Suíte

 Não há mais tempo. O animal que nós somos perde as asas, a massa muscular, e as escamas trincam-se pelo sol de vento de cabana vazia.

Sabemos que o caminho continua e isso é tudo, a partir do limo da pedra, da farpa do punhal, do olho de tigre fazendo ninho na  névoa.

O dia em camada está desfeito, porque um dia é tempo, lençol lívido distendido sobre a água das horas. E as águas escorrem, levando para a neblina os rostos até há pouco fixos na luz.

E no rastro de cada rosto vemos a paisagem triturando o resto de nosso apetite para permanecer de pé, segurando a coroa de fogo a ponto de chamuscar nossos lábios e a lenta areia a descer dos olhos.

Como nossos olhos se inclinam, se inclinam nossos olhos de animais que têm sua matéria filtrada no junco frágil. Assustados, respiramos com dificuldade e sorvemos das pedras o nitrato de fotografias que mal registram a passagem.

O rocio repousa no ar e é infantil afirmar que há contornos indistintos. Não há nada, nossa hipótese mais duradoura a atravessar mares e fronteiras e terras abaixo do nível da febre. O caminho vai sem nós, isso é certo.

Ouvimos a voz rascante dos galhos dando materialidade ao vento, e as folhas que ondeiam passam por nosso rosto sem cor ou partitura. É tosco levantar a mão e amparar uma folha para ver nela um filhote de passarinho. Aqui não se trata de pintura naïf. Tosco mesmo é  o processo de sustentar-se ao rés do chão e frente às dimensões oceânicas do que não nos contêm.

A arte de permanecer tem algo da trituração da mesma falta. Quando a personagem de Piglia diz: “é inútil procurar explicações” e arremata: “talvez seja tarde demais”, ela fala por nós, ela dá um nome à nossa carne.

Tentamos manter a postura dos que continuam e, em verdade, os objetos de nosso cenário estão no lugar sem marcação prévia. O diretor esqueceu-se de moldar nossos gestos. Um tempo depois coube a nós descobrir a ausência de peça, e sair por aí em busca de autoria é um luxo pirandelliano mais conveniente a bonecas de louça. Aquelas, das fotos antigas, ainda que falsificadas pelo retratista brasileiro que, nos Estados Unidos, criou cenas de época com o apocalipse de agora.

Os objetos, o palco, os rostos tratados a luz de espelho de camarim, o fosso da orquestra vazio, tudo como nós, formam a atmosfera vítrea ao nosso redor. Há murmúrios febris e o ar enjoativo pesa sobre as pálpebras. O pai e o filho e a obra estão incompletos. Falta matéria no mundo para preencher os espaços do gesso ressecado. Algo ficou à toa na inciência  de corpo sem os corpos.

O que acontece para esta operação de balanço é que lá fora algo foi abandonado, ninguém sabe onde. Saber o que é fora, o que é dentro, no abandono do isolamento, é ficar com Shakespeare: “eu não sou o que sou”, na impetuosidade de Otelo.

O pai, o filho e a obra entram na rota da vida e a vida os leva. O figurino não muda a carne. Mesmo La Bünchen fede após a aura da passarela. Falávamos do tempo escoando, filtrado por dentes de rato. Roupa rota, rosto de borra, olhos sem bateria. E o palco vazio, e a tela vazia, e a platéia ausente

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