Veneno reto

Um gosto pervertido de amarelo no ar. Alguma coisa excessivamente reta no ar. Uma bolha reta. A flor de repente aberta em pétalas imensas e sem saber de que lado vem o sol amarelo e reto. O corpo estremece em meio ao ar reto e a percepção da febre infiltra-se nas veias, vai às camadas profundas do organismo e ali explode em escama e asa e dentes batendo contra dentes. Depois o corpo dobra-se sobre si mesmo e adormece suspenso no ar reto, na perversão do amarelo que contamina folhas, caules e frutos. É este mesmo corpo que adormecerá para acordar sob as teias amarelas da flor gigantesca que afogará toda dose de ar.

A manhã não aconteceu, o grande dia não veio, só a faca funcionou. Ela corta a bolha de ar em fragmentos retos e deposita a borra sob as unhas e sob as pálpebras. Ninguém será capaz de proporcionar a limpeza e tirar da língua o amarelão que se faz em camadas sobre a pele, o calor da pele, sua antiga beleza. Adormecido no torpor do nada, o corpo reto adentra o tédio. O tédio é a grande aventura, a bolha inóspita no interior da qual a flor desponta na função de aviso: o que feneceu não tem como voltar, daí o amarelo, a faca, a febre, o tremor dos dedos comprometendo a cor da manhã, os fragmentos nublando a visão. E o tédio, o imenso deus gordo como Buda, anda em círculo, esperando uma porta de entrada para decepar todas as colunas, arrasar o piso, criar labirintos onde possa afogar o fígado, o estômago e o pulmão sem ser incomodado.

A carne da alma se desvanece através dos poros. A borra acumulada na superfície dos olhos explode em amarelo reto na fímbria da faca. O aviso está dado: a doença só é, só palpita, onde existir a falta. E aqui a falta é imperatriz com todo o séqüito dos poderosos. Ela manda seus editais para o vento espalhar sua voz amarela no gosto pervertido da alma que salta pela boca, inseto de bolha, cobra malsã, delírio de gestos descentrados sob o manto adúltero da grande dama, a imperatriz a reinar sobre o exército das cores rumo à boca que as mastiga para expelir os peristilos de veneno reto a se solidificar no ar, entre volutas de fumaça amarela e breu derretendo-se sobre os olhos, os lábios, os dedos. Então não há espaço para o corpo. Ele se investe de falta e na falta adormece para acordar noutro dia cercado de amarelo e estar obrigado a refazer o périplo da agonia: há um gosto amarelo de perversão no reto excessivo que floresce no ar e prepara câmaras para a morte dos olhos, dos dedos, dos lábios e de todos os órgãos amarelos do corpo amarelo cercado pela folha, ameaçado pela faca, rastejando sob o manto da imperatriz

O corpo e a falta. Esta é a dupla no nevoeiro da febre. O corpo com seus poços secos, com seus desertos perfilados ao longo do horizonte, com as cobras vorazes tentando cuspir o veneno reto no amarelo das mãos. A falta vem adunca, vem febril, vem arrasando tudo em sua volta. Não respeita a postura mesmo agônica do corpo. Sabe apenas dar vôos rasantes e desmantelar as colunas em torno do pátio. Ali se quis ar fresco, ali tentou-se sorver um hausto de ar que pudesse revigorar os órgãos. Todavia, a flor amarela floresceu, reta, e cobriu o sol, e eliminou o ar, e desfez as tentativas de se conseguir um pouco de água para esta sede voraz. Então o corpo vai sumindo para dentro de si mesmo e dele resta apenas um ponto amarelo no centro do pátio.

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