A destruição da ilha

       O navio ruma para certo canto da ilha. Dentro do navio, cavalos de fogo soltam relinchos que salpicam o mar com o mau gosto do surrealismo. Os traços que recamam as águas parecem feitos pela preguiça de quem não tem muita disciplina para a figuração fotográfica, ainda que não mimética. Ao ver os cavalos de fogo rumo ao ponto esconso da ilha, recorro a um blues. E de nada adianta. A música me diz com todas as letras pandas que música é musica e vida é vida. E esta vida é um festival de escombros, pedras rotas, praias desmaiadas antes da sombra. Busco em pinturas um tanto de fuga para o ardor que me queima. E o mesmo discurso se dá: lance-se das molduras, caia no chão, lamba-o, porque vida não se improvisa com pinceladas. É a vez de textos pairarem em minhas mãos, afinal, quero esquecer a destruição da ilha, rompida pelas patas incomensuráveis da animália que arrota brasa e torra os últimos gravetos que fiz questão de preservar para situação muito especial. E dos textos apenas escorres bílis. Como se gargalhassem num festim em sala de necrotério, põem os is sob os pingos que não dei, cutucam meus costados, empurram meu peito contra o calor da hora chã e sabem ecoar somente o que já domino: viver é uma estupidez de dados pendurados em relatórios que as telas consomem em sua bela geografia de designer, significante para as estrelas e ofuscante para quem acabou de perder o último centavo de sua propriedade. Não sei como refazer o desperdício de minha pele. Estou exausto diante da paisagem escancarada ao ritmo do que me persegue e me põe na ponta do arpão. Sem defesa. No defense. Nem conto com asas para largar o lodo ligando os dedos ao chão. O navio, enfim, arrombou o recanto doce, a quentura de maciez que em outra oportunidade me ofereceu a polpa do paraíso rasteiro que habitamos. O gosto na boca é de cinema velho. Nunca mais haverá o mesmo manjar, e o fogo crepita com a insolência de um transe. Como me assegurar um apoio? Como me apoiar em algo menos voante, se o bastão floresceu no inseto carnívoro que cobre meus olhos?

Postado em por autor in Contos 2 comentários

2 Em resposta a A destruição da ilha

  1. ???????? faw

    Oi, eu sou Mateus Askaripour, conhecido mais como Matt, foi convenientemente colocado dentro de uma família de cinco rapazes, em Long Island, Nova York. Obrigado por seu blog agradável.
    3722065A541

     
    • autor

      Matt, obrigado por sua visita. Fiquei feliz. Continue lendo meu trabalho e o divulgue no seu mundo. Abraço carinhoso.

       

Comente