Se alguma coisa importante acontece

 A velha sobe a escada com dificuldade, em cada mão uma sacola de compras.

O homem eternamente gripado do segundo andar espirra seu caudaloso espasmo de quem parece estar no fim.

A mocinha do quinto andar que se acredita arrasadora sai muito cedo, dizendo que vai ao trabalho, mesmo que ninguém acredite.

O velho trapaceiro e agiota do sétimo já tem uma fila de vítimas à porta e ele esfarrapará uma por uma em nome do progresso, da ordem e do lucro.

O céu fecha-se de repente, com um grande peso sobre o edifício, as nuvens negras e talhadas leitosamente correndo para o sul e abreviando o dia com seus anúncios de tormenta.

A zeladora, alta e magra, massacra-se em cada degrau, limpando o que daí a uma hora estará outra vez sujo e outra vez sujo.

O jovem surfista do décimo primeiro afronta o mundo com seu corpo firme, nariz empinado, peito de desbravador de ondas e não entende como alguém possa ter outro modelo de vida.

A senhora espanhola do primeiro grita seus impropérios contra a irmã que é surda e, por isso, não dá a mínima para aquela voz estridente de estilete que racha as paredes do condomínio.

A professora cheia de dívidas chega uma vez mais arcada, com cifrões pendurados pelos braços e pescoço, sem saber como pagar tudo o que comprou em roupas e sapatos e sentindo alívio apenas em comprar e comprar mais.

Os dois adolescentes que se amam, o do terceiro e o do quinto, dão um jeito de se encontrar, sem que ninguém perceba sua ligação; não temem propriamente ser condenados, isto está implícito em cada gesto, em cada carinho, mas rejeitam com a força da sua paixão a necessidade de se explicar seja para quem for.

O homem ruivo cujo nome todos ignoram se encontra na garagem com a loira oxigenada cujo comportamento todos conhecem.

A aranha faz sua teia de repouso e caça no outro extremo da garagem.

O moleque do décimo primeiro tira outro do nariz e joga as pérolas nos vasos das plantas que a mãe zela com tanto afinco para o verde ser ainda mais verde.

O atleticano se encontra com o coxa-branca no último lance de escada; mal se cumprimentam, todavia o primeiro percebe no segundo um sorrio de mofa meio pela metade em razão do atual posicionamento do Atlético no campeonato; claro está que ele se esqueceu de tudo o que ocorreu no ano passado.

A mosca azul se debate contra várias vidraças.

O ar a subir pelos corredores está empestado pelos gases dos carros na garagem e ninguém se importa com este esfacelamento da vida; o que vale é estar motorizado e desfilar.

O jardineiro sob contrato por um preço aviltante começa seu trabalho entre as plantas; suas calças estão barrentas; as mãos apresentam calos; a alma anda esburacada há muito tempo.

Três colegiais de uniformes idênticos descem pelo elevador na maior algazarra; o gesto mais brando é um soquear o outro contra a parede; num desses lances quebram o espelho que foi recolocado ontem e nenhum deles assumirá a culpa.

Cinco andorinhas pousam no beiral do prédio sem entender onde e como os homens conseguem alimento.

A velhinha que subia a escada, chega até a porta, coloca as sacolas no chão, procura as chaves, enquanto faz orações tartamudeadas; pede lá para seus santos que lhe dêem coragem para um dia enfrentar o elevador.

Os cães de 350 mil apartamentos latem ao mesmo tempo só porque um vira-lata desfila com prazer sua liberdade e é como se dissesse: “não sou burguês como vocês, o bairro inteiro é meu e as ruas são meu mundo”.

Eu comodamente leio o denso romance de Colm Tóibín sobre Henry James e penso na amizade que venho fazendo com meu aluno. A custo ele se aproximou de mim e já se tornou uma figura imprescindível. É o oásis no deserto da universidade. É a terra generosa que bem recebe a semente para transformá-la em árvore do bem. Meu aluno é escritor. Mente brilhante, voraz. Estamos nos transformando em companheiros e nesta interação trocamos nossas experiências, nossas perspectivas, nossos planos. Viemos de famílias proletárias e nos transfiguramos pelas letras. Não sei se tenho algo para lhe ensinar. Tenho muito a aprender. Seu sorriso ensolarado, sua timidez, seu jeito de garoto do interior são pequenos favos na trabalheira cotidiana. Gosto de presenteá-lo com livros e perceber a ânsia com que pede dedicatória. Espero que nossa estrada seja de mão dupla: tanto vai, tanto vem. Sua figura me diz de manso que viver vale a pena.

Mais andorinhas vêm pousar no telhado. Não se espantam com o desfolhar das páginas do livro.

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