A MAÇÃ ENVENENADA – Um romance-móblide

A MAÇÃ ENVENENADA

MICHEL LAUB

Companhia das Letras           199 pgs.

Tensão do princípio ao fim. Porque há uma fatalidade retrospectiva pairando no ar. Desde as primeiras páginas sabemos que uma desgraça ronda o narrado e nossa atenção é atiçada na busca do que será este fato.

O motor do romance gira em torno de um garoto de 18 anos. Morando em Porto Alegre, ele serve no CPOR e está dividido: faltar um final de semana nos serviços militares e ir a São Paulo para assistir a um show do Nirvana com sua primeira namorada ou perder o show e deixar que Valéria vá com um amigo de quem o garoto tem ciúmes.

Cabeça de uma banda de garagem, o narrador anônimo, quando jovem, conheceu Valéria num bar, encantou-se com ela e convidou-a para cantar em sua banda.

Valéria não é muito equilibrada. Instável, vive numa corda bamba em que seu sentido de vida não está ainda muito claro. O narrador, agora adulto, lembra o passado e uma conversa que teve com Alexandre, ex-namorado de Valéria, que lhe conta que ela já atentara contra a própria v ida.

Este narrador está por volta dos 40 anos. É jornalista. Sua narração está centrada em 1993, ano do show e no ano seguinte, quando Kurt Cobain suicidou-se. Dividido entre a admiração e o repúdio pelo ídolo, este é motivo de sérias reflexões sobre a vida e a arte e, em especial, sobre um eixo que leva o narrador a comparar Cobain com Immaculée, mulher hútu de Ruanda perseguida pelos tútsis, na tristemente célebre purgação étnica que assolou aquele país nos começos dos anos 90.

Immaculée fica escondida por noventa e um dias dentro de um banheiro com mais sete mulheres, enquanto sua família é destroçada. Agarra-se à fé para encontrar forças e resistir ao apocalipse.

O apocalipse de Kurt Cobain é diferente. Ele tem fama, muito dinheiro e família. Sem julgá-lo, mas deixando entrever um desgosto pela atitude do roqueiro, nosso narrador sabe que aquele poderia muito bem escolher morar onde quisesse, cercado de todo conforto, afinal tinha uma filha  e um compromisso ético com a mesma na condição de pai.

É o garoto de 18 anos que não entende muito bem uma atitude radical como a do seu ídolo, nem pesa a depressão dele, que sequer é levada em consideração. Todavia, como quem conta é o homem já maduro, percebemos neste uma aura de ceticismo pela vida e seus desdobramentos, no contraponto que ele faz entre a situação do astro pop e a situação precária, sem nenhuma saída da jovem mulher de Ruanda.

O tempo narrativo é entrecortado entre os muitos acontecimentos do passado e a estabilidade fria do presente. São cento e um fragmentos que funcionam como um móbile, fazendo a estrutura temporal oscilar e dançar na mente do leitor. Muito picotado, às vezes parece que o narrador não vai dar conta de enformar a cornucópia de fatos que tem de nos entregar, numa temporalidade célere que é o tempo do jovem em seus entrechoques existenciais e emocionais, em confronto direto com a visão do adulto mais equilibrado e sem as ilusões que moviam o menino meio às cegas pelo mundo a que estava preso, muitas vezes sem saber a razão.

Acuado por um acontecimento meio obscuro envolvendo maconha no CPOR e arriscando-se a ser dedodurado, o garoto compra a consciência de um amigo com um bom montante de dinheiro. E também insinua que o acidente de carro que sofreu, não foi bem um acidente, mas um atitude “impensada” em nome de Valéria e da confusão de sentimentos que ele tinha por ela.

Enfim, Valéria e Unha vão para São Paulo ver o show e ali os acontecimentos se precipitam, marcando para sempre a vida do narrador e obrigando-o a assumir um amor que até então era algo turbilhonado na sua cabeça. Afinal, para um jovem inexperiente consigo e com o derredor, o que é amar, que amarras este sentimento/compromisso traz, como interagir com a pessoa amada sem perder um pedaço de si, como enamorar-se afastando-se de seu foco existencial e partindo para um mar tormentoso, no qual há mais dúvida do que um porto seguro, porque o amor sempre exige entrega e o que um adolescente tem para entregar e também para receber? O plano emocional de Valéria, com suas convulsões psíquicas, é mais um motivo de dúvida. Ao mesmo tempo, o menino quer sanar as feridas dela. Só não sabe com que unguento.

Com seu estilo contundente, seco, nervoso, Michel Laub cria uma narrativa de alta expectativa que não deixa os tópicos existencialistas fugir de sua lente de aumento. Como discorre sobre um rapaz de 18 anos e sua vida conturbada, o autor sabe criar um retrato convincente do vaivém da vida deste adolescente com seus grotões e os poucos vales verdes. Para o menino, tudo é fator de angústia e questionamento, levando-o a reflexões que sangram e trazem à tona o pus da vida, as secreções mais obnubiladoras, nublando o horizonte que queria límpido e ali desfilam fantasmas que o inquietam e o tornam presa fácil do desmantelamento, em especial o que ocorre com Valéria, quando ela está em São Paulo, na companhia de Unha, o que deixa o garoto ainda mais desestabilizado.

E o autor, dialogando com a música, com a política, com a vida militar, com as drogas, não centraliza o romance numa só voz, expandindo seu campo de ação por muitos discursos que registram os fragmentos de uma vida a florescer em seus inícios e sem saber ainda que rumo vai tomar. Com mãos cirúrgicas e sem psicologismos facilitadores, Michel Laub sabe nos dar o mosaico-móbile desta vida que sobe e desce, anuançada por vários tormentos e diversas alegrias, vida que avança e retroage, sem nunca encontrar uma paz duradoura porque o humano passa muito longe disto, sempre fragilizado pela concha de retalhos que o constitui. Ser humano é não coincidir consigo mesmo, como afirma Bakhtin, e este rapaz problemático vive isto na própria carne, e as intermitências do romance compõem isto com arte  ajustada a seu tema de forma primorosa.

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