Casais 4

Quando ele se foi, deixou as roupas todas no armário e a parafernália de barba, com ares mentolados, no banheiro. Para ela, isso era um sinal positivo, um elo ainda a ligá-los. E à medida que o tempo passava, ela atacou as latas de biscoitos, feitos com ele, receitas dele, nas longas tardes de sábado, as tardes da maciez. Temeu perder a feminilidade que nem lhe interessava mais. O que fazer com as tantas fotos na parede? Simplesmente rasgar? Aumentaria a ausência, o espaço da casa quase inexpugnável. As janelas fremiam ante um acontecimento que não vinha. Rejeitara a opção por filhos. De noite, via TV só para preencher os olhos. Depois procurava nos tapetes os passos dele, procurava resgatar o tom de sua voz, aos poucos desfazendo-se entre os ruídos do campo. Junto dele, sentira-se artista. Agora as telas estavam em branco e as tintas estorricavam nos grandes potes enfileirados em estantes que ele erguera, assobiando. Não entendia o silêncio presente. Os quadros pouco lhe diziam e sua vontade era espicaçá-los. O que apagaria de vez a época das opulências. Então ia dormir sem a outra resiliência no travesseiro, sem o outro cheiro. Ao esticar o braço, agarrava o ar que nunca devolve as coisas perdidas, só mais silêncio.

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