Tão suave quanto Mahler

A transparência das cortinas faz a janela levitar na claridade. Gustavo livra os braços que envolviam o travesseiro e contempla a gaze de Dacar esvoaçando com leveza ao sabor da brisa. Respira fundo e enche o peito com a suavidade a pairar no quarto. Volta outra vez os olhos para o vento brando em forma de tecido que não impede a penetração da luz, nem sequer a côa. A cortina põe no ambiente doces desenhos de folhagens e Gustavo esboça um sorriso ao lembrar que o pano das cortinas é chamado de orvalho da noite. Melhor seria, orvalho da manhã.

Na pequena copa do apartamento, ele bebe o suco de laranja em goles curtos, experimentando na língua a aspereza do líquido. No início do verão, o apartamento enche-se de luz, como se procurasse inutilizar toda sensação de aconchego. Mas Gustavo, em lugar de sentir-se catapultado para outras regiões da cidade, mergulha na moradia, invadido pela certeza de que o lugar é seu. Ali ele vive e a luz, de certo modo, compõe o chão de segurança, a nenhuma dúvida de que, entre as paredes e os móveis, pode caminhar protegido pela intimidade e pela solidão estimulante.

Ao repor o copo na mesa, deixa os olhos escaparem para o céu azul, onde nuvens estiradas, ralas, esfiapadas, completam o quadro de luminosidade. Ele passa a mão no queixo. A barba de dois ou três dias eriça-se como areia entre os dedos e a pele do rosto. Resolve ir ao banheiro. A higiene não vai levar mais de quinze minutos. Os ponteiros do relógio indicam como o dia ainda é pequeno em sua amplitude: 7:30 da manhã. Assim que a água do chuveiro inunda seu corpo, Gustavo é tomado por exultação febril e decide que hoje não é dia de trabalho. Há beleza demais no ar para ser degustada, absorvida e seria crime perder tantas horas no escritório.

Depois de avisar ao sócio da imobiliária que não iria ao escritório, ele adere ao corpo da manhã. Pagará algumas contas e então viverá o prazer de entrar em todas as lojas de discos do centro. A imobiliária tem rendido bem e ele não precisa ficar calculando o que entra e o que sai em seu bolso. Não é um homem obcecado por sinais de status. Basta o apartamento bem montado, o Fiat Uno reluzindo no vermelho berrante. No mais, seu dinheiro é trocado por discos, muitos discos e livros. Sereno e exultante ao mesmo tempo, ele sabe que hoje a coleção de cedês vai completar a marca das três mil unidades. Na imensa prateleira de mogno fosco que instalara ao longo das paredes da sala, havia agora pouco espaço. Rigorosamente perfiladas em ordem alfabética, ele orgulhava-se das 2.997 circunferências de composição da luz. E acumulava apenas música erudita e jazz. Acreditava já estar de posse de tudo o que o mercado nacional lançara e de boa parte do que o internacional gravara nos três últimos anos. Para evitar eventuais duplicatas, Gustavo organizava um fichário que trazia consigo nos momentos de compra. Confessava certa dificuldade para saber o que possuía, ainda mais que alguns músicos saíam com suas composições gravadas de maneira anárquica: os movimentos eram divididos em discos diferentes, a tal ponto que, para ter uma sinfonia completa, era às vezes necessária a aquisição de três ou mais unidades. Gustavo abriu a pasta e constatou que o fichário estava ali, roteiro seguro para o sagrado consumo quase semanal.

O shopping-center provocava nele a sensação de gruta úmida e refrescante. Ele tinha quase certeza de não conhecer os labirintos de mármore, neon e vidros decorados, pois dava atenção exclusiva às quatro lojas de discos: Música Viva, GM, Discos & Vídeos, Love Songs e Woodstock Trip. Assim, a esfuziante planície de oportunidades de sonhos e desejos estampados na série um tanto infinita de compartimentos comerciais não chamava sua atenção. Sequer via os transeuntes atônitos em torno dele. Entrava no burburinho de ansiedade e fazia o mesmo trajeto: primeiro visitava a GM, sem dúvida a mais completa e refinada; depois a WT que, mesmo especializada em rock, tinha boa seção de jazz; dava rápida passada na MV, uma loja que tentou ser eclética ao vender toda espécie de gravações e caiu na vulgaridade das bestas da indústria cultural. Ali, uma vez ou outra, encontrava um Marsalis, uma Alberta Hunter, um Charlie Parker. Geralmente na banca de ofertas, porque o públicoespecializado da casa não valorizava aquelas coisas sem graça. E, por fim, uma visita só pra desencargo de consciência à LS, tão desorganizada e infiel quanto a anterior. Gustavo lembrava-se de que, quatro anos atrás, a loja chamava-se Bird e prometia atenção exclusiva ao jazz, blues, gospell e trilhar este caminho particular dos deuses. Não durou nem um ano a ousadia. O público freqüentador do shopping, a tal classe média, exigiu que Leandro & Leonardo comparecessem naqueles balcões e o jazz ficou apertado numa ínfima divisão ao lado da caixa. E os eruditos sumiram de vez. Gustavo passava por ali, apenas para alimentar a esperança de se deparar com raridades perdidas entre as montanhas de plásticos ocas.

As luzes da GM transfiguravam o ambiente da loja. Rebrilhos no chão. Discos e fitas de vídeo estavam expostos nos imensos mostruários que finalizavam em espelhos, multiplicando não apenas o espaço, como o som aveludado de um sax perpétuo. Gustavo sentia prazer medonho ao entrar naquelas salas. Era conhecido ali e freqüentemente Inácio, o gerente, ligava para avisar das novidades e fazia reservas generosas. O único incômodo era não haver acesso direto à manipulação dos discos. A face voltada para o público, mais de dez mil capas multicoloriam a paisagem, cavando fundo na paixão. Na borda de cada uma o código, pelo qual a obra era solicitada. Se isso esfriava um pouco o contato, garantia a lisura do cedê: vinha lacrado, sem toques de dedo, tinindo, fatia alucinante do mundo sem fim ou preço. E em todos estes anos, mantivera estranha cobiça, sempre postergada e, por isso, mais e mais insistente, ferindo o coração, o cérebro e os dedos: adquirir o volume Bird – The complete Charlie Parker on record. Ainda que os dez discos estourassem a marca dos três mil, por razão desconhecida Gustavo decidira que compraria o conjunto apenas no instante em que estivesse beirando aquela cifra. Este dia chegara hoje. Até então, contentara-se com outros discos do irrequieto e maldito ídolo negro. Viveria o sabor coruscante de comprar outros dois discos antes, para emplacar nos três mil com a edição completa deBird – isto é, a caixa materializaria o ponto máximo da escala. Era nisso que pensava ao vasculhar com os olhos a vitrine da GM, quando ouviu ao seu lado um profundo suspiro. Gustavo olhou. A moça, num levíssimo vestido branco, tinha os olhos incendiados pelo que via no mostruário da loja. Ao constatar que Gustavo a notara, ela sorriu e disse:

– Meu Deus, quanta maravilha, né? Haja dinheiro!

Gustavo, ameaçando um riso entre desalento e impulso, concordou com a cabeça:

– É, não é fácil… Você gosta de música?

A moça cruzou os braços e brincou:

– Gostar é pouco. Adoro. É tão importante pra mim quanto comida. Acho que até mais. Muitas vezes apertei o cinto pra comprar certos discos.

Ele ficou impressionado com a soltura loquaz da figura. Sentiu o terreno propício e indagou:

– Que tipo de música você curte mais?

Ela ergueu pouco os ombros, passou a mão pelos cabelos e voltou a olhar a vitrine:

– Olha, pra falar a verdade, gosto de tudo. Sou eclética. Gosto até de sertanejo, que hoje estão chamando de country. Mas a prioridade mesmo é clássico. Deus do céu, fico em êxtase… Só não gosto muito de jazz, me dá a impressão que estou ouvindo sempre a mesma coisa.

Gustavo entreabriu os lábios com certo toque de sombra. Tamborilou na pasta e soltou:

– Boa coisa! Emparelhamos num lado e nos distanciamos em outro.

O vestido branco foi sacudido pela passagem de um garoto que voava atrás de alguma coisa. Ela segurou a saia com as mãos:

– Nossa! Quase dei uma de Marilyn Monroe agora. Mas o que foi que você disse?

– Disse que combinamos num ponto e em outro, não.

Ela sorriu:

– Como assim?

– Eu também sou vidrado em música eru… clássica. Mas também adoro jazz – e estendeu a mão para a mulher: – Muito prazer, meu nome é Gustavo.

Ela ficou meio sem jeito e recebeu a mão dele com calor:

– Legal, meu nome é Ângela. Deixa eu ir que tenho de comprar um presente. Vou a um aniversário hoje à noite. – Ela se despediu e Gustavo foi tomado pela brandura que vinha de Ângela. Os gestos dela, a voz, a meiguice do olhar, tudo tresandava à profunda calma. Ela, no seu todo, era só carícia. Gustavo tentou concentrar-se nos discos, mas o perfume da moça estava por ali, chamava.

E ele resolveu segui-la. Deu-se conta da multidão. Uns dez minutos depois a viram saindo de uma loja de brinquedos, com pacote de papel vermelho nas mãos. Ele passou a frente dela e disse:

– Oi, quer uma mãozinha aí?

– Oi. De novo? Ah, não, obrigado. Isso é leve. São uns carrinhos pra coleção de meu sobrinho. Faz oito anos hoje. E é sagrado: todo ano loto as mãos dele com cinco carrinhos. Ele tem uma infinidade no quarto. O maior desafio é não repetir nenhum. Sabe o que eu fiz? Fotografei todos e montei um catálogo – dizendo isso, ela tirou pequeno álbum da bolsa e, suspendendo-o, deixou o sanfonado de plástico abrir-se até o chão. – Veja só quanto carro. E olha o capricho. Montei o cenário com lençol branco pros carrinhos ficarem bem visíveis. E juntei os bichinhos por cor. Assim, facilita a vistoria na hora da compra. O modelo e a marca não importam se forem repetidas. Crime é comprar um de cor igual ao que ele já tem.

Gustavo passou a rir e ela queria saber o que estava acontecendo. Ele não se fez de rogado:

– Mais um ponto em que batemos. Eu também tenho fichário, mas é de disco. Nunca lembro qual o concerto ou a ópera ou a sinfonia que tenho. Aí, dou uma olhada nas fichas. Você vai pra onde?

Ela circulou a cabeça ao redor e disse:

– No piso de cima tem uns bares que são uma graça. Vamos tomar um refrigerante?

Sentado, Gustavo tinha os cotovelos sobre a mesa e acompanhava uma criança sendo tratada pela mãe com sorvete de chocolate. Massa escura desandava pelo rosto esfomeado da menina, que gesticulava muito com o chocalho de guizos. Ângela bebia devagar o refrigerante. Olhou para Gustavo e disse:

– Bom, aqui estamos. Me fale de você.

Ele passou o indicador pelos lábios. Depois, acendeu o cigarro:

– Não há muito pra falar. Faz uns dez anos que montei uma imobiliária com amigo eu. Passamos por maus bocados. De uns cinco anos pra cá começou a render bem. E quase tudo que ganho, aplico em discos. Tenho montanha deles e também alguns livros. E você? Não.., não diga nada. Deixa eu adivinhar. – Ele esperou um instante e pesquisou as feições da moça: – Para estar uma hora dessa num shopping, você é daquelas que não trabalham o dia todo. Tem as manhãs livres. Acho que matei a charada: é professora.

Ela riu e mordeu o canudinho de plástico:

– Certíssimo. Trabalho na Faculdade de Artes, a FAP.

Gustavo abriu os braços:

– Que chique! Estou dividindo a mesa com uma artista, eu, um mísero capitalista em busca do acúmulo da matéria mais sonora do mundo.

Ângela interrompeu-o:

– Nada de mistificação. Ser artista não é grande coisa. Neste país, então…, não valemos um tostão. – Ela chamou o garçom e pediu outra coca. Voltou a conduzir a conversa: – Mas hoje o dia está bonito demais. Nada de lamúrias. – Ergueu os olhos para o solário: – Olha só, que dia puro, cristalino.

Ele apreciou o tom de voz dela, a luz naqueles olhos escuros, os reflexos da claridade nos lábios. Voltou a inundar-se na suavidade feminina que brotava dos traços bem cuidados e, ao mesmo tempo, pairava ao seu redor, adensando ainda mais a espessura translúcida da brandura. Ele experimentou:

– Você é sempre assim – tão suave?

– Suave? É, pode ser. É o meu jeito, quando estou de bem com a vida.

– E quando você não está?

– Aí, fico muda, só isso. Me recuso a falar. – Ela deslizou os dedos ao longo da garrafa, recolhendo o porejado úmido. Depois, tocou o polegar com o indicador, como se averiguasse a consistência da umidade. Brincou:

– Você não acha que para duas pessoas que acabam de se conhecer nós estamos muito à vontade?

– Isso é bom. E eu não sou do tipo que faz frescura com os outros. Gosto de abrir amizades, não interponho obstáculos. Me solto logo pra tudo ir bem. A vida vai tão rápida que, cada pessoa conhecida e bem, é um ponto ganho.

– O que é pra você esse “conhecer bem”?

– Nada de muito especial. Como agora: conversar, trocar uns pontos do vivido, aceitar o momento enquanto ele está escorrendo entre a gente. Não forço a mina até o último veio.

Ângela seguiu um adolescente que passava com uma prancha de surf encapada sob os braços:

– Tão bonito e deve ser totalmente vazio. Não quero ser preconceituosa, mas garotos desse tipo são o símbolo do nada dentro de um corpo escultural.

– Deixa pra lá. Um dia eles acordam. E ser do jeito que são é também uma forma de ser, né?

– Tô reparando que sua conversa escapa da superfície lisa. Se der trela, aposto que você é do tipo que adora fazer discursos sobre a vida, o relacionamento humano, o significado de cada coisa.

Erguendo os ombros, suspendeu-os por algum tempo:

- Quem sabe?! Pensar e falar também são formas de viver, ou não.

Apenas com rápido movimento dos lábios, ela olhou para ele, depois abaixou os olhos.

A área de alimentação fervilhava. Um rock romântico ao fundo. Ela o cantarolou. Ele voltou a falar:

– Você gosta desse tipo de música também?

– Como disse antes, gosto de tudo quanto é tipo. Esta música é boazinha. Me dá a impressão de um vôo sobre as ondas do mar. Você gosta?

– Do quê? De voar sobre o mar ou da música?

– Da música, meu senhor doutor cheio de labirintos…

– Sendo sincero: de-tes-to. Prefiro ignorar. Isso, sim, pra mim tem a ver com o vazio. Mas, como ignoro, tais amontoados mais ou menos sonoros não fazem parte do meu mundo e, assim, não perturbo o derredor de ninguém.

– Você disse antes que gosta de clássicos. Quem você mais aprecia?

O rapaz aprumou-se na cadeira e arrumou a gola da camisa, como se estivesse sendo solicitado para entrevista:

– Não é fácil falar sobre isso. São tantos. Cada um é excelente no que faz. Gosto de muitos compositores. Mas acho que o que mais me plenifica é Mahler…

– Mahler, ah é…, que barato. Um dia desses, fiz uma performance com os alunos. Um finalista do quarto ano escolheu a quinta ou sexta sinfonia. Não lembro bem. Foi aí que dei atenção a esse músico e até procurei ler alguma coisa a respeito, pra me inteirar mais das coisas e fazer um trabalho coerente. Garanto que comecei a gostar dele.

– O que você descobriu na pesquisa?

Ela riu:

– Tá doido pra me testar, né? E não foi assim uma pesquisa. Procurei ler algo em enciclopédia, numas histórias da música. Serviu pra me dar elementos só de base pra situar o autor. Isso faz uns três meses. A partir daí, ouvi mais este alemão…

– Austríaco!

– Tá vendo só? Austríaco! Lá no fundo é tudo a mesma coisa, em termos de cultura. Agora, a música que faz minha cabeça, tronco e membros éCarmina Burana.

– Eu também gostava muito. Só que está meio vulgarizada. Tudo quanto é filme, teatro e propaganda usam o Carl Orff. A música se esvazia.

– Será? Não sou tão elitista. Quando certa música começa a parecer nos meios de comunicação, creio que é uma forma de pessoas, que nunca têm oportunidade, poder ouvir, conhecer alguma coisa que sai do comum. E mesmo que fique um pouco batida, ainda assim Carmina Burana cava fundo em mim, parece me suspender do chão.

Acendendo outro cigarro, ele voltou a arrumar a gola da camisa:

– Você deve pensar uma coisa: Mahler é profundamente suave, porque em seu trabalho ainda há reflexos do Romantismo. Por isso, num mundo como o nosso, ele tem muito a dizer.

– É, é bem isso. E você… – você é romântico?

Gustavo fechou os olhos por uns instantes:

– Romântico, eu? Acho que não. Valorizo muito a beleza e fico embriagado com a música. Será que isso é ser romântico?

Ângela esticou os dedos em forma de garra:

– O monstro do século vinte destrói toda alma romântica.

Com o nariz em riste, ele tocou a ponta daqueles dedos, aspirou-os e declarou:

– Gosto deste perfume.

– It’s Wild Mask, of course!!

– Oh, yes, yes. De que região da selva?

Riram. Fizeram uma pausa. Ela olhava para a mesa. Ele, para o piso que flamejava.

– Sabe, Mahler escreveu primeiro sinfonias, mas a sua perfeição está nos lieder. Você já ouviu uma canção que se chama Kindertotenlieder? Apesar do título um tanto bárbaro, é de um lirismo torturante. Bota a gente nas portas do paraíso, ou na última curva do inferno.

– Não lembro se já ouvi. Mas penso que ele consegue tantos efeitos de harmonia porque deve ser judeu.

– O que tem a ver isso? Raça e arte? Você é determinista?

– Claro que não! Porém, a experiência histórica desse povo burilou muito a sensibilidade deles. É só ver quantos artistas eles dão ao mundo.

Meneando a cabeça, Gustavo tragou fundo:

– A experiência histórica burilou a sensibilidade, é? E o que você me diz do que eles fazem com os palestinos?

– Ih, lá vem a História pra desmentir qualquer coisa que a gente diz. O Paulo Francis dizia que nenhuma posição pode ser sustentada por mais de dois minutos por quem tem o mínimo de consciência. – Ela bebeu longamente o refrigerante. – Mesmo assim, tenho quase certeza de que o que falei faz sentido.

Gustavo pegou outro cigarro. Ofereceu. Ela recusou. Tragando como quem procura a alma, ele considerou:

– É difícil definir essas coisas. E não esqueça de que ele se converteu ao catolicismo.

– É, eu sei. Sabe de uma coisa? Quanto mais contradição melhor. Pra afiar as garras, pra tirar chispas. A mente tem de fazer acrobacias. Isso é ótimo pra criação. Mahler aceitou mudar de religião por conveniência. Assim, conseguiu o cargo de diretor de um teatro de lá.

Soltando longa baforada, Gustavo contemplou-a diluir-se entre os raios de sol filtrados pelo teto do solário:

– Você faria alguma espécie de concessão para conseguir um cargo? E quais são as contradições que fazem acrobacias em sua alma?

Com os dois cotovelos sobre a mesa, ela respondeu:

– Quanto ao primeiro item, vou aguardar um tempo pra deixar a coisa amadurecer. Quanto ao segundo, nem é bom começar. São tantas, que vão lotar o circo, não dando lugar pra mais nada.

– Então sua criação deve andar de vento em popa.

Os olhos vagaram como em busca de apoio. Depois, ela o encarou firme e sacudiu a cabeça:

– Não me acho talentosa. Sou dedicada e muito. E isso por que não fui bem dotada pela natureza…

– Será? E esta sua suavidade… Tudo é tão frágil em você. Tenho a impressão de que vai se decompor daqui a segundos…

– Aí você ajunta os cacos, cola-os direitinho e sopra vida neles. Pelo que tem falado, você é muito inteligente.

Quase soltando uma risada, ele procurou encobrir que ficara sem jeito:

– Pode ser. Larguei a faculdade de Administração pelo meio. Depois de montar a imobiliária, não quis mais saber de voltar a estudar. Formalmente, quero dizer. Sempre li bastante. Nos últimos tempos, quase só fico ocupado com meus discos. E, pra ser o franco dos francos, quando se fala de inteligência, tudo isso depende de quem fala, de onde fala, para quem fala, quando fala. Bach não foi considerado muito inteligente no seu tempo.

Como se lembrasse de algo importante, ela pareceu querer desviar o assunto:

– Quantos discos você tem?

– Alguma coisa que vai entre dois a três mil.

– Nossa, que fortuna!

– Fortuna em que sentido: dinheiro ou acervo de arte?

– Prefiro pensar na variedade de compositores que você deve ter.

– Já que falamos em número de discos, posso precisar melhor. Tenho 2.997. Faltam três pra arredondar a pelota. Eu estava lá na loja pra comprá-los, quando você apareceu e resolvi segui-la.

– Tá vendo? Se comportou mal e papai-do-céu castiga. A gente pode voltar pra loja e comprar.

– Vamos?!

Ergueram-se. Ele teve vontade de tomar a mão dela. Conteve-se. Ela teve vontade de que ele pegasse a sua mão. Ficou esperando. Depois, cortou o ímpeto. Deram uns passos e ele voltou atrás:

– Nada disso. Os discos podem esperar. Acho melhor a gente dar umas voltas por aí, aproveitar esse início de verão que parece que vai ser firme.

– Você é quem sabe. Mas não vai me culpar por não ter deixado você completar os três mil. – Depois de falar, Ângela começou a rir. Ele queria saber o que era e ela brincou:

– Você viu “Cenas de um shopping”?

– É óbvio que sim. Mas não curti nem um pouco. Meio besta e termina mal. Nossa situação aqui hoje é bem diferente. Pelo que sei, não estamos terminando nada.

Não deixando passar o gancho, mas decidida a agarrá-lo, ela voltou à carga:

– Será que estamos começando?

O moço olhou para aquela mulher aureolada de fragilidade. Parou. Acendeu outro cigarro. A região que ela ocupava e habitava no mundo parecia rarefazer-se com sua presença.

– E quem pode saber? Vamos sair daqui.

Andavam a umas cinco quadras do shopping, subindo a larga avenida que ia dar na catedral, quando Ângela apontou um prédio azul:

– Eu moro ali. É o Mont Saint-Michell.

– Só falta a abadia e o verde mar em torno.

Já em frente ao edifício, ela convidou:

– Vamos entrar prum café? Sou perfeita com o pretinho. E você pode fazer um inventário do que falta de essencial em meus discos.

Gustavo embrenhou-se pela estante com muitos discos.

– Bahhh, você também tem discos a bangu.

– Tenho. Mas estou muito longe dos três mil e não tenho nenhum Mahler. Tudo o que ouvi pra performance era do aluno.

– É uma pena. Vou te emprestar os meus. Você leu alguma coisa sobre o fato de ele ser um obsessivo quando ensaiava? Os músicos ficavam tão putos com o excesso de ensaios que se rebelaram contra ele. Ele precisou pedir demissão do cargo de diretor da ópera imperial, lá em Viena.

Na bandeja, as duas xícaras e o açucareiro retiniam, como se experimentassem a afinação própria.

Ele bebeu degustando. Depois falou:

– Discordo! Os músicos é que foram intolerantes. Foram incapazes de entender que Mahler buscava a perfeição.

– E a perfeição é possível a um ser humano?

– Mais razão ainda pra buscá-la com o último nervo da alma.

Gustavo sentia que certo calor estranho subia de suas entranhas. Sentia necessidade de discursar, de dar ênfase às palavras:

– E, de certo modo, no modo humano, é claro que a perfeição é possível. Pode olhar no que se escreveu sobre ele: são unânimes em afirmar que quando ele regia composições de Mozart ou Wagner, atingia a perfeição. Ele era tão bom como regente que qualquer bagulho sob sua batuta virava uma coisa divina.

Ângela recostou-se no sofá:

– Gustavo, tô achando que você é meio xiita nesse negócio de Mahler.

Ele riu. Levantou-se. Pediu permissão para colocar um disco. Escolheu Orfeu e Eurídice, de Gluck, e acendeu outro cigarro, sem saber se ela permitia que se fumasse em seu ambiente.

– Este é outro anjo em forma de gente. Soube romper com tudo o que veio antes e influencia o mundo, até hoje.

Deixando o sofá, ela começou a bailar e aproximou-se dele:

– Me dá a subida honra?

– A subida e a descida, pode ter certeza.

Dançaram. Mal e mal moviam os pés do lugar. Ele retomou a preleção:

– A terceira sinfonia de Mahler tem cunho filosófico. Ele marcou a pintura de Klimt. Os dois são expoentes de uma geração que vê o mundo através da ânima humana. Se você encarar um quadro de Klimt e, ao fundo, uma composição de Mahler, pode encontrar correspondência entre as pinceladas e os sons.

Com as duas mãos enlaçadas na cintura dele, Ângela ouvia ao longe o ruído da cidade. Ela e ele eram praticamente da mesma altura. As bocas estavam muito próximas, quando ela foi soltando as palavras:

– Não me amarro muito em questões de psicologia. Prefiro o ângulo social. E, neste momento, há correspondência entre nossas bocas, você reparou nisso?

Afastando seu peito dos seios dela, ele perguntou:

– Você é comunista?

Ela fez que não com a cabeça. Então beijaram-se, os lábios um lodaçal, beijo entremeado por palavras que tropeçavam em saliva e sussurros. Beijo tão longo que a ópera chegou ao fim. A alça do vestido de Ângela deslizou e um seio ressuscitou de sob o tecido branco. Era pequeno. Gustavo tocou-o com as pontas dos dedos, apenas para sentir a textura, para sentir o que guardavam, como fazia com os discos.

Ângela resolveu completar o que deixara no ar:

– Sou uma anarco-socialista-utópica.

– Ótimo! Acho que isso ajuda a entender mais a arte. Quando Mahler foi embora para os States, na estação de trem tinha muita gente para dizer adeus. Klimt certamente era o mais importante. Fez questão de ir até lá e despedir-se daquele que era o maior regente de todos os tempos. E eu sempre me pergunto: por que razão ele não pintou este momento?

– Como você pode ter certeza disso? Quem sabe o que os artistas fazem ou deixam de fazer. Numa dessas, o quadro ficou tão intenso que ele resolveu eliminá-lo. Poderia revelar coisas que ele não queria deixar à mostra.

– Ué, não é você que não gosta de psicologia?

– Estou falando de problemas sociais. A época era conturbada. O mundo começava uma guinada e tanto, né? Quem sabe o que poderia aparecer num Klimt retratando a partida de Mahler? Quer mais café?

Separaram-se. Ele reorganizou a camisa para dentro da calça:

– Quero.

Assim que recebeu a outra xícara, retomou a conversa, como se seguisse pensamento tortuoso:

– O grande Mahler! Quem, na verdade, consegue averiguar o quanto ele antecipou de tudo isso que hoje é considerado moderno em arte? A produção dele é tão suave…, tão lírica…, assim como você.

Com os olhos fechados, ela reclinou-se no espaldar da poltrona. Ele buscou-a ali, a boca sugando a pele clara que se ia despindo.

– Ângela, é incrível como seu nome combina com você. Estou com vontade de ir até meu apê e buscar alguma coisa de Mahler.

– Gluck não faz um fundo perfeito? – Ela voltou a colocar o disco. Escolheu a faixa. –  Preste atenção na ária do Amor… Tem tudo a ver. O menino que canta é também tão suave. A música não tem notas sobre a partitura, mas digitais de nuvens.

Os lábios de Gustavo estancaram a fala de Ângela. Ele mordiscou o rosto dela, enquanto percebia as duas respirações aceleradas. O dorso da moça estava completamente nu. Os seios e a cintura florescendo acachapados no início da tarde pelo peso do homem. Lá fora, com rapidez, o tempo mudava.

– Vai chover – ele falou, com a voz um tanto rouca, voz que tentava escapar da agonia do labirinto.

– Novidade! O calor nunca dura muito tempo em Curitiba. Tomara que chova! A gente aqui, a chuva na vidraça. Falta um vinho. Mas é só ir até a despensa.

Ele grunhiu:

– O melhor vinho do mundo é você.

Devagar, com imensa lentidão, ela foi desabotoando a camisa de Gustavo. Jogou-a no chão. Lambia os mamilos arroxeados entre os pêlos castanhos, quase transparentes. Murmurou:

– Você também é tão doce…, tão vinho…, tão música…

Ele sentou-se. Apanhou a camisa e vestiu-a.

– Ângela, vou embora. Você é suave demais. Não quero estragar tudo.

Ela franziu a testa:

– Senhor doutor em Mahler, não entendi seu último discurso.

– Tudo bem! Pode ser paranóia minha, mas você deve lembrar-se que os gregos consideravam o sexo um ato violento, pelo desperdício de energia, pelas convulsões. É isso. Sexo é sempre violência. E eu não quero estragar a suavidade deste encontro, perder esta imagem fantástica de você. Já leu A mulher do tenente francês? Ernestina também considerava a transa como algo assustador, brutal. Algo que não tinha nada a ver com a delicadeza das carícias. Não vou estragar tudo. Por favor, entenda. Vamos evitar a violência. Quero você em minha mente como a mulher de branco, a mulher de gestos suaves, aquela que fez uma performance com Mahler e adora ouvir Amor cantar em Gluck. Se você achar tudo isso estranho – e aposto que está achando – procure ler a poesia de Emily Dickinson. Ela diz que a imagem é mais frutífera que o ato. Quero sua imagem. Não quero sair daqui com você gemendo, suando, mordendo, uivando em minha mente…

Com certa rispidez, ela respondeu:

– Calma lá! Você tá querendo dizer que transo como cadela? Existe sexo e sexo. Sei lá com quem você anda, mas comigo não precisa ser violento. Aliás, nunca foi. Jamais, em minha vida, vivi um sexo que se possa classificar de violento.

Passando as duas mãos pelo rosto, depois indo pelos cabelos, até chegar a nuca, com a cabeça abaixada, presa sob dedos rígidos, ele tentava explicar o que não tinha explicação lógica, ele sabia:

– Não, nada disso. Perdão se te ofendi. Nada a ver com você. Pelo contrário. Você, pra mim, é a música materializada de Mahler. Nunca mulher alguma trouxe para o chão do mundo os lieder de Mahler, quando os ouço no meu apartamento. É disso que se trata. Não posso me dar ao luxo de transformar essa coisa sublime numa transa que mistura mucosas, suores, secreções. Transar agora, é rasgar o véu. É partir escultura feita de areia transparente, envolta no mesmo véu. Prefiro levá-la comigo assim. A beleza durará muito mais. Beleza sem ponto final.

Para dar mais ênfase ao que iria falar, ela ergueu a mão, só que não chegou a dizer nada.

Ele pegou a pasta e saiu apressado. Atônita e descrente, Ângela levantou-se. O vestido acabou de cair. Sentia emanações em fluxos descontínuos sob a pele. Ao ouvir o primeiro trovão, levou automaticamente as mãos aos seios. Trancou a porta. O ruído do tráfego amarfanhava a tarde com o cheiro de pó molhado e asfalto saturado de pneus. Contemplou as duas xícaras. Uma estava virada e derramava as últimas gotas sobre a renda que, de tão alva, parecia inexistir em sua transparência. O pacote com papel vermelho esperava-a próximo ao vestíbulo.

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