Vazio

No carnaval, meu pai colocava dois lençóis amarrados sobre os ombros e um calção florido. Usava a peruca mais espalhafatosa de minha mãe, duas argolas enormes nas orelhas e ainda pintava a boca com o carmesim mais chamativo.

Minha indumentária era um pouco diferente: calça rancheira, camisa xadrez e chapéu de pala, com as pontas esfiapadas. Acho que ele confundia festa junina com carnaval. Tudo bem. De qualquer forma, eu me sentida desconfortável dentro daquela roupa e dentro de qualquer outra e era meio na marra que ia para o “baile das crianças.”

A única coisa que me interessa era a sacola de loló – os lança-perfume. Meu pai levava um bom estoque e enquanto ele valsava pelo salão, eu ficava encarregado da reserva. Minha única diversão era fazer os espirros contra as pessoas e ver suas caras divertidas. Menino tímido entre tantas mesas, eu não saía para dançar, para pular, para fazer folia. A única brincadeira agradável era sentir aquele cheiro convidativo e navegar em suas águas. Com o loló eu me sentia rei, pirata, marinheiro, esquecia o sem-jeito do menino sem-jeito e divagava por aqueles mares de fantasia.

Meio de viés, via meu pai se divertindo com outras moças e só pensava: “Ah, se mamãe descobrir.” Volta e meia ela passava pela mesa, pegava um loló e ia espargindo a substância mágica por todo lado. Procurava me incentivar: “Vamos lá, guri, hoje é dia de festa. Deixa a carranca de lado e vamos cair na gandaia.” Eu não me entusiasmava, até porque, àquela altura, ele estava todo suado, com a “fantasia” aos pedaços, a peruca desvirada na cabeça e a boca vermelha era mancha obscena de não ridícula.

Estávamos no Clube Paisandu – verde e branco – e meu futuro coração atleticano já sentia espasmos estomacais. Então eu esguichava loló contra as paredes, numa vingança antecipada contra todas as rivalidades de certos clubes contra o rubro-negro.

Enquanto isso, longe de mamãe, pai soltava a franga. Volta e meia gesticulava em minha direção para eu que participasse da farra. Mas nem a embriaguez do lança-perfume me movia da mesa e eu lá ficava, estaqueado, sem ânimo para participar de nada. Suado, já todo desmontado, meu pai vinha até a mesa e convidava: “Vamos tomar  um guaraná?” Eu topava e adentrava no refrescor como quem acabava de atravessar o deserto.

Então vinha a hora de irmos embora. Fim de tarde. Fim de festa. Meu pai me abraçava e queria saber se eu tinha me divertido. Eu dizia: “Mais ou menos”. Ele dava um tapa carinhoso em meu ombro e dizia: “Aí, garotão”.

Quando chegávamos em casa, minha mãe ia logo perguntando: “O que os dois aprontaram?” Diplomático, eu falava: “Ah, o pai dançou um pouco e eu fiquei sentado na mesa.” Então ela ponderava e dizia: “Muito bem, você serve de exemplo para seu pai. Pelo menos, não vai para essas festas pagãs fazer pecado.”

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