Ordem

Meu sorriso é uma ferida escavada no chão.

Chico Buarque

Aproveite o dia. Lá fora a chuva é mormaço em água. Nada de Marianne Faithfull. Ouça os gansos preparando a orquestra de galhos secos e pedras em ponto de farpas. Fuja do álbum de fotografias. Quem está ali há muito se desvaneceu em copos e reviradas sob o lençol, cuja eletricidade você nunca entendeu. Abra os armários: quanta inutilidade vem sendo acumulada, hem? As roupas mal respiram no seu aperto de pano. E também o que cobriram foi revelado em tripas acolhidas pela pele e esta está rígida, enquanto os ossos aguentam  o mal-estar da modernidade trazida para dentro de casa. Morda a maçã com a consciência de um crime. O sumo leva ao chão desenhos de tintura transparente. Pise neles, depois arraste os chinelos sobre o tapete e perceba como ele geme em sua inquietação. Acumule todas as pastas num único lugar, sem se importar com seu conteúdo. O sol vindo através das vidraças tratará de desbotá-las e você estará livre de outro amontoado: anotações, sínteses, sinopses, textos que um dia seriam sua obra-prima e hoje arquejam sob a poeira, porque o império desta é muito mais eficaz. N sala dos quadros, selecione os preferidos. Embrulhe-os. Remeta-os aos amigos, sem querer resposta. Limpe com cuidado o nariz e analise os hieróglifos espontâneos impressos no lenço, só para dizer que você pode fazer algo de original. Mantenha as portas fechadas e mudo o interfone. No calendário, ainda coalhado de estampas de meses passados, marque com certa aleatoriedade os dias desinteressantes, os dias de travo e imperícia e núpcias com o vaso seco da janela. Se você tiver algum cobertor limpo, deixe-o por aí. Ele dispensa a marca e o cheiro de seu corpo, o engate de seus pensamentos presos a teias com certo centro. Os insetos da casa têm direito a estar onde estão. Por que se arriscar a medir os livros deixados por ler? São tristes no seu silêncio forçado, mesmo que isto independa da sua vontade. Aquela adrenalina que pelas manhãs costumava irmanar seu corpo ao dia está queimada. Claro que você larga a santificação por um pedaço de equilíbrio. E por trás do equilíbrio, as colinas esfarinham-se, as estruturas de madeira cedem ao influxo de fungos e outras tecnologias da natureza. Arranje as canetas no cuidado de um colecionador. Recorde quantos lances de grandeza você sugou das biografias, até chegar a este lago raso, no qual os peixes morrem. Há talvez uma rosa no meio da sala. Dispense-a. Para que você manteria pétalas sobre a mesa, se a própria mesa é marginal no processo da desfiguração. Unhas limpas, barba feita, roupa trocada. Deite-se na calidez da água da banheira e corte os pulsos. O vermelho é tão intenso quanto foi a vida que deixou de ser. Mas olhe, antes de tudo, não esqueça: coloque o computador dentro do forno do fogão. Suicide-o lentamente com o gás volúvel das comidas.

Postado em por autor in Prosa poética Deixe um comentário

Comente