JEAN GENET POR EDMUND WHITE

GENET: uma biografia

Edmundo White

Record         782 p.

 

Edmund White tornou-se conhecido entre nós pelo menos por três grandes romances: Um jovem americano,  O quarto vazio  e O homem casado. Ele serve de modelo para aqueles que, no Brasil, fazem ou tentam fazer literatura gay, que pode ser gay, mas não é literatura. Não há, nesses livros brasileiros, prospecção nos conflitos dos personagens, não há trabalho burilado com a visão de mundo, não há preocupação em sondar a “descoberta da sexualidade” e, muito menos, um mapeamento convincente dos desacertos desta identidade e seus desdobramentos frente ao que se pode chamar “mundo heterossexual”. Os personagens são fantoches reduzidos da cintura para baixo e suas experiências narradas estão a um passo da reles pornografia.

Edmund White escapa de tudo isso. Como bom romancista traz para o perímetro do texto uma estampa da homossexualidade como questão humana que tem suas especificidades, mas não é algo que nada tenha a ver com o outro reverso da medalha. Moldando tramas complexas, o plurilinguismo, que é um traço enriquecedor do romance em si, é uma de suas ferramentas a dar densidade ao narrado e aos personagens. Com isso, ele nos mostra como o ser humano pode ser multifacetado e não apenas reduzido à genitalidade. Seus personagens são contraditórios, tensos, em constante agonia e nunca animais sexuais como o são os de vários autores brasileiros que transitam por esta área, dentro de uma ótica que pretende ser desmascaradora de tabus e só confirma os preconceitos e a inclusão num gueto sem saída.

Agora, o autor americano nos apresenta a monumental: Genet: uma biografia. Como todos sabem, Jean Genet era homossexual assumido. Mas, para White, não importa lançar luz apenas sobre esta prática de vida. Boa parte do cartapácio de 782 páginas é uma análise detalhada e bem fundamentada da obra deste escritor maldito e já clássico das letras francesas. E a questão fundamental é justo esta: como alguém, sem praticamente nenhuma educação formal, que passou boa parte da infância e da adolescência em instituições correcionais, chega a dominar tão bem a língua francesa a ponto de se tornar um dos luminares de sua literatura. A resposta está no trajeto de leituras assíduas feitas pelo romancista e teatrólogo, o que suplanta o simplismo de gênio que anda muito em moda, impulsionado pelo romantismo míope de Harold Bloom. Mergulhando do que havia de melhor nas letras francesas, Jean Genet soube extrair dali tons e modulações que enformaram seus escritos. Além disso, o escritor escatológico não se deixou levar pelo narcisismo adolescente de se considerar criatura com dons inatos. Escrevia e reescrevia inúmeras vezes suas obras, nunca estando satisfeito com o resultado final.

Outra ênfase de White é a preocupação em nos trazer um perfil do Jean Genet engajado. O fato de ele haver abraçado a causa dos palestinos, dos Panteras Negras e de todos os explorados do seu tempo, mostra uma outra face do artista, além daquela mais conhecida, que é a do homossexual que faz do crime, da traição e da prisão um modo de vida que o afastou da vida burguesa. Além disso, Genet nunca se recusou a construir ou reconstruir a vida de seus amantes. Quando passou a ganhar dinheiro com a publicação das obras, dedicou-se a edificar as casas em que aqueles iriam morar, mesmo nas ocasiões em que casavam com mulheres, e mantinha suas famílias como se fossem suas.

O biógrafo também se põe no encalço de seguir Genet em seus tortuosos caminhos das amizades com Sartre, Cocteau e muitos outros intelectuais de ponta, não deixando de lado as espantosas desavenças que surgiam neste panorama escorregadio que é a convivência de artistas da mesma área, com os narcisismos à flor da pele e sempre cheios de suscetibilidades. E um dos pontos altos da biografia será justamente o paralelo minucioso entre o que Genet escreveu e o estudo também clássico de Sartre a respeito dele: Saint Genet – ator e mártir, já publicado entre nós. White mostra que nem todas as colocações de Sartre estão de acordo com as correntes estéticas e factuais da vida/obra do escritor enfocado.

Revelando a carpintaria dos romances, escritos num curto espaço de tempo, das peças de teatro e de poemas, White consegue nos trazer uma feição bastante densa deste escritor cheio de altos e baixos e que ainda tem muito a nos dizer. Com mais de 80 páginas de notas de rodapé, o biógrafo comprova a prospecção em documentos para cada passo em que avança, escapando do amadorismo impressionista. Publicado pela Record, na Coleção Contra.luz, o livro tem tudo para ser um dos grandes acontecimentos editoriais do ano (2003). Nestes tempos de cinismos e friezas, quando cada um pensa que o sentido da vida está em cuidar da própria horta, o esforço de Genet em lutar pelos trabalhadores imigrantes na Franca, aponta para o território que deve ser seguido por qualquer um que pretenda a posição de intelectual: engajar-se pela mudança do mundo. Escrevendo poemas, ensaios, peças, romances “barrocos” e roteiros de cinema, ele põe diante de nossos olhos toda a inquietação de sua mente que supera em muito a atmosfera de escândalo a que muitos ainda reduzem seu nome.. Os sete anos de pesquisa de White para este trabalho mostram o porquê, antes de tudo, Genet continua maldito: não aceitou a canga dos sistemas a que tentaram subjuga-lo e fez da escrita uma lente de aumento para denunciar os abusos do poder.

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