A reles toada que se afigura nos dias ou A banalidade

A marca de um desconforto retroativo mina seus esforços para ocupar-se com as lides diárias, aquelas que a priori dariam sentido à sua vida. Macerado e errante, ele caminha pela casa, faz isto, faz aquilo sem que o rangido rouco se desprenda das dobras do interior. Em cada desvão parece apontar a cabeça de algo que irá desintegrá-lo. Anéis de ansiedade demarcam o terreno, e ele é sugado para uma pastosa convenção de inquietações e deslocamento. A mente arde sem ater-se a nenhuma meada prática. Desde os livros da semana para resumir, anotar, inscrever neles seu parecer, até as limpezas ordenadas de sábado, tudo são felpas de aço na engrenagem. Esta não vai rasgá-lo por dentro, mas amortecer a perspectiva de um dia de produção. Cada gesto se vai desacelerando e, quando percebe, está exausto, presa de uma aversão por seu cenário, com fibromas no ânimo, em estado de malignidade a transfigurar a ocupação, num agreste exercício de tentar ser livre. O areal das paredes solta-se sob seus pés, tudo reflui exato para o ponto de onde quer afastar-se, tudo chama para a intensificação de um nome, um porte, um jeito de ser distante do seu jeito de ser, um afrontar a vida, um colocar-se no centro, ainda que nada tenha centro. Neste festival de miragem rotulado de cotidiano em que o chão o mais das vezes está no nível da cabeça. A senda planejada mostra-se apunhalante e o intermável rodízio em torno do mesmo toco/corpo aturde-o, e ele se vê reciclando as camadas de sempre – o mesmo gosto – o mesmo cheiro – a mesma textura – a mesma latejante ausência que cega e indispõe e trava e rompe e corta e embrutece.

Postado em por autor in Prosa poética 2 comentários

2 Em resposta a A reles toada que se afigura nos dias ou A banalidade

  1. Buy Diablo iii Gold

    Fantastic! Mensagem Nice, sind meine Blog número 1!
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    • autor

      Diablo, obrigado pelo seu entusiasmo. Continue comigo. Abraços e amizade para sempre.

       

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