POESIA RACIONAL

ESTÚDIO REALIDADE

Rodrigo Garcia Lopes

7Letras      129 pgs.

O início de Estúdio realidade é constituído por poemas enumerativo com pitadas surreais para mostrar a incomunicabilidade do mundo ou aquele fechamento que Bakhtin vê em todo poeta, quando este submete todas às vozes às suas necessidades enunciativas.

Com um olhar para o cotidiano trivial como matéria de poesia, quando esta parece contaminada pelo tom  prosaico, Rodrigo Garcia Lopes tece uma poema cerebral, contido, sem nenhum derramamento por um lirismo úmido, discursivo, palavroso.

Os versos às vezes são truncados para demonstrar o não-lugar da poesia no mundo e, neste sentido, o poeta lança mão de referências do universo barroco para evidenciar que o hodierno também se faz barroco em suas parafernálias tecnológicas:

Sementes de sereno e fogo./ Licores fortes/que não preciso beber./ Isqueiro crepúsculo/ acende a sala de estar./ Centelhas secretam sua sede – / fermentam a espuma da primeira/ neve. Sol cereja olho vermelho,/ seu nome cravo no poente,/ devolvendo sombras.

(…)

lábios abrindo abismos seus carinhos/ entre silêncios/ celulares.

Neste livro há construções míticas do homem, ao se mostrar que a grandeza só pode ser antiga, porque “hoje, nem mágoa: não se parece com nada.”

O capitalismo é entendido como empreendimento seco, num poema em que o título contrasta com o corpo do mesmo. Ali, encontramos referência à Solombra, que nos lembra de Cecília Meireles e sua perseguição pela música pura, exercício que também move o autor na sua busca intensa e materializada em versos despojados, a busca do enxugamento radical em versos cuja secura é uma reprodução deste mundo árido em que todos estamos enfurnados. E é neste mundo que a poesia só pode edificar-se como texto cerebrino, sem a expressão do emocional:

A eficiência empresarial e o gerenciamento de produtos têm sido/ umas das marcas de nosso empreendimento./ Você deve estar brincando./ Reflexos de carros se espreguiçam como gritos./ Mesmo?/ Pelo menos uma chance de que nuvens nos distraiam e deem as/ caras com uma contraproposta plausível para a ampla variedade de profecias.

Na racionalidade que compõe os poemas, há espaço para considerações sobre o amor, a solidão, a ausência da primeira pessoa, substituída por você:

você viveu tanto/ pra nada daquilo acontecer/ você apenas esperou/ o tempo da sua desgraça/ que era este/ rente a seus pés/ você amou tanto/ mas foi incapaz de deixar/ na pele da sua amada/ uma linha sequer

Em “Words, swords” aparecem questões etimológicas sobre a palavra guerra. O homem confuso é o guerreiro. O título do poema se nivela a um voo rasante sobre problemas bélicos e a bestialidade que isto representa para o mundo:

War vem de Werre,/ A forma do dialeto do norte/ Do francês antigo guerre./ Do latim medieval guerra./ Do germânico werra, luta,/ ‘discórdia, revolta, peleja’;/ usado também na base wers/ (origens da palavra inglesa worse, pior/ e da alemã wirren, confuso).

Logo na página seguinte, vem uma reflexão metalinguística que se prolonga por vários poemas do livro. Com senso de economia e restrição ao que importa escrever, o autor nos entrega:

Rimar é acordar os sons das sílabas,/ como da primeira vez, surpreendê-las/ em seu antro secreto: onde não estão./ Libertas dos sentidos, não sibilas/ nem escravas, instantes portáteis,/ Apaixonar esses frutos da fala,/ entrelaçados em seus ecos, em voo inverso (…)

Também há filosofemas por meio dos quais se pensa a finitude, não só como destino, mas como condição primeira de nossos atos e nossos discursos, porque a cada palavra dita ou escrita morremos, deixamos de ser nós mesmos e passamos ao desafio de nos tornar outro:

Apenas a sede de Não/ A derrota do Sim/ Será de nada/ Página virada

O experimento do imagético, da espacialidade no branco da página aparece em “Litoral”, evidenciando um poeta inquieto com a própria forma de seus poemas. Quer ir além, quer pesquisar, quer encontrar outra modalidade para a sua escrita.

Com ironia, reescreve o Eclesiastes em:

Você bate na mesma tecla, repete/ aquele surrado clichê: não há nada/ de novo sob o sol. Mas quem garante/ que isto é real, não um conto de fada?//Nem tudo tem sido, como se tem ouvido,/ a mesma coisa desde o começo/ dos tempos. Não estou convencido./ Se há algo que não muda, desconheço.

O tom bíblico se repete num poema globalizado: o mundo se despedaçando e o poeta a pensar no amor como um lugar. E isto é tudo como acordar, como consciência política. Se é muito cedo para ser manhã, um toque de lirismo, a  morte também surge como um quase tarde para ser agora. A vida segue e “descascamos a pele da paisagem” como um modo de atividade e resistência.

À página 50, em itálico e sem título, surge outro momento metalinguístico, agora dirigido para a definição de poesia, como aparecem definições de língua e página mais adiante. Para o poeta:

a poesia é uma/ estratégia de super-/vivência://na paisagem sépia/ pela mente debelada/ em tinta invisível/ é revelada// e pela voz revoa/ em lunissombras/ neste bosque voraz

Deste modo, “não existem rimas pobres” porque tudo combina com alguma coisa. E o romântico contido pela construção cerebral vem nos dizer algo sobre a “rede que tuas pálpebras teciam”, em que fica declarado na voz feminina que “toda geração é tardia”, sendo os “morros azuis” derramados “na distância lápis-lazúli”. É o embate do poético com um discurso mais pormenorizado em que se cutuca o ciclo de gerações a fim de mostrar que todos equivalem a todos e que ninguém tem primazia sobre ninguém. A vida, enfim, é uma platitude de que nos salvam aqueles morros azuis pois além deles pode haver uma paisagem diferente desta aqui, além pode haver um magnetismo vital que já foi perdido aqui, na igualdade de todos por gerações e gerações.

O mar é uma presença constante. Não como mera referência. É um princípio dinâmico, motor de poemas que deflagram uma contemplação outra ou motivação de “romance de aventura”. Simples. É este o trilho a nos oferecer o poeta para trafegar por suas páginas.

No recenseamento de utopias e paraísos terrestres, a conclusão borgeana de que o único é aquele que foi perdido, o poeta mostra-se cético, largando para trás seus sonhos de juventude, enquanto na maturidade conserva a única utopia possível: fazer poemas com régua de cálculo para evitar o derramamento e o lacrimal, tão presentes em nossa tradição lírica.

Se as utopias acabaram para o poeta, há espanto diante da vida e ele é o próprio biógrafo e tradutor da vida a quem só tem “como pagar” com sua “cota diária de espanto (…)”.

Nas circunstâncias do mundo moderno há lugar para o mito: Afrodite, e na velocidade que nada contém, “tudo acaba em twitter”, o que encena o drama de todo poeta, já que a poesia exige vagar, exige bom espaço de tempo para ser degustada como um código secreto que só é desvendado pela inteligência partícipe, co-autora do leitor.

À página 104 damos de frente com “Romance policial”, com morto e detetive, quase um conto de mistério, noir. É a voz imperiosa de  alguém que se repete em outros textos, mostrando o desafio de interagir com outros gêneros banais e cinematográficos, produtos do mercado que se garantem em popularidade que a poesia, por sua própria natureza entranhada em si mesma, nunca alcança:

A lanterna da lua banhava o morto./ No rosto do detetive, nenhum sopro/ A não ser o ar pesado do mangue, o corpo/ Caído, espesso sangue, e o pouco/ Dito pelo policial com cara de mau/ Que agora segurava um castiçal/ Interrogando a loira de olhos negros/ Que trabalhava para um restaurante grego/ Da grana e dos bilhetes estranhos no porta-luvas (…).

Mesmo que nossa visada seja rápida e parcial, podemos constatar que Rodrigo Garcia Lopes faz uma poesia com quase ausência de um eu lírico contundente. Seus poemas ganham em textualidade, numa ação em que a escrita se circunscreve à reflexão, com aforismos surpreendentes a tirar o eixo confortável do leitor. Escreve sobre temas que vão da cultura americana (a grande solidão) até o pensamento cortante sobre poema, linguagem, prosa etc. A performance do autor se dá na justa medida da contenção. Os poemas, em sua maioria, são arenosos, no sentido de obrigar o leitor a não criar empatia e sim manter um distanciamento crítico para refletir, porque o poeta não quer sentimento. Em lugar deste, pensamento, nesta época de marionetes dos meios de comunicação e argumento de consenso em que é muito raro alguém elevar a voz em meio à passividade geral, todos de cabeça baixa dizendo sim. O poeta ergue seu discurso, acorda o anestesiado e o convoca para “24 aforismos sobre poesia”.  Ali o didático não tem vez. Ergue-se a provocação a sacudir o solo comum de qualquer leitor.

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