HEMINGWAY EM PARIS

HEMINGWAY E PARIS : um caso de amor

Benjamim Santos

                                                                                                Gryphus                                                         271 p.

Benjamim Santos realiza neste livro uma pesquisa minuciosa sobre as temporadas de Hemingway em Paris. Uma pesquisa que se torna indispensável a quem quiser conhecer facetas deste fabuloso escritor. A seguir damos um panorama do que trata a obra.

Como é de praxe na teoria e crítica literárias, não se aceita que a obra de um escritor seja explicada pela sua vida. Mas com poucos autores, como Hemingway, ambas se confundem tanto. Para ele, a imaginação contava pouco e afirmava não escrever sobre o que não conhecia. Isto não quer dizer que sua produção seja autobiográfica, porque há um narrador refratando as experiências, ficcionalizando-as, ainda que o autor-criador, voz da estética, se aproxime muito do autor-pessoa, componente da vida concreta. Se pensarmos em Nick Adams, uma espécie de alter-ego do escritor, os contos com este personagem não são um retrato de Hemingway, tendo em vista a ótica do escritor que é seguir a trilha do que conhecia, , mas os lugares em que Nick está e o seu próprio campo de experiência são muito paralelos aos lugares visitados por Hemingway e os fatos narrados têm proximidade com o que o autor havia vivido.

Já em seu primeiro romance, o autor coloca o personagem vagando pelas ruas de Paris, uma cidade que Hemingway amou com paixão e onde teve vivências marcantes que terão acento em sua obra. Aliás, como em Paris é uma festa, Paris é a festa móvel, o lugar que sempre o acompanhará onde quer que esteja, seja como lembrança, seja como cenário afetivo-estético para a localização de suas tramas.

Na década de 20 do século passado, Hemingway e Paris iniciam um caso de amor, apesar da proximidade que o rapaz já mantinha com a Itália e a paixão nascente pela Espanha. Viveu dez anos em Paris e escreveu sobre a cidade ou fez citações sobre ela em quase todos os gêneros em que se aventurou. Mas nenhum de seus enredos toma Paris como o centro absoluto, salvo um conto, “Mudança de ares” que se passa num café parisiense.

Enquanto grandes artistas morrem na última década do novecentos, encerrando a grande arte do século 19, durante a década de 1880 nasceu uma leva de outros grandes nomes, entre eles, Hemingway, em 21 de julho de 1899, em Oak Park.

Sua vida parece um roteiro de filme: aventuras, perigo, pescarias, caçadas, corridas de bicicleta e touradas e cavalos, esportes, vários acidentes, ameaças de suicídio, muitos suicídios de pessoas que lhe são próximas, brigas de galo, boxe, pancadaria, amor, ciúmes, infidelidades, divórcios sequentes, armas, contrabando, safáris na África em que dizimava animais como um matador sanguinário, para o que explicava: “Emprego um tempo considerável em matar os animais para não ter de me matar. Além desta série infinita de ocupações, ele sofreu desastres aéreos, passou por duas grandes guerras, teve muito trabalho na elaboração de seus escritos, sofreu de depressão seguidamente, mania de perseguição, internações, choques elétricos e o suicídio final numa manhã de domingo, enquanto sua esposa ainda dormia.

Desde os 23 anos Hemingway escreveu bem. Aos 27, passa a vender o que escreve e ganha um bom dinheiro até que, ao longo da maturidade, chega a enriquecer com o que produz. Rejeitou a vida social americana e exila-se em Paris, depois numa ilhota num lago da Flórida e em Havana, em sua fazenda. Passou a ser modelo dos leitores e de novos escritores. Seus contos secos, curtos, deliberadamente pouco literários, lembrava, como diz Eustáquio Gomes, pequenas vinhetas de jornal, mas extremamente bem feitos. Experimentava uma nova técnica de escrever, consistindo tal técnica em ser o mais simples e verdadeiro possível. O que também contribuiu para sua posição de modelo foi a harmonia entre a vida e a obra criada. Nada parece imaginário ou fictício. Ao mesmo tempo, nada parece real, tudo distante do leitor comum sem chances de viver tantas aventuras como as relatadas. Entre os biógrafos, há os que o admiram e os que o rejeitam, acusando-o de predador da natureza, machista, exibicionista, impotente e homossexual enrustido.

Vida e obra estão intimamente ligadas, como que fundidas num processo que não chegou a ser confessional, mas tirou da experiência vivida a seiva fundante de cada narrativa, sejam as curtas, sejam as mais consistentes, apresentadas nos romances.

Para ele, viver é estar sempre em condição de perseguido ou perseguidor, até perceber que no final o vencedor nada leva, lembrando o nosso machadiano “ao vencedor as batatas.” Ou como ele diz em Adeus às armas: “Se alguém vem ao mundo com muita coragem, o mundo tem que matá-lo para poder dobrá-lo, e de fato o mata. O mundo dobra qualquer um e muitos continuam fortes mesmo nas partes que foram dobradas. Mas os que se recusam a serem dobrados ele mata. Mata os muito bons e os muito delicados e os muito corajosos. Se você não é nenhum desses será morto também, mas não há pressa.” Ou ainda no mesmo romance: ” O que se faz é isto, morre-se. E nem se chega a saber do que é que se trata. Nunca se tem tempo para aprender. Nos jogam aqui, nos dizem quais são as regras, ao primeiro erro nos liquidam.” Por estas palavras, podemos perceber um traço de desencanto, de niilismo, de perplexidade em Hemingway, uma das razões, possivelmente, para ele entregar-se com tanto denodo a aventuras perigosas em que muitas vezes beirou a morte ou chegou a ser dado como morto.

Circuncidado pelo pai, sem anestesia, esta operação iniciou-o no mistério da dor sob as mais diferentes modalidade, o que é uma das chaves para lermos suas obras, em especial romances como Adeus às armas, Por quem os sinos dobram e O velho e o mar.

Recebeu do pai a lição de que jamais caçasse se o animal não fosse da servir de alimentação, lição que esquece quando fazia verdadeiros banhos de sangue, matando desde rinocerontes até perdizes e racionalizando, achando-se que era apenas um incidente na vida dos animais que de qualquer forma iriam morrer.

Na cadeira de Redação Literária, aprendeu como repudiar a afetação, o maneirismo, os clichês, o sentimentalismo piegas nos textos. Daí vem a encantadora simplicidade estrutural de suas frases, o uso discretíssimo de adjetivos e a total renúncia a metáforas e aos artifícios de linguagem. Deste modo, ele superava as técnicas tradicionais de descrição. Além disso, uma claridade intensa perpassa a situação dramática de cada conto e o desenrolar de cada romance.

Ao terminar o curso secundário recusa-se a ingressar na universidade e fará seu curso de jornalismo e literatura por conta própria, enfrentando a prática diária e a leitura como as melhores formas de aprender.

Tem seu primeiro emprego como repórter no Kansas City Star, encarregado das reportagens de rua, o que o obriga a viver em contato com gente do tráfico de drogas, assassinos, prostitutas, parcelas marginais de uma cidade repleta de imigrantes.

Em 1918, ele se inscreve como recruta voluntário para dirigir ambulância da Cruz Vermelha na Itália. E segundo nesta trilha, terá experiências marcantes, depois descritas nas aventuras de Nick Adams e especialmente, em Adeus às armas. 

Quando Hemingway nasceu, Paris é o centro do mundo artístico e está sendo reurbanizada. Montmartre é o bairro preferido de artistas e boêmios. A cidade é tomada pelos apaches, rapazes de origem pobre, nascidos em bairros populares, que viram suas famílias serem expulsas dos seus lugares para morar mais longe. Criam para si um código de vida e com suas ações perturbam as classes médias e alta da cidade, que querem viver o brilho da cidade luz, como se não houvesse pobreza ao redor, uma das contradições da belle époque, até que esses apaches são engolidos pela própria sociedade em que pretendiam se inserir.

Quando a primeira guerra se aproximava do fim, Hemingway, como 19 anos, desembarca em Paris pela primeira vez e conhece um novo mundo mergulhado em sangue e morte. Estando próximo do campo de ação, isso iria marcá-lo e fazê-lo romper com todo um estilo de vida que tivera até então na América. Com pouco mais de 18 anos, um metro e oitenta de altura, 75 kg. parecerá mais velho do que é, o que ocorrerá por toda a sua vida. O futuro repórter de guerra que irá se manifestar nos trabalhos como correspondente desponta nestes primeiros dias de Paris.

Indo para a Itália, os jovens são distribuídos por zonas de necessidade. Hemingway foi para Schio, no meio dos Dolomitas, onde se pôs a trabalhar, transportando soldados feridos. Mas queria estar mais próximo da ação. Então se transfere para Fossalta, para a cantina do posto de socorro, encarregado de suprir as necessidades dos soldados nas trincheiras. É ali que tenta socorrer um soldado ferido, pendurando-o no ombro e correndo para o posto de socorro. Hemingway foi atingido nas pernas. Mesmo ferido, carrega o rapaz por uns cem metros, Mas o soldado já havia morrido e Hemingway acaba com dezenas de estilhaços de granada enfiados nas pernas e na genitália. É levado para o hospital de Milão. Era julho, mês em que nascera e em que haveria de morrer. Ali conhece Agnes von Kurowski com quem vive seu primeiro caso de amor intenso. Ao voltar para a América, tem a certeza de contar com um grande amor, Agnes, que continua servindo à Cruz Vermelha, antes de se casarem, como ele esperava.

Em 19, desembarca em Nova Iorque como herói nacional. Recebe cartas da amada e as responde com paixão. E começa a escrever com mais afinco contos que são sistematicamente recusados pelos jornais, numa época em que estava decidido a viver de literatura. Em março vem o terrível choque: carta de Agnes rompendo o namoro e garantindo que estava apaixonada por um duque italiano. Hemingway ficou atordoado e começa o período mais conturbado de sua juventude.

No final de 19, é conhecido pela família Connable que o convida para fazer companhia ao filho mais novo, jovem com deficiência mental causada pelo nascimento a fórceps. Hemingway o ajudaria indicando-lhe um sentido para a vida. É mais uma experiência com a dor, com o limite humano, com a deficiência de nosso gênero, como nossa capacidade para as falências múltiplas.

A mãe de Hemingway passa a discordas do estilo de vida do rapaz. A relação entre eles torna-se tensa, talvez uma das razões de não haver mães na obra de Hemingway.

Neste período conhece Sherwood Anderson, 43 anos, e escritor de sucesso. Conhece também Elisabeth Hadley e começam a namorar. Ele está decidido a voltar para a Europa e tornar-se escritor. Em 21, passa a escrever artigos para o Toronto Star. Decide escrever um romance em que o personagem é Nick Adams. Mas tem uma crise de depressão provocada pela insônia e pensa em suicídio. Em 3 de setembro de 21 casa-se com Hadley e mora com ela em Chicago.

Pretendia fixar residência na Itália, mas Sherwood afirma que Paris é o centro literário internacional e se ofereceu para escrever cartas de apresentação. Hemingway decide-se por Paris e parte em dezembro. Estava convencido a empenhar tudo o que tinha de bom: aptidão, vontade, disciplina, capacidade de trabalho, inteligência e sensibilidade. Foi então que Paris o seduziu para sempre. Sepultada a primeira guerra, a belle époque se tornara passado. O café mais frequentado chama-se La Closerie de Lilás. Montparnasse se tornava o centro dos artistas, o jazz invade a cidade. Paris que já assimilara a fase verde e rosa de Picasso, o Fauvismo, o Cubismo, além de Impressionismo, andava mergulhada no Dadaísmo e no Surrealismo. Nesta época, saíram para o mundo as duas obras literárias mais importantes do século: Em busca do tempo perdido  e Ulisses.  Fora da França, saiu A montanha mágica (24), O processo (24), O castelo (26). E em Paris reinavam a inteligência, a lucidez, a sensibilidade e a criação, torando-a capital do mundo das artes.

O casal Hemingway chega a França três dias antes do natal de 21 e foram morar no 6 arrondissement, no coração da rive gauche. Moram num prédio perto da Place de La Contrescarpe que aparecerá várias vezes na sua obra. Ela tem 22 anos e se deixou seduzir por Paris.

Ali ele faz seu curso superior, individual e privado, na prática do jornalismo e da literatura. Algo que atraiu Hemingway foi sentir-se dentro de uma cidade que lê. Cinco meses após ter chegado, seu conto “Um gesto divino” é publicado pela revista Double-Dealer, de New Orleans.

Faz amizade com Ezra Pound e Sylvia Beach. Frequenta o apartamento de Gertrude Stein, mulher de estilo erudito e renovador e é assíduo da livraria de Sylvia. Gertrud Stein julgou as primeiras histórias do rapaz, deu-lhe conselhos, mostrou-lhe caminhos, mas foram as leituras de Hemingway o determinante para seu desenvolvimento. Ulisses é publicado em 2.2.22, Hemingway leu e se empolgou com a liberdade no uso da palavra. Com Sylvia, descobre os russos que irá reverenciar por toda a vida: Turguêniev, Dostoiévski, Tchecov.

Em 23, publica um plaquete: Três contos e dez poemas. Depois, jamais publicará poemas. Só após sua morte vem à luz uma antologia contendo 88 poemas.

Faz contrato com a Three Montains para publicar Em nosso tempo, um livro de contos e no final do verão parte com a mulher para Toronto, encerrando sua primeira fase parisiense. Em nosso tempo foi lançado em Paris numa edição artesanal de 170 exemplares, com 32 páginas e 6 contos miniaturas e 12 contos um pouco mais longos, sem títulos.

Em janeiro de 24, o casal volta a Paris já com o filho Bumby. Desligado do jornal, o jovem trata de intensificar o rigor consigo mesmo na disciplina do trabalho de escrever. Decidido a viver de literatura, precisava ganhar dinheiro com ela, mas os contos continuam não aceitos pelas revistas.

Na revista Trasantlantic surgem as primeiras críticas aos seus dois livros e um conto inédito, além de alguns trechos de Finnegans Wake, reunidos numa seção chamada Works in progress. Numa viagem a Espanha, encontra a trama que precisava e escreveu a primeira versão do que seria seu primeiro grande livro: O sol também se levanta, título extraído do Eclesiastes. É Hemingway com 26 anos e trabalhando com três componentes que o acompanharão vida afora: Paris, Espanha e personagens americanos.

Reunindo novos contos, com o surgimento definitivo de Nick Adams ferido na Itália, apaixonado por uma enfermeira que o abandona, sai nos EUA outra edição de Em nosso tempo. A crítica o recebe bem, mas o público o ignora.

Nesta época, Hemingway conhece Pauline Pfeiffer, se interessa por ela e acaba se separando de Hadley. Durante o período de separação prepara um livro de contos chamado Homens sem mulheres, em que não há lugares para mulheres na vida de boxeadores, assassinos e outros invencíveis. O estilo de Hemingway está definitivamente desenvolvido, um estio que será o trauma de todos os escritores americanos da geração seguinte que lutarão contra ele. Parte de o O sol também se levanta é um flagrante da vida parisiense nos anos 20. É a Paris sem os parisienses, com a vida bizarra dos estrangeiros que estavam ali depois da guera aproveitando a boa cotação do dólar. São boêmios americanos ricos, escritores pobres, jornalistas, toda uma gente que vivia de modo estranho aos costumes da cidade e que praticamente ignorava a cultura francesa. Gente sem sentido na vida, sem rumo definido, a torturar-se mutuamente. É a geração perdida, escritores que haviam vivido a Grande Guerra e buscavam se situar numa Europa em restauração. Com o lançamento do romance em 26, Hemingway passa a ficar conhecido na América, o escritor do momento e também faz inimigos: as pessoas que se sentiam retratadas no livro.

Em maio, casa-se pela segunda vez, agora numa igreja católica e converte-se ao catolicismo. Em março de 28, começa Adeus às armas, mergulhado em suas recordações da Itália. Como catarse, recria em dimensões líricas e trágicas os momentos mais dolorosos e felizes de seu tempo de guerra. É seu romance mais amoroso, mais juvenil e trágico. E 28 termina com a surpresa do suicídio de seu pai. Robert McColmon, que editara seu primeiro livro, começa a espalhar que Hemingway é homossexual, impotente, o que será usado sempre que alguém se puser a interpretar o machismo e o fascínio de Hemingway por aventuras perigosas.

Em 34, indo para a África, passa uma temporada em Paris que, agora, já considera um enorme equívoco e gostaria de estar em Key West. É a decadência dos amigos que o faz pensar assim. De volta a Key West, trata de transformar seu primeiro safári em livro e escreve As verdes colinas da África, misto de reportagem e literatura. Ainda decorrente desta experiência, escreve dois de seus melhores contos e os mais longos: “A breve e feliz vida de Francis Macomber” e “As neves de Kilimanjaro.”

Por quem os sinos dobram sai em 21 de outubro de 40, quando estava tratando de seu segundo divórcio. Ao ser este concretizado, 16 dias depois se casa com Martha Gelhorn. Já viviam há quatro anos como amantes. O casal se fixa em Cuba, onde Hemingway comprara a Finca Vigía, a cerca de 15 km. do centro de Havana. Fala a Marta sobre suicídio, explicando como colocar o cano da espingarda sob o queixo e acionar o gatilho com o pé.

Com o casamento já desandando, Marta não quis ficar na Finca, se podia estar na Europa, no meio da Segunda Guerra, buscando notícias. Era mais rebelde e independente que as duas primeiras mulheres.

Hemingway desiste de caçar submarinos alemães e no outono de 44 assina contrato com a revista Collier´s para atuar como correspondente de guerra. Ele acaba desembarcando com as tropas na Normandia, no famoso dia D. Conhece Mary Welsh, repórter de moda do grupo Time-Life e logo se tornam íntimos.

Em 46, quando Hemingway, em Cuba, iniciava nova vida casando-se com Mary, Gertrud Stein morreu, depois de passar muitas privações na guerra.

No inverno de 49, em Veneza, Hemingway escreveu dois livros infantis: O bom leão  e O touro infiel, publicados em 51. Foi grande sucessona Itália. No ano de 52 ocorre o suicídio de uma empregada do casal, em Finca Vigía, e é o ano de O velho e o mar, lançado inicialmente em número especial da revista Life, com uma tiragem de 5 milhões de exemplares, vendidos em 48 horas. Dedicado a dois amigos, era o reconhecimento pela amizade de tantos anos e pelo correto trabalho editorial que recebera deles. Desde que chegara ao Golfo, o autor guardou na memória um caso que lhe fora contato por pescadores: um velho luta sozinho para vencer um peixe de 400 kg., consegue prendê-lo à canoa e depois o perde para os tubarões. Quando se decidiu a escrevê-la, anos depois, planejou-a como parte de um longo romance dedicado à terra, ao mar, ao ar. Pela primeira vez escreveria a partir de uma história que ouviu contar, que não havia vivido, nem criado. Sua experiência de pescador, porém, era fundamental e por ela a história deixava de ser “por ouvir dizer”. Incorporada, se tornara sua. Pela veracidade que perpassa todo o livro, o mundo inteiro leu O velho e o mar  sem achar que fosse uma história de pescador. É o único de seus livros em que não há personagem de seu país, a não ser nas citações a Joe di Maggio, aquele jogador de beisebol que foi casado com Marilyn Monroe e que, depois da morte dela, mandou colocar uma rosa vermelha em seu túmulo todo dia. E nem se sabe se é americano o casal de turistas que no final passeia pela Esplanada e vê um enorme espinhaço de peixe flutuando no mar.

A história do velho é simples e evocativa. Depois de 84 dias de azar absoluto no mar, Santiago pesca um gigantesco espadarte. Trava com o peixe uma batalha de resistência de 48 horas, como se sua vida, e não a do peixe, estivesse em jogo. Quando o velho consegue matar o peixe e amarrá-lo no costado do barco, e começa a voltar para casa, um cardume de tubarões ataca o troféus e o reduz a um punhado de ossos.

Todo mundo ficou intrigado e tentou desvendar esta história, no que tem de deslumbrante e fértil, e ao mesmo tempo de descarnada. Na verdade, Hemingway conseguira fazer uma eficiente parábola sobre a condição humana. O homem luta para, no fim da vida, perder não menos que tudo. Assim aconteceu com Twain, Melville, Conrad e Thoreau. Aconteceria também com Hemingway. Há analogias com a tourada na arena, toureiro e touro estão sozinhos, mas diante da multidão.Santiago também está só a perseguir o peixe e levando dele só o esqueleto – “O homem pode ser destruído, mas não derrotado.” É uma lição de viver e morrer, dentro de um título que Cesare Pavese já havia usado: Il mistiere de vivere (Carpeaux). Uma ode triunfal em que se mistura vida e morte, tenacidade e fraqueza, júbilo e humilhação. Mesmo assim o homem não desiste e, mesmo chegando com nada – no fim todos perdem – não desistiu de seu objetivo que era a pescaria.

O ano de 53 é o do prêmio Pulitzer para este livro. O mais importante prêmio literário dos EUA. Em 54 recebe o Nobel, essencialmente motivado pelo O velho e o marI e não pelo conjunto da obra, concorrendo com estrelas como Ezra Pound, Paul Claudel e Albert Camus.

Desde sua juventude, nosso autor considerou que, em caso de desespero, o homem deve escolher a morte como saída. Mesmo sendo homem forte, a partir dos acidentes na África, o vigor e a saúde dele perderam-se para sempre. O olho esquerdo ferido pela unha do filho quando este era pequeno e o ouvido esquerdo jamais se recuperaram. Dores nas costas, pressão, colesterol, fígado com problemas. Estados de melancolia e depressão sucessivos. O estado de envelhecimento acentuou-se com rapidez. A decadência física parecia visível e chegou-se a pedir a Robert Escarpit um necrológio antecipado.

Em 59, compra uma casa em Ketchum, Idaho, um chalé em meio a montanhas. Vivendo em constante estado de depressão foi perdendo o poder de criar. O ato de criar pela escrita era o seu salvo-conduto para estar no mundo. Sem isso, nada tinha valor, nem mesmo as pessoas amadas. Escrever, no entanto, se tornava um tormento que o dilacerava. A depressão tomava conta dele, sem que houvesse reação. A antiga e acalentada ideia de suicídio retornava a cada dia, sempre com mais vigor. Na primavera de 61, parecia impossível que não se suicidasse, tantas foram as vezes que já havia planejado e tentado a morte com as próprias mãos. No amanhecer de 2 de julho de 1961, suicidou-se em sua casa de Ketchum, enquanto Mary ainda dormia. Dilacerou a cabeça com um tiro de espingarda de cano duplo, feita especialmente para suas caçadas. Depois dele, sua irmã mais nova, Ursula, suicidou-se em 66, Leicester, o caçula, em 82, e a neta Margaux, em 96. Assim o homem que afirmava que quem via na tourada apenas um esporte era porque nada percebia do seu grande significado trágico porque não podia tratar-se de um simples esporte, já que era uma questão de vida ou morte, e a morte, em qualquer caso, nunca é menos fundamental – morre-se na última batalha, sem forças para resistir a mais uma investida. Se para ele todos os livros deviam ser a respeito de pessoas que conhecemos, amamos e odiamos, não sobre pessoas que imaginamos, sua última página foi sobre alguém que despertou paixão e ódio e deixou um enigma no ar: como foi mesmo seu suicídio dentro das técnicas que ensinara anteriormente?

Pois bem, leitor, aqui está um aperitivo do trabalho de fôlego de Benjamim Santos. Com uma ou outra interferência minha, pelo interesse que mantenho por este autor desde a adolescência, lendo o livro você encontrará muitos mais detalhes para formatar um painel cabal sobre este escritor de ponta que até hoje é modelo para quem se arrisca na penosa arte de escrever. Ele escrevia de maneira ótima. Deixou-nos uma lição por toda a vida. Seguir seus passos não é fácil, mas é sempre um desafio que devemos nos impor a cada dia que sentamos à mesa para traçar uma linha…

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