Marcelo Sandmann – Poeta

Lendo o livro A fio, de Marcello Sandmann – 7 Letras, 2014 – fui levado por ondas de agradáveis sensações, na certeza de estar diante de uma obra original que me confirma os trilhos de criatividade aguda deste poeta.

O primeiro poema já diz a que veio o autor: síntese, ironia, brusquidão, linguagem seca. Não ao lirismo e uma voltagem imagética de algo que rompe o bom-mocismo que coroa boa parte da poesia que é feita entre nós:

Um bom poema é feito/ tiro de misericórdia.

O poeta não tortura seu leitor/ como faz o prosador,/linhas/ e dias a fio.

É pá-buf!

O corpo caído:/o pingo na testa.

O poema vale como introdução a um universo que se abre com ventosas quase histriônicas e apresenta ao leitor a carta de boas-vindas: aqui nada é sentimental, aqui nada é eivado de metáforas retumbantes, aqui não há aquelas imagens de grandiloquência tão comuns aos poetas sem domínio da linguagem.

De um modo geral, os poemas saltam da página como pontas de cristal, estiletes afiados, vergões de surra para quem um dia caiu na tentação do discursivo:

É de um rasgo do céu/ que se fez o tecido (…)

Hoje resolvi/ fazer faxina da casa. (…)

Menos./ Eu quero menos./ (menos que menos.) (…)

É tudo rápido, telegráfico, captando a ânsia da modernidade pelo veloz e pelo que não arranja tempo para meditações de cunho filosófico com que muitas vezes se confunde a poesia.

Nada de constelações metafóricas que levem o pensamento do leitor para a estratosfera. Poesia que ensina olhar o chão de cada dia. Não há líricas subidas, líricas apoteoses do “bom gosto” domesticado pelo acadêmico. Como água esperta, a poesia de Sandmann procura os cantos mais prosaicos e se faz em humor, simplicidade, renovando o que aprendemos com Bandeira:

Ela quer as coisas claras./Como claras em neve.

(Assim uma saia/ de cambraia,/ alva no varal/ desde o alvorecer.)

Tudo sempre às claras. / Nada que calara.

Tudo dado a conhecer.

Devagar, com sutileza, o estilete infiltra-se na barriga balofa de muita gente por aí que se acha “nascido poeta”, sem perceber que poesia é arte do trabalho, artesanato, pensamento em febre. Sandmann é cerebral no bom sentido da palavra: calcula, regra, estipula a dimensão da palavra que escapa do borrachoso, lânguido, malemolente.

Não cede a feridas de amor, enquanto atende ao gesto do desbastar a trivialidade do cotidiano, porque percebe que do jeito que está o mundo não pode mais ser cantado. A função do poeta é cutucá-lo e sem drama, gargalhando do próprio papel que se impõe nestes tempos de crise e meio que dizendo: não estou nem aí. Mas está e está atento, furibundo, corrosivo, bem explícito, dono de um verso quase funcional:

Com uma bala de borracha/ na coxa,/ você me acena/ do outro lado da praça.

Estou tonto e meio cego,/ e a fumaça que ferve ao redor/ diz-nos que o fogo/ mal começou.

Estamos em guerra, meu amor./ E com isso mais nos amamos/ e nos desejamos.

Entre o meu corpo e o corpo teu,/ avança a tropa de choque,/rebenta a multidão.

O flagrante com certa pungência de facetas do cotidiano ressoa sob a camada do riso contido, da reescrita, da ira a espernear dentro das grades do verso tentando esgueirar-se à superfície. O poeta a contém porque não opta por nenhum transbordamento. Ele pincela aqui e ali e com tal comportamento estilístico, mostra sem julgar o mundo e seus desdobramentos que a todos inquietam:

É preciso sair/da zona de conforto.

Um soneto pode ter trezentos versos./ Um poema concreto,/ desabar como uma marquise.

A poesia mais dolorosamente satânica/ é uma carícia/ diante dos desígnios de Deus.

(E se Deus não existe,/ seus desígnios são/ ainda mais sombrios.)

A realidade é um exagero constante,/margens soberbamente borradas/trânsito atônito entre hemisférios.

(…)

 

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