representa a voz de Riobaldo e pouco ou nada temos da voz de Diadorim, esta filtrada por aquela. Agora, se o amor é aquele ponto de fuga para o qual flui nosso destino, sem dúvida Riobaldo viveu este drama, mesmo que tenha usado todas as forças para negá-lo, ainda que seu corpo estivesse mobilizado para sensações nada sutis que investiam em direção ao objeto-de-desejo carnalizado em Diadorim. Todavia, como afirma Michel Dorais, a sexualidade (ou, no nosso caso, o amor) “passa mais entre duas orelhas do que entre duas pernas.” (DORAIS, 1994, p. 57) E quer nos parecer que este jogo entre racionalidade e paixão pura e simples é o grande nó de Riobaldo, uma vez que, intuitivamente, ele vai percebendo que a fronteira entre as duas esferas de comportamento se dilui na experiência vivida. Ou seja, pensar apenas em termos de natureza – relação homem/mulher – não é suficiente para dar cabo das complexas nuances afetivas vivenciadas por ele. Porque, se falamos em erotismo, falamos de corpo e este não é mais mera entidade físico-biológica e sim um “espaço” marcado pela História e pela sociedade, sendo então, tal espaço social em aberto, em construção, com todas as contradições inerentes. Daí resulta um intricado ideológico-estético que encaramos como o fulcro central da narrativa.

Não por acaso, a primeira referência do narrador a Diadorim é como “mano-oh-mão”, quando afirma que gostaria de morrer pensando nele e que seu sentimento “ia-voava reto para ele”. O pensar é a razão, logo fundida com a morte que parece ser a convergência mais trágica de quantas histórias de grandes amores. Logo a seguir, encontramos a afirmação de “que as pessoas não estão sempre iguais” e “ainda não foram terminadas” (ROSA, p. 19)[2]. O pensamento reto para ele e o reconhecimento da inconclusibilidade  das pessoas abrem campo para se inserir ali uma cunha do inesperado. Bakhtin nos ensina: “se eu mesmo sou um ser acabado,” não poderia viver nem agir; “para viver, devo estar inacabado, aberto para mim mesmo – pelo menos no que constitui o essencial de minha vida –, devo ser para mim mesmo um valor ainda por-vir, devo não coincidir com a minha própria atualidade.” (BAKHTIN, 1992, p. 33). Ora, o festivo e mórbido enleio de Riobaldo com Diadorim torna-se duplamente trágico pela não-vivência, justo por isto: ele não é um ser acabado, está aberto às ocorrências, vive no porvir e não coincide com sua própria atualidade. Ocorre que, ao começar sua narração, ele já está velho, pensando-se, portanto, acabado e coincidente com o seu presente. Mas, ao reconstruir o passado, agiganta-se seu inacabamento e a atualização do amor naquele passado escancara que mesmo no final da vida, a vida continua e faz sua cobrança, daí a necessidade de narrar/contar na esperança de encontrar um contorno lógico para o seu amor, no que ele não terá sucesso, dado que ainda está imerso na travessia.

Para voltar a André Lázaro, este diz:

se fôssemos rastrear a cada passo o que se diz do amor, quer ao longo da tradição grega, quer da cristã, verificaríamos que, a despeito de possíveis semelhanças, o ‘amor’ de que se fala certamente não é o mesmo. São situações sempre diversas envolvendo parceiros diferentes, rituais singulares, a tal ponto que somos convencidos de que se trata sempre de uma questão nova cada vez que se coloca para um indivíduo a natureza do movimento que o dirige para o outro (p. 15).

 

Os rituais de que lança mão Riobaldo realmente o colocam e nos colocam diante de uma questão absolutamente nova, uma vez que o movimento que o leva em direção a Diadorim traz marcas emblemáticas que fogem do que podemos considerar a heterossexualidade ou a homossexualidade. No seu inacabamento, a natureza de si e do mundo, vista por meio da experiência com Diadorim, traz à tona uma plasticidade mutante para os sentimentos, sempre inapreensíveis pela nossa lógica comum. O discurso normativo cede lugar a algo que precisamos construir com uma leitura atenta aos muitos detalhes e ganchos que Riobaldo vai deixando pelo caminho. Por isso, Grande Sertão é uma reflexão poderosa e angustiante sobre o jogo furta-cor distendido ao longo dos labirintos sertanejo-sociais vistos pelo prisma do narrador. Mesmo ao afirmar que agora se dedica à sua mulher, ainda pensa em Diadorim como sua “neblina”, com quem aprendeu a apreciar as belezas da natureza (p. 23). É a vigência da dualidade: andou pelo sertão ao lado da pessoa do seu bem-querer e acaba com a herança de duas saudades: a das idéias e a do corpo (p. 23-24). Tal ambivalência é mais uma bipartição entre sentimento e razão que, ao longo do romance, se vão trançando e se destrançando em seus jogos lúdicos de poetar sobre as singularidades plurais da angústia de existir/amar.

Se a virilidade de Riobaldo não causa dúvida, também não nos é permitido negar que sua sensibilidade clamava por complemento de “outra modalidade” e, se o amor por Diadorim não bastasse, temos de lembrar as vezes em que Riobaldo admira a beleza de outros jagunços. Mas, Riobaldo ama  Diadorim como homem e o que predomina na narrativa é o nível desta masculinidade, tendo em vista que ele é enfocado sempre deste prisma. Ainda: se Riobaldo conta em flash-back suas aventuras, conhecendo de antemão o seu fim, ele engrossa os espelhamentos ao infinito, porque nos dá as revelações fundamentais no início, como a morte de Joca Ramiro, a chefia de Zé Bebelo, a traição do judas, o pacto com o diabo etc. Só mantém a sete chaves qual é a identidade real de Diadorim. Enfatiza com isso ainda mais o seu amor por um homem, porque, mesmo sabendo que o homem não é homem, o narrador persiste nesta persona para que o próprio leitor, vicariamente, possa experenciar o fato também deste ângulo. E os outros membros do bando veem e reconhecem a relação entre os dois, mas nada comentam por medo de morrer e porque acabaram por se habituar com aquela relação. Noutros termos: a experiência vivida de ambos tem poder para enfrentar o universo dos conceitos cimentados. E a relação entre os dois é tão forte que Riobaldo afirma ter Diadorim colocado os rastros em tudo e ao próprio narrador seria impossível lembrar tanto para contar, só logrando isso porque em tudo está Diadorim (p. 25). Seu desejo pelo moço de olhos verdes leva-o à vontade de se aproximar, tocar, porém não se consente as “coisas que são feias” (p. 25), o que conduz ao recalcamento e à sublimação de sua paixão, energia essa acumulada na dedicação à guerra. Viveu num dédalo platônico sua paixão quando se aproximar do rapaz causava felicidade, não lhe sendo necessário pensar em mais nada (p. 25).

Procurando racionalizar sistemicamente, ele versa “em redondo e quadrados”, mas à medida que sufoca seus sentimentos sob as garras da convenção, percebe que seu coração não pode mais, enquanto o corpo muito sabe e “adivinha se não entender” (p. 26). Isto é, mesmo atuantes nele os regramentos sociais, os apelos físicos pelo moço – o corpo sabe – acabam ditando esta dimensão que Riobaldo nega encarar como factível. Aí ele encontra o “fogo em gelo daquela idéia”, (p. 27) enquadramento barroco e nítido de sua dualidade não assumida, mantenedora de uma paz frágil, quando basta uma trivialidade para fazê-lo perder seu “bom sentir”, como ocorre quando Riobaldo acredita que um mesmo bem-te-vi o persegue e Diadorim discorda, deixando-o inundado de intranquilidade (p. 28). Ele chega a revelar que já não tem vontade própria: “as vontades de minha pessoa estavam entregues a Diadorim” (p. 31). E ao constatar que este também é movido por ciúmes (na ocasião em que Riobaldo esteve com Nhorinhá), vê na atitude do rapaz uma prova de amor, contenta-se com isso, para logo em seguida prostrar-se na vergonha e se recusa a dar vazão e reconhecimento a tais sensações. Ele é um pêndulo, oscilando entre sua verdade íntima e pessoal e o cumprimento dos ditames externos, como se constata na passagem em que Diadorim põe a mão sobre o braço de Riobaldo e este é levado a sentir estremecimentos de ternura doce, para logo repelir os sentimentos: a mão de Diadorim na sua é “pedra pontuda” (p. 32). O remédio é recuar, enfronhando-se na autodefesa e mergulhando no desespero por não poder “dele gostar como queria” (p. 33). O amor incha pelo rapaz, empapa as folhas, move o homem rústico ao anseio do beijo (p. 33). Envergonhado de falar disso ao doutor, mantém a feição do destino tal como ocorreu e tendo em mira que o doutor irá embora logo, particularizar essas nuances, ordenar os fatos “é um segundo proveito – é como falar a si mesmo” (p. 33).

O esforço de Riobaldo em apagar as fissuras de sua constituição, perseguindo a amoldagem de seus apelos de base ao arranjo social, leva-o a sentir vontade de cobrir os olhos do moço para não sofrer com a beleza deles. O jagunço narrador não tolera “o chamado” (p. 38) ou o apelo sexual, “aquela beleza verde” adoecendo-o. E, acossado pelos problemas e mazelas da região inóspita do Liso Sussuarão, o sorriso de Diadorim redobra as ânsias de Riobaldo, ao mesmo tempo em que a voz daquele embala o corpo deste, fazendo-o sonhar com Diadorim atravessando o arco-íris. O narrador só faz lamentar não poder gostar “mesmo” do moço atraente. Enquanto no duro exercício de atravessar o Sussuarão bate a saudade da noiva, esta logo é nublada pelos olhos de Diadorim que o remetem a considerar o amor pela mulher com o valor de “prata”, sendo o amor pelo outro puro “ouro”. Vale dizer, diante de dois valores, ele opta pelo menor, contrai prejuízos, tão somente porque soou mais alto em sua ânsia o teor condicionante do contexto.

Como todo amante inseguro de si, o narrador aventureiro espera que o outro se declare, na cena em que buscam água num lugar escondido da mata (p. 50). Junto à natureza, próximo à água, o jagunço de todas as lutas é um Narciso transmudado, incapaz de contemplar a própria face e nela descobrir beleza em sua verdade pessoal. O silêncio do companheiro decepciona e na tentativa de esconder de si mesmo a desilusão, Riobaldo soçobra frustrado. Assustados por uma rã, logo eles, habituados à bravura do sertão, Diadorim acaba sumindo e Riobaldo interpreta essa atitude como evidência de culpa. Noutros termos: ele transfere ao outro uma culpa que é sua. E por ocasião do entusiasmo de Diadorim com a aproximação da guerra e a chance de romper adiante, “desta vez a gente tange guerra…” (p. 49), isso abre um duplo sentido a Riobaldo, conformando a nebulosa de uma promessa de delineamento para a situação entre ambos, o que afinal não ocorre, aprofundando ainda mais as frustrações. Por este viés, é possível entender que o pânico metafísico que envolve o desdobramento da narração não brota apenas de um pacto com o diabo. É fruto também de um pacto com a vida que ele não soube deslindar. Na encruzilhada, o vento poderia encarnar o mito demoníaco e acaba por representar, por seu lado, uma encruzilhada mais ampla e densa e, assim, mais devastadora, que está emanando da efervescência de pulsões difusas a pedirem por objetos nem sempre previsíveis: Riobaldo, um homem, ama Diadorim, um rapaz.

A decisão de Diadorim de assumir o comando do grupo leva Riobaldo a opor-se, não tanto por ser “louco amigo” dele, e por viver “a vexável afeição que me estragava, feito um máu amor oculto” (p .65), mas por isso mesmo, pois na função de chefia, fatalmente o rapaz seria dividido na atenção a todos e a possessividade de Riobaldo almeja conservar o outro somente para si. O enfrentamento entre ambos é olho a olho. A Riobaldo é necessário por isso mais bem-querer àquele valente. Ao desistir do cargo, Diadorim deixa Riobaldo aliviado e este vê o outro se aproximar e falar “muito de afeto leal”, “mel do melhor”. É nesta circunstância que Riobaldo sente-se movido pelo desejo de que eles “de repente” acordassem “de alguma espécie de encanto”, porque “as pessoas e as coisas não são de verdade” (p. 66). Ao chegar ao bando, Zé Bebelo traz novo alento aos jagunços. Riobaldo, por seu turno, não consegue empolgar-se, porque Diadorim, o “dos claros rumos” deixava-o dividido. Isso é marcante: a guerra é a própria justificativa de vida para um jagunço a qual dedica-se por completo. Riobaldo, preso a Diadorim, não tem mais tanta intensidade no chamamento e no empenho belicoso. Vê no moço a claridade. Compreende-se na escuridão. A antítese de tempero barroco é esclarecedora nas pegadas de um Riobaldo a perceber-se condenado e de tal modo que nem “pensa” mais no amor, está tomado por ele, inebriado por ele para sempre, e esta força projeta-se para a atualidade do ato de narrar: ao contar ao doutor os eventos de sua “travessia”, incorpora a feição do homem que amou/ama outro homem, transferindo ao interlocutor a sua aventura desventurada, como se coubesse a este destrinchar os nós do que fora vivido. Como Orfeu desce aos infernos na busca do seu amor, Riobaldo depara o amor primeiro a aflorar com força e obriga-se a descer aos abismos de si na tentativa de entender melhor ao mundo e a si próprio. Orfeu perde o amor ao duvidar dos deuses. Riobaldo perde o amor ao duvidar de si mesmo, e a efetivação com Otacília não lhe é suficiente. Após conhecer o “ouro”, a “prata” não lhe basta. Em consonância com a falta, entrega-se à poesia da criação, consubstanciando a presença de Diadorim num filtro inventivo a espraiar-se sobre a amplidão do universo, do qual extrai a “matéria vertente” (p. 78-79). O caos dionisicamente ordena os jogos entre a vida e a morte. Riobaldo adentrara os ciclos da natureza, sobre o que se distende a sombra luminosa de seu amor e agora estabelece, no ato de narrar, o ciclo passional e não o apaga, mas o revitaliza, nuance após nuance, para que ele seja ofertado inteiro ao  ouvinte/leitor.

O resgate de Diadorim ganha vigor ainda mais significativo na passagem em que é descrito o primeiro encontro entre os dois. Na qualidade de crianças, sem premência de qualquer disfarce, Diadorim já é um “menino” e Riobaldo demonstra possibilidade de erotizar-se com ele ao receber a mão do outro como apoio para descer o barranco. Idêntico ao que vai ocorrer depois, Riobaldo tem aguda consciência daquela mão: bonita, macia, quente e tal percepção o envergonha. O medo crescente de estar na canoa é diluído pelo esmalte dos olhos verdes “de folhudas pestanas”, capazes de acalmar. Aquele menino lhe dá a sensação de conforto. É suave, asseado, forte. Vê as roupas limpas “formosa simpatia” (p. 83) e deseja ter seu afeto (p. 79-82). Diante do temor apavorante, Riobaldo assiste aos olhos do menino escurecerem, depois retomam o brilho. E novamente a mão daquele sobre a de Riobaldo leva o narrador à percepção de que ela “ficava fazendo parte do melhor da minha pele, no profundo”, como se “désse a minhas carnes alguma coisa” (p. 84). Note-se que a experiência guarda singularidade, ao comprovar Riobaldo que as demarcações dela agiam no seu “profundo”, aí deixaram ecos para sempre e tornavam-se o melhor de sua pele: o menino que era Riobaldo passa por nova textura, nova investidura no contato com o parceiro. E ele amanheceu sua aurora (p. 84). O romantismo de contemplar o amigo sentado com um talo de capim entre os dentes é rompido pela aparição do negro abrutalhado e, contagiado pela coragem de Diadorim, Riobaldo tem um prenúncio do futuro: ao atravessar o sertão, ao adentrar a maturidade, a vida vai-lhe impor o desafio de amar com verdade alguém e dessa iniciação florescerão as águas do malogro ao reconhecer-se carente de envergadura para encarar a guinada. O menino-outro é personificado no uso da letra maiúscula. É, portanto, uma entidade mítico-real a propor o enigma, tanto que Riobaldo quer saber do doutor qual o significado desse acontecimento. Mesmo na idade adulta, ainda sente-se incapaz de destrinchar o fado e joga todo seu empenho em narrar: a palavra redescobre o vivido, instaura “um” sentido. Narrar para ele é busca, o modo de evitar o esmagamento da morte, é a forma de manter a chama operante na esperança de iluminar os escaninhos internos.

Os pássaros, até então apenas recursos de sobrevivência, adquirem novo talhe para Riobaldo. Por ação de Diadorim, configuram agora a vida, num valor mais denso. E o moço dos claros caminhos vai abrindo seu tecido existencial e sensível para a natureza. Riobaldo, magnetizado pelo que a natureza lhe revela, obriga-se a constatar que, se isso fosse feito por outro, consideraria “coisa de frouxo.” Contudo, o ser homem de Diadorim, a sua virilidade estampada em seu modo de atuar, garantem-lhe o direito à delicadeza e à suavidade. O homem Diadorim, convicto do seu estatuto particular não esconde suas predileções e é tão seguro de si. Sabe que é homem para os outros, para Riobaldo principalmente, sabendo diante de si mesmo que é mulher. E age nas duas frentes, consciente de que uma face não eclipsa a outra. A evidência de sua virilidade é tanta que não leva Riobaldo a dúvidas, pelo contrário, este respeita em Diadorim sua especificidade e ele, Riobaldo, acostumado a lidar com brutos e brutalizados, não apenas aceita a forma de ser homem de outro, como o ama também por isso. E assim ele vai desdobrando nova percepção da masculinidade.

As alterações provocadas em Riobaldo por Diadorim passam inclusive pelo maior cuidado com a aparência. Ou seja: o jagunço não tem pruridos em cuidar-se para ficar mais apresentável e atraente para outro homem. No embalo lírico em que mergulha o narrador ao retomar e reviver seu passado, está acentuando-se o grau de amor que um sentia pelo outro, a tal ponto de Riobaldo ver-se obrigado a interromper o fluxo do que conta para reafirmar sua virilidade. São inúmeras as referências que acentuam a linguagem do amor pelo moço, enquanto este se move em sua condição de homem. Todavia, na dilaceração da topografia romanesca, até como contraste, é justo chamar a atenção para um detalhe sintomático: no ponto em que passa a narrar como conheceu Otacília, Riobaldo afirma seu amor por ela e enfronha-se num discurso muito mais despojado, sem a exuberância ansiosa dos torneios criados para animar a presença de Diadorim.

Ao namorar Otacília, as chaves do destino ficam mais embaralhadas e ele opta por renegar o afeto ao rapaz, sentindo, entretanto, que é dele que mais gosta, razão de estar ainda tão claro hoje em sua mente  (p. 149). Antecipando o conforto de um casamento, ele prevê as festas, o deslizar do cotidiano, mas nenhum lance erótico desponta, como são constantes nos devaneios com Diadorim (p. 151), em quem encontrava força até para a guerra. Basta lembrar que, antes de mergulhar na luta contra Zé Bebelo, ele aperta a mão de Diadorim (p. 154), como se dali extraísse a substância da coragem e o passaporte para a sobrevivência. E na ocasião em que revê Otacília, faz questão de frisar que saiu da fazenda em companhia do moço, como a não permitir no interlocutor/leitor qualquer hipótese de esfriamento do drama. “Diadorim, os rios verdes” é que corre na verdade de suas veias e o leva à constatação por meio de filosofemas poéticos: “qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura” (p. 236). A saúde aí pode ser entendida como a unidade retecida, enquanto a loucura é o desvario de uma vida apartada, longe de complemento híbrido como seria Diadorim. Porque alegria sua apenas seria Diadorim, esse por quem alimentava “senvergonhagem” e fazia-o sentir-se turvado (p. 238), abria seus “estados escuros” (p. 239), num labirinto que escapava ao cerceamento racional até então eficiente. Riobaldo, rompido por Diadorim, está descentrado, em razão do que vaga errante pelo mar verde do sertão, consciente das “prisões refincadas no vago, na gente” (p. 240). Diadorim abriu-lhe a hipótese do re-sentido da vida. E o jagunço tenta fugir pensando em mulher, “mas” o mundo lhe dá outras notícias que passam pela refração de Diadorim. E mesmo ao considerar que a solução de sua vida só pode brotar do diabo, é nos olhos de Diadorim que ele encontra a luz (p. 308).

Por pensar muito e exercitar-se na reflexão que ampliava a vida é que Riobaldo acaba entendendo que um amor como o experenciado também formaria sentido. Sem condições de tal amor enraizar-se no presente deles, ele esvai-se para as paragens edênicas do futuro, quando todas as contradições estariam superadas e eles aí viveriam distanciados da “lei do rei”, fundeados num mundo pleno e “deles.” É no igual que Riobaldo sente o eco mais pródigo de sua plenitude: “natureza da gente não cabe em nenhuma certeza” (p. 315). Incerto por incerto, ele preferia estar com o prazer, porém acaba com Otacília que regula a vida, sem lograr fornecer-lhe o sentido da existência que via desenhado no moço. Frente à abertura de um mundo em que todas as coisas necessitavam de reordenação, mundo este encarnado em Diadorim, o narrador opta pela facilidade de seguir um escoadouro já demarcado: a mulher.

Não contando no início da sua epopeia a identidade feminina de Diadorim, ele faz o doutor compartilhar a “travessia”, “para divulgar comigo a par, justo o travo de tanto segredo” (p. 453). Não deixa de suscitar interesse o recurso usado por ele em não afirmar que Diadorim “é” mulher, mas “tem” corpo de mulher, como se acima do incidental e contingente do aspecto físico, perdurasse o homem Diadorim que ele amou e não soube/pôde manter junto de si. Diadorim morto, Riobaldo obriga-se a uma viagem sentimental ao passado do moço na procura de reconstituir aquela história. Encontra tão somente uma certidão de batismo com o nome da moça, isto é, depara-se apenas com um papel de mera, simples e secundária formalidade dos aparatos sociais. E mesmo o nome de mulher de Diadorim não impede Riobaldo de continuar a ter saudade “dele”, a pensar “nele” (p. 457-458).

Junto destas considerações, poderíamos aprofundar a questão da morte de Diadorim. Por que só com a morte lhe foi permitido “assumir” o papel de mulher? Cremos que para Guimarães Rosa há o interesse em ilustrar a falácia armada em torno da “atração sexual” ser possível ao homem apenas em relação à mulher, como uma relação de complementaridade. Ultrapassando o destino da mera procriação, tudo perde nitidez, quando tocamos no campo do erotismo. A realidade em-si de Diadorim teria resolvido todos os problemas: o macho seria simplesmente atraído pela fêmea. Ocorre que o disfarce traz em pauta algo mais profundo que é a questão do gênero, construto social que deságua no masculino, feminino, homossexual etc., quando nenhuma imanência ou essencialidade é possível. Os critérios genitais não bastam. Afinal, como já escreveu alguém, biologia não é destino. Rosa, com seu minucioso e barroco painel mostra uma alma esfrangalhada e o quanto tudo é dúbio, o quanto tudo é jogo e como a liberdade do indivíduo é cerceada em nome de papéis sociais ou construída por eles. Não foi a roupa que tornou Diadorim mulher, mas foi a roupa que impossibilitou o encontro efetivo entre eles e esta mesma roupa, que o torna “homem”, é o chamariz para as emanações afetivas do narrador. Entre o  “grande sertão” de cada um e suas “veredas” há infinitos espaços que só podem mesmo ser compreendidos quando atravessados com o corpo tornado socialmente existente (MICCOLIS; DANIEL p. 41).

 

 

Referências bibliográficas

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

DORAIS, Michel. O homem desamparado. Trad. Yvone M. de Campos T. da Silva. São Paulo: Edições Loyola, 1994.

LÁZARO, André. Amor: do mito ao mercado. Petrópolis: Vozes, 1996.

MICCOLIS, Leila; DANIEL, Herbert. Jacarés & Lobisomens: dois ensaios sobre a homossexualidade. Rio de Janeiro: Achiamé, 1983.

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 7 ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970.

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[1] LÁZARO, André. Amor: do mito ao mercado. Petrópolis, 1996, p 13. Todas as citações desta obra serão feitas a partir desta edição, com o número da página correspondente indicada no corpo do texto.

[2] ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 7 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970, p. 19. Todas as citações deste romance são feitas a partir desta edição, com o número da página correspondente indicada no corpo do texto.

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