Faça-se a luz e a luz negou-se

Havia nuvens no céu aquela manhã. Fazia semanas que o céu andava azul e isso me incomodava. Moro num porão entulhado de esculturas, e o tempo aberto é uma contradição, interfere em meus exercícios, impede que meus pensamentos se concentrem num ponto justo e produtivo. Pois naquela manhã, o céu coalhava-se de manchas pesadas, pachorrentas, verdadeiros dilúvios de sombras a anular excessos de claridade, essa coisa inútil para quem trabalha no subsolo e só no túnel, na cova, no buraco encontra o nervo vibrante da forma que se vai moldando e se vai moldando e de repente é alguma coisa à espera do nome.

Então saí à rua. Não andei muito. Duas ou três quadras depois encontrei um menino morto na calçada. E ele era lindo. Tinha cabelos grossos, dourados, desses repartidos no meio em duas cachopas rebeldes que se espalham com energia pelos lados da cabeça e cada fio parece tão espesso como corda e não precisa de nenhum tratamento além do toque de mãos que os erguem para que caiam com lentidão outra vez, até o peso ser beleza. Vestia bermudas folgadas, o cós bem abaixo do umbigo, mostrando a barra de uma cueca de listrinhas. A cintura pélvica estava bem desenhada, aqueles dois músculos que vêm de algum lugar e se confinam lá no infinito onde o sexo é um monte de vida que gosta de explosão e tato. Pela barra da cueca subia um tufo de pelos de tom mais escuro que os cabelos. A camiseta fora erguida por acidente, de modo que mostrava o torso quase por inteiro. Ali, músculos e torneados de costelas eram a harmonia manca de adolescente tão bem feito que deus se maldiz encruado. Antigamente, quando se meteu nessa insana tarefa, jamais supôs que logo a raça humana fosse evoluir de tal maneira que a perfeição se expandisse tanto a ponto de esses garotos suplantarem os anjos – sempre iguais, róseos, rechonchudos, com cara de idade média salmodiando cantochão salobre, Esses garotos, não. Exatos em suas linhas de sustentação sabem ainda mais ser impecáveis na movimência de gestos e falas salpicadas com alguma coisa que pode ser onda ou gaivota. Esse aí já era. Estava morto. Não sei o que o atingira. Constatei o belo e morto e nenhuma das dimensões me atingiu. Continuei andando.

Logo depois, vi um carro esmagado contra um caminhão de lixo. Ferragens com ferrugem, tudo era carne e sangue numa maçaroca ruim de contemplar e compreender. Se lá quantos morreram. Vi montanhas de sacos rasgados despejando restos de casas sobre a capota do carro. De uma das janelas, um braço parecia abanar. Não podia ser. Abanaria para mim? Por quê? A troco de que alguém indo para o buraco silencioso da morte vai perder um rasgo da eternidade acenando para mim, que nem estava ali para testemunhar o que quer que fosse. De modo que, a melhor solução nesse caso seria continuar no caminho, ignorar aquela montanha de trastes e fazer de conta que nada era comigo. E esta é uma verdade irrefutável: nada realmente me dizia respeito. O menino morto e a carne esfrangalhada comprovavam apenas que a guerra começara. Eu não sabia a razão.

Foi quando me lembrei de meu amigo. O único que cultivara enquanto os anos foram se acumulando em esculturas no porão. Pois numa tarde como esta, prévia de chuva, ele foi esfaqueado na saída de um shopping. Alguém encontrou meu cartão no bolso dele e ligou para mim. Corri para o local. Era meu único amigo. E estava ali estirado, morto, com linhas de sangue corroendo a calçada. E eu não lamentei nada. Meus olhos se prenderam na sacola que ele ainda tinha presa entre os dedos. Nela, várias camisas esplêndidas, agora salpicadas de sangue, logo pisadas, um pouco depois embaladas naqueles saquinhos plásticos de filme americano. Foi o que mais senti. Se era para perdê-las no nada policial, por que meu amigo as comprara? Se fosse apenas para deixá-las sujas e inutilizadas, por que alguém o matara assim, sob nuvens de chá velho, nuvens enrugadas que não gostam das cores que as novas estações inventam para atiçar a gula dos que desfilam a vida diante de vitrines?

E tem minha mãe. Foi enterrada numa tarde assim, de nuvens assim. E que importância pode ter isso! Nenhuma, com certeza. Por que então me refiro a este fato? Não sei. Ele veio vindo, veio vindo, tomou o espaço e, de certa forma, sucumbi a ele. No enterro de minha mãe, enquanto o padre soltava os borborigmos de palavras sempre iguais que deus nenhum deve suportar – sim, pense, se deus há, a troco de que todos os rituais repetem fórmulas prontas? Será este ser absoluto tão bisonho que precisa de sacudidelas em sua inércia com a repetição ad nauseam do mesmo blábláblá que não aguenta nenhuma sílaba além do previsto? – e o padre lá, a despejar aqueles cântaros vazios de equações já calculadas.

Eu não o ouvia mais já fazia tempo. Minha atenção fora chamada para um séqüito de cachorros que perambulavam entre as tumbas. Logo imaginei uma cadela no cio e o exército de machos desvairados em busca de um buraco penugento onde enterrar seu sentido de manter-se sobre quatro patas. Comer, cagar, respirar e ir por aí. Mas esta é solução fácil demais, quero dizer, uma cadela no cio etc. Devia haver um significado mais profundo para aquela trupe de maltrapilhos um tanto úmidos. Chovera fazia pouco. O céu se desdobrava num cimento amolecido sobre a abóbada já bastante frágil deste mundo habitado por insignificâncias como eu.

E desligados de qualquer tom da natureza, lá iam eles, o cães, ladeando canteiros de tumbas, quase numa fila ordenada. Meus olhos pregados neles e nunca entendi a razão de sua caminhada. Minha irmã falou qualquer coisa. Jamais lhe dei atenção. Não lhe daria também naquela hora.

Ao chegarmos em casa, meu sobrinho inventou de organizar o quarto de sua avó, minha mãe. Havia muitas caixas lá. De certo, ele estava espicaçado pelo desejo de descobrir algum segredo soterrado sob armários de silêncio. Minha mãe foi sempre absolutamente medíocre. Do tipo que é tão raso que não é capaz sequer de ter uma camada sob aquela apalpada e medida por todos. Enquanto ele se entretinha com as caixas e seu conteúdo, minha irmã me serviu um chá. Ela vestia teilleur marrom que devia imaginar coerente com o instante que ela encarava como dor.

Bebi a água salobra, não comentei coisa alguma e, de repente, a xícara escapou de minha mão e se espatifou sobre o tapete. Paciência. Fiquei fulo foi com a quentura líquida e inesperada sobre meu joelho. Afinal, não me vestira num terno novo para assim de saída vê-lo manchado. Ao me erguer em busca de um pano, vi um quadro na parede – camponeses de torso nu arando o campo sob o plúmbeo céu de um lugar que não podia ser nosso país tropical.

Perguntei para ela onde conseguira aquilo. De um leilão pela tevê. Claro, minha irmã não tem cacife para galgar a montanha de uma galeria e, muito menos, para comprar uma de minhas esculturas, aquelas coisas horrorosas feitas de sucatas.

Ela ligou o rádio e soubemos que o presidente acabara de ser assassinado. Pena que o autor da façanha era um jovem psicopata que vira no sorriso torto da eminência apenas um anti-cristo furreca qualquer. Por que um desgraçado desses não é movido por farrapos de utopia? Além de mais grandeza ao ato, faria a gente entender que o mundo ainda é um lugar amplo, onde alguma coisa pode acontecer por meio de variadas contradições que ninguém deslinda, nem os atos extremos. Matar em nome de ideias dá uma certa coragem para se voltar a pensar que aqui não está tudo perdido e viver não foi reduzido a amontoar bagulhadas nas prateleiras.

Eu estava no jardim, rumando para meu carro, quando vi um gato traçando uma gata. Ao menos imagino que seja esta a ordem dos fatores sexuais. Ignorava que esse tipo de bicho se dá a tal desfrute em plena luz baça do dia. O que eram aquelas sinfonias de arranhos nos telhados e recantos de nossa infância? A gente na cama, mastigando os buracos do medo porque aqueles guinchos pareciam filetes que os monstros atirariam contra nossa garganta desprotegida. Deixa pra lá. Tive certeza de que a gata estava era saturada daquele lance. Entre eles o sexo também é uma obrigação matreira, da qual não se extrai nada.

Ao chegar no primeiro farol, a mãozinha suja e torta penetrou meu espaço privado. A criança sequer me olhava, muito menos pedia. Nem iria adiantar. Eu estava com o carro entulhado de bugigangas catadas no lixão. Se eu lhe desse um daqueles ferros, ela poderia se entalar nele e não faltaria repórter disposto a me credenciar como alguém que perverte inocentes abandonados. Ou então, ela quebraria com mais facilidade os vidros. O que, sem dúvida, é um progresso para quem rasteja com as pernas tortas, os braços desfigurados, os dedos retorcidos como antecipação da escultura que farei.

Desta forma, liguei o som e deixei Charpentier me dizer o que não me importava ouvir, pois sou dos que não creem mais em nada e nem fazem força para isso. Só queria mesmo ver o mundo afogado em lama. As pessoas de olhos em brasa quando a massa estiver a um centímetro de suas bocas que disseram tanta bobagem, cravaram-se na gordura, beberam a merreca industrial patrocinada pela ideia de avanço da sociedade.

Em casa, o salva tela me deixou ver seres coloridos nadando num espaço negro e sem fundo, mais ou menos como devia ser o que entendemos como princípio dos tempos. Somos ainda tão rasos e lineares que só fazemos acrobacias entre causa e efeito. Se o mundo há e está aí, houve um princípio. Se houve um princípio, ipso facto, há um autor. Logo, o senhor deus é o criador e nós a criatura. Simplório assim.

Minha certeza é outra. A relação é outra. O buraco tem muito menos espuma do que criaram as mitologias para preenchê-lo. Espiei o e-mail. Havia um unread. Pois me pus a lê-lo. E vi. Uma galeria de Belo Horizonte me convidava para uma coletiva. Babava um rasgado insuportável e pretensioso sobre meu trabalho e me dava seu espaço para o início da primavera.

E daí? Boto as coisas lá? Alguém escreve sobre. Alguém compra. Alguém comenta. Outro não entende a proposta, a matéria, a forma, os meandros do que nem quis dizer. A maioria sequer dará atenção. E daí? A verdadeira coisa é o quê? Que grão de areia se move porque em BH meus entulhos estarão sob outra disposição e luz? O que leva um idiota a ocupar a vida com repositório de atulhamentos, armazenando, acumulando, encastelando feito rato em desespero? E vem um dia, abre o aviário de monstrengos para outros olhos possivelmente admirarem aquilo que deu sentido a quem fez e nada diz a quem olha. A relação é outra. Tal vitualha de linearidade entre o escultor e o contemplador não passa de miragem encarcerada em livros. Refeito o aparato belicoso de garras inscrevendo na carne a libidinosidade de tatuagens aéreas. O carcomido arcabouço no qual nos agarramos para dizer que valeu a pena e o instrumento da caça obteve amplo sucesso.

Olhei pela janelinha ao rés do chão. O céu a apodrecer em seus andrajos. Como há muito tempo não se fazia ver. Em lugar de qualquer disco mais consubstancioso, optei por Zezé di Carmargo e Luciano e ouvi “Serafim e seus filhos” durante três horas, até eu ser o Quixote pelos verdes campos. Anoitecia. Eu estava exausto de tudo o que não havia e do que havia demais. E estava trêmulo, zonzo, com sorrateira vontade de morrer e apagar minha assinatura de qualquer feito que possa sobreviver à carne que trato com meu nome. Voltei a “Serafim e seus filhos”. Abri um vinho e bebi. Quando acordei, o céu estava azul, mais azul do que fora naquela infindável série de dias. Alguma coisa só podia estar errada. E estava. Afinal, para quem mora num porão úmido, embolorado, cheio de trastes, tem sentido olhar para um canto e encontrar fatia azulada de infinito navegando no vago espaço do mundo?

O telefone tocou. Meu sobrinho soluçava, pedindo ajuda. Quis saber onde ele estava e ele não sabia dizer. Suas sílabas mal articuladas eram iguais aos arrancos de um animal ferido pela jaula. Enquanto chorava, devia estar mordendo os lábios. Só sabia dizer, tio, por favor, me ajude. Eu precisava sair e procurá-lo. Até encontrar seu paradeiro, levaria bom tempo. Só esperava não chegar tarde demais. E, se chegasse, que importância isso teria? A guerra já começara, não começara?

Peguei minha jaqueta. Tentei ensaiar algumas palavras, caso eu o visse logo. Quem sabe, estivesse no telefone da esquina, como outras vezes. Quem sabe os pulsos vazassem o ar. E os olhos estivessem atravessando o vidro de uma cabine e o veneno ardesse em seus pulmões e o amor, um calombro embutido em seu estômago. Talvez minhas mãos nunca conseguissem ultrapassar os tantos fossos e chegar até seus cabelos para consolá-lo. E, se por acaso eu lhe proporcionar algum amparo, isso será paliativo efêmero a não livrá-lo da carga de ter de existir como eu existo.

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