A abnegação como recompensa

 A cabeça plena de mundo, vejo o ato esbater-se contra a vidraça. Em lugar do contato, a imagem. O tumulto é acalmado por caminhos internos. Sossego ante a chama ao reconhecer que nem todo fogo é alimento para a madeira. Paro, em lugar de mergulhar no fluxo. Escolho e não apenas me atiro ao cerne fervente. Se há muita luz, hipertrofia de belezas, saboreio a sombra, onde o musgo vale pela floresta, e uma linha sutil, pela tempestade nas veias. Não devoro o texto. Saboreio a sílaba. A noite de inquietação movente transformo em parada e plano para o dia que se avizinha. Na perspectiva de caravanas e romarias, trupes e bailados no cósmico volteio de estar na Terra por um minuto a mais, marco o passo para esperar o desenho das nuvens. Elas se refletem nas águas. Com elas esculpo o tênue ficar na galeria mantida com meus ícones vivos sob a pulsão. Meus olhos não são telescópio. Atingem o círculo das mãos. Com elas, dedilho a pele do fruto em vez de afiar as garras na polpa. Proust se regozija com o perfume, a réstia de luz. Na imaterialidade do limite, meu pulsar é sensação vagarosa. Aceno, ampliado em mim mesmo. Eu que me imaginei dominando geografias e máquinas de porte adunco adentro a caverna, ouço o riacho, deito sobre o musgo. Prevejo os vermes que perfurarão a frágil couraça. E o traço da aquarela triunfa ao lado da lava intoxicante das cores. Respiro, tonificado na ausência. Esta afasta o rude murro que estraçalhava a pluma que cultivo. Se a ordem é a pressa no virtual cerco ao mundo e à movimência, sento e recorto jornais. De algum canto, uma suíte em tom menor abastece a casa com o repositório de páginas em branco, sem alarde, sem convulsão, sem salto mirabolante.

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